{"id":1017,"date":"2026-02-22T00:15:00","date_gmt":"2026-02-22T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1017"},"modified":"2026-03-04T22:09:57","modified_gmt":"2026-03-05T01:09:57","slug":"chocolate-vermelho-nos-tanques","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/chocolate-vermelho-nos-tanques\/","title":{"rendered":"Chocolate Vermelho nos Tanques"},"content":{"rendered":"\n<p>A mesa de a\u00e7o se estendia por metros, fria como cad\u00e1ver, coberta de mapas militares que ningu\u00e9m consultava e caixas de muni\u00e7\u00e3o que serviam mais de apoio para copos de caf\u00e9 do que para qualquer coisa b\u00e9lica. Tr\u00eas chefes ocupavam as cadeiras do fundo, fumando devagar, vozes graves que ecoavam no galp\u00e3o vazio. Luz fria ca\u00eda de lumin\u00e1rias penduradas por fios grossos, criando sombras duras nos rostos.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o ficava onde Curitiba terminava. Ou come\u00e7ava. Jota nunca tinha certeza de nada ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele estava de p\u00e9, camiseta regata vinho colada no corpo pelo suor, mochila laranja aos p\u00e9s, caderno marrom aberto na m\u00e3o esquerda. Anotava tudo. Sempre anotava. Mesmo quando n\u00e3o fazia sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>E essa miss\u00e3o definitivamente n\u00e3o fazia sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cinco tanques alinhados l\u00e1 fora \u2014 disse o chefe do meio, barba grisalha, cicatriz atravessando a sobrancelha. \u2014 Voc\u00ea cuida deles. Sabe disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assentiu. Cuidava. N\u00e3o sabia exatamente como nem por qu\u00ea, mas cuidava. Os cinco blindados estavam enfileirados no p\u00e1tio de areia, canos apontados para o horizonte vazio, motor desligado, esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A miss\u00e3o \u00e9 simples \u2014 continuou o chefe. \u2014 Levar chocolates at\u00e9 o outro lado da linha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou de escrever. Olhou para cima.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Chocolates?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Chocolates. \u2014 O chefe deu uma tragada longa, soltou a fuma\u00e7a devagar. \u2014 Vital.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota escreveu no caderno: &#8220;Miss\u00e3o: chocolate. Vital???&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O chefe da direita, mais novo, cabelo raspado, jogou quatro barras grossas de chocolate embrulhadas em papel dourado sobre a mesa. O barulho foi pesado, s\u00f3lido. N\u00e3o parecia chocolate. Parecia tijolo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quatro pessoas. Cada um carrega uma barra. \u2014 Ele apontou para a porta. \u2014 Saem em dez minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>O chefe da esquerda, mais velho, olhos fundos, acrescentou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eles v\u00e3o te reconhecer l\u00e1. N\u00e3o pergunta por qu\u00ea. S\u00f3 aceita.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou o caderno, enfiou na mochila laranja junto com o isqueiro amarelo que ele tinha usado pra acender os cigarros dos tr\u00eas chefes. Tic nervoso. Sempre oferecia fogo. Sempre acendia na primeira. O isqueiro sobrevivia a tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edram em quatro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota, Beag\u00e1, Rand Oliveira, e Little Boobs.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 era alto, ombros largos, uniforme c\u00e1qui justo no peito. Rand Oliveira era magro, mais baixo, \u00f3culos escuros mesmo sem sol, jeito de quem sabia de tudo mas n\u00e3o dizia nada. Os dois pareciam saber exatamente o que estavam fazendo, o que era mais do que Jota podia dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs, tatuagens expostas no bra\u00e7o, cabelo ruivo amarrado no alto, body preto justo, e aquele sorriso de quem achava tudo aquilo a coisa mais engra\u00e7ada do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00e9rio que a miss\u00e3o \u00e9 chocolate? \u2014 ela perguntou, pegando uma das barras. \u2014 Tipo, chocolate de verdade?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Parece. \u2014 Jota segurava a pr\u00f3pria barra. Pesava mais de um quilo, f\u00e1cil. O papel dourado j\u00e1 come\u00e7ava a amolecer no calor.<\/p>\n\n\n\n<p>O deserto ao redor era plano, sem fim, areia cor de osso, sol caindo vertical. Cada passo afundava. O calor subia do ch\u00e3o em ondas vis\u00edveis, distorcendo a vis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E o chocolate derretia.<\/p>\n\n\n\n<p>Devagar no come\u00e7o. Depois mais r\u00e1pido. O papel dourado ficou encharcado, pegajoso. Jota rasgou a beirada. A massa dentro era vermelha. N\u00e3o marrom. Vermelha como sangue doce.<\/p>\n\n\n\n<p>Little soltou uma risada, lambuzada at\u00e9 o cotovelo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso \u00e9 rid\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 miss\u00e3o vital \u2014 Jota respondeu, s\u00e9rio, mas sem conseguir segurar o sorriso.<\/p>\n\n\n\n<p>A guarita apareceu do nada. Estrutura de madeira podre, teto de zinco, cerca de arame farpado dos dois lados. E dentro, sentado numa cadeira que parecia prestes a desmoronar sob o peso, estava o homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro Costa.<\/p>\n\n\n\n<p>Danny Trejo, todo mundo chamava. Cicatrizes fundas cortando o rosto todo, olhos de pedra, bigode grosso. Macac\u00e3o azul surrado, cabelo desgrenhado, cigarro apagado pendurado no canto da boca. Bra\u00e7os cobertos de tatuagens desbotadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro se levantou devagar, m\u00e3o enorme estendida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00eas que pegaram o chocolate. \u2014 A voz saiu rouca, arrastada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou. Beag\u00e1 e Rand pararam. Little continuou andando, passou direto por ele, acenando com a barra derretida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oi, tio! T\u00e1 calor, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro a seguiu com os olhos, mas n\u00e3o se moveu. Voltou a olhar para Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O controle.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu um passo \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desculpe?<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro n\u00e3o respondeu. S\u00f3 esperou, m\u00e3o estendida.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 deu um passo \u00e0 frente, voz baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deixa comigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 pegou algo do bolso de Jota \u2014 um papel, talvez \u2014 abriu e entregou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o movimento desafiava f\u00edsica e l\u00f3gica. Para Jota, Beag\u00e1 tinha enfiado a m\u00e3o em seu peito \u2014 que agora era feito de chocolate l\u00edquido, quente, pulsando \u2014 e virado o mundo do avesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o chocolate quente envolvendo o corpo todo, puxando para dentro, escurid\u00e3o pegajosa e doce, cheiro sufocante. N\u00e3o conseguia respirar. N\u00e3o conseguia pensar. S\u00f3 o doce sufocando, quente, descendo goela abaixo onde n\u00e3o deveria descer.<\/p>\n\n\n\n<p>Durou um segundo. Talvez menos.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegaram no ve\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<p>Piso met\u00e1lico. Cheiro de \u00f3leo queimado e metal aquecido. Interior de tanque. Little caiu ao lado dele, rindo, lambuzada de chocolate vermelho dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso foi INSANO!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se levantou, limpando o rosto com a camiseta regata vinho, que agora estava mais marrom-avermelhada que vinho. A mochila laranja tinha sobrevivido, ainda nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 e Rand j\u00e1 estavam l\u00e1, em p\u00e9, como se tivessem chegado horas antes. Beag\u00e1 apontou para a escotilha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bem-vindo ao outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>O campo de tanques era infinito.<\/p>\n\n\n\n<p>Dezenas. Talvez centenas. Metal enfileirado at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7ava, canos apontados para o c\u00e9u, motores desligados, esperando. E entre eles, gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Muita gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos olhando para Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro se aproximou correndo, uniforme sujo, rosto suado, sorriso largo demais. Olhos brilhando como se tivesse visto um santo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 COMANDANTE JOTA! \u2014 Ele quase trope\u00e7ou, parou a meio metro de dist\u00e2ncia, respira\u00e7\u00e3o ofegante. \u2014 Finalmente! A gente esperou tanto!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oi? \u2014 Olhou ao redor, procurando o comandante que eles esperavam. \u2014 Eu s\u00f3&#8230; cuido dos tanques.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros vieram. Dez. Vinte. Todos falando ao mesmo tempo, vozes sobrepostas, m\u00e3os estendidas querendo tocar nele, rostos iluminados por devo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fazia o menor sentido. Ou ser\u00e1 que eram somente os tr\u00eas multiplicados?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Comandante!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea voltou!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente sabia que ia voltar!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pode contar com a gente!<\/p>\n\n\n\n<p>Little deu uma cotovelada no bra\u00e7o dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, voc\u00ea \u00e9 tipo&#8230; o Jesus da multiplica\u00e7\u00e3o do chocolate?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. \u2014 Jota tentou recuar, mas os aliados continuavam chegando, cercando, esperando ordem. \u2014 Eu s\u00f3&#8230; trouxe chocolate?<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles, mais velho, cabelo branco, caiu de joelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Obrigado, Comandante. Obrigado por voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou para Beag\u00e1 e Rand. Beag\u00e1 deu de ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eles s\u00e3o assim mesmo. Vai acostumando.<\/p>\n\n\n\n<p>Os aliados come\u00e7aram a entrar nos tanques. Um por um. Ocupando posi\u00e7\u00f5es. Motores ligaram, ronco profundo que fazia o ch\u00e3o vibrar. Little subiu num deles, acenou l\u00e1 de cima.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem, Jota! Esse aqui tem ar-condicionado!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tinha. Mas ela riu mesmo assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois tanque, assim como o seu Gol Bolinha, n\u00e3o tinha ar-condicionado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foram.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ao sentar, se sentiu numa cama estreita, len\u00e7ol fino colado no corpo pelo suor. N\u00e3o era mais tanque, n\u00e3o era mais Gol. Reconheceu o teto: casa da Little, no Alto da XV, Curitiba. Quarto pequeno, p\u00f4ster de banda na parede, cheiro de incenso apagado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela estava virada para a parede, respira\u00e7\u00e3o lenta.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta rangeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha entrou. Porque claro que entrou. Rosquinha sempre entrava. Casaco molhado de chuva, cabelo bagun\u00e7ado, sorriso no rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ch\u00f4! Acorda! \u2014 Ele bateu palma duas vezes. \u2014 Vamos comprar lasanha, o mercado do Parolito fecha em vinte minutos!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se sentou na cama, confuso. Olhou para Little. Ela virou, meio acordada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00e9rio que voc\u00eas v\u00e3o comprar lasanha agora?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fome n\u00e3o espera, amor. \u2014 Rosquinha puxou Jota pelo bra\u00e7o. \u2014 Bora, Ch\u00f4!<\/p>\n\n\n\n<p>Desceram as escadas. Little veio atr\u00e1s, reclamando baixo, mas veio. Entraram no carro do Rosquinha, um Corsa velho que cheirava a cigarro e chiclete de menta. O r\u00e1dio tocava baixo, alguma m\u00fasica pop dos anos 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>Little sentou no banco de tr\u00e1s. E parou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gente. Que. Porra. \u00c9. Isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou.<\/p>\n\n\n\n<p>O banco traseiro estava cheio de caixas de chocolate. Vermelhas. Sem r\u00f3tulo. Sem marca. S\u00f3 um s\u00edmbolo pequeno estampado na embalagem: dois irm\u00e3os ca\u00e7adores, lado a lado, rifles nas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que chocolate feio \u2014 Little pegou uma caixa, cheirou. \u2014 Compra Lacta, vai.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha olhou pelo retrovisor, franzindo a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ch\u00f4, de onde saiu isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o sabia. S\u00f3 sabia que o chocolate estava l\u00e1. E que precisava chegar em algum lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada um provou um pouco do chocolate que ainda tinha ali, deram de ombros, n\u00e3o entenderam nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Depois a gente v\u00ea o que \u00e9 \u2014 Rosquinha disse, virando na Marechal Deodoro. \u2014 Agora \u00e9 lasanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o foi lasanha.<\/p>\n\n\n\n<p>O carro virou na esquina, e o horizonte mudou. O deserto voltou. Os tanques voltaram. Far\u00f3is acesos na dist\u00e2ncia, motores roncando, esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Little apontou pela janela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota. Olha.<\/p>\n\n\n\n<p>Os aliados estavam l\u00e1. Alinhados. Sorrisos largos. M\u00e3os acenando.<\/p>\n\n\n\n<p>O chocolate no banco traseiro come\u00e7ou a derreter. Escorria vermelho pelo estofado, pingava no ch\u00e3o do carro, cheiro doce e pesado invadindo tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu a mochila laranja. Caderno marrom, isqueiro amarelo, camiseta regata vinho extra (sempre tinha uma extra). Tudo ainda l\u00e1. Tudo real.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha estacionou na frente da mesa de a\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas chefes estavam l\u00e1. Fumando. Esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota, Rosquinha e Little carregaram as caixas de chocolate vermelho. Little reclamou o tempo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso \u00e9 trabalho escravo disfar\u00e7ado de miss\u00e3o secreta, t\u00e1 ligado?<\/p>\n\n\n\n<p>Os chefes abriram as caixas. Conferiram. Acenaram satisfeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00d3timo trabalho, soldado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou para a mochila laranja. Abriu. Pegou o caderno marrom.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu numa p\u00e1gina aleat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Onde deveria estar escrito &#8220;Bergen&#8221;, havia apenas um desenho infantil de um tanque feito com chocolate derretido.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou a p\u00e1gina.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Liverpool&#8221; \u2014 LASANHA escrito em letras garrafais vermelhas, repetido trinta vezes at\u00e9 rasgar o papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou outra.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mancha marrom que cheirava a sangue doce. A \u00e1rvore. Os cachorros. Tudo apodrecido em tinta e a\u00e7\u00facar.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou mais p\u00e1ginas, r\u00e1pido, procurando. Ele LEMBRAVA de escrever. Sentia o peso da caneta, a m\u00e3o cansada, as palavras saindo. Mas o papel n\u00e3o lembrava de nada. S\u00f3 lembrava errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou o caderno devagar. M\u00e3os tremendo um pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 tudo bem, Jota? \u2014 Little olhou preocupada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1. \u2014 Ele guardou de volta, devagar. \u2014 T\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos chefes acendeu outro cigarro. Jota ofereceu o isqueiro amarelo. Acendeu na primeira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Amanh\u00e3 tem mais \u2014 o chefe disse, soltando fuma\u00e7a. \u2014 Cinco caixas. Sabor morango.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha riu, jogando o bra\u00e7o no ombro de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ch\u00f4, a gente vai precisar de um carro maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Little cruzou os bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o vou de novo se n\u00e3o tiver ar-condicionado.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha parou, olhou pros dois.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Espera. A gente AINDA n\u00e3o comeu lasanha.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 fora, os tanques ronronavam. Os aliados cultistas acenavam da dist\u00e2ncia, sorrisos largos, devo\u00e7\u00e3o inabal\u00e1vel. Um deles gritou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 AT\u00c9 AMANH\u00c3, COMANDANTE!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guardou o caderno na mochila laranja. Fechou o z\u00edper. Olhou para os tr\u00eas chefes, para Rosquinha, para Little, para os tanques.<\/p>\n\n\n\n<p>Miss\u00e3o cumprida.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja l\u00e1 o que isso signifique.<\/p>\n\n\n\n<p>E amanh\u00e3 tem mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre tem mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mesa de a\u00e7o se estendia por metros, fria como cad\u00e1ver, coberta de mapas militares que ningu\u00e9m consultava e caixas de muni\u00e7\u00e3o que serviam mais de apoio para copos de caf\u00e9 do que para qualquer coisa b\u00e9lica. Tr\u00eas chefes ocupavam as cadeiras do fundo, fumando devagar, vozes graves que ecoavam no galp\u00e3o vazio. 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