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Capítulo 2 – A Amnésia Perfeita

Extensão: 946 palavras | Leitura: 5 min

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Os primeiros dias foram de silêncio educado.

Geraldo não forçava. Caminhava atrás de Lira como um cachorro que ainda não ganhou confiança total, tropeçando de propósito nas ruas que nasciam sob os pés dela. Quando ela criava um rio só porque queria ouvir barulho de água, ele fingia medo e se agarrava na margem invisível. Quando ela fazia o sol virar lua porque estava com sono, ele fingia frio e tremia exagerado.

Criança adora plateia.

No quinto dia (ou quinta hora, tanto faz), Lira parou no meio de um campo que tinha acabado de inventar e perguntou, sem olhar pra trás:

— Você tem nome?

— Geraldo — ele respondeu, como quem entrega um segredo pequeno.

— Eu tinha um — ela disse, chutando uma pedra que virou borboleta e voou embora. — Mas esqueci.

Geraldo anotou mentalmente: primeira rachadura útil.

A partir daí ele começou o trabalho de verdade.

Regra número um (disfarçada de brincadeira):

— Vamos jogar de imaginar comida? Quem imaginar mais gostoso ganha.

Lira ganhava sempre. Pizza que derretia na boca, sorvete que nunca acabava, refrigerante que fazia cócegas na garganta. Geraldo imaginava cerveja. Gelada, amarga, perfeita. Quando ela provava, franzia o nariz.

— Que gosto ruim.

— É gosto de adulto — ele explicava. — Um dia você vai gostar.

Ela jogava fora. A cerveja sumia antes de tocar o chão. Mas Geraldo percebia o padrão: tudo que ela rejeitava desaparecia mais rápido. Tudo que ela aceitava ficava mais sólido.

Regra número dois (disfarçada de história):

À noite, quando Lira forçava o escuro porque sentia sono nos olhos, Geraldo sentava do lado e contava do mundo lá fora.

— Lá fora tem escola. Tem horário pra dormir. Tem médico que manda tomar remédio amargo. Tem pai e mãe que brigam e depois fazem as pazes. Tem fim de semana que acaba domingo à noite.

Lira ouvia de olhos arregalados. O mundo ao redor reagia: a grama ficava mais verde quando ele falava de parque, o céu ficava mais cinza quando falava de chuva. Ela não percebia que cada detalhe que ele dava virava tijolo.

— E aqui não tem nada disso? — ela perguntou uma vez.

— Aqui tem você — Geraldo respondeu, voz baixa. — E enquanto você não dormir de verdade, aqui é pra sempre.

Lira sorriu. O sorriso de quem acabou de ganhar o melhor brinquedo do mundo.

No décimo segundo dia, Geraldo arriscou mais.

— Quer ver uma coisa legal?

Imaginou um bar. Pequeno, sujo, como aquele perto de casa no Capão da Imbuia. Mesas de madeira gastas e cheiro de cigarro velho. Lira entrou curiosa. Sentou no balcão. Geraldo pediu duas cervejas imaginárias.

Ela provou de novo. Dessa vez não jogou fora.

— É ruim — disse. — Mas… não some.

— Porque você deixou ficar — ele explicou. — Tudo que você aceita vira real de verdade. Até o que é ruim.

Lira ficou quieta. Tomou outro gole. Fez careta. Mas bebeu até o fim.

Naquela noite ela criou o primeiro adulto além dele: um garçom gordo que servia cerveja sem parar. O garçom não falava. Só servia. Lira achou engraçado. Mandou ele dançar. O homem dançou desengonçado. Ela riu tanto que o bar inteiro ganhou paredes de tijolo de verdade.

Geraldo observava. Sorria. Contava os segundos até o próximo passo.

Regra número três (disfarçada de carinho):

— Você já pensou que pode esquecer coisas de propósito?

Lira piscou.

— Tipo o quê?

— Tipo… o cheiro de hospital. O barulho de máquina que apita. A sensação de agulha no braço.

Lira ficou branca. O mundo inteiro perdeu cor por três segundos.

— Eu não lembro disso — mentiu.

— Claro que lembra — Geraldo disse, suave. — Mas pode esquecer. É só imaginar uma caixa preta, colocar tudo lá dentro e jogar a chave fora.

Ela tentou. O mundo tremeu forte. Um buraco negro abriu no céu e sugou um pedaço de nuvem. Lira gritou. Geraldo segurou a mão dela.

— Calma. Devagar. Uma coisa de cada vez.

Naquela noite ela criou a primeira caixa. Preta, pesada, com cadeado enferrujado. Jogou dentro o cheiro de álcool, o bip do monitor, a voz da mãe chorando baixo. Fechou. Jogou a chave num rio que inventou só pra isso.

O rio secou logo depois. A chave afundou. Lira dormiu (ou fingiu que dormia) com um sorriso que não cabia no rosto.

Geraldo ficou acordado. Andou pelo bar que agora tinha clientes imaginários bebendo cerveja imaginária. Todos olhavam pra ele com olhos vazios. Ele sabia que eram ecos. Cópias ruins. Mas eram o começo.

No vigésimo dia, Lira já não perguntava mais sobre o mundo lá fora.

Criava parques inteiros só pra correr. Fazia animais que falavam com a voz dela mesma. Inventava amigos que nunca discordavam. Geraldo sentava no canto, tomava cerveja que agora nunca esquentava, e contava os minutos.

Porque ele sabia: quanto mais ela esquecesse o de fora, mais real ficava o de dentro.

E quanto mais real ficava o de dentro, mais difícil seria acordar.

Uma noite, Lira chegou correndo, olhos brilhando.

— Geraldo! Eu esqueci uma coisa hoje!

— O quê?

— O meu nome de verdade! Eu tentava lembrar e… puf! Sumiu!

Ela riu como se tivesse ganhado presente.

Geraldo levantou a cerveja imaginária.

— Parabéns, Lira. Agora você é dona de tudo pra sempre.

Ela abraçou ele forte. O mundo inteiro brilhou com luz rosa e dourada.

Geraldo retribuiu o abraço.

E sorriu o sorriso de quem acabou de trancar a última porta.

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Sinopse Narrativa:

Ao longo de vinte dias dentro da mente de Lira, Geraldo executa um plano metódico de manipulação disfarçado de brincadeiras e carinho. Ensina-a a aceitar o que rejeita, a esquecer memórias dolorosas do mundo real e, por fim, a apagar o próprio nome verdadeiro. Cada etapa aprofunda o enraizamento de Geraldo no mundo mental de Lira e dificulta o retorno dela à realidade. O capítulo termina com Lira celebrando o esquecimento do próprio nome — e Geraldo sorrindo ao trancar a última porta.

Gênero Ficção Científica
Tom Calculista, Onírico, Perturbador
Timeline Mental, Onírico
Versão Jota Observador
Categoria Invasão de mente, Thriller psicológico
Temas Apagamento de identidade e memória, Aprisionamento disfarçado de pertencimento, Manipulação sistemática e gradual
Locais Interior da mente de Lira
Palavras-Chave amnésia, aprisionamento, caixa preta, esquecimento, identidade, Lira, manipulação, mundo interior
Geraldo menciona o Capão da Imbuia como referência real ao imaginar o bar dentro da mente de Lira. As memórias suprimidas por Lira na caixa preta sugerem internação hospitalar prévia (cheiro de álcool, monitor com bip, mãe chorando). A perda do nome próprio de Lira é apresentada como conquista por ela, mas como vitória definitiva por Geraldo. Capítulo 2 de série em andamento.
 

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