{"id":1012,"date":"2026-02-17T00:15:00","date_gmt":"2026-02-17T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1012"},"modified":"2026-03-04T22:05:11","modified_gmt":"2026-03-05T01:05:11","slug":"o-vao","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/o-vao\/","title":{"rendered":"O V\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>O pr\u00e9dio \u00e9 um esqueleto. Concreto nu, vergalh\u00f5es expostos como costelas de criatura morta h\u00e1 muito tempo. As escadas descem em espiral apertada, metal enferrujado sem corrim\u00e3o, degraus que rangem sob o peso de dezenas de pessoas correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m esperava. Ningu\u00e9m estava preparado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desce no meio da massa. Ombros batendo em ombros desconhecidos. Respira\u00e7\u00e3o pesada ecoando nas paredes de concreto. A mochila laranja nas costas pesa mais do que deveria, batendo contra a lombar a cada passo apressado. A camiseta regata vinho gruda no peito de suor frio.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar cheira a ferrugem e medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m grita. Ningu\u00e9m fala. S\u00f3 o barulho dos p\u00e9s batendo no metal, descendo, sempre descendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sente o poder dormindo nas pernas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sempre esteve ali. Desde que consegue lembrar. Latejando baixo nos m\u00fasculos da panturrilha, subindo at\u00e9 a coxa, esperando. Nunca ativou. Nunca precisou. Guardou. Para emerg\u00eancia. Para o dia em que n\u00e3o tivesse outra escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje pode ser esse dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 em cima, v\u00e1rios andares acima, algu\u00e9m para.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sente antes de ver. A massa de corpos desacelerando por um segundo, o fluxo trope\u00e7ando. Ele olha pra cima por cima do ombro de uma mulher de cabelo curto.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem de terno preto est\u00e1 parado no patamar.<\/p>\n\n\n\n<p>Alto. Magro demais. Ombros quadrados que n\u00e3o se mexem quando ele respira. O terno \u00e9 impec\u00e1vel, preto fosco, gravata vermelha fina como l\u00e2mina. Mas os olhos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Os olhos brilham vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o refletem luz. Emitem.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois pontos laser fixos, varrendo a escadaria de cima a baixo, procurando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota vira a cabe\u00e7a r\u00e1pido, continua descendo.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de terno persegue os diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ca\u00e7ada antiga. Sistem\u00e1tica. Jota n\u00e3o sabe de onde vem, n\u00e3o sabe o porqu\u00ea, mas sabe que \u00e9 real. Sabe que o homem ca\u00e7a. Verifica. Procura. Sabe que quem resiste morre. Quem cede \u00e9 levado. Sabe que se o homem identificar quem ele \u00e9, o que ele \u00e9, vai arrancar Jota do meio da multid\u00e3o e fazer algo pior que matar.<\/p>\n\n\n\n<p>E hoje ele apareceu aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele n\u00e3o tem certeza. Ainda n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitas pessoas correndo. Rostos borrados. Corpos indistintos. A &#8220;ra\u00e7a&#8221; n\u00e3o aparece na pele, no cabelo, nos olhos. \u00c9 algo no ritmo. Pulsa\u00e7\u00e3o. Frequ\u00eancia do corpo. N\u00e3o \u00e9 algo que se v\u00ea. \u00c9 algo que se detecta. E o homem de terno ainda n\u00e3o conseguiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota enfia a m\u00e3o no bolso da cal\u00e7a. Os dedos encontram o isqueiro amarelo. Polegar no gatilho. Acende. Apaga. Acende. Apaga. Chama pequena dan\u00e7ando no escuro. Tic nervoso que ele nem percebe mais.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher de cabelo curto o ultrapassa e trope\u00e7a. Jota segura o bra\u00e7o dela antes que caia. Ela olha pra tr\u00e1s, olhos arregalados, agradece sem som. Continua descendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quantos andares j\u00e1 desceram? Dez? Vinte? As escadas n\u00e3o terminam. Continuam girando, c\u00edrculos infinitos cortando o centro do pr\u00e9dio vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o algu\u00e9m grita:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O V\u00c3O!<\/p>\n\n\n\n<p>A palavra atravessa a escadaria como choque el\u00e9trico. Corpos param. Hesitam. O fluxo emperra.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas andares abaixo, a escada simplesmente&#8230; para.<\/p>\n\n\n\n<p>Um metro de escurid\u00e3o. Pura. Absoluta. Como se algu\u00e9m tivesse apagado a realidade naquele ponto. A luz n\u00e3o chega ali. \u00c9 sugada.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado, a escada recome\u00e7a. Perfeita. Intacta.<\/p>\n\n\n\n<p>O v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sente o est\u00f4mago gelar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sabe o que acontece no v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo mundo sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de terno criou o v\u00e3o. Ali. Agora. Um metro de escurid\u00e3o que suga luz. Checkpoint. Ao atravessar, algo acontece. Se voc\u00ea n\u00e3o for da ra\u00e7a, passa. A escurid\u00e3o continua. Se for, brilha. Marca azul queimando no ar por tr\u00eas segundos. Resistindo. Imposs\u00edvel esconder.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quem n\u00e3o sabe. Mesmo quem nunca soube.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer um da ra\u00e7a que passar pelo v\u00e3o ser\u00e1 identificado.<\/p>\n\n\n\n<p>E o homem de terno n\u00e3o pode identificar sem isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele precisa que cruzem. Precisa que a marca queime no ar. Sen\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 corpos indistintos correndo no escuro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que ele desce devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pastoreando.<\/p>\n\n\n\n<p>A massa de pessoas emperra no patamar antes do v\u00e3o. Ningu\u00e9m quer ser o primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m quer atravessar aquela escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m quer descobrir se vai brilhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas recusar \u00e9 pior. Quem n\u00e3o passar por vontade pr\u00f3pria vai ser levado. E a prova vai ser criada de qualquer jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acende o isqueiro de novo. Segura a chama acesa. Olha a luz amarela tremer.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensa r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que algu\u00e9m se oferece.<\/p>\n\n\n\n<p>Oito pulsos familiares vibram no meio da multid\u00e3o. Oito da ra\u00e7a. Ele reconhece a frequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns sabem. Outros talvez ainda n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se todos passarem ao mesmo tempo, as marcas v\u00e3o se sobrepor. Borr\u00e3o. O scanner n\u00e3o consegue isolar. Mas o homem vai estar esperando do outro lado. Vai pegar todos os que ficarem presos no patamar hesitando.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se algu\u00e9m se mostrar primeiro&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Se algu\u00e9m chamar aten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros ganham segundos. Talvez minutos. Tempo pra dispersar. Pra correr em dire\u00e7\u00f5es diferentes. Pra sumir.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fecha o isqueiro. Guarda no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurra os corpos na frente dele. Abre caminho at\u00e9 a beira do v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O v\u00e3o \u00e9 pior de perto. Escurid\u00e3o que suga tudo. Do outro lado, a escada recome\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Um metro. S\u00f3 isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra cima.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de terno est\u00e1 cinco andares acima. Cabe\u00e7a inclinada. Observando. Os olhos vermelhos piscam uma vez. Vermelho mais intenso. Vermelho cir\u00fargico.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respira fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe que n\u00e3o vai funcionar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe que o homem vai pegar todos de qualquer jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se n\u00e3o tentar, vai carregar os oito pro resto da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Grita:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 SOU EU! AQUI!<\/p>\n\n\n\n<p>Sua voz explode na escadaria. Ecos batem nas paredes de concreto, multiplicam, voltam distorcidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de terno vira a cabe\u00e7a devagar. Foco total. Os olhos travam em Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele sorri.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 sorriso humano. \u00c9 desenho de sorriso. L\u00e1bios finos se abrindo em \u00e2ngulo errado, dentes brancos demais, maxilar que se alarga um cent\u00edmetro al\u00e9m do natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele desce dois degraus de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota salta.<\/p>\n\n\n\n<p>E ativa o poder.<\/p>\n\n\n\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de rasgamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Os m\u00fasculos da panturrilha explodem. N\u00e3o em dor. Em for\u00e7a. Fibras se multiplicam em milissegundos, se reorganizam, se comprimem. Os ossos da t\u00edbia rangem, engrossam, viram mola biol\u00f3gica. A articula\u00e7\u00e3o do joelho trava, destrava, trava de novo em \u00e2ngulo imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota cruza o v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um metro de escurid\u00e3o absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo voa.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja chicoteia nas costas. O vento bate no rosto. O est\u00f4mago fica suspenso no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele aterrissa do outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os p\u00e9s batem na plataforma de metal com impacto que sacode o corpo inteiro. A marca n\u00e3o queima. O poder suprime. Anula a frequ\u00eancia. Esconde. Poucos conseguem. Menos ainda sobrevivem depois. As pernas absorvem, dobram, estendem de novo. O poder late nas coxas, pedindo mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o para.<\/p>\n\n\n\n<p>Desce.<\/p>\n\n\n\n<p>Passa por corpos que j\u00e1 cruzaram. Gente fugindo, dispersando, querendo dist\u00e2ncia do checkpoint.<\/p>\n\n\n\n<p>A cada passo, as pernas impulsionam.<\/p>\n\n\n\n<p>Salto. Salto. Salto.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas degraus. Cinco. Dez por vez.<\/p>\n\n\n\n<p>A escadaria vira borr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Acima dele, o homem de terno cruza o v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pula.<\/p>\n\n\n\n<p>Simplesmente caminha.<\/p>\n\n\n\n<p>Os p\u00e9s pisam no ar \u2014 cabos invis\u00edveis? gravidade alterada? \u2014 como se houvesse ch\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. Tr\u00eas passos no v\u00e1cuo, postura ereta, m\u00e3os ainda nos bolsos. Do outro lado, ele pousa sem som.<\/p>\n\n\n\n<p>E come\u00e7a a descer.<\/p>\n\n\n\n<p>R\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>R\u00e1pido demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os joelhos dobram pra tr\u00e1s. Os cotovelos articulam no sentido errado. O corpo desce a escada como aranha gigante, membros batendo no metal em ritmo sincopado, org\u00e2nico, errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra tr\u00e1s e quase trope\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 em cima, muitos andares acima agora, na beira do v\u00e3o, a multid\u00e3o aproveita. Come\u00e7am a atravessar. Um. Dois. Cinco. Dez.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns s\u00e3o da ra\u00e7a. A marca aparece \u2014 Jota v\u00ea de relance, brilho azul cortando a escurid\u00e3o, queimando no ar por tr\u00eas segundos antes de apagar. Marcas se sobrep\u00f5em. Borr\u00e3o azul. O scanner registra quantidade, mas n\u00e3o identifica indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de terno v\u00ea tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele para.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio da descida. Vira a cabe\u00e7a cento e oitenta graus sem mover o corpo. Olha pra cima. Conta. Registra cada marca que consegue isolar.<\/p>\n\n\n\n<p>E Jota entende tarde demais:<\/p>\n\n\n\n<p>O monstro n\u00e3o vai se contentar s\u00f3 com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Vai pegar todos que conseguir rastrear.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele percebeu a estrat\u00e9gia. Entendeu o sacrif\u00edcio. E n\u00e3o se importa.<\/p>\n\n\n\n<p>Vai ca\u00e7ar Jota primeiro. Depois volta. Pega os que ficaram n\u00edtidos no borr\u00e3o. Um por um. Met\u00f3dico. Sistem\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrat\u00e9gia s\u00f3 comprou segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acelera.<\/p>\n\n\n\n<p>O poder queima agora. M\u00fasculos rasgando, tend\u00f5es esticando al\u00e9m do limite. As pernas pulam cinco degraus. Dez. Quinze por salto.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja bate nas costas com for\u00e7a que vai deixar hematoma. Dentro, o caderno de capa dura marrom sacode, p\u00e1ginas se amassando.<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro escapa do bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota v\u00ea de relance. Luz amarela girando no ar, caindo, batendo nos degraus abaixo, acendendo sozinho com o impacto. Chama pequena dan\u00e7ando no escuro antes de apagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o para pra pegar.<\/p>\n\n\n\n<p>Continua.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de terno vem atr\u00e1s. Mais perto agora. Jota ouve a respira\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o \u00e9 respira\u00e7\u00e3o, \u00e9 som sintetizado, ar comprimido saindo de algo mec\u00e2nico dentro do peito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Boa tentativa \u2014 a voz diz.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sai da boca. Sai do corpo inteiro. Vibra\u00e7\u00e3o grave que atravessa o ar como baixo de subwoofer.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo lance de escadas surge abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e9rreo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta de metal no fim. Luz fria vazando por baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota salta o lance inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez metros de queda vertical.<\/p>\n\n\n\n<p>O poder falha no \u00faltimo segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>As pernas tremem. Os m\u00fasculos n\u00e3o respondem. A mola biol\u00f3gica desliga. Fibras se rompem. Tend\u00f5es estouram. O joelho direito cede pra dentro num \u00e2ngulo errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele aterrissa de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o impacto sobe pela coluna como explos\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo apaga.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a vis\u00e3o volta \u2014 dois segundos? tr\u00eas? \u2014 Jota t\u00e1 de joelhos. N\u00e3o lembra de cair. Se levanta devagar, cambaleando. Gosto de ferro na boca. A vis\u00e3o ainda t\u00e1 borrada nas bordas. Dor aguda na panturrilha direita \u2014 algo rompeu de verdade agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segura a parede. Respira fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de terno pousa atr\u00e1s dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem som.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem impacto.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se pesasse nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se vira devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>A escadaria inteira acima est\u00e1 vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros fugiram. Dispersaram. Ganharam os segundos que Jota comprou com o corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele fica ali.<\/p>\n\n\n\n<p>De p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja pesada nas costas. A camiseta regata vinho encharcada de suor. As pernas inst\u00e1veis, poder esgotado, m\u00fasculos rasgados latejando.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de terno avan\u00e7a um passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Os olhos vermelhos brilham mais forte. Ele inclina a cabe\u00e7a, estudando Jota como se fosse inseto pregado em quadro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea salvou&#8230; \u2014 a voz sintetizada faz pausa, processando \u2014 &#8230;oito indiv\u00edduos da sua ra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 pergunta. \u00c9 afirma\u00e7\u00e3o. Relat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O sorriso se alarga um mil\u00edmetro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Estrat\u00e9gia: sacrif\u00edcio individual para dispers\u00e3o coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro passo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Efic\u00e1cia: tempor\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Previs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dedos do homem saem do bolso. Longos demais. Articulados demais. Cinco falanges em cada dedo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Todos ser\u00e3o processados em no m\u00e1ximo quarenta e oito horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o responde. N\u00e3o adianta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ajusta a mochila no ombro. Sente o peso do caderno l\u00e1 dentro. A m\u00e3o procura o isqueiro e s\u00f3 encontra tecido.<\/p>\n\n\n\n<p>O poder ainda late fraco nas pernas. M\u00fasculo se contorcendo, tentando se regenerar. Mas n\u00e3o tem mais escada pra descer.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tem mais pra onde correr.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de terno para a um metro de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea ser\u00e1 o primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele inclina a cabe\u00e7a. Observando. Como se quisesse ver o que vem agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respira fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tira a mochila laranja das costas. Abre o z\u00edper devagar. As m\u00e3os ainda inst\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Pega o caderno de capa dura marrom. Abre numa p\u00e1gina em branco. Encontra a caneta no bolso lateral da mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>Escreve. A letra sai tremida, irregular.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7a uma frase. A m\u00e3o trava. A caneta fica suspensa sobre o papel. N\u00e3o tem o que dizer que o corpo j\u00e1 n\u00e3o tenha dito.<\/p>\n\n\n\n<p>Fecha o caderno. Guarda na mochila. Fecha o z\u00edper.<\/p>\n\n\n\n<p>Coloca a mochila nas costas de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajusta as al\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Encara os olhos vermelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>O joelho direito cede. Ele n\u00e3o cai.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dedos do homem tocam o ombro de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>E o resto \u00e9 queda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pr\u00e9dio \u00e9 um esqueleto. Concreto nu, vergalh\u00f5es expostos como costelas de criatura morta h\u00e1 muito tempo. As escadas descem em espiral apertada, metal enferrujado sem corrim\u00e3o, degraus que rangem sob o peso de dezenas de pessoas correndo. Ningu\u00e9m esperava. Ningu\u00e9m estava preparado. Jota desce no meio da massa. Ombros batendo em ombros desconhecidos. 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