{"id":1005,"date":"2026-02-10T00:15:00","date_gmt":"2026-02-10T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1005"},"modified":"2026-03-04T22:01:01","modified_gmt":"2026-03-05T01:01:01","slug":"locacao-azul","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/locacao-azul\/","title":{"rendered":"Loca\u00e7\u00e3o Azul"},"content":{"rendered":"\n<p>O an\u00fancio apareceu entre stories de gente fingindo que estava tudo bem. Jota rolava o feed do Instagram deitado na cama do quarto no Cap\u00e3o da Imbuia, luz azul da tela iluminando o teto rachado, ventilador rangendo como sempre. Nenhum plano, nenhuma mulher, nenhum rol\u00ea. S\u00f3 ele, cueca velha, e o feed infinito.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogo Azul. Azulejos girando em c\u00e2mera lenta, m\u00fasica \u00e1rabe de fundo, texto em branco: &#8220;Loca\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel agora \u2014 leve o pal\u00e1cio de \u00c9vora pra sua casa. Entrega em 24h. Curitiba.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Clicou sem pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>Perfil da locadora tinha fotos de mesas montadas, caixas lacradas, stories com unboxing, algu\u00e9m mostrando as f\u00e1bricas, as cem pe\u00e7as caindo no saco de tecido. Sentiu a vontade de POSSE subir \u2014 de TER aquilo ali, agora. Leu tudo em dois minutos: loca\u00e7\u00e3o de fim de semana, entrega no mesmo dia se pedir antes das tr\u00eas da manh\u00e3, devolu\u00e7\u00e3o na segunda at\u00e9 seis da tarde, cem por cento higienizado. O pre\u00e7o? O mesmo de uma buchinha no Parolito. A droga j\u00e1 tinha em casa. Escolheu o jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 estava pronto pra pagar quando lembrou: a carteira tava dentro da mochila laranja jogada no canto do quarto. Levantou, abriu o z\u00edper principal, revirou: caderno de capa dura marrom com anota\u00e7\u00f5es de sonhos e estrat\u00e9gias de jogos que nunca jogou, isqueiro amarelo &#8220;o sobrevivente&#8221; que acendia na primeira mesmo depois de cair no vaso sanit\u00e1rio tr\u00eas vezes, a carteira amassada no fundo. Pegou a carteira, tirou o cart\u00e3o, voltou pra cama, adicionou o Azul no carrinho virtual.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular acendeu. Mensagem de Little Boobs: &#8220;Acordado ainda? Estava afim de dar uns tirinhos&#8230;&#8221;. Jota olhou a tela, pensou em responder, em chamar ela pra jogar no s\u00e1bado. N\u00e3o respondeu. Voltou pro carrinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hora de fechar o pedido apareceu a pergunta: &#8220;Quer deixar observa\u00e7\u00e3o?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Escreveu: &#8220;entrega o mais cedo poss\u00edvel, por favor. t\u00f4 louco pra jogar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Pagou. 02h17.<\/p>\n\n\n\n<p>Confirma\u00e7\u00e3o no WhatsApp da locadora: &#8220;Obrigado, Jota! Seu Azul sai pra entrega \u00e0s 8h. Chega at\u00e9 11h. Boa jogatina!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu o livro em cima do criado-mudo, fez um tirinho. Ficou olhando pro teto, cora\u00e7\u00e3o batendo no ritmo das pe\u00e7as caindo na propaganda. Passou o resto da madrugada sem dormir.<\/p>\n\n\n\n<p>F5 no rastreio.<\/p>\n\n\n\n<p>02h30 \u2014 pedido confirmado. 03h12 \u2014 separado no estoque. 05h47 \u2014 saiu pra entrega. 08h03 \u2014 com o motoboy.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomou banho, trocou de cueca, vestiu a camiseta regata vinho rasgada que usava quando queria se sentir no controle de alguma coisa. Fez caf\u00e9 coado. Enquanto a \u00e1gua passava, viu o \u00edm\u00e3 do Posto Esso na geladeira segurando o telefone da m\u00e3e. Ignorou. Limpou a mesa do quarto tr\u00eas vezes, arrumou as cadeiras em c\u00edrculo como se fosse receber visita.<\/p>\n\n\n\n<p>08h15 \u2014 motoboy saiu do Batel.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota j\u00e1 estava na sala, de short, descal\u00e7o, os t\u00eanis surrados com o cadar\u00e7o direito solto largados perto da porta. Fez outro tirinho pra aguentar o nervoso. 09h02 \u2014 &#8220;motoboy a 18 km do seu endere\u00e7o&#8221;. Abriu a porta da frente, ficou olhando a rua vazia do Cap\u00e3o da Imbuia como se fosse ver a moto dobrar a esquina a qualquer segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>09h27 \u2014 &#8220;a 9 km&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pra dentro, fez mais um tirinho. Limpou a mesa, arrumou as cadeiras de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>10h11 \u2014 &#8220;a 4 km&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 estava suando frio. Passou \u00e1lcool gel na mesa, no ch\u00e3o, na ma\u00e7aneta, no controle remoto. Tudo tinha que estar perfeito pra receber o Azul.<\/p>\n\n\n\n<p>10h51 \u2014 &#8220;a 900 metros&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Correu pra janela. Rua vazia. O Gol Bolinha estacionado embaixo, sozinho, etanol pingando no asfalto.<\/p>\n\n\n\n<p>10h54 \u2014 &#8220;chegando&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Desceu as escadas de dois em dois, abriu o port\u00e3o, ficou plantado na cal\u00e7ada. A moto apareceu na esquina. Capacete preto, caixa branca com logo azul nas costas. Parou na frente dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sou eu.<\/p>\n\n\n\n<p>O motoboy entregou a caixa embrulhada em pl\u00e1stico bolha, fita adesiva com o nome Azul estampado. Jota assinou no celular com o dedo suado, quase derrubou o aparelho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Boa jogatina, irm\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O cara foi embora. Jota subiu correndo, trancou a porta, cora\u00e7\u00e3o na boca. Colocou a caixa na mesa da cozinha como se fosse rel\u00edquia sagrada. Cortou a fita com tesoura, devagar, sentindo o cheiro de resina nova vazando. Abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Cem tiles caindo em cascata no saco de tecido. Barulho perfeito. F\u00e1bricas. Tabuleiro. Marcadores. Regras dobradas direitinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Montou tudo sozinho, m\u00e3os tremendo. Expositores de f\u00e1brica alinhados. Saco de tecido no centro. Pegou o isqueiro amarelo, acendeu sem motivo. A chama durou dois segundos. Apagou. Guardou no bolso do short.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro sorteio: cinco tiles azuis.<\/p>\n\n\n\n<p>Riu alto, sozinho na casa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho, come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou \u00e0s 11h27. Tabuleiro montado na mesa da cozinha, cadeiras vazias dos outros tr\u00eas jogadores, sol de meio-dia batendo na janela, sil\u00eancio absoluto da rua l\u00e1 fora. N\u00e3o podia sair, n\u00e3o devia sair, ent\u00e3o pelo menos isso: jogar Azul contra si mesmo at\u00e9 esquecer que estava preso.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeira rodada: cinco azuis no centro. Jota draftava como se a vida dependesse daquilo. Linha 1: azul, azul, azul, azul\u2026 faltou uma. Penalidade -7. Riu sozinho, mas com raiva.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Beleza, ainda tem quatro rodadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Segunda rodada: amarelos. Terceira vermelhos. Quarta pretos. Quinta brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota jogava contra si mesmo em tr\u00eas lugares diferentes da mesa. Criou personalidades. Batizou mentalmente cada uma.<\/p>\n\n\n\n<p>Cadeira da esquerda: O Jota que conquistou Daslu.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu, a loira de olhos \u00e2mbar que sumiu do mapa sem olhar pra tr\u00e1s quando decidiu que tinha acabado. Com ela, tudo era permitido. Experimentavam sem julgamento. Fodiam em lugares imposs\u00edveis, faziam coisas que ele nunca faria com outra. Liberdade pura.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse Jota era livre, louco, experimental. Fazia voz diferente quando jogava por ele, mais solta, mais rindo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou de vermelho direto, foda-se estrat\u00e9gia. Daslu n\u00e3o liga pra estrat\u00e9gia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse Jota achava que tinha satisfeito ela sendo exatamente isso: livre, intenso, topando tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ela foi embora do mesmo jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Cadeira da direita: O Jota que conquistou Satogos Cruel.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos Cruel, 1,70 de morena com tatuagens no bra\u00e7o esquerdo, olhar verde que congelava. A que ele ainda quer terminar de conquistar. O beijo roubado no banheiro lotado.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse Jota era calculista, dominador quando podia, submisso quando ela mandava. Fazia voz mais grave, mais controlada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pego o set completo de pretos aqui e ganho na moral. Satogos gosta de quem sabe jogar o jogo dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele achava que tinha satisfeito ela provando que aguentava o jogo, que sabia quando curvar e quando empurrar de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ela sumiu depois da terceira vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Cadeira do fundo: O Jota que conquistou Maju Kuzito.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju Kuzito, 1,78 de pernas intermin\u00e1veis, piercing no nariz, aquele jeito filho da puta de ignorar e voltar quando queria. Ela s\u00f3 voltou uma vez. Depois sumiu tr\u00eas dias, voltou como se nada tivesse acontecido. Ignorava mensagem, respondia s\u00f3 quando queria. Gostava de ser desejada.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse Jota era bruto, direto, com raiva misturada com tes\u00e3o. Fazia voz rouca, impaciente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Foda-se linha bonita, vou encher de amarelo e acabou. Maju gosta de quem mete com vontade, sem frescura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele achava que tinha satisfeito ela sendo exatamente o que ela pedia sem pedir: intenso, bruto, fodendo do jeito que ela gostava secretamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota real, sentado na cadeira principal, jogava contra os tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>E perdia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre perdia.<\/p>\n\n\n\n<p>Fez mais um tirinho, continuou. Perdeu a primeira partida de lavada: -23 pontos. Come\u00e7ou outra. E outra. E outra.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 existia o barulho das pe\u00e7as caindo no saco de tecido, o clique das tiles no tabuleiro, o rangido da cadeira quando se inclinava pra frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Falava sozinho alto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se eu completar a linha horizontal agora eu ganho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se eu fizer o set de cinco cores eu viro o jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se eu n\u00e3o pegar penalidade nessa eu empato.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca empatava. Sempre perdia. Perdia bonito. Perdia feio. Perdia de lavada.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol foi embora da janela. A luz da cozinha ficou amarela. O ventilador do quarto l\u00e1 em cima ainda rangendo. Jota continuou jogando. Cem tiles espalhadas, saco vazio, tabuleiro cheio de buraco. Montou de novo. E de novo. E de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s 03h da manh\u00e3 continuava jogando. Tabuleiro na frente, tr\u00eas partidas simult\u00e2neas, ele contra ele contra ele contra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Perdeu todas.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima partida fez 9 pontos. \u00daltimo lugar. O &#8216;Jota da Maju&#8217; tinha ganho aquela com 16. Na anterior, tinha sido Daslu. Antes dessa, Satogos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o importava qual vers\u00e3o fantasma dele ganhasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sempre perdia.<\/p>\n\n\n\n<p>Riu. Riso seco, sem gra\u00e7a, olhando pros tr\u00eas tabuleiros como se esperasse que as personalidades falassem alguma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro rel\u00f3gio: 04h11.<\/p>\n\n\n\n<p>A caixa de loca\u00e7\u00e3o tinha que ser devolvida at\u00e9 seis da tarde de segunda. Ainda tinha quase catorze horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Montou tudo de novo. Jogou at\u00e9 sete da manh\u00e3. Perdeu todas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s nove horas arrumou a caixa. Limpou as pe\u00e7as com \u00e1lcool gel uma por uma, colocou de volta no saco de tecido. Contou: 99.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltava uma tile azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou. Olhou pra mesa. Procurou embaixo das cadeiras, atr\u00e1s da geladeira, dentro da mochila laranja que ainda estava aberta no ch\u00e3o. Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou o caderno marrom, folheou como se a pe\u00e7a pudesse estar entre as p\u00e1ginas. Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou o isqueiro amarelo, acendeu, iluminou embaixo da cama com cuidado. Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pros t\u00eanis surrados perto da porta, o cadar\u00e7o direito ainda solto. Pensou em cal\u00e7ar, sair andando pela casa inteira at\u00e9 encontrar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o encontrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou a l\u00edngua no c\u00e9u da boca. Gosto de resina e pl\u00e1stico misturado com o amargo qu\u00edmico. A garganta arranhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha engolido.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou a caixa com a mesma fita. Abriu o WhatsApp da locadora, escreveu: &#8220;Devolvo hoje 17h30. Jogo perfeito, sem pe\u00e7a faltando.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Faltava uma tile azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou olhando pra caixa lacrada na mesa. O tabuleiro ainda montado do lado, mosaico pela metade. Podia ter completado o mural do Rei Manuel I. Podia ter ganhado de si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ganhou nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou em ligar pra Little Boobs.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela toparia vir jogar Azul. Com certeza toparia. Inventaria regrinhas pra tirar roupa a cada rodada perdida, riria da situa\u00e7\u00e3o absurda, transformaria o jogo em putaria gostosa enquanto ele tentava se concentrar nas tiles. Ela ficaria at\u00e9 o sol nascer, jogando de calcinha, rindo daquele jeito dela, chamando ele de &#8220;Geraldo&#8221; entre uma jogada e outra.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou o celular. Abriu o contato dela. Little Boobs de biqu\u00edni na praia, cabelo ruivo, sorriso enorme, peitos enormes desafiando a f\u00edsica. A baixinha dos peitos enormes.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ligou.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque sabia que se ligasse agora, \u00e0s nove da manh\u00e3 de um s\u00e1bado, ela ia rir, ia achar engra\u00e7ado, mas ia falar &#8220;amanh\u00e3, Geraldo&#8221; e desligar.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele ia continuar sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Com os tr\u00eas Jotas que conquistaram as tr\u00eas mulheres que foram embora.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos perdendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos se vangloriando de um passado que talvez nunca aconteceu direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou o celular. Olhou pro Gol Bolinha l\u00e1 embaixo pela janela. Etanol pingando. Sozinho tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou na cadeira principal. A tile azul alojada dentro dele, descendo devagar, completando o mosaico que nunca ia aparecer em tabuleiro nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi at\u00e9 a cozinha. No \u00edm\u00e3 fosco do Posto Esso, um papel amarelado. Telefone da m\u00e3e. N\u00e3o brilhou, n\u00e3o zumbiu. Nunca brilhava pra ele mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou os olhos. O isqueiro n\u00e3o acendeu sozinho. O cadar\u00e7o continuou solto. A camiseta continuou manchada de sangue do nariz.<\/p>\n\n\n\n<p>E o jogo continuou na caixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pronto pra ser devolvido.<\/p>\n\n\n\n<p>Perfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Menos uma pe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Azul.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O an\u00fancio apareceu entre stories de gente fingindo que estava tudo bem. Jota rolava o feed do Instagram deitado na cama do quarto no Cap\u00e3o da Imbuia, luz azul da tela iluminando o teto rachado, ventilador rangendo como sempre. Nenhum plano, nenhuma mulher, nenhum rol\u00ea. S\u00f3 ele, cueca velha, e o feed infinito. Jogo Azul. 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