Lira esqueceu o próprio nome.
Não lembrava que já foi criança.
Não lembrava que já chorou.
Não lembrava que já teve medo.
Só ficava sentada no trono, olhando o vazio.
Geraldo sentou do lado, tomou cerveja que agora tinha gosto de nada, e sussurrou a regra final:
— De agora em diante, você não precisa sentir nada. Eu sinto por você.
Ele criou um dispositivo: um coração mecânico que conectava direto na mente dela.
Toda emoção que alguém produzisse no mundo ia direto pro coração dele.
Ele ria, ele chorava, ele odiava, ele amava — e Lira só recebia o resultado pronto, filtrado, eterno.
O mundo virou bateria.
O ISS subiu para 97%. Depois 99%. Depois 100%.
Turistas novos nem sabiam que existia uma menina no trono.
Achavam que o sistema era automático.
Pagavam tudo pra “manutenção do paraíso”.
Lira virou estátua viva.
Olhos abertos.
Sorriso congelado.
Corpo que não envelhecia mais.
Geraldo sentava ao lado dela todo dia, segurava a mão fria, e falava baixinho:
— Viu? Eu te disse que você nunca ia acordar.
O mundo continuava infinito, perfeito, silencioso.
Milhões de pessoas vivendo, morrendo, pagando imposto dentro da cabeça de uma menina que esqueceu que um dia já teve nome.
E Geraldo tomava a cerveja que nunca acabava.
Porque ele venceu.
Ele era o sonho agora.
E sonhos não acordam.
Epílogo
Anos depois, num caderno marrom de capa dura, letra firme, sem pressa:
“Sonho 287: Lira. ISS chegou em 100% na quarta rodada. Turistas novos nem sabem que ela existe. Já repeti 4 vezes. Funciona sempre.”
A página virada.
A próxima em branco.
O isqueiro amarelo como marcador de página.
FIM
