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SIMPLES

Extensão: 2.326 palavras | Leitura: 12 min

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CENÁRIO: Sala. Geraldo sentado com notebook/celular. Xícara de café ao lado. Luz da tela ilumina seu rosto.

CENA ÚNICA

(Geraldo entra na videochamada. Som de várias pessoas conectando.)

ALGUÉM (voz de homem): E aí, Geraldo! Beleza?

GERALDO: (acena) Oi, pessoal.

ALGUÉM (voz de mulher): Você tá com café aí?

GERALDO: (levanta a xícara) Sempre.

ALGUÉM (voz de homem): Cara, deixa eu te perguntar uma coisa séria.

GERALDO: (toma café) Uh-oh.

ALGUÉM (voz de homem): Você acredita em Deus?

GERALDO: Não.

ALGUÉM (voz de mulher): (pausa) …nenhum? Tipo, zero?

GERALDO: Zero.

ALGUÉM (voz de homem): Mas tipo… Jesus? Alá? Buda? Alguma coisa?

GERALDO: Não. Não acredito em nenhum.

ALGUÉM (voz de mulher): Caramba. Você é ateu mesmo.

GERALDO: Sou.

ALGUÉM (voz de mulher): E… tá tranquilo com isso?

GERALDO: (tranquilo) Tô.

ALGUÉM (voz de homem): Mas deixa eu entender. Você não acredita porque… porque não viu prova? Porque teve alguma decepção? Porque…

GERALDO: (interrompe) Porque não vejo necessidade.

ALGUÉM (voz de mulher): Necessidade?

GERALDO: É. Pra mim, as coisas acontecem. Não preciso de explicação divina. Funciona sem.

ALGUÉM (voz de homem): Mas tipo… e o universo? E a vida? E tudo isso não precisou de ALGUÉM pra criar?

GERALDO: Não sei. Mas não saber não significa que foi Deus. Pode ser que a gente só não saiba ainda.

ALGUÉM (voz de mulher): Então você é tipo… agnóstico?

GERALDO: Pode ser também. Isso são rótulos.

ALGUÉM (voz de homem): Mas tem diferença! Agnóstico não sabe, ateu não acredita…

GERALDO: Eu não acredito. Mas reconheço que posso estar errado. Chama do que quiser.

ALGUÉM (voz de mulher): Você recusa categorização…

GERALDO: Ou eu só não ligo pra rótulo.

ALGUÉM (voz de homem): É A MESMA COISA!

GERALDO: (sorri) Se você diz.

ALGUÉM (voz de mulher): Mas e Jesus? Tipo, o cara existiu historicamente, né?

GERALDO: Existiu. Provavelmente.

ALGUÉM (voz de mulher): ENTÃO! Se ele existiu…

GERALDO: (interrompe) Existir não significa ser Deus.

ALGUÉM (voz de homem): Mas os milagres! A ressurreição!

GERALDO: Ou são histórias. Exageradas. Aumentadas com o tempo.

ALGUÉM (voz de mulher): Você não acredita em NADA disso?

GERALDO: Não. Mas eu gosto da ideia.

ALGUÉM (voz de homem): …como assim você GOSTA mas não ACREDITA?

GERALDO: (toma café) Gosto dos ensinamentos. Ama o próximo. Perdoa. Ajuda quem precisa. São ideias boas.

ALGUÉM (voz de mulher): Mas isso É cristianismo!

GERALDO: Não. Isso é ser decente. Não preciso de Jesus divino pra saber que devo ajudar gente.

ALGUÉM (voz de homem): Então você… concorda com Jesus mas não acredita que ele é Deus?

GERALDO: Isso. Tipo, Marx tinha ideias boas. Não significa que eu sou comunista.

ALGUÉM (voz de mulher): (ri) Você acabou de comparar Jesus com Marx!

GERALDO: (sorri) Dois caras com ideias legais que o povo distorceu depois.

ALGUÉM (voz de homem): Mas espera. Se você gosta da ideia, por que não acredita?

GERALDO: Porque o problema não é a ideia. É o fã-clube.

ALGUÉM (voz de mulher): …fã-clube?

GERALDO: É. O povo que USA Jesus pra fazer torcida. Pastor com jatinho. Igreja cobrando dízimo pra “alcançar bênção”. Gente gritando “é do Senhor!” como se fosse gol de final.

ALGUÉM (voz de homem): CARA! Você tá criticando a INSTITUIÇÃO, não a FÉ!

GERALDO: Exato.

ALGUÉM (voz de mulher): Isso muda tudo! Porque você pode acreditar em Deus SEM acreditar na igreja!

GERALDO: Posso. Mas não acredito.

ALGUÉM (voz de homem): …por quê?

GERALDO: (coloca xícara na mesa) Porque mesmo tirando o fã-clube, a história não faz sentido pra mim.

ALGUÉM (voz de mulher): Que parte?

GERALDO: Deus todo-poderoso cria humano. Humano erra. Deus fica puto. Deus manda o filho morrer pra perdoar o erro que ele mesmo sabia que ia acontecer.

ALGUÉM (voz de homem): …quando você fala assim…

GERALDO: Parece roteiro mal escrito?

ALGUÉM (voz de mulher): (ri) Um pouco.

GERALDO: Pra mim também. Mas respeito quem acredita.

ALGUÉM (voz de mulher): Mas tipo… você não tem medo? De não ter nada depois?

GERALDO: Depois do quê?

ALGUÉM (voz de mulher): Da morte. Tipo, você morre e… nada. Zero. Só apaga.

GERALDO: (tranquilo) Não tenho medo disso.

ALGUÉM (voz de homem): Como não?!

GERALDO: Porque eu não vou estar lá pra sentir falta. É tipo antes de eu nascer. Eu não existia. Não sofri por não existir.

ALGUÉM (voz de mulher): Nossa… isso é… isso até faz sentido.

GERALDO: (pega xícara novamente) E olha: se eu tiver errado, se tiver céu, ótimo. Surpresa boa. Mas não vou viver COM MEDO de errar só pra garantir vaga.

ALGUÉM (voz de homem): “Não viver com medo pra garantir vaga no céu”… isso é libertador!

GERALDO: Ou é só: viver sem medo.

ALGUÉM (voz de mulher): É A MESMA COISA!

GERALDO: (ri) Se você diz.

ALGUÉM (voz de homem): E você não sente falta? Tipo, de sentido? De propósito maior?

GERALDO: Não.

ALGUÉM (voz de mulher): Como você encontra sentido então?

GERALDO: Eu crio.

ALGUÉM (voz de homem): …cria?

GERALDO: (toma café) É. Sentido não vem de fora. Eu decido o que importa. Família importa. Amigos importa. Café bom importa.

ALGUÉM (voz de mulher): (ri) Café bom é seu propósito divino?

GERALDO: É um deles. E escrever. E conversar com vocês. E não ser babaca.

ALGUÉM (voz de homem): Então você cria os próprios valores.

GERALDO: (coloca xícara vazia na mesa) Todo mundo cria. Só que o povo religioso acha que veio de Deus. Mas foi eles mesmos que escolheram acreditar naquele Deus específico.

ALGUÉM (voz de mulher): …merda.

GERALDO: É.

ALGUÉM (voz de homem): Você acabou de desconstruir livre arbítrio E fé de uma vez.

GERALDO: Ou eu só disse que todo mundo escolhe no que acredita.

ALGUÉM (voz de mulher): NÃO É A MESMA COISA!

GERALDO: (sorri) Pra mim é.

ALGUÉM (voz de mulher): Mas você respeita quem acredita?

GERALDO: (sério) Respeito.

ALGUÉM (voz de homem): Mesmo discordando?

GERALDO: Claro. Se te faz bem, se te dá paz, se te ajuda a ser boa pessoa, ótimo. Usa.

ALGUÉM (voz de mulher): Você não acha que eles estão errados?

GERALDO: Acho. Mas todo mundo acha que tá certo. Eu também acho que tô certo. Mas sei que posso estar errado.

ALGUÉM (voz de homem): E se você ESTIVER errado?

GERALDO: Se Deus existir, ele já me entende.

ALGUÉM (voz de mulher): …como assim?

GERALDO: (encosta na cadeira) Oras. Se Deus existe E é onisciente, ele sabe exatamente por que eu não acredito. Ele vê que eu tentei ser boa pessoa, que não fiz mal a ninguém, que vivi com honestidade.

ALGUÉM (voz de homem): Mas você não ADOROU ele!

GERALDO: E se ele for justo, vai entender por quê. Eu não vi prova. Não vi razão. Vivi da melhor forma que consegui com as informações que tinha.

ALGUÉM (voz de mulher): Espera… você tá dizendo que se Deus é bom, ele vai te perdoar por não acreditar?

GERALDO: Não é perdoar. É compreender. Se ele é Deus, ele sabe que minha descrença foi honesta. Não foi rebeldia, foi conclusão.

ALGUÉM (voz de homem): E se ele NÃO compreender? Se mandar você pro inferno mesmo assim?

GERALDO: (se inclina para frente) Aí ele não é justo. E se não é justo, não vale a pena adorar mesmo.

ALGUÉM (voz de mulher): CARA! Você acabou de dizer que prefere ir pro inferno do que adorar um Deus injusto!

GERALDO: Não. Eu disse que se Deus pune gente boa só porque não acreditou, ele não é bom. E eu não quero adorar alguém que não é bom.

ALGUÉM (voz de homem): Mas… isso faz sentido?

GERALDO: (volta a encostar) Faz pra mim. Olha as opções: se Deus não existe, tô tranquilo. Se existe e é justo, ele me entende. Se existe e é injusto, eu não conseguiria adorar mesmo.

ALGUÉM (voz de mulher): Isso é… isso é uma desconstrução completa da aposta de Pascal!

GERALDO: Da o quê?

ALGUÉM (voz de homem): Pascal! O filósofo que disse “melhor acreditar em Deus por via das dúvidas, porque se existir você ganha e se não existir você não perde nada”!

GERALDO: (pega xícara vazia, olha) Ah. É, não concordo com isso.

ALGUÉM (voz de mulher): Por quê?!

GERALDO: (levanta, vai buscar mais café) Porque você não consegue FORÇAR crença. Ou você acredita ou não. Se eu fingir que acredito só pra garantir vaga no céu, Deus não ia perceber? Ele não é onisciente?

ALGUÉM (voz de homem): …merda.

GERALDO: (volta com café, senta) É. Então a única opção honesta é: viver bem. Se Deus existe, ele vai valorizar isso. Se não existe, eu vivi bem mesmo assim.

ALGUÉM (voz de mulher): E você não tem medo de estar errado?

GERALDO: Tenho. Mas o medo não muda o que eu acredito. Eu não consigo ESCOLHER acreditar em Deus. Ou eu acredito ou não. E eu não acredito.

ALGUÉM (voz de homem): Mas você acabou de admitir que pode estar errado!

GERALDO: (toma café) Posso. Mas enquanto não tiver evidência, vou viver como se não existisse. E se ele existir e for bom, vai entender.

ALGUÉM (voz de mulher): Você criou uma teologia ateia.

GERALDO: Ou eu só respondi a pergunta de vocês.

ALGUÉM (voz de homem): NÃO É A MESMA COISA!

GERALDO: (sorri) Pra mim é.

ALGUÉM (voz de mulher): Então a pergunta real é: Deus é NECESSÁRIO?

GERALDO: Exato.

ALGUÉM (voz de homem): E pra você?

GERALDO: Não. Eu consigo ser bom sem ele. Consigo ter sentido sem ele. Consigo viver sem ele.

ALGUÉM (voz de mulher): E se alguém PRECISAR de Deus pra ser bom?

GERALDO: Então que use. Mas isso diz mais sobre a pessoa do que sobre Deus.

ALGUÉM (voz de homem): Como assim?

GERALDO: Se você só é boa pessoa porque tem medo do inferno, você não é boa. Você tá é com medo.

ALGUÉM (voz de mulher): Nossa…

GERALDO: Bondade de verdade não precisa de recompensa. Nem de ameaça.

ALGUÉM (voz de homem): Então você é bom porque… porque quer?

GERALDO: Porque viver assim é melhor. Pra mim e pros outros. Simples.

ALGUÉM (voz de mulher): “Bondade sem necessidade de Deus”… isso vai dar treta.

GERALDO: Deixa. Cada um decide se Deus é necessário ou não.

ALGUÉM (voz de homem): E pra você não é.

GERALDO: Não. Mas respeito quem precisa.

ALGUÉM (voz de mulher): E se alguém religioso te julgar? Tipo, disser que você vai pro inferno?

GERALDO: Eu dou de ombros.

ALGUÉM (voz de homem): Só isso?

GERALDO: É. Não acredito em inferno. Então a ameaça não funciona. É tipo alguém dizer “o Papai Noel não vai te trazer presente”.

ALGUÉM (voz de mulher): (ri) Você acabou de comparar inferno com Papai Noel!

GERALDO: (sorri) Os dois são histórias pra fazer criança se comportar.

ALGUÉM (voz de homem): Cara… tem gente que ia te CANCELAR por isso.

GERALDO: Deixa. Eu não obrigo ninguém a concordar comigo.

ALGUÉM (voz de mulher): Última pergunta. Se Deus aparecesse na sua frente agora…

GERALDO: (olha para cima) Eu pediria desculpa.

ALGUÉM (voz de homem): Sério?!

GERALDO: (volta a olhar a tela) Claro. Se ele existir e aparecer, eu errei. Eu reconheceria.

ALGUÉM (voz de mulher): Você mudaria de ideia?

GERALDO: Se tiver prova, sim. Não sou teimoso. Só preciso de evidência.

ALGUÉM (voz de homem): “Ateu pragmático disposto a mudar com evidência”… isso é cientificamente honesto!

GERALDO: (toma café) Ou é só: se me mostrarem que eu tô errado, eu mudo.

ALGUÉM (voz de mulher): É literalmente a mesma coisa!

GERALDO: (ri) Agora você entendeu.

(Silêncio. Geraldo toma café olhando para a tela.)

ALGUÉM (voz de homem): Eu vou escrever sobre isso.

GERALDO: Eu sei.

ALGUÉM (voz de mulher): Vai dar treta.

GERALDO: Provavelmente.

ALGUÉM (voz de homem): Você se importa?

GERALDO: Não. Cada um acredita no que quiser. Inclusive em ficar puto comigo.

ALGUÉM (voz de mulher): Você é muito tranquilo com isso.

GERALDO: Porque não é sobre mim. É sobre o que eles precisam acreditar.

ALGUÉM (voz de homem): Isso é… maduro.

GERALDO: Ou eu só não ligo.

ALGUÉM (voz de mulher): (sorri, audível) Mesma coisa.

GERALDO: Exato.

(Silêncio. Geraldo olha para a tela, toma café.)

ALGUÉM (voz de homem): Quer mais café?

GERALDO: (olha a xícara vazia) Quero.

ALGUÉM (voz de mulher): Seu Deus é café, né?

GERALDO: (levanta, vai buscar) É o mais confiável.

(Geraldo sai de cena. Som de café sendo servido. Volta, senta.)

ALGUÉM (voz de homem): Tá ficando tarde, pessoal.

ALGUÉM (voz de mulher): É verdade.

GERALDO: (toma gole) Foi bom conversar.

ALGUÉM (voz de homem): Sempre é.

ALGUÉM (voz de mulher): Até a próxima, Geraldo.

GERALDO: (acena) Até.

(Som de pessoas saindo da chamada. Geraldo fica sozinho, olhando para a tela. Toma café. Luz da tela se apaga. Luz diminui lentamente.)

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Sinopse Narrativa:

Em videochamada com grupo, Geraldo declara ser ateu e desenvolve sua posição ao longo da conversa: distingue entender de acreditar, separa os ensinamentos de Jesus da instituição religiosa, e argumenta que se Deus existir e for justo, compreenderia sua descrença honesta. Desfaz a Aposta de Pascal argumentando que não se pode forçar crença. Conclui que bondade não precisa de recompensa nem ameaça — e que café é seu Deus mais confiável.

Gênero Peça Teatral, Slice of Life
Tom Direto, Filosófico, Tranquilo
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Ateísmo e fé, Diálogo filosófico
Temas Ateísmo como posição honesta, Bondade independente de Deus, Fé como escolha pessoal sem imposição
Locais Sala, Videochamada
Palavras-Chave ateísmo, bondade, café, Deus, evidência, inferno, Jesus, karma, Marx, Pascal
Formato de peça teatral em videochamada com vozes de homem e mulher não identificados. Geraldo compara Jesus e Marx como "dois caras com ideias legais que o povo distorceu depois." Compara inferno e Papai Noel como "histórias para fazer criança se comportar." Desfaz explicitamente a Aposta de Pascal. Faz parte do livro "Quando Cheguei, Já Estava Tudo Bagunçado."
 

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