O primeiro rebelde se chamava Tomaz.
Entrou há seis meses (ou seis minutos). Professor de história, câncer no pâncreas, vendeu o apartamento pra comprar um ano aqui dentro. Chegou careca e trêmulo. Aqui virou alto, barba cheia, voz de trovão. Abriu uma escolinha no bairro oeste onde ensinava crianças imaginárias sobre revoluções que nunca deram certo.
Um dia ele entendeu tudo.
Juntou duzentos e poucos numa praça de mármore rosa. Faixa simples: ACORDA LIRA.
Marcharam cantando baixo até o palácio de nuvens.
Lira estava no trono, pernas penduradas, coelho mudo no colo. Tinha quase catorze anos agora; o corpo esticava sem pedir licença. Olhos que já não piscavam direito.
Geraldo ao lado, cerveja na mão, como sempre.
Tomaz parou na frente.
— Lira. Você não precisa disso tudo. Lá fora tem sua mãe te esperando. Tem cura. Tem vida de verdade.
Lira desceu do trono devagar. O vestido rasgado roçava o chão.
— Eu não lembro da minha mãe.
— A gente te ajuda a lembrar — Tomaz disse, ajoelhando. — É só querer.
Silêncio absoluto.
Lira olhou pros milhões que enchiam o mundo dela. Olhou pros parques. Pros mares de neon. Pros bares que nunca fechavam. Pros turistas que sorriam porque ela mandava sorrir.
Olhou pro coelho mudo.
Olhou pra Geraldo.
Os olhos dela encheram d’água de repente. Grossas, lentas, reais demais.
— Se eu acordar… eu perco tudo isso?
Tomaz estendeu a mão.
— Você ganha tudo de volta.
Lira começou a tremer.
Primeiro os ombros.
Depois o queixo.
Depois o corpo inteiro.
As lágrimas caíram no mármore rosa e viraram poças que refletiam o céu falso.
— Eu tenho medo — ela sussurrou, voz de criança de novo. — Eu tenho muito medo de acordar.
Tomaz sorriu com pena.
— É só um segundo de medo. Depois acaba.
Lira chorou mais forte. O choro de quem lembra, mesmo sem querer, do cheiro de hospital, da mão fria do pai, da mãe dormindo na poltrona.
O mundo inteiro escureceu. Nuvens pretas. Vento gelado. Turistas lá embaixo começaram a gritar.
Geraldo deu um passo à frente.
— Lira…
Ela ergueu a mão pra ele calar.
O choro parou de repente.
Como se alguém tivesse desligado o som.
Lira limpou o rosto com as costas da mão.
Olhou pra Tomaz.
E sorriu.
Um sorriso pequeno, molhado, lindo e horrível.
— Eu vivo aqui.
Estendeu a mão.
Tomaz sumiu.
Sem barulho. Sem sangue. Só deixou de existir.
Lira andou entre os outros.
Toque.
Toque.
Toque.
Cada toque era mais rápido que o anterior.
Uma mulher implorou:
— Por favor, eu tenho filha lá fora…
Toque.
Um adolescente gritou:
— Isso é crime!
Toque.
Quando chegou no último — uma senhora idosa que chorava baixinho —, Lira parou.
— Você tá com pena de mim?
A senhora assentiu.
Lira tocou a bochecha dela, quase carinhosa.
— Eu também tinha.
Toque.
A praça ficou vazia.
Lira no meio, mãos tremendo agora de outra coisa.
Olhou pras palmas.
— Eu… gostei.
A voz saiu baixa, surpresa, quase feliz.
Olhou pra Geraldo.
Os olhos dela estavam secos de novo. Maiores. Mais antigos.
— Eu gostei de fazer sumir.
Geraldo sentiu.
Pela primeira vez em todo esse tempo.
Um frio.
Não o frio do vento que ela criava quando ficava brava.
Um frio de dentro. De osso.
Porque ele percebeu, ali, naquele segundo exato:
Ele tinha ensinado a menina a trancar portas.
Mas não tinha ensinado quem ficava do lado de dentro quando ela decidisse trancar todas.
Nos dias seguintes, o ISS subiu para 70%. Depois 85%. Depois 92%.
Quem reclamava virava estátua. Quem chorava baixo virava decoração.
As filas ficaram maiores. As histórias, mais desesperadas. Lira ria menos. Chorava menos. Sentia menos.
Até que um dia parou completamente.
Não de repente. Devagar.
Primeiro parou de rir. As piadas não faziam mais efeito.
Depois parou de chorar. As tragédias viraram ruído de fundo.
O mundo começou a falhar. Prédios desabavam sem motivo. Oceanos de neon secavam. O sol ficou cinza permanente porque ela esqueceu como mudar a cor.
Geraldo tentou de tudo. Palhaços. Vídeos. Coelhos rasgados.
Nada.
Até que ela olhou pra ele com olhos mortos e disse:
— Nada.
E ele entendeu: o poder absoluto tinha corroído ela por dentro.
Lira subiu de volta no trono.
O coelho mudo tentou se aproximar.
Ela olhou pra ele.
— Você também tá com pena.
O coelho parou.
Lira estalou os dedos.
O coelho virou pó cinza que o vento levou.
Dessa vez ela nem piscou.
— Geraldo?
— Diga.
— Tá na hora da última regra.
E Geraldo soube exatamente o que fazer.
