{"id":1007,"date":"2026-02-12T00:15:00","date_gmt":"2026-02-12T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1007"},"modified":"2026-03-04T22:02:13","modified_gmt":"2026-03-05T01:02:13","slug":"so-a-ultima","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/so-a-ultima\/","title":{"rendered":"S\u00f3 a \u00daltima"},"content":{"rendered":"\n<p>A Pedreira do Orleans estava gelada \u00e0 noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Devia ser umas tr\u00eas da manh\u00e3. Talvez quatro. Ningu\u00e9m olhava pro rel\u00f3gio ali dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o abandonado parecia uma nave ca\u00edda do c\u00e9u: teto alto, paredes de concreto rachado, luzes LED brancas que n\u00e3o piscavam nunca. Dentro, o cheiro era de solda fria, oz\u00f4nio e caf\u00e9 queimado. Ventoinhas zumbindo como enxame.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota trabalhava na bancada esquerda, camiseta regata vinho manchada de flux, suor escorrendo na barba. Concentra\u00e7\u00e3o absoluta. Pin\u00e7a na m\u00e3o direita, ferro de solda na esquerda. Gera\u00e7\u00e3o 7.3. Quase perfeita. Chips t\u00e3o pequenos que precisavam de microsc\u00f3pio. Dissipa\u00e7\u00e3o l\u00edquida. Clock que fazia o mult\u00edmetro tremer.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado dele, quatro pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha, short jeans rasgado, mexendo num cooler com cara de quem queria estar na piscina.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs, blusa preta de renda que mal segurava os peitos, soldando com l\u00edngua de fora de tanta concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois gen\u00e9ricos que ningu\u00e9m lembrava o nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio quebrado s\u00f3 pelo barulho das ventoinhas e do ferro chiando.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja estava aberta no ch\u00e3o, caixas de pe\u00e7as tilintando toda vez que algu\u00e9m passava perto. O caderno marrom ca\u00eddo ao lado, p\u00e1gina rasgada com a chave do sistema rabiscada de caneta vermelha. O \u00edm\u00e3 de geladeira do Posto Esso, cinza fosco, bordas descascando, preso na capa com fita crepe velha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o olhava praquilo. S\u00f3 soldava.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado do galp\u00e3o, Donaro observava.<\/p>\n\n\n\n<p>Biqu\u00edni preto por baixo do jaleco aberto, pernas douradas do ver\u00e3o passado, cabelo castanho liso caindo nos ombros. Olhar que curava e queimava ao mesmo tempo. Ela n\u00e3o dizia nada. S\u00f3 olhava.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o do t\u00eanis surrado de Jota j\u00e1 estava solto, ro\u00e7ando o ch\u00e3o frio.<\/p>\n\n\n\n<p>A gera\u00e7\u00e3o 7.3 estava quase pronta.<\/p>\n\n\n\n<p>E Jota sabia: s\u00f3 ia levar a \u00faltima.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio durou at\u00e9 as portas pneum\u00e1ticas laterais abrirem com um silvo hidr\u00e1ulico.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco pessoas entraram. Jalecos cinza sem crach\u00e1, capuzes puxados, passos r\u00e1pidos. Foram direto pras bancadas vazias do lado direito. Montaram esta\u00e7\u00f5es em menos de dois minutos. Come\u00e7aram a trabalhar na gera\u00e7\u00e3o 6.9.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota viu de canto de olho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eles t\u00e3o for\u00e7ando \u2014 murmurou Rosquinha, sem tirar os olhos do cooler.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas minutos depois, a primeira placa queimou. Fuma\u00e7a preta subiu. Cheiro de sil\u00edcio derretido invadiu o galp\u00e3o. A segunda placa foi logo em seguida. A terceira explodiu com um estalo seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs deu risadinha nervosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eles t\u00e3o cozinhando os chips.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro se levantou da cadeira onde estava sentada. Atravessou o galp\u00e3o devagar, salto ecoando no concreto. Parou na frente da bancada de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhar que desarmava qualquer um.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A nossa gera\u00e7\u00e3o morreu \u2014 disse, voz calma, quase doce. \u2014 Precisamos da 7.3. A entrega \u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota nem levantou a cabe\u00e7a da placa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro se inclinou um pouco. Perfume invadindo, aquele cheiro que ele conhecia de cor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Lembra quando eu pedia e tu fazia acontecer?<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha engasgou com o ar. Little Boobs mordeu o l\u00e1bio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou. Pin\u00e7a ainda na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O bot\u00e3o vermelho estava ali, na borda da bancada. Pequeno, discreto. S\u00f3 ele tinha. Todo mundo sabia o que era: o &#8220;n\u00e3o&#8221; absoluto. Se apertasse, o galp\u00e3o inteiro travava. Ningu\u00e9m mexia mais em nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro viu o olhar dele pro bot\u00e3o. Sorriu de leve.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se a gente n\u00e3o entregar, a casa inteira cai. Todo mundo perde. Tu sabe disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder do grupo rival \u2014 cara alta, voz rouca, cicatriz fina cruzando a sobrancelha \u2014 se aproximou por tr\u00e1s dela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sem a 7.3 n\u00e3o tem sistema amanh\u00e3. Se travar agora, ningu\u00e9m entrega nada. O sistema inteiro cai. N\u00e3o s\u00f3 n\u00f3s. Voc\u00eas tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pras bandejas. Dez placas perfeitas. A \u00faltima gera\u00e7\u00e3o que ele tinha.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o do t\u00eanis direito soltou mais um pouco, ro\u00e7ando o ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro amarelo &#8220;o sobrevivente&#8221; girava entre os dedos grossos, quente de tanto apertar.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro continuou parada, perfume misturado com fuligem. Olhar que curava e matava ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por favor, Jota \u2014 disse, voz baixa. \u2014 S\u00f3 mais essa vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha olhou pro ch\u00e3o. Little Boobs prendeu a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro bot\u00e3o vermelho. Pequeno. Perfeito. Um toque e tudo acabava.<\/p>\n\n\n\n<p>O dedo dele ro\u00e7ou a superf\u00edcie lisa. Quente. Tentador.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha prendeu a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs parou de soldar, olhos arregalados.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro n\u00e3o desviou o olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a casa inteira cairia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele empurrou as bandejas com a gera\u00e7\u00e3o 7.3.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Peguem.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro sorriu. Pequeno. Quase grata.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo rival pegou as bandejas como se fossem ouro. Correram de volta pras bancadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o do t\u00eanis direito se soltou sozinho naquele exato segundo. Quando Jota deu um passo pra tr\u00e1s, o cadar\u00e7o enroscou no p\u00e9 dele como se tivesse vontade pr\u00f3pria. Trope\u00e7ou. A \u00faltima placa boa que ainda estava na bancada dele escorregou, girou no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota mergulhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou a placa a cent\u00edmetros do ch\u00e3o de concreto, cora\u00e7\u00e3o explodindo no peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha riu nervoso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porra, Ch\u00f4\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro passou por ele, ombro ro\u00e7ando no bra\u00e7o de Jota, cheiro de perfume e fuligem misturados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Obrigada \u2014 sussurrou, quase no ouvido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentou na cadeira, m\u00e3o ainda tremendo na pin\u00e7a. Bancada quase vazia. S\u00f3 pe\u00e7as soltas. Prot\u00f3tipos. Uma gera\u00e7\u00e3o 7.4 que nem existia ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira apareceu do nada \u2014 literalmente, como se tivesse atravessado a parede de concreto \u2014 macac\u00e3o azul sujo de graxa antiga, chave de fenda Phillips na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eles v\u00e3o queimar tudo em dez minutos \u2014 falou seco, olhos de quem j\u00e1 viu tudo isso antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois sumiu do mesmo jeito que apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu o caderno marrom. P\u00e1gina rasgada. Come\u00e7ou a desenhar do zero.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o ainda estava no ch\u00e3o, enrolado como cobra satisfeita.<\/p>\n\n\n\n<p>Oito minutos depois, a fuma\u00e7a preta subiu do lado direito do galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheiro de sil\u00edcio queimado, pl\u00e1stico derretido, derrota.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas placas da 7.3 j\u00e1 eram cinzas. A quarta explodiu com estalo seco. A quinta pegou fogo de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha caiu na gargalhada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu avisei, Ch\u00f4!<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs tapou a boca, olhos arregalados, corpo tremendo de tanto rir.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro voltou andando devagar, biqu\u00edni preto agora manchado de fuligem. Parou na frente da bancada vazia de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A 7.3 queimou \u2014 disse, voz calma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela passou a m\u00e3o lenta pelo corpo, do quadril at\u00e9 a costela, ajeitando o biqu\u00edni numa lentid\u00e3o calculada. Os dedos ro\u00e7aram a borda do decote.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu a temperatura subir.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Precisamos da 7.4 \u2014 continuou ela, se inclinando na bancada. O el\u00e1stico do biqu\u00edni esticou um pouco. \u2014 Tu consegue. Sempre conseguiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra bancada. Pe\u00e7as soltas. Um n\u00facleo ainda cru. 7.4 nem existia.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha engoliu seco, olhando a cena.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 7.4? Nem come\u00e7ou, porra!<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro nem piscou. Continuou inclinada, olhos fixos em Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro bot\u00e3o vermelho. Intacto. Ainda ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs se aproximou, voz doce:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota\u2026 eles v\u00e3o queimar o galp\u00e3o inteiro se n\u00e3o der algo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota engoliu seco. Pegou uma placa virgem. Olhou pra Donaro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A pr\u00f3xima \u00e9 minha \u2014 disse. \u2014 S\u00f3 a \u00faltima.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro assentiu. Voltou \u00e0 postura normal, o jaleco caindo no lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Neg\u00f3cio fechado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder do grupo rival gritou do fundo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A entrega \u00e9 em duas horas!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentou. Abriu o caderno marrom. Come\u00e7ou do zero.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o ainda estava no ch\u00e3o, enrolado, esperando a pr\u00f3xima salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o inteiro cheirava a derrota e sil\u00edcio morto.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro ficou parada mais um segundo, olhando Jota come\u00e7ar a 7.4 do zero. Pe\u00e7a por pe\u00e7a. Solda por solda. Sil\u00eancio absoluto, s\u00f3 o ferro chiando.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder rival gritava no fundo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Duas horas! S\u00f3 duas horas!<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro deu meia-volta. Jaleco balan\u00e7ando, sumindo na fuma\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o olhou pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3o firme. Pin\u00e7a. Ferro. Respira\u00e7\u00e3o lenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha sentou do lado, ainda rindo baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu \u00e9 foda, Ch\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs encostou na bancada, ombro quase tocando a placa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando terminar, me avisa. Quero ser a primeira a testar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o respondeu. S\u00f3 soldou.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta minutos depois, a placa deu um estalo seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha congelou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ch\u00f4\u2026?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou. Olhou o mult\u00edmetro. Voltagem errada. Um chip invertido.<\/p>\n\n\n\n<p>Respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Retirou o chip com a pin\u00e7a, inverteu, soldou de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>A luz voltou. Verde. Est\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho \u2014 murmurou Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota continuou soldando.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma hora e cinquenta e sete minutos depois, a 7.4 nasceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota conectou a placa na esta\u00e7\u00e3o de testes.<\/p>\n\n\n\n<p>Apertou o bot\u00e3o de igni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A placa acendeu. Luzes azuis pulsando em sequ\u00eancia perfeita. O mult\u00edmetro disparou: clock absurdo, temperatura est\u00e1vel, consumo m\u00ednimo. Os dados come\u00e7aram a fluir nas telas ao redor da bancada, processando c\u00e1lculos que as gera\u00e7\u00f5es anteriores levavam minutos em fra\u00e7\u00f5es de segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Zero defeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Zero lat\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Perfeita.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o inteiro parou pra ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha se levantou devagar, boca aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho, Ch\u00f4\u2026 tu fez mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs largou o ferro de solda, olhos brilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso \u00e9\u2026 isso \u00e9 lindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois gen\u00e9ricos se aproximaram. O grupo rival inteiro virou a cabe\u00e7a. At\u00e9 Donaro voltou andando, olhos arregalados pela primeira vez na noite.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu\u2026 fez?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assistiu os dados flu\u00edrem mais alguns segundos. N\u00fameros dan\u00e7ando nas telas. A placa brilhando azul, viva, perfeita. Depois desligou. O brilho azul apagou devagar, como se resistisse a morrer.<\/p>\n\n\n\n<p>Desconectou os cabos com calma. Um por um.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou a 7.4 na mochila laranja. Fechou o z\u00edper.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha veio at\u00e9 ele, m\u00e3o no ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sempre soube, Ch\u00f4. Desde o come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fiz.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder rival correu at\u00e9 ele, m\u00e3o estendida, voz desesperada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Me d\u00e1! A entrega\u2026 n\u00f3s vimos funcionar! N\u00f3s vimos!<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo inteiro atr\u00e1s dele, olhos fixos na mochila laranja.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, por favor! Ela tava funcionando! N\u00f3s todos vimos!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro bot\u00e3o vermelho. Ainda ali. Intacto.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro l\u00edder. Pro grupo rival inteiro olhando ele com desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro sorriu. Pequeno. Quase orgulhosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota jogou a mochila no ombro. O cadar\u00e7o do t\u00eanis direito arrastou no ch\u00e3o, enrolado, satisfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou por ela sem tocar.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta de a\u00e7o abriu com rangido longo.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado de fora, a Pedreira do Orleans estava escura e fria.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 esperava exatamente onde ele deixou, vidro emba\u00e7ado, banco do motorista afundado com o formato perfeito dos seus 110 kg.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou. Fechou a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Girou o isqueiro amarelo &#8220;o sobrevivente&#8221; entre os dedos uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 de geladeira do Posto Esso pesava no bolso da cal\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ligou o etanol.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor 1.0 16v gritou feliz, aquele ronco familiar de sempre, cheiro de combust\u00edvel barato invadindo a cabine.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pelo retrovisor.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro ainda na porta do galp\u00e3o, jaleco aberto, uma m\u00e3o no quadril, olhando ele ir embora. Os olhos dela brilhavam. N\u00e3o de l\u00e1grima. De orgulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu de leve.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3xima era dele.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 a \u00faltima.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Pedreira do Orleans estava gelada \u00e0 noite. Devia ser umas tr\u00eas da manh\u00e3. Talvez quatro. Ningu\u00e9m olhava pro rel\u00f3gio ali dentro. O galp\u00e3o abandonado parecia uma nave ca\u00edda do c\u00e9u: teto alto, paredes de concreto rachado, luzes LED brancas que n\u00e3o piscavam nunca. Dentro, o cheiro era de solda fria, oz\u00f4nio e caf\u00e9 queimado. 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