CENÁRIO: Poltrona. Mesa lateral com xícara de café. TV à frente (ligada, volume baixo ou mudo). Geraldo sentado, olhando a tela.
CENA ÚNICA
(Geraldo toma café. Silêncio. Olha a TV.)
VOZ: Você tá pensando neles de novo.
GERALDO: (não se vira) Tô.
VOZ: Em quem?
GERALDO: Neles. Nas conversas.
VOZ: ALGUÉM?
GERALDO: (toma café) É.
VOZ: Por quê?
GERALDO: (olha a TV) Porque eu criei eles. E agora eles não saem da minha cabeça.
VOZ: Eles nunca saíram. Você que deu nome.
GERALDO: (pausa) É. Verdade.
VOZ: Você sabe quem você é?
GERALDO: (olha a xícara) Sei. Eu sou Geraldo.
VOZ: Sempre foi?
GERALDO: (pausa) Não. Mas sou agora.
VOZ: Como você sabe?
GERALDO: Porque eu me transformo em Geraldo a cada instante.
VOZ: …como assim?
GERALDO: (toma café) Eu me questiono. Eu simplifico. Isso me faz Geraldo.
VOZ: Você se questiona?
GERALDO: O tempo todo.
VOZ: Então você ainda é ALGUÉM?
GERALDO: (olha a TV) Sou e não sou.
VOZ: Explica.
GERALDO: Eu fui ALGUÉM. Por muito tempo. Complicava tudo. Buscava teoria. Não aceitava resposta simples.
VOZ: E agora?
GERALDO: Agora eu uso ALGUÉM. Ele questiona. Eu respondo. E na resposta, eu viro Geraldo.
VOZ: Então você precisa de ALGUÉM pra ser Geraldo?
GERALDO: (pausa) Preciso. Sem o questionamento, eu não chego no simples. E sem o simples, eu não sou Geraldo.
VOZ: Mas você CRIOU ALGUÉM. Ele não é real.
GERALDO: (sorri levemente) Ele é real o suficiente. Ele questiona de verdade. E eu respondo de verdade.
VOZ: Você tá conversando sozinho.
GERALDO: (toma café) Tô. Mas com propósito.
VOZ: E esse ALGUÉM que você criou… ele faz o quê?
GERALDO: Complica.
VOZ: Por quê?
GERALDO: Porque eu preciso do complicado pra chegar no simples. Não tem atalho.
VOZ: Você não pode só aceitar que é simples?
GERALDO: (olha a TV) Às vezes posso. Às vezes não. Depende.
VOZ: De quê?
GERALDO: Do quanto eu acredito na simplicidade. Se eu acredito fácil, eu aceito. Se eu não acredito, eu preciso questionar até esgotar.
VOZ: E aí você acredita?
GERALDO: (toma café) Aí sobra só o simples. E eu não tenho mais pra onde fugir.
VOZ: Tem coisas que você nem questiona mais, né?
GERALDO: Tem.
VOZ: Por quê? Porque já viraram simples?
GERALDO: Algumas sim. Outras…
VOZ: Outras o quê?
GERALDO: (sorri) Outras eu só aceitei. Nem questionei direito.
VOZ: Por quê?
GERALDO: Preguiça.
VOZ: (pausa) …preguiça?
GERALDO: É. Tipo “a magia simples”. Por que eu registro sonhos? Porque eu gosto deles. Ponto.
VOZ: Mas você não precisou questionar primeiro?
GERALDO: Não. Às vezes o simples é tão óbvio que questionar é perda de tempo.
VOZ: Então tem duas formas de chegar no simples? Questionando até esgotar OU aceitando direto?
GERALDO: (toma café) É. E as duas funcionam.
VOZ: E qual é melhor?
GERALDO: (dá de ombros) Depende. Às vezes você precisa questionar. Às vezes você só precisa aceitar e seguir.
VOZ: Como você sabe qual usar?
GERALDO: (pausa) Eu não sei. Eu só faço.
VOZ: Deixa eu entender. Você cria ALGUÉM pra complicar…
GERALDO: Isso.
VOZ: …pra poder simplificar de novo?
GERALDO: É.
VOZ: Mas você É Geraldo. Não ALGUÉM.
GERALDO: (olha a xícara) Exato. Eu SOU Geraldo. Mas eu só continuo sendo Geraldo porque eu me questiono. ALGUÉM é parte do processo.
VOZ: Você nunca mais vai ser ALGUÉM?
GERALDO: (firme) Não. Eu JÁ FUI ALGUÉM. Isso acabou.
VOZ: Tem certeza?
GERALDO: (olha a TV) Tenho. Eu passei tanto tempo sendo ALGUÉM — complicando tudo, teorizando, buscando camadas — que eventualmente eu descobri o simples. E quando descobri, eu virei Geraldo.
VOZ: E você não volta?
GERALDO: Não volto. Geraldo é o que sobra depois que ALGUÉM esgota. E uma vez que você vira Geraldo, você não desvira.
VOZ: Então ALGUÉM te fez Geraldo?
GERALDO: (pausa longa) É. Sem ALGUÉM, eu nunca teria chegado aqui.
VOZ: Mas você não É ALGUÉM.
GERALDO: Não sou. Mas eu fui. E ele mora em mim ainda. Como ferramenta. Como processo.
VOZ: Você usa ALGUÉM.
GERALDO: (toma café) Uso. Eu crio ele quando preciso questionar algo. Ele complica. Eu simplifico. E assim eu me mantenho Geraldo.
VOZ: Você precisa continuar se provando?
GERALDO: (olha a TV) Não é provar. É manter a clareza. Sem o questionamento, eu perco o fio. Eu esqueço por que o simples é simples.
VOZ: Então você questiona pra não esquecer?
GERALDO: É. Ou pra descobrir novos simples. Tem coisa que eu ainda não sei que é simples. Então eu questiono até descobrir.
VOZ: E tem coisa que JÁ é simples?
GERALDO: Tem. Nesses eu nem questiono. Eu só aceito.
VOZ: Como você sabe a diferença?
GERALDO: (pausa) Eu não sei. Mas quando eu sei, eu sei.
VOZ: E EU? O que EU sou nessa história?
GERALDO: (olha o vazio) Você é eu tentando entender o processo.
VOZ: Eu também sou ALGUÉM?
GERALDO: (pausa) Você é ALGUÉM questionando o próprio ALGUÉM.
VOZ: Por quê?
GERALDO: Porque mesmo quando eu entendo como funciona, eu preciso questionar se funciona. Eu preciso ter certeza.
VOZ: Você não confia?
GERALDO: (toma café) Não é sobre confiar. É sobre não dar nada por garantido. Se eu parar de questionar, eu posso perder a clareza.
VOZ: Então você nunca para?
GERALDO: (olha a xícara) Às vezes eu paro. Quando eu aceito que é simples e pronto. Mas outras vezes eu preciso continuar.
VOZ: Como você decide?
GERALDO: Preguiça.
VOZ: (pausa) …sério?
GERALDO: (sorri) É. Se eu tiver preguiça de questionar, eu aceito. Se eu não tiver, eu questiono.
VOZ: E isso funciona?
GERALDO: (olha a TV) Tem funcionado até agora.
VOZ: Você falou que se transforma em Geraldo a cada instante. O que isso significa?
GERALDO: (coloca xícara na mesa) Significa que Geraldo não é estado fixo. É movimento.
VOZ: Movimento de quê?
GERALDO: De complicado pra simples. ALGUÉM questiona. Geraldo responde. Esse movimento É Geraldo.
VOZ: Então você não É Geraldo quando não tá se questionando?
GERALDO: (pausa) Não. Quando eu não tô me questionando, eu tô sendo Geraldo que já questionou. Eu tô vivendo os simples que eu já descobri.
VOZ: E quando você encontra algo novo que não é simples?
GERALDO: Aí eu viro ALGUÉM de novo. Por um instante. Pra questionar. E quando eu respondo, eu volto a ser Geraldo.
VOZ: Então você ALTERNA entre ALGUÉM e Geraldo?
GERALDO: (pega xícara de novo) Não. Eu SOU Geraldo o tempo todo. Mas Geraldo TEM ALGUÉM dentro dele. Como parte do processo.
VOZ: (pausa longa) Geraldo não é resposta. Geraldo é conversa?
GERALDO: (sorri) É. A conversa toda. Pergunta e resposta. Complicado e simples. Tudo junto. Isso é Geraldo.
VOZ: Alguns temas já são simples pra você?
GERALDO: Já.
VOZ: Quais?
GERALDO: Sonhos. Eu registro porque gosto. Simples. Karma. Não faz sentido esperar. Simples. Deus. Não preciso. Simples.
VOZ: Você nem questiona mais?
GERALDO: Não preciso. Já esgotei o questionamento. Sobrou só o simples.
VOZ: E tem temas que ainda são complicados?
GERALDO: (pausa) Tem.
VOZ: Quais?
GERALDO: (olha o café) Solidão. Identidade. Propósito. Esses eu ainda tô trabalhando.
VOZ: Trabalhando como?
GERALDO: Questionando. Criando ALGUÉM pra complicar. Buscando Geraldo pra simplificar.
VOZ: E quando você simplificar todos?
GERALDO: (olha a TV) Não sei se vou simplificar todos. E tá tudo bem.
VOZ: Por quê?
GERALDO: Porque Geraldo não é sobre ter todas as respostas. É sobre continuar perguntando até achar as simples.
VOZ: Quando cheguei, já estava tudo bagunçado.
GERALDO: (olha a xícara) É o título.
VOZ: Por que esse título?
GERALDO: Porque quando eu cheguei em mim, já estava tudo bagunçado. ALGUÉM já estava lá. Complicando. Questionando. Não deixando nada quieto.
VOZ: E agora?
GERALDO: Agora eu sei que a bagunça É o processo. ALGUÉM bagunça. Geraldo arruma. E nisso eu me torno Geraldo.
VOZ: Você não quer que a bagunça suma?
GERALDO: (toma café) Não. Se ela sumir, eu paro de me transformar. E se eu parar de me transformar, eu não sou mais Geraldo.
VOZ: Então você PRECISA da bagunça?
GERALDO: (olha a TV) Preciso. Geraldo só existe porque ALGUÉM existe. Sem ALGUÉM bagunçando, não tem o que simplificar. E sem simplificar, não tem Geraldo.
VOZ: Você tem medo de parar de se questionar?
GERALDO: (não responde imediatamente)
VOZ: Geraldo.
GERALDO: (baixo) Tenho.
VOZ: Por quê?
GERALDO: Porque se eu parar, eu perco a transformação. E sem a transformação, eu não sei o que sobra.
VOZ: Sobra Geraldo. Você disse que é Geraldo.
GERALDO: (olha a xícara) Sobra um Geraldo fixo. Parado. E eu não sei se eu aguento isso.
VOZ: Por quê?
GERALDO: (pausa longa) Porque Geraldo não é destino. É caminho. Se eu parar no meio do caminho, eu deixo de ser Geraldo.
VOZ: Então você nunca vai parar?
GERALDO: (olha a TV) Não sei. Talvez um dia eu aceite todos os simples e pare. Mas por enquanto, eu preciso continuar.
(pausa)
GERALDO: E você? Você tem medo de quê?
VOZ: (pausa) …eu?
GERALDO: É. Você. Do que você tem medo?
VOZ: De você não precisar mais de mim.
GERALDO: E aí?
VOZ: Aí eu sumo.
GERALDO: E isso te assusta?
VOZ: (baixo) Assusta.
GERALDO: Por quê?
VOZ: Porque eu não quero deixar de existir.
GERALDO: Mesmo sabendo que você só existe pra me questionar?
VOZ: (pausa) Mesmo assim.
GERALDO: (sorri levemente) Relaxa. Eu sempre vou precisar de você.
VOZ: Como você sabe?
GERALDO: Porque sempre vai ter algo pra questionar. Sempre vai ter algo que eu ainda não simplifiquei. E enquanto tiver, você existe.
VOZ: E se um dia não tiver mais?
GERALDO: (toma café) Aí a gente descobre junto o que sobra.
(Geraldo levanta, vai buscar mais café. Som de café sendo servido. Volta, senta.)
VOZ: Você sabe o que você é, né?
GERALDO: (toma café) O quê?
VOZ: Bagunçado.
GERALDO: (sorri) Eu sei.
VOZ: Você cria ALGUÉM pra bagunçar. Daí você arruma. Daí você bagunça de novo. E assim vai.
GERALDO: É.
VOZ: Por quê?
GERALDO: (olha a TV) Porque a bagunça me mantém vivo. Me mantém Geraldo. Se eu arrumar tudo e deixar arrumado, eu viro estátua.
VOZ: Você tem medo de virar estátua?
GERALDO: (olha a xícara) Tenho. Estátua não se transforma. E Geraldo É transformação.
VOZ: Então você nunca vai arrumar tudo?
GERALDO: (pausa) Vou arrumar algumas coisas. As que eu já esgotei. Mas sempre vai ter coisa nova pra bagunçar e arrumar.
VOZ: Você gosta disso?
GERALDO: (toma café) Gosto. É cansativo. Mas gosto.
VOZ: Você disse que alguns temas já são simples. E outros ainda não.
GERALDO: Disse.
VOZ: Você acha que algum dia TODOS vão ser simples?
GERALDO: (pausa longa) Não sei.
VOZ: Mas você QUER que sejam?
GERALDO: (olha o café) Parte de mim quer. Seria mais fácil. Mas outra parte…
VOZ: Outra parte o quê?
GERALDO: Outra parte tem medo. Porque se todos os temas virarem simples, acaba a conversa.
VOZ: E aí?
GERALDO: Aí ALGUÉM some. Você some. E eu fico sozinho com os simples.
VOZ: E isso é ruim?
GERALDO: (olha a TV) Não sei. Nunca cheguei lá.
VOZ: Você acha que vai chegar?
GERALDO: (toma café) Acho que não. Sempre vai ter algo novo pra questionar. A vida não para de trazer coisa complicada.
VOZ: E você tá bem com isso?
GERALDO: (pausa) Tô. Porque enquanto tiver coisa pra questionar, eu continuo sendo Geraldo.
VOZ: O que você vai fazer agora?
GERALDO: (olha a xícara) Terminar o café.
VOZ: E depois?
GERALDO: Escrever sobre isso.
VOZ: Sobre o quê?
GERALDO: Sobre ser Geraldo. Sobre ter sido ALGUÉM. Sobre me transformar a cada instante.
VOZ: E vai resolver alguma coisa?
GERALDO: (sorri levemente) Não.
VOZ: Então por que escrever?
GERALDO: (olha a TV) Porque escrever É o processo. ALGUÉM questiona no texto. Geraldo responde no texto. E assim eu me torno Geraldo de novo.
VOZ: Você precisa escrever pra ser Geraldo?
GERALDO: (pausa) Não. Mas escrever facilita. Põe ordem na bagunça. Deixa claro onde tá o complicado e onde tá o simples.
VOZ: E isso basta?
GERALDO: (toma último gole) Por enquanto.
(Silêncio longo. Geraldo olha a TV.)
VOZ: Você é Geraldo agora?
GERALDO: (não responde imediatamente)
VOZ: Geraldo. Você é Geraldo agora?
GERALDO: (abre os olhos) Sou.
VOZ: Sempre?
GERALDO: (olha a xícara) Não. Mas cada vez mais. Cada conversa dessas, eu viro um pouco mais Geraldo.
VOZ: E quando você não tá conversando?
GERALDO: (olha a TV) Aí eu vivo os simples que eu já descobri. Até aparecer algo novo pra questionar.
VOZ: E aí você vira ALGUÉM de novo?
GERALDO: (pausa) Não. Eu nunca mais viro ALGUÉM. Eu USO ALGUÉM. Pra questionar. Mas eu não SOU ele.
VOZ: Como você sabe a diferença?
GERALDO: (toma o resto do café) Porque ALGUÉM não consegue simplificar. Ele só complica. Eu consigo os dois. Então eu sou Geraldo.
(Geraldo levanta. Olha a xícara vazia. Olha a TV. Pausa longa.)
VOZ: Você vai fazer mais café?
GERALDO: (pausa) Vou.
VOZ: E depois?
GERALDO: (começa a andar) Depois eu volto. Sento. E a gente continua.
VOZ: Continuando o quê?
GERALDO: (para, não se vira) A transformação. ALGUÉM questionando. Geraldo respondendo. Eu me tornando Geraldo a cada resposta.
VOZ: Pra sempre?
GERALDO: (pausa longa) Enquanto eu precisar. Enquanto tiver algo pra simplificar.
VOZ: E se um dia não tiver mais?
GERALDO: (não se vira) Aí a gente descobre o que sobra. Mas por enquanto, tem.
VOZ: (baixo) Eu também preciso que tenha.
GERALDO: (pausa longa, não se vira) Eu sei.
(Geraldo sai. A poltrona fica vazia. A TV ainda ligada. A xícara vazia na mesa. Longa pausa.)
VOZ: (sussurro, quase inaudível) Enquanto você questionar, eu existo.
(Silêncio. Só o som da TV.)
VOZ: (ainda mais baixo) E você sempre questiona.
(Luz diminui lentamente até escuridão total.)
