{"id":1141,"date":"2026-03-03T00:15:00","date_gmt":"2026-03-03T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1141"},"modified":"2026-03-06T00:55:41","modified_gmt":"2026-03-06T03:55:41","slug":"olho-no-ombro","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/olho-no-ombro\/","title":{"rendered":"Olho no Ombro"},"content":{"rendered":"\n<p>Jota estaciona o Gol Bolinha na rua lateral do cinema antigo, duas portas rangendo ao fechar. O pr\u00e9dio tem fachada art d\u00e9co descascada, letreiro apagado h\u00e1 anos, mas hoje tem movimento. Cartazes caseiros colados na porta de vidro: EXPOSI\u00c7\u00c3O DE JOGOS DE TABULEIRO &#8211; PE\u00c7AS RARAS &#8211; ENTRADA FRANCA.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai desce, ajeitando a camisa. Jota pega a mochila laranja do banco traseiro, caderno marrom dentro (anota regras de jogos, mec\u00e2nicas interessantes, ideias). Ajusta a camiseta regata vinho que gruda no corpo pelo calor de Curitiba. O isqueiro amarelo ele pega do porta-luvas e coloca no bolso, nunca se sabe. Tranca o Gol. O t\u00eanis surrado arrasta no ch\u00e3o, cadar\u00e7o direito solto. Ele nem percebe.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro, o sagu\u00e3o virou galeria. O carpete vermelho gasto range sob os sapatos. Mesas compridas ocupam o espa\u00e7o onde antes tinha bilheteria e pipoqueira. Caixas de jogos abertas, miniaturas brilhando sob luz negra roxa, dados de cristal refletindo cores. O cheiro \u00e9 estranho: pl\u00e1stico novo misturado com pipoca velha, mofo das paredes e algo doce que n\u00e3o d\u00e1 pra identificar.<\/p>\n\n\n\n<p>No canto esquerdo, ocupando tr\u00eas mesas inteiras, Leandro Costa, mais conhecido como o Velho Nerd, est\u00e1 montando um tabuleiro gigante. Barba cheia, camiseta preta com logo desbotado, concentrado. Hex\u00e1gonos de papel\u00e3o grosso formam mapa complexo, miniaturas de monstros posicionadas estrategicamente. Ele levanta a m\u00e3o quando v\u00ea Jota, sorri largo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Chegaram na hora certa \u2014 diz, voltando a encaixar pe\u00e7as. \u2014 Faltam s\u00f3 as raras. As que fazem a diferen\u00e7a real.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se aproxima, mochila laranja no ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse \u00e9 o jogo novo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vers\u00e3o 3.0 \u2014 Velho Nerd responde, orgulhoso. \u2014 Mec\u00e2nica completamente reformulada. Cada pe\u00e7a representa arqu\u00e9tipo diferente. Com as certas, voc\u00ea fecha partida em metade do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai olha desconfiado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E sem as certas?<\/p>\n\n\n\n<p>Velho Nerd d\u00e1 de ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Demora. Ou voc\u00ea perde feio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota e o pai come\u00e7am a caminhar entre os expositores. Fam\u00edlias, nerds de camiseta de anime, colecionadores de cabelo grisalho examinando cada caixa. Cada mesa promete algo: disputa mais r\u00e1pida, mais cruel, mais bonita. Cartas com borda dourada. Dados gravados \u00e0 m\u00e3o. Monstros em resina pintados com detalhes microsc\u00f3picos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o Jota escuta.<\/p>\n\n\n\n<p>Sussurros.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher magra puxa o marido pelo bra\u00e7o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ouvi que tem maldi\u00e7\u00e3o. Algo sobre crian\u00e7as&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O pai de Jota bufa baixo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gente v\u00ea o que quer ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais adiante, dois jovens conversam:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Meu primo acordou com olhos nos ombros. Vermelhos. Que piscam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele fez cirurgia pra tirar.<\/p>\n\n\n\n<p>Um vendedor intercepta um casal:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso \u00e9 marketing viral. N\u00e3o existe maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal j\u00e1 t\u00e1 saindo, puxando o filho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pro pai.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu acredita nisso?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Em gente inventando hist\u00f3ria pra vender jogo? Sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais vozes ao redor:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vi crian\u00e7a com TR\u00caS olhos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Photoshop. Fake.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Minha vizinha trabalha no hospital. Chega caso toda semana.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai franze a testa, voz mais baixa:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se isso t\u00e1 machucando crian\u00e7a de verdade, ent\u00e3o deveria estar mais p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para numa mesa cheia de cartas hologr\u00e1ficas. Pega uma. CRIAN\u00c7A AMALDI\u00c7OADA &#8211; TRANSFORMA\u00c7\u00c3O NIVEL 3. A ilustra\u00e7\u00e3o mostra menino com olhos nos ombros, boca aberta, gritando silencioso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pesado \u2014 ele murmura.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai pega outra carta. TROCA RITUAL\u00cdSTICA &#8211; SALA 7. A ilustra\u00e7\u00e3o \u00e9 mais abstrata: porta vermelha, s\u00edmbolo estranho, sombras alongadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que sala 7? \u2014 o pai pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Vendedor ao lado responde sem olhar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Salas de proje\u00e7\u00e3o. Algumas ainda funcionam. Pra&#8230; sess\u00f5es fotogr\u00e1ficas especiais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fotogr\u00e1ficas?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c2ngulo certo, luz espec\u00edfica. \u2014 O vendedor n\u00e3o levanta os olhos da mesa. \u2014 Dizem que tira o olho. Por um tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o explica mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guarda a carta, continua andando. A mochila laranja pesa no ombro. Ele ajusta a al\u00e7a, sente o caderno marrom se mexendo l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o ela aparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Bloqueia o caminho. Cabelo escuro caindo nos ombros, olhos grandes e expressivos, sorriso nervoso mas confiante. Rosto alongado, tra\u00e7os marcantes que chamam aten\u00e7\u00e3o de um jeito diferente. Camiseta oversized, mas mesmo assim d\u00e1 pra perceber: corpo atl\u00e9tico, presen\u00e7a forte. Uma cavala. Do tipo que intimida e atrai ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu te conhe\u00e7o \u2014 ela diz, voz baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Conhece?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sempre te vi nos v\u00eddeos do Velho Nerd. Acho voc\u00ea&#8230; interessante.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai se afasta discreto, examinando outras mesas, mas continua de olho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sou a Cavala \u2014 ela continua, se aproximando mais. \u2014 Cavala Fernandez.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota j\u00e1 viu ela antes \u2014 em fotos de uma amiga em comum, sempre nos eventos do Velho Nerd. Mas ao vivo \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela continua:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente nunca conversou, mas eu sempre quis.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o sabe o que dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu&#8230; oi?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ri baixo, nervosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desculpa, t\u00f4 sendo estranha. \u00c9 que&#8230; \u2014 pausa. \u2014 Preciso te mostrar uma coisa. Antes que fique tarde demais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mostrar o qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela verifica se ningu\u00e9m t\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o. Depois puxa a gola da camiseta pro lado, expondo o ombro esquerdo.<\/p>\n\n\n\n<p>E l\u00e1 est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Um olho.<\/p>\n\n\n\n<p>Vermelho. Vivo. Piscando devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 tatuagem. N\u00e3o \u00e9 pr\u00f3tese. N\u00e3o \u00e9 maquiagem de evento. \u00c9 real. Parte da pele dela. A pupila \u00e9 vertical, como de r\u00e9ptil. A \u00edris brilha fraco, luz pr\u00f3pria. A pele ao redor est\u00e1 levemente inchada, veias escuras ramificando como ra\u00edzes. O olho se move, independente, vira e de repente encara Jota diretamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segura a respira\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o desvia o olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai, alguns metros atr\u00e1s, v\u00ea. Sussurra baixo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que porra&#8230; \u2014 Jota come\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Calma \u2014 ela cobre de novo, r\u00e1pido. \u2014 N\u00e3o \u00e9 contagioso. Acho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como&#8230; como isso aconteceu?<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala suspira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei exatamente, mas foi depois que comprei umas pe\u00e7as raras. Tr\u00eas semanas atr\u00e1s. Eu e uma amiga jogamos uma partida&#8230; \u2014 pausa. \u2014 Logo depois que terminamos, a gente come\u00e7ou a co\u00e7ar o ombro. No dia seguinte, o olho j\u00e1 tava l\u00e1. Pequeno no come\u00e7o. Agora t\u00e1 quase&#8230; assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas relaxa \u2014 ela continua, sorriso for\u00e7ado. \u2014 J\u00e1 peguei senha pra sala 7. S\u00f3 falta me chamarem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Senha?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pra tirar foto. \u2014 Ela baixa a voz. \u2014 A minha amiga, a que jogou comigo, ela veio aqui semana passada e fez. Mas n\u00e3o me contou na hora. S\u00f3 me falou anteontem, quando viu que o olho dela n\u00e3o voltou. \u2014 Pausa. \u2014 Foi por isso que eu vim correndo hoje. Peguei senha assim que abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai, fingindo interesse em outras pe\u00e7as mas ouvindo tudo, murmura:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tem gente que paga pra qualquer merda hoje em dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala ignora. Continua:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas eventualmente&#8230; \u2014 ela n\u00e3o completa.<\/p>\n\n\n\n<p>O olho no ombro dela pisca de novo. Mais devagar. Como se estivesse cansado. Ou esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por que t\u00e1 me contando isso? \u2014 Jota pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala d\u00e1 de ombros. O olho se mexe com o movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque voc\u00ea parece gente boa. E porque&#8230; \u2014 hesita. \u2014 Vi oportunidade de conversar contigo. Queria que voc\u00ea soubesse. Antes de tirar. \u2014 Ela toca o ombro por cima da roupa. \u2014 Eu n\u00e3o aguento mais carregar isso. Preciso me livrar. A\u00ed a gente conversa de verdade. Gostaria de saber mais sobre voc\u00ea. Quando eu for&#8230; eu de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abre a boca pra responder, mas um alto-falante range. Voz met\u00e1lica, distorcida:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Senha 47. Sala 7.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala olha pro corredor. Depois pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 minha senha. \u2014 Ela anota r\u00e1pido num peda\u00e7o de papel, entrega. \u2014 Aguardo sua liga\u00e7\u00e3o viu! \u2014 Sorri, mas o sorriso n\u00e3o chega nos olhos. \u2014 Se der tudo certo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ok, se cuida. \u2014 Jota guarda o papel. \u2014 Vou mandar mensagem sim.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sorri de verdade agora. Um pouco de alegria finalmente chegando nos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tomara.<\/p>\n\n\n\n<p>Passa por ele, ro\u00e7ando o bra\u00e7o de leve. Jota sente \u2014 mesmo sem ver \u2014 que o olho no ombro dela continua virado pra ele. Acompanhando. At\u00e9 ela entrar na sala 7.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fica parado. M\u00e3o ainda segurando a al\u00e7a da mochila laranja. Cora\u00e7\u00e3o batendo mais r\u00e1pido que deveria.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai volta, preocupado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente devia ir embora. Agora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pai&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse lugar t\u00e1 errado. \u2014 Varre o ambiente com o olhar, nervoso. \u2014 Tem crian\u00e7a aqui comprando essas coisas. A gente tem que sair.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Espera. Vamos falar com o Velho Nerd antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltam at\u00e9 onde Velho Nerd estava montando o tabuleiro, agora quase completo. Ele olha pra cima, percebe a express\u00e3o de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Viu algu\u00e9m com o olho, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota confirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Velho Nerd suspira. Para de montar. N\u00e3o olha pra Jota, s\u00f3 pro tabuleiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 rolando uns boatos. \u2014 Mexe numa pe\u00e7a do jogo novo. \u2014 Dizem que algumas pe\u00e7as dessa nova linha t\u00e3o&#8230; sei l\u00e1. Marcando quem joga. Principalmente crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E os olhos? \u2014 o pai pergunta direto. \u2014 Crian\u00e7as acordando amaldi\u00e7oadas. Tu sabe disso?<\/p>\n\n\n\n<p>Velho Nerd puxa a pr\u00f3pria camiseta, mostra os ombros limpos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu jogo todo dia. Olha pra mim. Nenhum olho. \u2014 Solta a roupa, balan\u00e7a a cabe\u00e7a. \u2014 S\u00e3o pe\u00e7as de tabuleiro. Pl\u00e1stico. Tinta. Nada mais. Mas&#8230; sei l\u00e1. Crian\u00e7a \u00e9 diferente. Mais impression\u00e1vel. Ou talvez seja coincid\u00eancia. P\u00e2nico coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu t\u00e1 vendendo isso pra crian\u00e7a \u2014 o pai insiste. \u2014 Mesmo com os boatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Velho Nerd ri, sem humor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea acha que eu vou parar de vender porque tem gente inventando hist\u00f3ria? Metade do pessoal aqui j\u00e1 jogou. Quantos tu viu com olho? Um. Uma. \u2014 Aponta pro tabuleiro. \u2014 E eu t\u00f4 aqui montando isso h\u00e1 meses. Nada. \u2014 Gesticula pro movimento. \u2014 Olha isso aqui. Nunca tive tanto cliente. Medo vende mais que qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio tenso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a sala 7? \u2014 Jota pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Velho Nerd d\u00e1 de ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tiram foto. Luz vermelha, \u00e2ngulo certo. Dizem que funciona. \u2014 Volta a montar pe\u00e7as. \u2014 Eu n\u00e3o pergunto mais que isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio desconfort\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele oferece tr\u00eas pe\u00e7as pequenas, pintadas \u00e0 m\u00e3o. Da nova linha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Essas aqui. \u2014 Pausa. \u2014 Se os boatos forem verdade, tu j\u00e1 t\u00e1 marcado s\u00f3 de pegar nelas. Se n\u00e3o forem&#8230; \u2014 d\u00e1 de ombros. \u2014 \u00c9 s\u00f3 pl\u00e1stico e tinta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Jota pega, Velho Nerd quase sorri.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se acontecer alguma coisa, volta aqui. Vira propaganda gr\u00e1tis.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o diz mais nada. Sorri estranho. Volta pro tabuleiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai j\u00e1 t\u00e1 puxando Jota pelo bra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos logo. J\u00e1 deu.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles caminham de volta pelo sagu\u00e3o. As conversas continuam ao redor:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Minha filha acordou com coceira no ombro&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 psicol\u00f3gico. Histeria coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pro corredor das salas de proje\u00e7\u00e3o. Escuro. Silencioso. Mas no fundo, bem no fundo, uma porta entreaberta. Sala 7. Luz vermelha pulsando. Uma sombra.<\/p>\n\n\n\n<p>Flash branco \u2014 t\u00e3o forte que Jota fecha os olhos por reflexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando abre, a porta j\u00e1 fechou. Escurid\u00e3o total. Nem a luz vermelha voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para de andar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Viu? \u2014 o pai pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vi.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles saem. O ar l\u00e1 fora parece mais limpo, mesmo com polui\u00e7\u00e3o de Curitiba. Caminham at\u00e9 o Gol Bolinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota enfia a m\u00e3o no bolso, puxa a chave. O isqueiro amarelo escapa junto e ele chuta sem querer. O isqueiro vai parar embaixo do Gol.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Merda.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se abaixa ao lado da porta do motorista, estica o bra\u00e7o por baixo do chassi. Os dedos n\u00e3o alcan\u00e7am. For\u00e7a mais, empurrando o corpo pra frente, ombro esquerdo pressionado contra o metal da porta aberta. Sente um leve inc\u00f4modo no ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porra!<\/p>\n\n\n\n<p>Consegue pegar o isqueiro. Levanta, massageando o ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai j\u00e1 t\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 bem?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quase tirei o ombro do lugar. \u2014 Jota guarda o isqueiro de volta no bolso, ainda massageando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogam as pe\u00e7as no banco de tr\u00e1s. Entram. Motor liga. Ronco familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai olha pra ele, s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se aparecer olho em voc\u00ea, a gente vai no hospital. No mesmo dia. N\u00e3o espera.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00f4 falando s\u00e9rio. \u2014 o pai refor\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei, pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pelo retrovisor. O cinema atr\u00e1s. O letreiro apagado. A fila de gente ainda entrando.<\/p>\n\n\n\n<p>E pela janela do segundo andar, por um segundo, ele jura que v\u00ea: na janela que deveria ser a sala 7, luz vermelha pulsando e uma sombra entrando.<\/p>\n\n\n\n<p>Pisca.<\/p>\n\n\n\n<p>Desaparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Esfrega os olhos. A janela est\u00e1 apagada.<\/p>\n\n\n\n<p>Engata a marcha. Sai devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja no banco do passageiro. O caderno marrom dentro. A camiseta regata vinho grudada nas costas. O t\u00eanis surrado no pedal, cadar\u00e7o solto. O isqueiro amarelo no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas l\u00e1 atr\u00e1s, no cinema transformado em galeria, o tabuleiro do Velho Nerd parece maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se tivesse crescido enquanto ningu\u00e9m olhava.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota dirige em sil\u00eancio. Avenida vazia, sol descendo, Curitiba laranja no fim de tarde.<\/p>\n\n\n\n<p>Para num sinal.<\/p>\n\n\n\n<p>Co\u00e7a o ombro esquerdo.<\/p>\n\n\n\n<p>A coceira desce at\u00e9 o osso. Como se tivesse unha do lado de dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou talvez seja s\u00f3 da batida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele puxa a camiseta regata vinho pro lado, olha no retrovisor. Torce o pesco\u00e7o. Tenta ver o pr\u00f3prio ombro refletido.<\/p>\n\n\n\n<p>Um roxo leve. Incha\u00e7o discreto.<\/p>\n\n\n\n<p>Normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>O sinal abre.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota engata a marcha. Continua dirigindo. Mas a coceira n\u00e3o para. Como se algo pequeno estivesse se mexendo bem no fundo. Querendo sair.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se algu\u00e9m tivesse plantado uma semente.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora ela estivesse germinando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jota estaciona o Gol Bolinha na rua lateral do cinema antigo, duas portas rangendo ao fechar. O pr\u00e9dio tem fachada art d\u00e9co descascada, letreiro apagado h\u00e1 anos, mas hoje tem movimento. Cartazes caseiros colados na porta de vidro: EXPOSI\u00c7\u00c3O DE JOGOS DE TABULEIRO &#8211; PE\u00c7AS RARAS &#8211; ENTRADA FRANCA. O pai desce, ajeitando a camisa. 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