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Capítulo 3 – Os Primeiros Turistas

Extensão: 902 palavras | Leitura: 5 min

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A primeira fenda abriu numa terça-feira que não existia.

Um rasgo vertical no céu, fino como corte de estilete, derramando luz branca e barulho de tráfego real. Do lado de fora, alguém gritou “funcionou, caralho!” e caiu dentro.

Era um homem de uns trinta e poucos, camiseta do Batman desbotada, olhos vermelhos de quem não dormia há dias. Ele olhou em volta, boca aberta, e começou a rir sozinho.

— Eu entrei. Eu realmente entrei.

Geraldo observava de longe, encostado num poste que Lira tinha criado na semana anterior porque achou “legal ter poste”. Lira, sentada no chão desenhando círculos com o dedo, ergueu a cabeça.

— Quem é esse?

— Um turista — Geraldo respondeu, tranquilo. — Alguém que pagou pra sonhar um pouco.

O homem se aproximou cambaleando.

— Quanto tempo eu tenho?

— O que você pagou lá fora — Geraldo disse.

— Vinte e quatro horas.

— Então tem vinte e quatro horas.

O homem chorou. Literalmente chorou. Depois pediu uma casa. Geraldo olhou pra Lira.

— Quer dar uma casa pra ele?

Lira deu de ombros. Imaginou uma casa simples, amarela, com varanda. A casa nasceu perfeita. O homem entrou correndo, gritando “obrigado, meu Deus!”.

Naquela mesma semana abriram mais fendas.

Cinco. Dez. Cinquenta.

Gente de todo tipo: ricos entediados, doentes terminais, adolescentes que venderam o rim no mercado negro, viúvas que queriam ver o marido mais uma vez. Todos pagavam em dinheiro real lá fora — transferências Pix pra uma conta que Geraldo controlava através de um hacker que nunca tinha entrado. O preço subia toda semana.

Primeiro dia: 24 horas por cinco mil reais.

Depois: 72 horas por vinte mil.

Depois: uma semana por cinquenta mil.

Eles chegavam tontos, felizes, desesperados. Construíam barracos no começo. Depois casas. Depois bairros inteiros.

Lira achava graça.

— Olha, Geraldo, eles tão fazendo mercado!

— Quer um mercado maior?

— Quero!

O mercado virou shopping. O shopping virou cidade.

Geraldo criou a primeira moeda no vigésimo oitavo turista.

Chamou de “luz”.

Funcionava assim: cada pessoa trazia um pouco de atenção do mundo real — lembranças fortes, emoções brutas, histórias que faziam Lira prestar atenção. Quem fizesse Lira rir por dez minutos ganhava cem luzes. Quem fizesse chorar, duzentas. Quem contasse uma história que ela nunca esquecesse, mil.

Com luz você comprava terreno. Comprava carro. Comprava corpo novo (mais alto, mais bonito, mais jovem). Comprava companhia — namoradas imaginárias que nunca envelheciam, amigos que nunca traíam.

Logo havia fila.

Gente contando piada ruim o dia inteiro. Gente chorando histórias de cachorro morto. Gente inventando tragédias familiares que nunca aconteceram. Lira assistia tudo de um trono que Geraldo fez aparecer — um trono de nuvens cor-de-rosa com almofadas que mudavam de cor conforme o humor dela.

No começo ela ria fácil.

Depois começou a cansar.

— Tá tudo igual — reclamou uma tarde, bocejando. — Todo mundo quer a mesma coisa.

Geraldo ajoelhou do lado.

— Então a gente cria imposto. Quem quiser ficar mais tempo paga imposto. Pra você continuar feliz.

— Quanto?

— Dezoito por cento de toda luz ganha.

Lira deu de ombros.

— Tá.

O ISS nasceu ali: Imposto Sobre Sonho.

Quem não pagava era expulso — o portal se abria de volta e cuspia a pessoa no mundo real, pelada, somente com a memória do que viveu. Muitos voltavam implorando. Pagavam o dobro.

Uma mulher trouxe o marido morto.

Não o corpo — a lembrança perfeita dele. Fez Lira chorar por quarenta minutos seguidos contando como ele cantava errado no churrasco. Ganhou dez mil luzes. Comprou uma fazenda inteira. Viveu ali com a cópia do marido até o fim do tempo dela.

Um adolescente vendeu a faculdade inteira pra ficar um mês. Criou uma gangue. Tentou dominar um bairro. Lira achou divertido no começo. Depois se entediou. Geraldo expulsou a gangue inteira num piscar de olhos.

No quadragésimo dia, a população passou de mil.

Havia bares que nunca fechavam. Praias que apareciam só pra quem pagava extra. Montanhas-russas que matavam de verdade — mas só quem quisesse morrer de emoção.

Lira já não saía mais do trono.

Os olhos fundos. A pele pálida demais.

— Tá ficando grande demais — ela disse uma noite, voz rouca.

Geraldo sentou no degrau.

— Quer que eu diminua?

Ela pensou.

— Não. Só… faz ficar mais quieto às vezes.

Geraldo criou o toque de recolher. Quem desobedecia virava estátua. Algumas estátuas ainda estão lá, decorando praças.

No quadragésimo quinto dia, alguém perguntou em voz alta, num bar lotado:

— Cadu, quem manda aqui de verdade?

Geraldo estava no balcão, tomando cerveja que nunca esquentava. Apontou pro trono distante, onde Lira brincava com um coelho de pelúcia gigante que falava com voz de pai.

— Ela. Sempre foi ela.

Todo mundo olhou. Viram a menina de dez anos que mal se mexia mais.

E acreditaram.

Porque era mais fácil acreditar numa criança do que num homem que nunca dormia, nunca comia, nunca piscava por tempo demais.

Naquela noite, Lira sussurrou pra Geraldo, quase dormindo:

— Eles gostam de mim?

— Adoram você.

— Então tá bom.

E o mundo continuou crescendo.

Mais fendas. Mais turistas. Mais luzes. Mais impostos.

E Lira, no centro de tudo, ia ficando cada vez mais quieta.

Cada vez mais deusa.

Cada vez menos criança.

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Sinopse Narrativa:

A mente de Lira começa a receber turistas pagantes — pessoas do mundo real que acessam o espaço via fendas no céu, pagando transferências Pix controladas por Geraldo. A população cresce até mil pessoas. Geraldo cria uma moeda interna chamada "luz" e um imposto sobre sonho (ISS de 18%). Lira, entronizada num trono de nuvens, vai se tornando cada vez mais apática e menos criança enquanto o mundo ao seu redor cresce descontroladamente.

Gênero Fantasia Psicológica, Ficção Científica
Tom Expansivo, Gradualmente Sombrio, Perturbador
Timeline Mental, Onírico
Versão Jota Observador
Categoria Invasão de mente, Thriller psicológico
Temas Corrupção pelo poder, Exploração econômica do inconsciente, Perda gradual da infância
Locais Interior da mente de Lira
Palavras-Chave exploração, fendas, imposto, ISS, luz, moeda, Pix, população, trono, turistas
Geraldo controla transferências Pix via hacker externo que nunca entrou na mente. Preços escalonados: 24h por R$5mil → semana por R$50mil. Lira cria o ISS espontaneamente ao aceitar a proposta de Geraldo. Turistas expulsos voltam pelados. Uma mulher pagou com a lembrança perfeita do marido morto. Capítulo 3 de série em andamento.
 

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