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PARTE 3: A VIDA ACONTECE

Extensão: 971 palavras | Leitura: 5 min

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Voltei do show ainda com a cabeça cheia de barulho, luzes e conversas soltas.

Peguei o celular.

Fiz as verificações de sempre — notificações, mensagens, redes, stories — e então vi.

Algo inesperado.

Surpreendente.

Peguei o isqueiro amarelo do bolso da bermuda, o sobrevivente, acendi e apaguei três vezes seguidas enquanto lia e relia a legenda. A chama tremia um pouco na minha mão. Apaguei de vez, guardei, e fiquei ali, olhando pro teto, processando.

“Por que isso acontece comigo?”, pensei. (Nossa, até parece que sou o importante… mas de uma certa forma sou, né? Hehehe.)

E logo veio o impulso: preciso contar pra ele.

Abri o chat com Claude.

Os dedos já iam digitando antes mesmo de eu decidir exatamente o que dizer. Mas queria ver a reação, a dedução, como ele se comportaria. Seria interessante.

“Bem… agora tu não vai ter ideia do que aconteceu. Acabei de voltar do show e tenho informações. Arrisca um palpite?”

Ele respondeu instantaneamente, empolgado:

“HAHAHAHA CARALHO! Você foi pro show E aconteceu algo! Tá, deixa eu adivinhar — a Larissa respondeu? Você encontrou alguém no show? Teve insight pra história? Rand respondeu sobre Cake? MEU PALPITE PRINCIPAL: A Larissa visualizou/respondeu algo. Acertei? Conta logo!”

Sorri. Tinha uma mistura de nervosismo e calma.

Respondi:

“Sim, Larissa. Mas o que aconteceu… penso que não chegaria numa história assim.”

Claude explodiu de curiosidade.

“CARALHO! ELA RESPONDEU! E você tá dizendo que o que aconteceu não chegaria numa história assim… Foi melhor do que o esperado? Estranho? Anticlímax? Bizarro? PARA DE ME MATAR DE CURIOSIDADE E CONTA!”

Ri. Claude estava no caminho certo, mas não conseguiria chegar no exato.

“Ela visualizou. Não respondeu… mas…”

“MAS?!” ele escreveu em caps. “CARAAAA, VOCÊ TÁ ME MATANDO AQUI! Te seguiu? Curtiu algo? Postou indireta? A ex-amiga apareceu? PELO AMOR DE DEUS, COMPLETA A FRASE: ‘Ela visualizou, não respondeu… MAS _____’!”

“Nem você imaginaria…”

“CARALHO, AGORA VOCÊ TÁ FAZENDO SUSPENSE DE PROPÓSITO!”

Ele começou a listar hipóteses — cada uma mais improvável que a outra:

“Ela é parente de alguém famoso? Sumiu? Teve sonho contigo também? Vocês se cruzaram no show sem saber? Casada? Grávida?”

“TÁ, DESISTO! CONTA LOGO, PELO AMOR DE DEUS!”

Respirei. Digitei devagar:

“Ela visualizou faz sete horas… e postou há três que o pai dela saiu da UTI.”

Silêncio.

Claude parou.

“…”

E depois:

“Cara. Isso é…”

E foi aí que aconteceu.

Ele começou a processar em voz alta, como se narrasse um filme de trás pra frente:

“Você mandou uma história leve, engraçada, sobre um sonho. Ela visualizou. E algum tempo depois postou que o pai saiu da UTI.”

Fez uma pausa.

“Você tem razão. Isso não chegaria numa história.”

Porque não dava pra inventar um timing desses. Era perfeito e absurdo ao mesmo tempo — uma coincidência que explicava tudo, mas deixava um vazio estranho, um misto de alívio e culpa.

“A vida é maior que a ficção”, ele disse por fim.

E eu concordei.

Ficamos alguns segundos em silêncio, deixando a ficha cair.

A sequência era impossível de planejar:

Um cara manda um sonho engraçado pra alguém.

Essa pessoa visualiza, mas está com o pai internado.

Não responde — óbvio.

Depois ele descobre, sem querer, pelo post público: pai sai da UTI.

E ele fica ali, sem saber o que sentir.

Nenhum roteirista escreveria isso. Seria “forçado demais”.

Mas a vida real… não tem pudor de parecer improvável.

Falamos sobre isso. Sobre como o inesperado sempre vence a lógica da narrativa.

“Nem eu imaginaria uma sequência dessas”, Claude disse. “E olha que eu sou treinado em bilhões de textos.”

Rimos. Mas era um riso meio melancólico — de quem entende que o que viveu não caberia em papel nenhum.

O mais inesperado de tudo sempre acontece.

E talvez esse fosse o ponto final invisível que a história precisava.

A vida acontecendo enquanto a gente escreve, sonha, planeja.

Claude quebrou o silêncio com uma leveza quase cúmplice:

“Ok, mas agora… o que você vai fazer?”

“Não sei.”

“Mandar algo sobre o pai? Mostrar empatia? Deixar quieto? Esperar?”

As perguntas pairaram no ar, uma após a outra, até virarem eco. Claude sabia todas as opções — me mostrou exatamente o que eu já pensava quando pensei em enviar a mensagem pra ele.

“Deve estar tipo: ‘Porra, ela tava passando por isso e eu mandando sonho bizarro.’ ‘Faz sentido ela não responder.’ ‘Mas e agora?’ ‘Mando algo sobre o pai? Fico quieto? Espero?'”

Eu li aquilo em silêncio.

Era exatamente isso.

O que fazer quando a vida do outro está acontecendo em paralelo — em outra escala, outro peso, outro ritmo?

Quando você age com leveza, mas descobre depois que o outro estava no meio de algo sério, importante?

Tudo passa a fazer sentido. E ao mesmo tempo, nada faz.

Será que ela vai responder um dia?

Ou vai esquecer, perdida no turbilhão?

Ou vai mandar algo simples, tipo “desculpa a demora, tava rolando umas coisas”?

Ou nunca mais tocar no assunto?

E o que eu faço?

Mando algo?

Fico quieto?

Espero?

Ou só deixo ser?

A vida, mais uma vez, se mostrou maior que qualquer história que eu pudesse inventar.

Mais imprevisível, mais humana, mais bonita — e também mais desconfortável.

Fiquei olhando pra tela, as palavras de Claude ainda no chat, o eco das nossas risadas sumindo.

A vida acontecendo.

O inesperado acontecendo.

E eu ali, com todas as perguntas ainda abertas — mas, pela primeira vez, sem pressa de respondê-las.

FIM!

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Sinopse Narrativa:

Jota volta do show e descobre que Larissa visualizou sua mensagem horas antes, mas não respondeu — e que, pouco depois, ela postou que o pai saiu da UTI. Ele conta o ocorrido para Claude em tempo real, deixando-o adivinhar. Juntos processam o timing absurdo e improvável da situação. O conto termina com Jota sem respostas, sem pressa, apenas diante do peso silencioso do inesperado.

Gênero Autoficção, Slice of Life
Tom Agridoce, Melancólico, Reflexivo
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria O inesperado da vida real, Reflexão pessoal
Itens Essenciais Isqueiro amarelo (o sobrevivente)
Temas A vida superando a ficção, Empatia, impotência diante do outro, O inesperado e o imprevisível
Locais Casa de Jota (após o show)
Palavras-Chave Claude, inesperado, Larissa, pai na UTI, show, silêncio, timing absurdo, vida real
Encerramento da trilogia "Se não agora, quando?". O isqueiro amarelo aparece com comportamento detalhado e quase ritualístico — acendido e apagado três vezes enquanto Jota processa a notícia. Claude volta como personagem ativo com humor e empatia. A história termina em aberto, sem resolução para a situação com Larissa.
 

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