CENÁRIO: Dois bancos. Mesa pequena com café. Minimalista.
CENA ÚNICA
ALGUÉM está sentado, caderno aberto, caneta na mão. GERALDO chega com dois cafés, entrega um pra ALGUÉM.
ALGUÉM: Cara, eu tava pensando…
GERALDO: (senta) Uh-oh.
ALGUÉM: Não, sério! Sobre aquilo que você me contou. Os sonhos. Você registra faz quanto tempo?
GERALDO: Uns vinte anos, mais ou menos.
ALGUÉM: (animado) VINTE ANOS! Cara, isso é… isso deve ser uma busca, né? Tipo autoconhecimento, mapear o inconsciente, entender padrões…
GERALDO: (toma café) Não. É porque eu gosto deles.
ALGUÉM: Sim, mas GOSTAR vem de onde? Da profundidade, do significado que eles têm, da forma como eles te revelam…
GERALDO: Eu só acho eles legais.
ALGUÉM: (pausa) …legais.
GERALDO: É. Tipo histórias que meu cérebro faz. Tava perdendo, comecei a guardar.
ALGUÉM: (escreve furiosamente) Tá, mas a DECISÃO de guardar já mostra que você entende o valor simbólico, a importância de preservar essas narrativas internas…
GERALDO: Ou eu só não queria esquecer as histórias legais.
ALGUÉM: (para de escrever) …
GERALDO: Que foi?
ALGUÉM: Nada. (recomeça a escrever) Continua.
ALGUÉM: E você disse que às vezes NÃO registra de propósito, certo?
GERALDO: Às vezes.
ALGUÉM: (empolgado) Isso é GENIAL! É um ato de rebeldia interna, uma forma de manter autonomia sobre o próprio sistema, de não deixar virar obrigação que mata o prazer…
GERALDO: É, mais ou menos.
ALGUÉM: Como assim “mais ou menos”?!
GERALDO: Às vezes eu só tô com preguiça.
ALGUÉM: …preguiça.
GERALDO: É. Ou com sono. Quero dormir mais.
ALGUÉM: Mas você DISSE que era pra não virar obrigação!
GERALDO: Também é. Mas às vezes é só preguiça mesmo. Fica chato ficar registrando tudo.
ALGUÉM: (relê o que escreveu) Eu escrevi três páginas sobre autonomia e preservação do desejo…
GERALDO: Legal. Tá bonito.
ALGUÉM: …baseado em preguiça.
GERALDO: (dá de ombros) Preguiça também é válido, né?
ALGUÉM: Deixa eu te perguntar outra coisa. Você tem sonhos recorrentes?
GERALDO: Tenho.
ALGUÉM: E eles mudam com o tempo? Tipo, você sonha a mesma situação mas os detalhes são diferentes?
GERALDO: Sim! Você entende isso?
ALGUÉM: (animadíssimo) ENTENDO! Cara, isso é fascinante! Deve ser como a mente reprocessando memórias, atualizando arquétipos, preenchendo papéis com pessoas novas da sua vida…
GERALDO: Não sei. Só sei que acontece.
ALGUÉM: E você fica na dúvida, né? Tipo “será que essa pessoa sempre esteve nesse sonho ou meu cérebro encaixou ela depois?”
GERALDO: Fico sim!
ALGUÉM: (triunfante) VIU?! E por isso você começou a registrar! Pra fixar a realidade antes que a memória reescreva, pra ter prova de como era, pra não ficar preso nessa dúvida!
GERALDO: (pausa) Não.
ALGUÉM: …não?
GERALDO: Comecei a registrar porque gostava dos sonhos. Essa coisa de perceber que mudam… notei DEPOIS que já registrava.
ALGUÉM: Então… você não começou POR CAUSA disso?
GERALDO: Não. Foi consequência.
ALGUÉM: (olha pras anotações) Eu criei uma teoria inteira sobre…
GERALDO: Mas ficou legal a teoria?
ALGUÉM: …ficou.
GERALDO: Então tá bom.
ALGUÉM: Mas ela tá ERRADA!
GERALDO: (toma café) Tá bonita, pelo menos.
ALGUÉM: Espera. Você falou uma coisa outro dia que eu anotei aqui. (procura no caderno) Ah! “O simples é a melhor camuflagem, às vezes ninguém acredita… ou é sobre a verdade.”
GERALDO: Falei isso?
ALGUÉM: Falou! E cara, essa frase tem CAMADAS! Porque você tá dizendo que a simplicidade PODE ser camuflagem, tipo esconder complexidade atrás do óbvio, MAS TAMBÉM pode ser só a verdade mesmo, e ninguém acredita porque espera algo mais profundo…
GERALDO: (coça a cabeça) Acho que eu confundi o ditado.
ALGUÉM: …o quê?
GERALDO: É “a verdade é a melhor camuflagem, ninguém acredita nela”. Eu misturei as palavras.
ALGUÉM: (silêncio) Você… confundiu.
GERALDO: É. Mas ficou parecido, né?
ALGUÉM: (olhando as 5 páginas de análise filosófica) Eu… eu escrevi sobre metacamadas de significado… sobre a interseção entre simplicidade e verdade… sobre…
GERALDO: (lê por cima do ombro) Ficou foda, cara. De verdade.
ALGUÉM: Você criou isso SEM QUERER?!
GERALDO: (ri) Acho que sim.
ALGUÉM: (colapso) Eu não acredito…
GERALDO: Que foi?
ALGUÉM: Você é tipo aquele cara do manhwa. O Lin.
GERALDO: (ri mais) Que vende livro de gramática e o povo acha que é feitiço?
ALGUÉM: EXATO! Você fala umas coisas simples e eu transformo em tratado filosófico!
GERALDO: Mas você gosta de fazer isso, né?
ALGUÉM: (pausa) …gosto.
GERALDO: Então tá tudo certo.
ALGUÉM: (mais calmo) Posso te fazer mais uma pergunta?
GERALDO: Vai.
ALGUÉM: Por que você faz as coisas?
GERALDO: (pensa) Tipo o quê?
ALGUÉM: Sei lá. Registrar sonhos. Enviar aquela história pra menina. Não praticar sonho lúcido. Qualquer coisa.
GERALDO: (simples) Porque eu quero. Ou porque não quero.
ALGUÉM: …só isso?
GERALDO: É. Se eu quero fazer, faço. Se não quero, não faço. Se começar a virar obrigação, paro um tempo. Se voltar a vontade, volto a fazer.
ALGUÉM: Mas… e o significado? E o propósito? E…
GERALDO: (interrompe, gentil) ALGUÉM. Às vezes a gente só faz as coisas porque quer. Não precisa ter camada.
ALGUÉM: (silêncio longo) …e se EU preciso achar a camada?
GERALDO: (sorri) Então você acha. Também tá valendo.
ALGUÉM: Mesmo que a camada não exista?
GERALDO: Se você achou, existe pra você.
ALGUÉM: (silêncio) Isso… isso é profundo.
GERALDO: (ri) Ou é simples e você que tá complicando.
ALGUÉM: …eu não sei mais.
GERALDO: (levanta) Quer mais café?
ALGUÉM: Quero.
GERALDO: (indo buscar) Relaxa. Você vai continuar criando teoria sobre mim. E eu vou continuar te quebrando sem querer. E tá tudo bem assim.
ALGUÉM: Como você sabe que tá tudo bem?
GERALDO: (voltando com café) Porque faz uma hora que a gente tá conversando e você tá sorrindo.
ALGUÉM: (percebe) …é verdade.
GERALDO: Então já era. Você gosta disso.
ALGUÉM: E você? Não te incomoda eu ficar criando teoria sobre tudo?
GERALDO: (senta) Não. Acho legal. Você vê coisa que eu nem tinha pensado.
ALGUÉM: Mas que não existia!
GERALDO: (dá de ombros) Agora existe. Você criou.
ALGUÉM: …isso não faz o menor sentido.
GERALDO: Faz sentido pra mim.
(Silêncio. Os dois tomam café.)
ALGUÉM: Eu vou escrever sobre isso.
GERALDO: Sobre o quê?
ALGUÉM: Sobre essa conversa. Sobre você quebrando minhas teorias. Sobre a magia de… (procura palavras)
GERALDO: Da simplicidade?
ALGUÉM: É! Da simplicidade! Ou da verdade! Ou… sei lá, dos dois!
GERALDO: (sorri) Vai ficar legal. Manda pra mim quando terminar.
ALGUÉM: Você vai ler e dizer que era só uma conversa normal, né?
GERALDO: (pensa) Provavelmente.
ALGUÉM: E eu vou ficar puto.
GERALDO: E depois você vai criar outra teoria sobre por que ficou puto.
ALGUÉM: (ri) …é verdade.
GERALDO: E assim a gente continua.
ALGUÉM: Pra sempre?
GERALDO: Sei lá. Pelo menos enquanto a gente quiser.
ALGUÉM: (escreve) “Enquanto a gente quiser…” Isso é lindo!
GERALDO: Ou é óbvio.
ALGUÉM: Mesma coisa.
GERALDO: (ri) Agora você entendeu.
(Luz diminui lentamente. Os dois continuam tomando café em silêncio. ALGUÉM rabisca no caderno. GERALDO olha pro nada, tranquilo.)
