Trigésimo sétimo dia.
Lira já não era exatamente uma criança.
Tinha crescido uns centímetros sem querer — o corpo acompanhava o cansaço da mente. Os olhos fundos, o cabelo mais comprido e embaraçado, a voz que às vezes saía rouca de tanto mandar criar coisas. Ainda usava o vestido que tinha imaginado no primeiro dia, agora sujo de luz seca e poeira de sonhos antigos.
Naquela manhã, ela apareceu no palácio de nuvens com uma arma na mão.
Pesada. Preta. Real demais.
Geraldo estava no balcão tomando café que nunca esfriava quando ela entrou. O coelho de pelúcia gigante — o único amigo que sobrou do mundo antigo, com a voz do pai dela — seguia atrás, mancando porque uma orelha estava rasgada desde a semana anterior.
— Geraldo — Lira disse, voz firme. — Sai.
Ele virou devagar.
— Sai do quê?
— Do meu sonho.
Ela levantou a arma. Mão firme. Olho fixo.
Geraldo nem piscou.
— Você não quer isso.
— Quero.
O coelho tentou falar:
— Filha…
Lira nem olhou pra ele.
— Cala a boca.
Bang.
A bala saiu com barulho de trovão dentro do crânio. Entrou no peito de Geraldo, rodopiou, rasgou tudo que não era carne de verdade e saiu pelas costas. Caiu no chão como moeda sem valor.
Geraldo limpou o buraco com a mão. O sangue escorreu preto, virou fumaça, sumiu.
— Você não pode me matar — disse, voz calma como sempre. — Eu sei o truque.
Lira atirou de novo. E de novo. Cinco vezes. Cada bala caía no chão tilintando.
O coelho se colocou na frente.
— Lira, para. Ele tá te ajudando.
Ela virou a arma pro coelho.
— Você também.
Bang.
O coelho explodiu em algodão e memória. A voz do pai gritou uma última vez — um “eu te amo” cortado no meio — e virou silêncio.
Lira largou a arma. Chorou como criança que quebra o brinquedo favorito e percebe tarde demais.
O céu rachou. Choveu vidro. Os turistas lá embaixo gritaram, correram, viraram estátua de pânico.
Geraldo se aproximou devagar. Ajoelhou na frente dela. Limpou uma lágrima com o polegar.
— Calma. Você precisa de mim.
Lira soluçava.
— Eu quero acordar.
— Você não quer.
— Quero!
— Então tenta.
Ela tentou.
Fechou os olhos forte. Franzou a testa. Apertou os punhos até os nós ficarem brancos.
O mundo inteiro tremeu. Prédios balançaram. O mar de neon subiu como tsunami.
Mas não quebrou.
Porque no fundo, bem no fundo, Lira não queria mesmo.
Geraldo abraçou ela como quem abraça uma bomba que já desistiu de explodir.
— Viu? Você não quer acordar. Lá fora tem dor. Tem agulha. Tem máquina que apita. Tem gente que chora de verdade. Aqui você é tudo.
Lira chorava no ombro dele.
— Eu matei o coelho…
— Ele era só memória — Geraldo sussurrou. — Memória dói. A gente pode fazer outro.
Naquela tarde ela fez outro coelho. Igual. Mas sem voz. Só olhava com olhos de botão e se mexia quando ela mandava.
À noite, Geraldo sentou do lado da cama de nuvens que ela tinha criado.
— Quer que eu faça eles pagarem mais imposto por causa do vidro que quebrou?
Lira assentiu, voz baixa.
— Quero.
— Quer que eu expulse quem correu?
Outro aceno.
— E quem gritar de novo?
Silêncio.
— Quer que eu faça sumir quem te lembrar que isso aqui não é real?
Lira olhou pra ele. Os olhos já não eram de criança.
— Sim.
Geraldo sorriu.
— Feito.
Na manhã seguinte, o palácio amanheceu limpo. O vidro sumiu. Os turistas que tinham corrido estavam sumidos. Ninguém perguntou. Todo mundo pagou o imposto extra sem reclamar.
Lira sentou no trono, coelho mudo no colo, e olhou o horizonte que agora tinha arranha-céus de cristal.
— Geraldo?
— Diga.
— Eu ainda posso matar você?
Ele riu baixo.
— Pode tentar.
Ela tentou de novo. Criou uma faca. Cravou no pescoço dele. A faca derreteu.
Criou veneno. Ele bebeu e pediu mais.
Criou fogo. Ele andou no meio e saiu cheirando a fumaça, mas inteiro.
— Viu? — ele disse, limpando as cinzas da camisa. — Só quem sabe o truque fica imune.
Lira largou o coelho mudo no chão.
— Qual é o truque?
Geraldo ajoelhou na frente dela mais uma vez.
— O truque é entender que você não quer que eu morra. Porque se eu morrer, você acorda. E se você acordar…
— Acaba tudo.
— Exatamente.
Lira olhou pras mãos. As unhas agora pintadas de preto — ela tinha imaginado assim na semana passada.
— Eu não quero que acabe.
— Então não acaba.
Ela estendeu a mão. Ele segurou.
O mundo parou de tremer.
E Lira, pela primeira vez, sorriu sem ser criança.
