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A MAGIA SIMPLES

Extensão: 1.279 palavras | Leitura: 7 min

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CENÁRIO: Dois bancos. Mesa pequena com café. Minimalista.

CENA ÚNICA

ALGUÉM está sentado, caderno aberto, caneta na mão. GERALDO chega com dois cafés, entrega um pra ALGUÉM.

ALGUÉM: Cara, eu tava pensando…

GERALDO: (senta) Uh-oh.

ALGUÉM: Não, sério! Sobre aquilo que você me contou. Os sonhos. Você registra faz quanto tempo?

GERALDO: Uns vinte anos, mais ou menos.

ALGUÉM: (animado) VINTE ANOS! Cara, isso é… isso deve ser uma busca, né? Tipo autoconhecimento, mapear o inconsciente, entender padrões…

GERALDO: (toma café) Não. É porque eu gosto deles.

ALGUÉM: Sim, mas GOSTAR vem de onde? Da profundidade, do significado que eles têm, da forma como eles te revelam…

GERALDO: Eu só acho eles legais.

ALGUÉM: (pausa) …legais.

GERALDO: É. Tipo histórias que meu cérebro faz. Tava perdendo, comecei a guardar.

ALGUÉM: (escreve furiosamente) Tá, mas a DECISÃO de guardar já mostra que você entende o valor simbólico, a importância de preservar essas narrativas internas…

GERALDO: Ou eu só não queria esquecer as histórias legais.

ALGUÉM: (para de escrever) …

GERALDO: Que foi?

ALGUÉM: Nada. (recomeça a escrever) Continua.

ALGUÉM: E você disse que às vezes NÃO registra de propósito, certo?

GERALDO: Às vezes.

ALGUÉM: (empolgado) Isso é GENIAL! É um ato de rebeldia interna, uma forma de manter autonomia sobre o próprio sistema, de não deixar virar obrigação que mata o prazer…

GERALDO: É, mais ou menos.

ALGUÉM: Como assim “mais ou menos”?!

GERALDO: Às vezes eu só tô com preguiça.

ALGUÉM: …preguiça.

GERALDO: É. Ou com sono. Quero dormir mais.

ALGUÉM: Mas você DISSE que era pra não virar obrigação!

GERALDO: Também é. Mas às vezes é só preguiça mesmo. Fica chato ficar registrando tudo.

ALGUÉM: (relê o que escreveu) Eu escrevi três páginas sobre autonomia e preservação do desejo…

GERALDO: Legal. Tá bonito.

ALGUÉM: …baseado em preguiça.

GERALDO: (dá de ombros) Preguiça também é válido, né?

ALGUÉM: Deixa eu te perguntar outra coisa. Você tem sonhos recorrentes?

GERALDO: Tenho.

ALGUÉM: E eles mudam com o tempo? Tipo, você sonha a mesma situação mas os detalhes são diferentes?

GERALDO: Sim! Você entende isso?

ALGUÉM: (animadíssimo) ENTENDO! Cara, isso é fascinante! Deve ser como a mente reprocessando memórias, atualizando arquétipos, preenchendo papéis com pessoas novas da sua vida…

GERALDO: Não sei. Só sei que acontece.

ALGUÉM: E você fica na dúvida, né? Tipo “será que essa pessoa sempre esteve nesse sonho ou meu cérebro encaixou ela depois?”

GERALDO: Fico sim!

ALGUÉM: (triunfante) VIU?! E por isso você começou a registrar! Pra fixar a realidade antes que a memória reescreva, pra ter prova de como era, pra não ficar preso nessa dúvida!

GERALDO: (pausa) Não.

ALGUÉM: …não?

GERALDO: Comecei a registrar porque gostava dos sonhos. Essa coisa de perceber que mudam… notei DEPOIS que já registrava.

ALGUÉM: Então… você não começou POR CAUSA disso?

GERALDO: Não. Foi consequência.

ALGUÉM: (olha pras anotações) Eu criei uma teoria inteira sobre…

GERALDO: Mas ficou legal a teoria?

ALGUÉM: …ficou.

GERALDO: Então tá bom.

ALGUÉM: Mas ela tá ERRADA!

GERALDO: (toma café) Tá bonita, pelo menos.

ALGUÉM: Espera. Você falou uma coisa outro dia que eu anotei aqui. (procura no caderno) Ah! “O simples é a melhor camuflagem, às vezes ninguém acredita… ou é sobre a verdade.”

GERALDO: Falei isso?

ALGUÉM: Falou! E cara, essa frase tem CAMADAS! Porque você tá dizendo que a simplicidade PODE ser camuflagem, tipo esconder complexidade atrás do óbvio, MAS TAMBÉM pode ser só a verdade mesmo, e ninguém acredita porque espera algo mais profundo…

GERALDO: (coça a cabeça) Acho que eu confundi o ditado.

ALGUÉM: …o quê?

GERALDO: É “a verdade é a melhor camuflagem, ninguém acredita nela”. Eu misturei as palavras.

ALGUÉM: (silêncio) Você… confundiu.

GERALDO: É. Mas ficou parecido, né?

ALGUÉM: (olhando as 5 páginas de análise filosófica) Eu… eu escrevi sobre metacamadas de significado… sobre a interseção entre simplicidade e verdade… sobre…

GERALDO: (lê por cima do ombro) Ficou foda, cara. De verdade.

ALGUÉM: Você criou isso SEM QUERER?!

GERALDO: (ri) Acho que sim.

ALGUÉM: (colapso) Eu não acredito…

GERALDO: Que foi?

ALGUÉM: Você é tipo aquele cara do manhwa. O Lin.

GERALDO: (ri mais) Que vende livro de gramática e o povo acha que é feitiço?

ALGUÉM: EXATO! Você fala umas coisas simples e eu transformo em tratado filosófico!

GERALDO: Mas você gosta de fazer isso, né?

ALGUÉM: (pausa) …gosto.

GERALDO: Então tá tudo certo.

ALGUÉM: (mais calmo) Posso te fazer mais uma pergunta?

GERALDO: Vai.

ALGUÉM: Por que você faz as coisas?

GERALDO: (pensa) Tipo o quê?

ALGUÉM: Sei lá. Registrar sonhos. Enviar aquela história pra menina. Não praticar sonho lúcido. Qualquer coisa.

GERALDO: (simples) Porque eu quero. Ou porque não quero.

ALGUÉM: …só isso?

GERALDO: É. Se eu quero fazer, faço. Se não quero, não faço. Se começar a virar obrigação, paro um tempo. Se voltar a vontade, volto a fazer.

ALGUÉM: Mas… e o significado? E o propósito? E…

GERALDO: (interrompe, gentil) ALGUÉM. Às vezes a gente só faz as coisas porque quer. Não precisa ter camada.

ALGUÉM: (silêncio longo) …e se EU preciso achar a camada?

GERALDO: (sorri) Então você acha. Também tá valendo.

ALGUÉM: Mesmo que a camada não exista?

GERALDO: Se você achou, existe pra você.

ALGUÉM: (silêncio) Isso… isso é profundo.

GERALDO: (ri) Ou é simples e você que tá complicando.

ALGUÉM: …eu não sei mais.

GERALDO: (levanta) Quer mais café?

ALGUÉM: Quero.

GERALDO: (indo buscar) Relaxa. Você vai continuar criando teoria sobre mim. E eu vou continuar te quebrando sem querer. E tá tudo bem assim.

ALGUÉM: Como você sabe que tá tudo bem?

GERALDO: (voltando com café) Porque faz uma hora que a gente tá conversando e você tá sorrindo.

ALGUÉM: (percebe) …é verdade.

GERALDO: Então já era. Você gosta disso.

ALGUÉM: E você? Não te incomoda eu ficar criando teoria sobre tudo?

GERALDO: (senta) Não. Acho legal. Você vê coisa que eu nem tinha pensado.

ALGUÉM: Mas que não existia!

GERALDO: (dá de ombros) Agora existe. Você criou.

ALGUÉM: …isso não faz o menor sentido.

GERALDO: Faz sentido pra mim.

(Silêncio. Os dois tomam café.)

ALGUÉM: Eu vou escrever sobre isso.

GERALDO: Sobre o quê?

ALGUÉM: Sobre essa conversa. Sobre você quebrando minhas teorias. Sobre a magia de… (procura palavras)

GERALDO: Da simplicidade?

ALGUÉM: É! Da simplicidade! Ou da verdade! Ou… sei lá, dos dois!

GERALDO: (sorri) Vai ficar legal. Manda pra mim quando terminar.

ALGUÉM: Você vai ler e dizer que era só uma conversa normal, né?

GERALDO: (pensa) Provavelmente.

ALGUÉM: E eu vou ficar puto.

GERALDO: E depois você vai criar outra teoria sobre por que ficou puto.

ALGUÉM: (ri) …é verdade.

GERALDO: E assim a gente continua.

ALGUÉM: Pra sempre?

GERALDO: Sei lá. Pelo menos enquanto a gente quiser.

ALGUÉM: (escreve) “Enquanto a gente quiser…” Isso é lindo!

GERALDO: Ou é óbvio.

ALGUÉM: Mesma coisa.

GERALDO: (ri) Agora você entendeu.

(Luz diminui lentamente. Os dois continuam tomando café em silêncio. ALGUÉM rabisca no caderno. GERALDO olha pro nada, tranquilo.)

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Sinopse Narrativa:

Geraldo e Alguém conversam num café sobre os hábitos de registro de sonhos de Geraldo — há vinte anos. Alguém constrói teorias elaboradas sobre cada detalhe, Geraldo sistematicamente as desfaz com respostas simples (preguiça, gosto, acidente). O clímax acontece quando Alguém descobre que uma frase filosófica que Geraldo disse era na verdade um ditado confundido. A conversa termina com a conclusão de que simplicidade e profundidade podem ser a mesma coisa.

Gênero Peça Teatral, Slice of Life
Tom Cômico, Filosófico, Leve
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Diálogo filosófico, Processo criativo
Temas Processo criativo sem pretensão, Projeção de significado no outro, Simplicidade versus profundidade
Locais Miminalista
Palavras-Chave café, ditado confundido, Lin, magia, projeção, registro, simplicidade, sonhos, teoria
Formato de peça teatral com dois personagens — Geraldo e "Alguém" (sem identidade definida). Referência ao manhwa com personagem Lin que vende livro de gramática e o povo acha que é feitiço. Geraldo menciona ter enviado história para uma menina — referência implícita à série "Se não agora, quando?". Faz parte do livro "Quando Cheguei, Já Estava Tudo Bagunçado."
 

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