{"id":1009,"date":"2026-02-14T00:15:00","date_gmt":"2026-02-14T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1009"},"modified":"2026-03-04T22:03:13","modified_gmt":"2026-03-05T01:03:13","slug":"pecas-distraidas","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/pecas-distraidas\/","title":{"rendered":"Pe\u00e7as Distra\u00eddas"},"content":{"rendered":"\n<p>\u2014 T\u00e1 pronto? \u2014 perguntou Jota, olhando pro pai.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo suspirou fundo, olhos fixos no galp\u00e3o industrial \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o. Mas precisamos entrar mesmo assim. \u2014 Ele olhou pro galp\u00e3o com express\u00e3o tensa. \u2014 Cada hora que passa ele fica mais imprevis\u00edvel. N\u00e3o sei quanto tempo temos antes de perder o controle completamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Entraram.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota entrou atr\u00e1s do pai. O galp\u00e3o era enorme por dentro: teto alto sustentado por vigas de ferro, ch\u00e3o de concreto tomado por estruturas coloridas, pe\u00e7as espalhadas em pilhas irregulares, material catalogado e recatalogado incont\u00e1veis vezes. Luz fluorescente fria pingando de cima como chuva branca sobre a bagun\u00e7a met\u00f3dica.<\/p>\n\n\n\n<p>E no centro, a criatura.<\/p>\n\n\n\n<p>O scanner vermelho girou na dire\u00e7\u00e3o deles assim que entraram. Parou. Tr\u00eas segundos medindo, analisando, processando. Jota sentiu o peso do olhar mec\u00e2nico sobre ele, sobre a mochila laranja, sobre cada objeto que carregava.<\/p>\n\n\n\n<p>O scanner voltou a girar, retomando a varredura do galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Humanos. N\u00e3o catalog\u00e1veis. Ignorados.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 continuou trabalhando como se eles n\u00e3o existissem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota soltou o ar que n\u00e3o percebeu estar prendendo. Caminhou devagar, observando a criatura que o pai tinha ajudado a criar.<\/p>\n\n\n\n<p>Compacto mas eficiente, corpo cil\u00edndrico de metal polido, quatro bra\u00e7os mec\u00e2nicos finos saindo do tronco em \u00e2ngulos perfeitos. Cada bra\u00e7o terminava em pin\u00e7a ajust\u00e1vel capaz de segurar desde blocos grandes at\u00e9 pe\u00e7as min\u00fasculas. Scanner vermelho montado no topo, girando constantemente, varrendo o espa\u00e7o inteiro em 360 graus. Base com rodas emborrachadas que permitiam movimento suave e preciso.<\/p>\n\n\n\n<p>E trabalhava.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegava pe\u00e7as do ch\u00e3o. Media dimens\u00f5es com sensores embutidos nas pin\u00e7as. Encaixava blocos com precis\u00e3o milim\u00e9trica. Constru\u00eda estruturas por vinte minutos. E depois destru\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>E depois constru\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao redor do rob\u00f4, dezenas de estruturas. Algumas eram constru\u00e7\u00f5es de encaixe perfeito que n\u00e3o levavam a lugar nenhum \u2014 resqu\u00edcios do protocolo original, obrigat\u00f3rias mas in\u00fateis. Blocos coloridos de pl\u00e1stico industrial empilhados sem prop\u00f3sito.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras eram diferentes. Componentes t\u00e9cnicos sendo desmontados e remontados. Adapta\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria central de controle espalhadas numa bancada improvisada. Pe\u00e7as sendo reconfiguradas com prop\u00f3sito claro.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 n\u00e3o estava apenas construindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava se transformando.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada pe\u00e7a ali j\u00e1 tinha sido medida, registrada, remontada centenas de vezes. O scanner conhecia cada bloco, cada cor, cada dimens\u00e3o. E o que o rob\u00f4 detectava como &#8220;desnecess\u00e1rio&#8221; ou &#8220;fora do lugar&#8221;, simplesmente removia. Limpava. Descartava. Por isso o galp\u00e3o permanecia organizado apesar da atividade constante.<\/p>\n\n\n\n<p>Man\u00edaco por ordem. Man\u00edaco por limpeza.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 n\u00e3o parava nunca.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo se aproximou, encostou na parede de chapa, cruzou os bra\u00e7os e ficou olhando a criatura que ele mesmo tinha ajudado a criar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tr\u00eas anos de trabalho \u2014 murmurou, mais pra si mesmo. \u2014 Sistema de escaneamento 360 graus, quatro bra\u00e7os independentes, bateria de longa dura\u00e7\u00e3o, protocolo de auto-defesa, capacidade de adapta\u00e7\u00e3o&#8230; \u2014 Ele riu sem humor. \u2014 Funcionou perfeitamente. At\u00e9 funcionar bem demais.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai tinha orgulho e medo misturados na express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por isso n\u00e3o podemos simplesmente destruir. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o custo. \u00c9&#8230; \u2014 O senhor Geraldo pausou. \u2014 \u00c9 a coisa mais brilhante que j\u00e1 ajudei a criar. E agora t\u00e1 me escapando das m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>O barulho continuava. Clique-giro-corte-encaixe.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota largou a mochila laranja no ch\u00e3o perto da parede, abriu o z\u00edper e tirou o caderno marrom de capa dura. O rob\u00f4 nem reagiu. N\u00e3o catalogava humanos nem o que carregavam, mas qualquer objeto solto no ch\u00e3o virava alvo imediato. O \u00edm\u00e3 de geladeira do Posto Esso, colado na frente do caderno, j\u00e1 estava a brilhar. Azul p\u00e1lido, suave, quase impercept\u00edvel. Jota segurou o caderno com mais cuidado, sentindo o calor leve irradiando do ret\u00e2ngulo cinza fosco.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu numa p\u00e1gina limpa, tirou a caneta do bolso e come\u00e7ou a anotar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o desliga?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 J\u00e1 desligamos. Cortamos a energia ontem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro rob\u00f4 trabalhando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E por que ele n\u00e3o parou?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bateria reserva. Continuou como se nada tivesse acontecido. \u2014 O pai suspirou pesado. \u2014 Pior: o sistema entrou num bug. Construiu tudo perfeitamente no come\u00e7o, terminou&#8230; e a\u00ed destruiu e recome\u00e7ou. Loop infinito. Tentamos retirar as constru\u00e7\u00f5es prontas pra salvar pelo menos o trabalho. Ele n\u00e3o deixou. Defendeu tudo. Tentamos tirar o material, mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo olhou pro painel de controle lateral, depois pro rob\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acreditamos que j\u00e1 identificamos o bug, j\u00e1 sabemos como corrigir. Mas n\u00e3o conseguimos aplicar a corre\u00e7\u00e3o porque ele defende o painel. Toda vez que algu\u00e9m tenta se aproximar, ele detecta e vem impedir. \u2014 Ele apontou pro painel lateral. \u2014 At\u00e9 o bot\u00e3o de emerg\u00eancia ele protegeu. Soldou pe\u00e7as por cima, dificultou o acesso. Como se soubesse que ali estava a \u00fanica forma real de deslig\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo continuou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah, foi Rand que identificou o poss\u00edvel bug, apareceu aqui ontem, preparou a corre\u00e7\u00e3o no sistema, mas quando tentou aplicar&#8230; o rob\u00f4 quase quebrou o bra\u00e7o dele. N\u00e3o deixou nem plugar o cabo. A corre\u00e7\u00e3o t\u00e1 pronta, mas bloqueada. \u2014 Ele olhou pro filho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a bateria?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deveria durar uns sete dias. Quando acabasse, ele pararia sozinho. \u2014 O pai pausou, voz baixando. \u2014 Mas ontem ele passou horas analisando o barramento el\u00e9trico. Testou cada conex\u00e3o, cada cabo. J\u00e1 sabe que n\u00e3o tem mais energia aqui no galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou pro filho, medo genu\u00edno nos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E come\u00e7ou a modificar a pr\u00f3pria central de controle. Adaptando pra modo m\u00f3vel, aut\u00f4nomo. S\u00f3 precisa colocar a central no lugar e pronto. Consegue se deslocar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu um frio na espinha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se deslocar pra onde?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Uma possibilidade \u00e9 pro gerador na rua. T\u00e1 a menos de cinquenta metros daqui. \u2014 O senhor Geraldo gesticulou pro rob\u00f4 trabalhando. \u2014 A parede n\u00e3o \u00e9 obst\u00e1culo. Chapa industrial fina, quatro bra\u00e7os mec\u00e2nicos com for\u00e7a suficiente. Se o protocolo de auto-preserva\u00e7\u00e3o autorizar, ele atravessa em minutos. \u2014 Ele pausou. \u2014 Primeiro protegeu o bot\u00e3o de emerg\u00eancia. Agora t\u00e1 adaptando a central pra mobilidade. Se ele terminar isso, sair daqui e se conectar no gerador da rua&#8230; n\u00e3o para nunca mais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E danificar ele?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 uma ideia poss\u00edvel, mas que n\u00e3o gostaria de aplicar. Ele se auto-repara. Foi projetado pra isso. Detecta danos, reconstr\u00f3i componentes usando material dispon\u00edvel. Mas, \u00e9 claro, tem limite. \u2014 O senhor Geraldo gesticulou pro rob\u00f4. \u2014 E pode ser perigoso demais. Quatro bra\u00e7os, sensores 360\u00b0, protocolo de defesa ativo. Se n\u00e3o conseguirmos nada hoje, amanh\u00e3 logo cedo chamo a equipe necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por isso viemos aqui hoje. Talvez encontremos algo, alguma forma de acessar o painel. Alguma brecha. N\u00e3o sei. Mas precisamos tentar, enquanto ainda temos algum controle da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O barulho continuava. Clique-giro-corte-encaixe.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota voltou a anotar. Escreveu &#8220;protocolo inflex\u00edvel&#8221; com letra apertada. Depois &#8220;material = gatilho&#8221;. Depois &#8220;medi\u00e7\u00e3o obsessiva&#8221;. Depois &#8220;ciclo infinito&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro rob\u00f4. O scanner vermelho girou, parou na dire\u00e7\u00e3o deles por meio segundo, voltou a varrer o espa\u00e7o. Quatro bra\u00e7os pegaram pe\u00e7as do ch\u00e3o, mediram dimens\u00f5es, encaixaram com precis\u00e3o rob\u00f3tica. Uma estrutura de dez blocos cresceu em quinze segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou o caderno, enfiou a caneta de volta na mochila. O \u00edm\u00e3 do Posto Esso ainda brilhava levemente. Ele olhou pro pai, viu o cansa\u00e7o nos olhos, a frustra\u00e7\u00e3o silenciosa de quem tinha passado a vida organizando coisas \u2014 letras, composi\u00e7\u00f5es, ordem \u2014 e agora enfrentava algo que organizava e desorganizava sem parar, num ciclo sem fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficaram ali por dez minutos. Observando. Anotando. Tentando encontrar alguma brecha, algum padr\u00e3o, alguma falha que pudessem explorar.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 continuava. Constru\u00eda, destru\u00eda, reconstru\u00eda. O scanner girava sem parar. O painel de controle permanecia inacess\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo se levantou, deu dois passos na dire\u00e7\u00e3o do painel.<\/p>\n\n\n\n<p>O scanner vermelho travou nele instantaneamente. Alerta.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai recuou, levantou as m\u00e3os devagar, voltou pra parede. O scanner retomou o giro normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se levantou tamb\u00e9m, frustrado. Fechou o caderno, guardou na mochila. Pegou a caneta, enfiou no bolso da cal\u00e7a enquanto caminhava at\u00e9 uma pilha de materiais no canto, tentando pensar em algo, qualquer coisa que pudesse ajudar.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3o ainda estava no bolso quando o cadar\u00e7o direito do t\u00eanis surrado soltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pisou nele, trope\u00e7ou, puxou a m\u00e3o r\u00e1pido do bolso pra se agarrar numa viga de ferro e n\u00e3o cair.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento brusco fez o isqueiro amarelo saltar pra fora. Voou, caiu no ch\u00e3o de concreto com tilintar met\u00e1lico e come\u00e7ou a rolar.<\/p>\n\n\n\n<p>O barulho ecoou no galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro rolou pelo ch\u00e3o limpo, direto em dire\u00e7\u00e3o ao centro, direto na dire\u00e7\u00e3o do rob\u00f4. Parou a menos de um metro da base cil\u00edndrica, bem no campo de vis\u00e3o do scanner.<\/p>\n\n\n\n<p>O scanner vermelho travou no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio por dois segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 parou de trabalhar. Completamente. Quatro bra\u00e7os se retra\u00edram, estrutura pela metade abandonada. Sil\u00eancio absoluto exceto pelo zumbido baixo dos sensores.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas segundos analisando o objeto amarelo no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Objeto novo. Material desconhecido. Protocolo exigia an\u00e1lise completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Um bra\u00e7o mec\u00e2nico desceu com precis\u00e3o delicada. Pegou o isqueiro. Levantou na altura dos sensores. O scanner vermelho girou ao redor do objeto, medindo cada detalhe, cada \u00e2ngulo, cada dimens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Processou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota e o pai ficaram parados, observando.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 terminou a an\u00e1lise. E ent\u00e3o, num movimento quase gentil, rodou o corpo na dire\u00e7\u00e3o de Jota, estendeu o bra\u00e7o e ofereceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou, e ent\u00e3o pegou.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 voltou pra estrutura abandonada e recome\u00e7ou o trabalho. Como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guardou o isqueiro no bolso. Olhou pro pai, cora\u00e7\u00e3o acelerado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele parou. Completamente. Por um isqueiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo assentiu, entendendo aonde o filho queria chegar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque n\u00e3o conhecia o objeto. Protocolo exigiu an\u00e1lise antes de qualquer a\u00e7\u00e3o. Nem limpou, nem removeu. Analisou primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E se eu der centenas de objetos pequenos que ele nunca viu? \u2014 Jota pensou alto, voz baixa mas urgente. \u2014 Material completamente novo. Ele vai ficar preso catalogando tudo antes de conseguir limpar ou organizar. Vai travar nisso.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai franziu a testa, processando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ideia interessante, mas tudo aqui ele j\u00e1 catalogou.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo pensou por alguns segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tem um c\u00f4modo no fundo. Onde a gente guardou os primeiros testes. \u2014 Ele apontou pra porta lateral nos fundos do galp\u00e3o. \u2014 Mindstorm, aqueles kits da Lego. Foi o que usei pra testar o conceito antes de construir esse aqui. Deve ter centenas de pe\u00e7as l\u00e1, desmontadas, misturadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele j\u00e1 viu essas pe\u00e7as? J\u00e1 catalogou?<\/p>\n\n\n\n<p>O pai balan\u00e7ou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acredito que n\u00e3o. O Mindstorm foi guardado antes mesmo dele ser ligado pela primeira vez. Material completamente isolado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assentiu, esperan\u00e7oso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o pode funcionar. Vamos tentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pai e filho caminharam at\u00e9 o c\u00f4modo lateral. Porta de metal enferrujada, ma\u00e7aneta dura. O senhor Geraldo girou com esfor\u00e7o, empurrou. A porta abriu com rangido.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro, prateleiras met\u00e1licas empoeiradas. Caixas de papel\u00e3o empilhadas. Ferramentas antigas. Procuraram por alguns minutos entre os materiais antigos at\u00e9 finalmente encontrar, bem no fundo, v\u00e1rias caixas de Lego Mindstorm. Robozinho desmontado, pe\u00e7as espalhadas. Outras ainda fechadas. E ao lado, sacos pl\u00e1sticos transparentes cheios de pe\u00e7as min\u00fasculas. T\u00e9cnicas, engrenagens, conectores, blocos 1&#215;1, 1&#215;2, 0,5&#215;0,5.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se aproximou, pegou um dos sacos. Abriu. Centenas de pecinhas rolaram na palma da m\u00e3o. Coloridas, leves, insignificantes. Mas pro rob\u00f4 l\u00e1 fora, cada uma era um objeto novo que precisava ser medido, analisado, registrado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quantas pe\u00e7as tem aqui? \u2014 perguntou Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai olhou as caixas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Muitas, milhares na verdade. Nunca separei depois dos testes. Ficou tudo misturado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou a caixa maior, cheia de pe\u00e7as t\u00e9cnicas min\u00fasculas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos ver o que acontece. Se ele realmente nunca viu esse material&#8230; talvez crie o tempo que precisamos.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai assentiu, tenso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que voc\u00ea vai fazer?<\/p>\n\n\n\n<p>A caixa, depois o rob\u00f4 atrav\u00e9s da porta aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou espalhar as pe\u00e7as pelo ch\u00e3o. Como se estivesse perdendo sem querer, igual o isqueiro. Criar v\u00e1rios focos ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai olhou pra caixa, depois pro rob\u00f4 trabalhando. Processou a ideia por dois segundos. Os olhos se iluminaram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele vai tentar catalogar tudo ao mesmo tempo. Multi-tarefas ativado, quatro bra\u00e7os trabalhando em paralelo&#8230; \u2014 O senhor Geraldo calculou mentalmente. \u2014 Tr\u00eas segundos por pe\u00e7a, quatro bra\u00e7os simult\u00e2neos, mas com centenas de objetos novos&#8230; o buffer de mem\u00f3ria vai sobrecarregar antes de conseguir organizar. \u2014 Ele pausou, olhou pro painel de controle. \u2014 Ele bloqueou o acesso ao bot\u00e3o de emerg\u00eancia. Soldou pe\u00e7as por cima, dificultou a abertura. Com o p\u00e9 de cabra consigo for\u00e7ar o acesso, mas vou precisar de tempo sem ele reagir.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quantas pe\u00e7as eu preciso espalhar?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Todas. O m\u00e1ximo poss\u00edvel. \u2014 O pai gesticulou pra caixa. \u2014 Focos espalhados, for\u00e7a ele a se mover. N\u00e3o sabemos exatamente quanto tempo vai dar, ent\u00e3o quanto mais, melhor. Quando eu ver que ele t\u00e1 completamente sobrecarregado, vou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo pegou um p\u00e9 de cabra. J\u00e1 tinha analisado que com aquilo conseguiria ter acesso ao bot\u00e3o ou ent\u00e3o quebrar a prote\u00e7\u00e3o e pressionar o bot\u00e3o de desligamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota voltou pro galp\u00e3o principal com a caixa de Lego Mindstorm nas m\u00e3os. O pai ficou perto do painel de controle, observando, tenso, esperando o momento certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota caminhou devagar em dire\u00e7\u00e3o ao rob\u00f4. Cada passo calculado. A criatura continuava trabalhando, scanner girando, bra\u00e7os montando estruturas.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou a tr\u00eas metros de dist\u00e2ncia. Respirou fundo. Come\u00e7ou a caminhar de lado, como se estivesse s\u00f3 observando o trabalho do rob\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixou &#8220;cair&#8221; uma pe\u00e7a sem querer.<\/p>\n\n\n\n<p>Tilintar met\u00e1lico.<\/p>\n\n\n\n<p>O scanner vermelho travou. Focou na pe\u00e7a amarela no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 parou. Quatro bra\u00e7os se retra\u00edram. Virou na dire\u00e7\u00e3o do objeto novo. Um bra\u00e7o desceu, pegou a pe\u00e7a, analisou por dois segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Registrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o estendeu o bra\u00e7o na dire\u00e7\u00e3o de Jota, oferecendo a pe\u00e7a de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o pegou. Ao inv\u00e9s disso, deixou cair outra pe\u00e7a. Vermelha. Mais longe.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 pausou. Olhou pra pe\u00e7a na m\u00e3o. Olhou pra pe\u00e7a nova no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Protocolo em conflito: devolver a primeira ou catalogar a segunda?<\/p>\n\n\n\n<p>Escolheu catalogar. Depositou a primeira pe\u00e7a no ch\u00e3o, foi buscar a segunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota come\u00e7ou a andar pra tr\u00e1s. Devagar. Deixando cair pe\u00e7as enquanto recuava. N\u00e3o uma trilha reta, mas focos espalhados. Uma pe\u00e7a aqui. Tr\u00eas ali. Cinco mais adiante. Criando problemas simult\u00e2neos.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 tentava acompanhar. Multi-tarefas ativado: um bra\u00e7o analisava pe\u00e7a azul, outro media vermelha, terceiro organizava amarelas j\u00e1 registradas, quarto buscava verde nova que tinha ca\u00eddo. Pegava uma, processava, via tr\u00eas novas no ch\u00e3o, largava a primeira, ia pras outras. Medir. Tentar devolver. Mais pe\u00e7as ca\u00edam.<\/p>\n\n\n\n<p>O scanner girava mais r\u00e1pido. Tr\u00eas voltas por segundo. Cinco. Dez.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota continuou recuando, criando focos de pe\u00e7as min\u00fasculas pelo ch\u00e3o. Azul, amarela, vermelha, verde, preta. Centenas delas espalhando como confete t\u00e9cnico. O rob\u00f4 seguia os focos, tentando catalogar tudo, bra\u00e7os pegando, medindo, soltando, pegando de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobrecarga.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota chegou perto da parede lateral. Virou a caixa inteira, despejando o conte\u00fado num monte colorido.<\/p>\n\n\n\n<p>Centenas de pe\u00e7as rolando, espalhando, misturando.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 parou no meio do galp\u00e3o. Scanner travado nos m\u00faltiplos focos de objetos novos. Calculando. Centenas de pe\u00e7as. Tamanhos variados. Posi\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias. Todas desconhecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Protocolo exigia analisar TUDO antes de qualquer a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os quatro bra\u00e7os come\u00e7aram a trabalhar freneticamente. Pegava uma pe\u00e7a, media, colocava numa pilha organizada por cor. Pegava outra. E outra. E outra.<\/p>\n\n\n\n<p>Clique-clique-clique-clique.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais r\u00e1pido. Mais obsessivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ignorando tudo mais.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo observava do painel de controle. Viu o rob\u00f4 completamente absorvido, quatro bra\u00e7os trabalhando freneticamente, scanner girando mas sem alertas de amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Era agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Preparou o p\u00e9 de cabra.<\/p>\n\n\n\n<p>O scanner continuou girando, varrendo o galp\u00e3o, mas os bra\u00e7os do rob\u00f4 estavam completamente focados nas pe\u00e7as. Catalogar. Organizar. Devolver (pra quem? N\u00e3o importa, catalogar primeiro).<\/p>\n\n\n\n<p>O pai conseguiu acessar o painel.<\/p>\n\n\n\n<p>O scanner passou por ele.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o travou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o alertou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota viu o pai trabalhar e conseguir o acesso adequado, espalhando mais pe\u00e7as, mantendo o rob\u00f4 ocupado. Soltou o ar, sorrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Estava funcionando.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo teve um pouco de dificuldade, mas finalmente conseguiu encaixar o p\u00e9 de cabra e usou toda a for\u00e7a para quebrar o lacre e acionar o bot\u00e3o de desligamento de emerg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O rob\u00f4 parou de clicar. O scanner vermelho se apagou. Os quatro bra\u00e7os se retra\u00edram. Desligamento for\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente quieto.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai ficou olhando a criatura que tinha ajudado a criar, agora domada de novo. Expirou devagar, passou a m\u00e3o no rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o ficou em sil\u00eancio. Sil\u00eancio completo. Sem cliques, sem scanner girando, sem bra\u00e7os trabalhando. S\u00f3 o zumbido baixo das luzes fluorescentes e a respira\u00e7\u00e3o de pai e filho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota caminhou at\u00e9 onde o pai estava, olhou pro rob\u00f4 desligado. Im\u00f3vel. Inofensivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Conseguiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo assentiu, cansado mas aliviado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente conseguiu. \u2014 Ele olhou pro filho. \u2014 Sem voc\u00ea criar essa distra\u00e7\u00e3o&#8230; eu nunca teria o tempo necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu de ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sem o senhor desligar o rob\u00f4, espalhar pe\u00e7as n\u00e3o adiantaria nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Pai e filho ficaram ali por alguns minutos. Observando o rob\u00f4 silencioso. As pe\u00e7as de Lego Mindstorm ainda espalhadas pelo ch\u00e3o. O galp\u00e3o finalmente em paz.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 do Posto Esso ainda brilhava levemente dentro da mochila laranja. Jota pegou o caderno, abriu numa p\u00e1gina limpa e anotou: &#8220;Distra\u00e7\u00e3o funciona. Material pequeno &gt; Material grande. Protocolo pode ser manipulado. Mindstorm derrotou a criatura.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo olhou pro caderno, viu as anota\u00e7\u00f5es, sorriu de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sua l\u00f3gica \u00e9 interessante. E ir\u00f4nico tamb\u00e9m. O Mindstorm que ajudou a criar o problema acabou resolvendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sou s\u00f3 mais um rob\u00f4 descontrolado na fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai riu. Riso baixo, mas genu\u00edno.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor Geraldo olhou pro filho, express\u00e3o s\u00e9ria de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Obrigado \u2014 disse, baixo. \u2014 Sem voc\u00ea, eu nunca teria conseguido. A distra\u00e7\u00e3o&#8230; foi a \u00fanica forma de acessar o painel sem ele reagir.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu de ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sem o senhor desligar o rob\u00f4, espalhar pe\u00e7as n\u00e3o adiantaria nada.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai assentiu. Ficaram ali por mais alguns minutos, em sil\u00eancio confort\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou a mochila laranja, guardou o caderno marrom (o \u00edm\u00e3 ainda brilhava, mas mais fraco agora), jogou a al\u00e7a no ombro e caminhou at\u00e9 a porta. O pai seguiu atr\u00e1s, olhando o galp\u00e3o uma \u00faltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p>As estruturas continuavam l\u00e1. Constru\u00e7\u00f5es que ningu\u00e9m tinha pedido, mas que existiam mesmo assim. Testemunho silencioso de protocolo inflex\u00edvel e obsess\u00e3o mec\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas agora, sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Respir\u00e1vel. Real. Humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edram do galp\u00e3o. A porta deslizou e fechou atr\u00e1s deles. O Gol Bolinha Cinza Urban esperava no mesmo lugar, fiel como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Entraram. Jota ligou o motor, o 1.0 16v tossiu e pegou. O pai ajeitou o colete, olhou pela janela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Obrigado \u2014 disse, baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pelo qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por me dar a chance de consertar o que tinha criado. Sozinho eu n\u00e3o teria conseguido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea que resolveu. Eu s\u00f3 criei a abertura.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edram devagar do estacionamento. Jota dirigia em sil\u00eancio. O pai olhava pela janela lateral.<\/p>\n\n\n\n<p>A camiseta regata vinho grudava nas costas de Jota. O t\u00eanis surrado descansava no pedal, cadar\u00e7o direito j\u00e1 come\u00e7ando a soltar de novo. O isqueiro amarelo no bolso ainda estava morno. A mochila laranja no banco de tr\u00e1s guardava o caderno marrom com o \u00edm\u00e3 do Posto Esso que j\u00e1 n\u00e3o brilhava mais, mas ainda carregava o calor da conex\u00e3o familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguiram pelo contorno norte de volta para casa. Jota dirigia em sil\u00eancio. O pai olhava pela janela, vendo a cidade passar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pr\u00e9dios, postes, fios el\u00e9tricos, luzes acendendo na tarde cinzenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Sistemas. Protocolos. Ordem constru\u00edda por humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas sempre com brechas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014 T\u00e1 pronto? \u2014 perguntou Jota, olhando pro pai. O senhor Geraldo suspirou fundo, olhos fixos no galp\u00e3o industrial \u00e0 frente. \u2014 N\u00e3o. Mas precisamos entrar mesmo assim. \u2014 Ele olhou pro galp\u00e3o com express\u00e3o tensa. \u2014 Cada hora que passa ele fica mais imprevis\u00edvel. 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