{"id":1143,"date":"2026-03-04T00:15:00","date_gmt":"2026-03-04T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1143"},"modified":"2026-03-06T01:00:10","modified_gmt":"2026-03-06T04:00:10","slug":"drogas-e-ingratidao","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/drogas-e-ingratidao\/","title":{"rendered":"Drogas e Ingratid\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Geraldo acordou com a sensa\u00e7\u00e3o de que alguma coisa dentro dele tinha achado o caminho de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era vontade de viver, n\u00e3o era paz, nada bonitinho assim. Era um formigamento nas pontas dos dedos, um zumbido atr\u00e1s dos olhos, como se o mundo inteiro tivesse virado uma gaveta bagun\u00e7ada e s\u00f3 ele soubesse onde estava cada treco perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cozinha, achou a chave do carro em cima da geladeira sem nem procurar. O \u00edm\u00e3 cinza fosco do Posto Esso t\u00e1 ali no centro da porta, segurando um papel velho com telefone de pizzaria. Beiradas descascando, logo quase apagado. Sempre ali, desde que o pai colou.<\/p>\n\n\n\n<p>No banheiro, o controle remoto apareceu dentro do arm\u00e1rio de rem\u00e9dios, coisa que ele jurava ter virado a casa de cabe\u00e7a pra baixo na semana passada.<\/p>\n\n\n\n<p>No espelho, olhou pra si mesmo e pensou: hoje eu encontro at\u00e9 o que eu nem sabia que tinha perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomou leite em p\u00e9, camiseta regata vinho surrada grudada no corpo, mochila laranja nas costas, t\u00eanis surrado com cadar\u00e7o direito amarrado, rumo ao aeroporto. Voo das 10h20 pra Guarulhos. Assento 17A, corredor. Nada de janela \u2014 Geraldo nunca gostou de olhar pra baixo. Preferia olhar pras pessoas esperando que algu\u00e9m olhasse de volta, pedisse ajuda, percebesse que ele existia. Nunca admitiria isso em voz alta. Querer aten\u00e7\u00e3o era fraqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>O avi\u00e3o decolou normal. Turbul\u00eancia leve, beb\u00ea chorando duas fileiras atr\u00e1s, comiss\u00e1ria com sorriso de propaganda de pasta de dente. Geraldo fechou os olhos e deixou o zumbido crescer. Sentiu o metal da fuselagem como se fosse pele. Sentiu cada parafuso, cada fio, cada gota de combust\u00edvel. Achou estranho, mas n\u00e3o estranhou. Fazia parte do dia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s 11h07 o inferno desceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro o barulho \u2014 um estalo seco, como osso quebrando. Depois o sil\u00eancio pior, aquele sil\u00eancio que vem antes do grito. O piloto ligou o intercomunicador com a voz j\u00e1 tremendo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Senhoras e senhores, estamos com uma falha hidr\u00e1ulica no trem de pouso dianteiro. Vamos tentar um pouso de emerg\u00eancia no Aeroporto Campo de Marte. Por favor, mantenham a calma e sigam as instru\u00e7\u00f5es da tripula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As m\u00e1scaras ca\u00edram. Uma senhora idosa come\u00e7ou a rezar alto em espanhol. Um cara de terno vomitou no saquinho. A crian\u00e7a que tava chorando agora gritava como se estivessem arrancando a alma dela. O cheiro de medo era t\u00e3o forte que dava pra mastigar.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas fileiras \u00e0 frente, Rand Oliveira \u2014 aquele conhecido da faculdade que virou engenheiro aeron\u00e1utico e vivia sumindo e reaparecendo quando menos esperava \u2014 desceu o corredor correndo, macac\u00e3o azul impec\u00e1vel mesmo dentro do avi\u00e3o, gritando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu entendo de avi\u00e3o, sou engenheiro aeron\u00e1utico, me deixa entrar na cabine!<\/p>\n\n\n\n<p>As comiss\u00e1rias tentaram barrar, mas Rand j\u00e1 mostrava cart\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 argumentava, j\u00e1 empurrava. O piloto gritou l\u00e1 de dentro autorizando. Rand sumiu atr\u00e1s da cortina como fantasma.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo n\u00e3o se mexeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou os olhos com mais for\u00e7a ainda. Sentiu o zumbido virar trov\u00e3o. Desceu com a mente at\u00e9 debaixo do avi\u00e3o, at\u00e9 o trem de pouso travado. Sentiu o metal retorcido, o fluido hidr\u00e1ulico vazando, o mecanismo engripado como mand\u00edbula travada.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed ele desejou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pediu. Desejou. Com raiva, com fome, com aquela for\u00e7a que a gente s\u00f3 usa quando n\u00e3o tem mais nada a perder.<\/p>\n\n\n\n<p>O metal obedeceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sentiu, cent\u00edmetro por cent\u00edmetro, o trem destravando. Parafusos girando sozinhos. Cilindros enchendo de novo. O trem desceu com um clang que ningu\u00e9m ouviu porque o avi\u00e3o inteiro ainda tremia de pavor.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas minutos depois o piloto voltou ao intercomunicador, voz agora aliviada:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Senhoras e senhores\u2026 o trem de pouso foi restaurado. Vamos pousar normalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>O avi\u00e3o tocou a pista t\u00e3o suave que parecia mentira.<\/p>\n\n\n\n<p>Aplausos. Choro. Abra\u00e7os. Rand saiu da cabine suado, cabelo grudado na testa, sorriso de quem acabou de salvar o mundo. Passageiros apertavam a m\u00e3o dele, batiam nas costas, agradeciam chorando. Algu\u00e9m abriu o champanhe que era pra ser servido s\u00f3 no destino. O piloto abra\u00e7ou ele. Uma rep\u00f3rter que tava no voo j\u00e1 filmava com o celular: &#8220;O her\u00f3i de bordo!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo esperou todo mundo descer.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando passou pelo sagu\u00e3o, ouviu os cochichos. Que Rand na verdade n\u00e3o tinha feito nada, de repente o trem de pouso soltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo sorriu de canto. Pegou a mochila laranja na esteira, bilhete de embarque rasgado no bolso, e saiu andando como se nada tivesse acontecido. Ningu\u00e9m parou ele. Ningu\u00e9m tirou foto. Ningu\u00e9m pediu aut\u00f3grafo.<\/p>\n\n\n\n<p>No t\u00e1xi pra casa, o motorista ligou o r\u00e1dio:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u2026milagre no c\u00e9u em S\u00e3o Paulo! Passageiro engenheiro salva o dia\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo pediu pra desligar o r\u00e1dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Resolveu as coisas em S\u00e3o Paulo, pegou um outro voo \u00e0 noite para casa. Nesse n\u00e3o aconteceu nada demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou em casa \u00e0s 21h12. Casa vazia, como sempre. Ningu\u00e9m pra receber, ningu\u00e9m pra perguntar como foi a viagem. S\u00f3 o sil\u00eancio que ele j\u00e1 conhecia de cor.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu a geladeira, pegou uma \u00e1gua. O \u00edm\u00e3 cinza fosco ainda ali, segurando o mesmo papel velho. Geraldo olha pra ele por tr\u00eas segundos. Lembra da fam\u00edlia que nem ligou pra saber se ele pegou aquele voo. Ningu\u00e9m perguntou. Ningu\u00e9m nunca pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou no sof\u00e1. A\u00ed veio o segundo estalo do dia \u2014 mais forte que o do avi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O sof\u00e1 subiu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o: ele subiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Os p\u00e9s deixaram o ch\u00e3o. Devagar, como se algu\u00e9m tivesse desligado a gravidade s\u00f3 pra ele. Subiu at\u00e9 encostar a cabe\u00e7a no teto. A garrafa de \u00e1gua caiu e n\u00e3o quebrou \u2014 ficou flutuando do lado dele, girando lenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo n\u00e3o gritou. N\u00e3o riu. S\u00f3 abriu a janela da sala e saiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Voou.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro devagar, rente as casas. Depois mais alto, acima das nuvens. O vento batendo na cara como tapa de amigo. A cidade inteira l\u00e1 embaixo, luzes piscando como se estivessem aplaudindo s\u00f3 pra ele, finalmente. Passou do lado de um avi\u00e3o que decolava e acenou pro piloto \u2014 o cara nem viu.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas horas voando. Testando curva, mergulho, loop. Sentindo o corpo leve como nunca tinha sido na vida inteira. O zumbido agora era m\u00fasica. O poder n\u00e3o era mais s\u00f3 achar coisa perdida.<\/p>\n\n\n\n<p>Era ser livre pra caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voltou, pousou no meio da sala com os p\u00e9s descal\u00e7os no ch\u00e3o frio. Cabelo parecendo que tinha tomado choque. Olhos arregalados. Cora\u00e7\u00e3o batendo t\u00e3o forte que dava pra ouvir do outro lado da casa.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed ele viu: algu\u00e9m j\u00e1 tava sentado no sof\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Corrente de ouro grossa, sorriso de quem nunca perdeu uma parada, tatuagem de santa no bra\u00e7o. Feliciano Droga, o traficante mais burro e mais sortudo do bairro inteiro, balan\u00e7ava as pernas como crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho, Geraldo! \u2014 Feliciano arregalou os olhos. \u2014 Tu tava\u2026 voando?<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo parou na porta, ainda ofegante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como tu entrou aqui, porra?<\/p>\n\n\n\n<p>Feliciano abriu os bra\u00e7os, mostrou o grama na m\u00e3o como se fosse trof\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porta tava aberta, irm\u00e3o. Vim trazer um presentinho. Mas pera a\u00ed\u2026 tu tava VOANDO MESMO?<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo respirou fundo. Sorriu de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tava. E hoje de manh\u00e3 eu salvei um avi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 QUE?!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Avi\u00e3o caindo. Cento e setenta e cinco pessoas. Eu consertei o trem de pouso com a mente.<\/p>\n\n\n\n<p>Feliciano ficou de boca aberta por cinco segundos. Depois pulou do sof\u00e1, gritando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 HER\u00d3I! TU \u00c9 UM HER\u00d3I, CARALHO! \u2014 Abra\u00e7ou Geraldo como se fosse irm\u00e3o de guerra. \u2014 E ningu\u00e9m sabe?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m. Deram o cr\u00e9dito pro Rand, um cara que tava no voo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Foda-se o Rand, irm\u00e3o. EU SEI. \u2014 Feliciano bateu duas carreiras na mesa de centro. Linhas perfeitas, brancas como neve que um dia dizem caiu em Curitiba. \u2014 Hoje a gente comemora VOC\u00ca, porra. Ningu\u00e9m mais vai fazer isso por tu. Vem.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo olhou pras linhas. Olhou pro Feliciano. Olhou pro c\u00e9u escuro l\u00e1 fora.<\/p>\n\n\n\n<p>E sorriu de verdade pela primeira vez no dia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bota o som no \u00faltimo, vai.<\/p>\n\n\n\n<p>O som explodiu antes mesmo da primeira carreira tocar no nariz.<\/p>\n\n\n\n<p>Feliciano j\u00e1 tinha ligado o pared\u00e3o que ele carregava no porta-mala do Gol quadrado: um funk proibido at\u00e9 pro Spotify, grave t\u00e3o pesado que os copos na pia come\u00e7aram a andar sozinhos. Aquela batida que parece que o cora\u00e7\u00e3o vai sair pela boca.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo nem trocou de roupa. Regata vinho suada do avi\u00e3o, meia furada, cabelo ainda voado do vento l\u00e1 de cima. Sentou na mesa de centro como se fosse trono. Feliciano empurrou o prato de vidro riscado:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Primeira do her\u00f3i. Pode mandar ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas linhas grossas, perfeitas, brancas como neve que um dia dizem caiu em Curitiba. Geraldo enrolou o papel que tava no bolso desde o aeroporto, encostou na mesa e aspirou tudo de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo deu um giro de 180 graus e parou de p\u00e9 de novo, s\u00f3 que agora mais n\u00edtido, mais vivo, mais dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho, Feliciano.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sim, \u00f3timo n\u00e9? Puro. Na verdade, puro \u00e9 pouco, irm\u00e3o. Isso aqui \u00e9 o que o piloto devia ter te dado de agradecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Riram alto, riso de quem n\u00e3o precisa explicar nada pra ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Segunda rodada. Terceira. O sangue correndo t\u00e3o r\u00e1pido que parecia que ia rasgar as veias. Feliciano tirou a camisa, corrente de ouro balan\u00e7ando no peito suado, e come\u00e7ou a dan\u00e7ar no meio da sala como se tivesse 15 anos e o baile fosse na laje.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo s\u00f3 olhava, sorrindo. Sentia o poder subindo junto com o bagulho. Sentia o corpo querendo sair do ch\u00e3o de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro amarelo tava na mesa de centro. Geraldo olhou pra ele. Desejou. O isqueiro levantou sozinho, acendeu no ar, chama dan\u00e7ando sem ningu\u00e9m segurar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quer ver uma parada? \u2014 perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Manda.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo fechou os olhos por meio segundo. Quando abriu, j\u00e1 estava a um metro do ch\u00e3o, flutuando de pernas cruzadas como se tivesse colch\u00e3o invis\u00edvel. O isqueiro amarelo flutuava do lado dele, chama acesa, girando devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Feliciano parou de dan\u00e7ar. Boca aberta. Olhos arregalados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Puta que pariu, Geraldo. Tu \u00e9 o Super-homem com coca\u00edna?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Super-homem seu tobias. Eu sou melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Feliciano deu um grito de crian\u00e7a que ganhou Playstation no Natal e pulou. Geraldo segurou ele pelo bra\u00e7o no ar. Os dois subiram at\u00e9 o teto, batendo cabe\u00e7a na l\u00e2mpada barata que balan\u00e7ava louca. O isqueiro amarelo subiu junto, chama iluminando os rostos deles.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 VOAAAAAAAA, PORRA! ISSO \u00c9 MELHOR QUE BALADA VIP!<\/p>\n\n\n\n<p>Eles voavam pela casa inteira. Corredor, cozinha, quarto. Feliciano tentando cheirar mais uma voando, a\u00ed o cart\u00e3o escorregou da m\u00e3o e metade do grama caiu no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00c3\u00c3\u00c3\u00c3O! Minha buchina! \u2014 ele gritou, quase chorando.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo riu tanto que quase caiu do ar. Desceu, catou a bucha do ch\u00e3o e entregou ao Feliciano.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Relaxa, traficante. Hoje at\u00e9 o p\u00f3 perdido eu acho.<\/p>\n\n\n\n<p>E acharam mais. Muito mais.<\/p>\n\n\n\n<p>O funk n\u00e3o parava.<\/p>\n\n\n\n<p>Conversavam e riam. Riam e conversavam. Riram e conversaram tanto at\u00e9 doer a barriga, at\u00e9 l\u00e1grima escorrer, at\u00e9 o mundo virar borr\u00e3o branco e dourado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em algum momento Geraldo levou o Feliciano pra fora. Pela janela. Noite de Curitiba inteira embaixo deles.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha isso aqui, Feliciano. Olha essa porra toda.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade brilhava. Alguns carros no viaduto, luzes de ambul\u00e2ncia piscando como sempre. Feliciano abra\u00e7ou o pesco\u00e7o dele, olhos vidrados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mano\u2026 tu pode roubar qualquer banco agora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Banco? Voando? Talvez, sei l\u00e1&#8230; na verdade quero que olhem para mim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu t\u00f4 vendo, porra! Eu t\u00f4 vendo!<\/p>\n\n\n\n<p>E viu mesmo. Durante horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Voaram por cima do Jardim Bot\u00e2nico, por cima da \u00d3pera de Arame, por cima do Parolin onde o Feliciano morava. Passaram t\u00e3o baixo que as antenas de TV arranhavam a barriga deles. Feliciano gritava &#8220;\u00c9 O HOMEM-ARANHA DO MORRO!&#8221; e as crian\u00e7as l\u00e1 embaixo olhavam pro c\u00e9u, apontando, sem acreditar.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltaram pra casa quando o sol come\u00e7ou a raiar. Feliciano j\u00e1 n\u00e3o conseguia nem ficar de p\u00e9 direito. Geraldo pousou com ele no sof\u00e1, suave como pluma.<\/p>\n\n\n\n<p>O traficante inesperadamente apagou em dois segundos. Cabe\u00e7a ca\u00edda, baba escorrendo no estofado, corrente de ouro subindo e descendo devagar no peito. Roncos que pareciam motor de moto.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo n\u00e3o dormiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Flutuou at\u00e9 a cozinha. Deitou no ar, de barriga pra cima, a meio metro do ch\u00e3o. Pegou o caderno marrom da mochila laranja que tinha deixado ali, abriu numa p\u00e1gina em branco e escreveu, letra tremida:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;ningu\u00e9m agradeceu.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro amarelo flutuava do lado, chama apagada agora, girando lento.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhava pro teto rachado como se fosse mapa do universo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou no avi\u00e3o. Nas cento e setenta e cinco pessoas que nunca iam saber o nome dele. A TV disse cento e sessenta. Mas ele tinha sentido todas. Cento e sessenta dentro. Quinze embaixo. No Rand dando entrevista de macac\u00e3o azul no Jornal Nacional. No piloto virando her\u00f3i. No mundo inteiro agradecendo o cara errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand nem olhou pra ele no sagu\u00e3o. Nem um aceno. Sumiu como sempre some, levando o cr\u00e9dito inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como saberia n\u00e9? Pois s\u00f3 fiquei sentado e senti o avi\u00e3o e abri o trem de pouso.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed olhou pro Feliciano roncando.<\/p>\n\n\n\n<p>O cara mais burro, mais quebrado, mais perdido do bairro inteiro tinha sido o \u00fanico que falou &#8220;parab\u00e9ns&#8221;. O \u00fanico que viu. O \u00fanico que veio sem ser chamado, sem pedir nada em troca al\u00e9m de uma carreira e um voo.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo sorriu no escuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu mais um tirinho. Sentiu o cora\u00e7\u00e3o ainda disparado. Sentiu o corpo leve, leve pra caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez na vida, algu\u00e9m tinha olhado pra ele de verdade. Mesmo que fosse um traficante com dois neur\u00f4nios e meio grama perdido no tapete.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso, porra\u2026 isso valia mais que qualquer aplauso no sagu\u00e3o do aeroporto.<\/p>\n\n\n\n<p>Valia mais que o dia inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A noite tinha sido dele. S\u00f3 dele e do Feliciano Droga.<\/p>\n\n\n\n<p>E amanh\u00e3? Amanh\u00e3 era outro dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas agora, naquele momento, Geraldo flutuava na cozinha, feliz pra caralho, sem dever explica\u00e7\u00e3o pra ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele n\u00e3o pretendia tocar no ch\u00e3o t\u00e3o cedo.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol entrou pela janela como tapa na cara.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo desceu do ar devagarinho, t\u00eanis surrado com cadar\u00e7o solto tocando o ch\u00e3o frio pela primeira vez em horas. Dor de cabe\u00e7a latejando, nariz entupido, boca com gosto de metal e remorso. Feliciano ainda roncava no sof\u00e1, uma po\u00e7a de baba no estofado, corrente de ouro emba\u00e7ada de suor seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Na TV que ningu\u00e9m lembrou de desligar, o jornal reprisava a mat\u00e9ria da tarde anterior:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Her\u00f3i de bordo: engenheiro aeron\u00e1utico salva 160 vidas em pleno voo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira de macac\u00e3o azul limpo agora, sorriso ensaiado, falando sobre &#8220;trabalho em equipe&#8221; e &#8220;procedimento padr\u00e3o&#8221;. O piloto do lado, condecora\u00e7\u00e3o no peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Feliciano acordou com um grunhido, ainda meio grogue no sof\u00e1, apontou pra TV com os olhos semicerrados:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mano\u2026 que horas s\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nove e meia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00d3 l\u00e1\u2026 t\u00e3o falando do teu avi\u00e3o. Mas eles t\u00e3o dizendo cento e sessenta\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo desligou a TV com o controle que achou flutuando no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Foram cento e setenta e cinco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quinze pessoas no ch\u00e3o. Onde o avi\u00e3o ia cair. A TV n\u00e3o sabe disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Feliciano arregalou os olhos, agora bem acordado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho, Geraldo. Tu salvou gente que nem tava no avi\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo n\u00e3o respondeu. S\u00f3 foi at\u00e9 a cozinha, abriu a torneira, jogou \u00e1gua no rosto. Olhou pro espelho: olhos vermelhos, narinas ainda brancas, cara de quem envelheceu cinco anos numa noite s\u00f3. A casa fede a cigarro apagado, suor e funk velho.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro \u00edm\u00e3 na geladeira. Ainda ali. Sempre ali. O papel velho com telefone de pizzaria ainda preso. Ningu\u00e9m da fam\u00edlia ligou. Ningu\u00e9m perguntou se ele pegou aquele voo. Ningu\u00e9m nunca pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Feliciano levantou cambaleando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho, minha m\u00e3e vai me matar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou o celular rachado, viu 27 chamadas perdidas, jogou no bolso. Deu um tapa no ombro do Geraldo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Valeu pela melhor noite da minha vida, her\u00f3i. Qualquer coisa grita. T\u00f4 devendo um lotezinho do bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo s\u00f3 acenou com a cabe\u00e7a. Feliciano saiu porta afora, corrente tilintando.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio de novo. O de sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo abriu a janela, respirou o ar quente de Curitiba, cheio de fuma\u00e7a de escapamento e cheiro de p\u00e3o na chapa. Olhou pra rua: movimento normal de s\u00e1bado, passando.<\/p>\n\n\n\n<p>Na garagem, o Gol Bolinha Cinza Urban 2003. Duas portas, banco do motorista afundado. Esperando. Sempre esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo olha pro carro. Podia entrar nele. Ir embora. Viver.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o vai. Tinha uma maneira nova.<\/p>\n\n\n\n<p>Subiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Voou baixo primeiro, rente aos telhados, depois mais alto. Passou pelo Centro Polit\u00e9cnico. Viu uma pessoa varrendo a porta, outra varrendo a cal\u00e7ada e xingando o filho pro mundo inteiro ouvir. Viu crian\u00e7a apontando pro c\u00e9u, outra m\u00e3e puxou o filho pelo bra\u00e7o: &#8220;Para de inventar coisa, menino.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Passou pelo centro. Baixada vazia, pol\u00edcia revistando moleque na pra\u00e7a. Ningu\u00e9m olhava pra cima. Ningu\u00e9m nunca olhava.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidiu testar at\u00e9 onde ia o tal poder de &#8220;encontrar o que estava perdido&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou os olhos e desejou.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro achou uma alian\u00e7a de casamento jogada num terreno baldio. Desceu, pegou e sabia exatamente a quem pertencia, deixou em cima de um muro. Ningu\u00e9m viu.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois achou um rev\u00f3lver enferrujado no fundo do Rio Bel\u00e9m. Fez ele afundar ainda mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois achou um carregamento de coca\u00edna pura escondido num caminh\u00e3o no contorno sul. Fez o caminh\u00e3o desviar antes de ir pra uma blitz armada para pegar ele mais pra frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois achou uma menina de 12 anos que tinha sumido h\u00e1 tr\u00eas dias. Estava trancada num quartinho no fundo de um bar no Alto da XV. Quebrou a porta com a mente, deixou aberta, subiu antes que algu\u00e9m visse.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m olhou pra cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pra casa no fim da tarde. O c\u00e9u j\u00e1 laranja, calor abafado, cheiro de chuva que n\u00e3o vem.<\/p>\n\n\n\n<p>Pousou na laje de um pr\u00e9dio qualquer. Sentou na mureta. O cadar\u00e7o direito do t\u00eanis se soltou sozinho. Geraldo olhou, mas n\u00e3o amarrou de volta. T\u00eanis surrados com cadar\u00e7o solto balan\u00e7ando no vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular vibrou no bolso \u2014 o \u00fanico que ainda tinha bateria. Not\u00edcia no WhatsApp do grupo da fam\u00edlia que ele nunca responde:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Aquele voo que quase caiu ontem? O her\u00f3i \u00e9 amigo do primo do tio! Olha a entrevista!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m perguntou se ele tinha pegado aquele voo. Ningu\u00e9m lembrava que ele tinha viajado.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo deixou o celular cair. Caiu v\u00e1rios andares e explodiu na cal\u00e7ada. Uma senhora gritou. Ningu\u00e9m olhou pra cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou ali at\u00e9 escurecer.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade acendeu as luzes uma por uma. Milhares de janelas, milhares de vidas que ele poderia salvar de novo se quisesse. Mas ningu\u00e9m estava pedindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou no avi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou no Feliciano roncando.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou no Rand sumindo com o cr\u00e9dito como fantasma.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou que, no fim das contas, a \u00fanica pessoa que tinha dito &#8220;valeu&#8221; era um traficante burro que nem sabia o pr\u00f3prio CPF.<\/p>\n\n\n\n<p>Riu sozinho. Riso seco, sem gra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou devagar, limpou o nariz na manga da regata vinho que ainda n\u00e3o tinha trocado.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra cidade inteira l\u00e1 embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha ainda t\u00e1 l\u00e1. Esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Salvei cento e setenta e cinco pessoas ontem. Hoje nem precisei.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu os bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Subiu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o mergulhou, n\u00e3o fez curva, n\u00e3o deu loop. S\u00f3 subiu reto, cada vez mais alto, at\u00e9 os pr\u00e9dios virarem caixinhas de f\u00f3sforo, at\u00e9 o barulho da cidade sumir por completo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o olhou pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o olhou pro Gol Bolinha.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o desceu mais.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9u ficou escuro, as estrelas acenderam, o vento gelou.<\/p>\n\n\n\n<p>E Geraldo continuou subindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem tocar no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem dever explica\u00e7\u00e3o pra ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo acordou com a sensa\u00e7\u00e3o de que alguma coisa dentro dele tinha achado o caminho de volta. N\u00e3o era vontade de viver, n\u00e3o era paz, nada bonitinho assim. Era um formigamento nas pontas dos dedos, um zumbido atr\u00e1s dos olhos, como se o mundo inteiro tivesse virado uma gaveta bagun\u00e7ada e s\u00f3 ele soubesse onde [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1697,"menu_order":63,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"livro":[18],"personagem":[2370,27,243,253,2371,81],"genero":[1903,636],"tom":[1904,494,1905],"timeline":[57],"versao_jota":[1073],"categoria_cap":[1906,1907],"item_essencial":[33,31,36,37,34,32,35],"tema":[1910,1909,1908],"local":[764,1913,1212,1912,1911,799,1195,1919,1916,384,1917,1921,1918,708,1017,1920,402,1914,1915],"keyword":[1929,1930,1924,1926,1923,1925,1928,1927,810,1922],"class_list":["post-1143","capitulo","type-capitulo","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","livro-dias-apos-um-fim","personagem-feliciano-droga","personagem-gpjota","personagem-menina","personagem-motorista-de-carro","personagem-piloto-do-aviao","personagem-rand-oliveira","genero-drama-existencial","genero-realismo-magico","tom-amargo","tom-catartico","tom-desesperancado","timeline-curitiba","versao_jota-poderes","categoria_cap-poderes-sobrenaturais","categoria_cap-tragedia","item_essencial-caderno-marrom-de-capa-dura","item_essencial-camiseta-regata-vinho","item_essencial-gol-bolinha-cinza-urban-2003","item_essencial-ima-posto-esso","item_essencial-isqueiro-amarelo-o-sobrevivente","item_essencial-mochila-laranja","item_essencial-tenis-surrado","tema-autodestruicao-e-fuga","tema-heroismo-nao-reconhecido","tema-ingratidao-e-invisibilidade","local-aeroporto","local-aeroporto-campo-de-marte","local-alto-da-xv","local-aviao","local-banheiro","local-casa","local-centro-de-curitiba","local-centro-politecnico","local-ceu-noturno-de-curitiba","local-cozinha","local-jardim-botanico","local-laje-de-predio","local-opera-de-arame","local-parolin","local-quarto","local-rio-belem","local-sala","local-sao-paulo","local-taxi","keyword-175-vidas","keyword-ascensao-final","keyword-aviao","keyword-cocaina","keyword-encontrar-coisas-perdidas","keyword-feliciano-droga","keyword-heroismo-invisivel","keyword-ingratidao","keyword-rand-oliveira","keyword-voar"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo\/1143","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo"}],"about":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulo"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1143"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1697"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"livro","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/livro?post=1143"},{"taxonomy":"personagem","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/personagem?post=1143"},{"taxonomy":"genero","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/genero?post=1143"},{"taxonomy":"tom","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tom?post=1143"},{"taxonomy":"timeline","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/timeline?post=1143"},{"taxonomy":"versao_jota","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/versao_jota?post=1143"},{"taxonomy":"categoria_cap","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_cap?post=1143"},{"taxonomy":"item_essencial","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/item_essencial?post=1143"},{"taxonomy":"tema","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tema?post=1143"},{"taxonomy":"local","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/local?post=1143"},{"taxonomy":"keyword","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/keyword?post=1143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}