{"id":1158,"date":"2026-03-12T00:15:00","date_gmt":"2026-03-12T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1158"},"modified":"2026-03-05T00:14:42","modified_gmt":"2026-03-05T03:14:42","slug":"perna-presa","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/perna-presa\/","title":{"rendered":"Perna Presa"},"content":{"rendered":"\n<p>O Gol Bolinha cinza 2003 t\u00e1 estacionado duas casas depois da alvo, meio escondido entre uma Saveiro e um Palio velho. Motor frio, vidro emba\u00e7ado, banco do carona ainda com o formato da bunda da \u00faltima que sentou ali. Jota desligou o farol h\u00e1 tr\u00eas quarteir\u00f5es, veio devagar, silencioso, at\u00e9 encostar no meio-fio. A aproxima\u00e7\u00e3o tinha que ser discreta \u2014 na sa\u00edda j\u00e1 era outra hist\u00f3ria. A mochila laranja jogada no banco de tr\u00e1s balan\u00e7a de leve com o movimento, o caderno marrom capa dura escorregando um pouco para o lado, como se soubesse que hoje as anota\u00e7\u00f5es seriam de vingan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele desce primeiro. 1,83 m, 110 kg que chegam chegando, camiseta vinho, moletom cinza amarrado na cintura, barba cheia co\u00e7ando de nervoso. Os potes de margarina Qualy de 500 g balan\u00e7am na m\u00e3o direita, tampa solta, j\u00e1 suada.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs desce pelo lado do passageiro, 1,55 m de pura provoca\u00e7\u00e3o, short jeans desfiado, top preto que mal segura os peitos gigantes, tatuagens dan\u00e7ando no bra\u00e7o enquanto ela ri baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, tu trouxe o mais barato mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Barato gruda mais \u2014 Jota responde, sem olhar pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro Costa, vulgo Barney \u00e9 o \u00faltimo. 1,90 m f\u00e1cil, camiseta regata preta marcando cada m\u00fasculo, bra\u00e7os grossos que parecem feitos pra levantar viatura. Ele fecha a porta do Gol com cuidado, sem bater. Olha a rua inteira antes de seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o 16h42. Sol forte do fim de tarde batendo no Cap\u00e3o Raso, calor de 35 graus mesmo sendo outubro. A casa do policial \u00e9 a terceira na quadra: muro baixo, port\u00e3o de ferro azul meio torto, garagem aberta com uma Honda Falcon preta brilhando como trof\u00e9u. Placa na parede: &#8220;Sorria, voc\u00ea est\u00e1 sendo filmado&#8221;. Mentira. Nem c\u00e2mera existe, todo mundo sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para na cal\u00e7ada, olha pros dois. Voz baixa, s\u00e9ria:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Relembrando: a gente entra, unta tudo que brilha, chama ele pra fora, espera o primeiro movimento. Se ele bater primeiro, libera geral. Se n\u00e3o bater, a gente sai andando. Entendido?<\/p>\n\n\n\n<p>Little lambe o indicador e passa na tampa do pote.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Entendido, chefe. Mas se ele encostar em mim eu arranco peda\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney s\u00f3 assente. Um aceno curto. Ele n\u00e3o precisa falar muito. O tamanho fala por ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota entrega um pote para cada e abre o port\u00e3ozinho de pedestre. O trinco range. Os tr\u00eas entram no quintal como se fossem donos. Ningu\u00e9m na rua olha. Aqui ningu\u00e9m olha. Todo mundo sabe quem mora ali e prefere fingir que n\u00e3o viu.<\/p>\n\n\n\n<p>Little j\u00e1 abre o pote, enfia dois dedos e tira uma bola de margarina amarela, brilhante, fedendo a \u00f3leo de palma barato.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou come\u00e7ar pela moto dele. Essa Falcon \u00e9 o xod\u00f3, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Barney vai direto pra torneira externa, enche a m\u00e3o inteira de margarina e come\u00e7a a passar no registro, na mangueira, na corrente do port\u00e3o. Tudo que for de metal vai ficar imundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para na porta principal. Respira fundo. O cheiro de margarina j\u00e1 t\u00e1 impregnado nos dedos, na roupa, na barba. Ele passa a palma inteira na ma\u00e7aneta, gira devagar, deixa uma camada grossa, viscosa, que escorre devagar at\u00e9 o ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois bate. Tr\u00eas pancadas secas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00d4 de casa!<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Bate de novo, mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Seu Naldo! Abre a\u00ed, \u00e9 r\u00e1pido!<\/p>\n\n\n\n<p>Passos pesados l\u00e1 dentro. Ch\u00e3o tremendo. A porta se abre de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial ocupa o batente inteiro. 1,88 m, uns 120 kg de m\u00fasculo e cerveja, uniforme azul-marinho da PM esticado, coturnos pretos lustrosos, cara fechada de quem j\u00e1 acordou puto h\u00e1 dez anos. Olhos injetados, barba malfeita, cheiro de cigarro e caf\u00e9 requentado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olha pra Jota. Depois pra Little. Depois pra Barney. Os olhos param mais tempo no Barney. Calcula. Mede. Percebe que, pela primeira vez na vida, n\u00e3o \u00e9 o maior ali.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que porra c\u00eas querem?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levanta o pote vazio, sorri de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vim devolver uma coisa que o senhor esqueceu na casa da Dona Marli. Lembra dela? A velhinha que o senhor foi cobrar &#8220;taxinha&#8221; semana passada?<\/p>\n\n\n\n<p>O policial cerra os dentes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sai do meu quintal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Calma \u2014 Jota d\u00e1 um passo pro lado, abre espa\u00e7o. \u2014 S\u00f3 vem ver o presente que a gente trouxe.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial hesita meio segundo. Olha pros lados. V\u00ea a Falcon brilhando de margarina. V\u00ea a torneira pingando amarelo. V\u00ea o port\u00e3o que n\u00e3o abre mais sem escorregar.<\/p>\n\n\n\n<p>O rosto dele vira pedra.<\/p>\n\n\n\n<p>E d\u00e1 o primeiro passo pra fora.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O policial pisa no quintal com as duas botas pesadas, o couro rangendo. O sol bate forte nas costas dele, faz o uniforme brilhar de suor. Ele fecha a porta atr\u00e1s de si com um estrondo que ecoa na rua inteira. Ningu\u00e9m aparece na janela. Ningu\u00e9m nunca aparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Little d\u00e1 um passo pro lado, j\u00e1 com o celular na m\u00e3o, filmando de canto, sorriso safado no rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha a arte, seu Naldo. Ficou lindo.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial n\u00e3o olha pra ela. Olha direto pra Jota. Sempre o menor. Sempre o alvo mais f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu fez isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abre os bra\u00e7os, margarina ainda brilhando nos dedos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu e meus amigos. Caprichamos. Vai durar uns dias pra limpar.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial respira fundo pelo nariz. A veia do pesco\u00e7o pulsa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu t\u00e1 fudido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 se tu encostar primeiro \u2014 Jota responde, voz calma, quase divertida. \u2014 Regras s\u00e3o regras, n\u00e9, cabo?<\/p>\n\n\n\n<p>O policial cerra os punhos. Os n\u00f3s dos dedos ficam brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney se coloca meio de lado, ombro com ombro com Jota, 1,90 m de puro &#8220;experimenta&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Little continua filmando, voz doce:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Qualquer coisa eu mando pro plant\u00e3o daquele programa na tv, hein.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial d\u00e1 um passo \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a um metro de Jota. O cheiro de cigarro velho e raiva chega antes dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu acha que isso aqui \u00e9 brincadeira?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acho que tu t\u00e1 devendo respeito pra meia d\u00fazia de idosas no bairro \u2014 Jota responde, sem recuar um cent\u00edmetro. \u2014 E a gente veio cobrar com juros.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial sorri. Um sorriso feio, torto, cheio de dente amarelado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 querendo apanhar, gordo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tenta.<\/p>\n\n\n\n<p>O chute vem r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Bota preta, sola dura, direto na barriga de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Um metro e oitenta de perna levantada com for\u00e7a de quem j\u00e1 fez isso antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota j\u00e1 estava esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele gira o tronco no \u00faltimo mil\u00e9simo, as duas m\u00e3os grossas fecham no tornozelo como torno.<\/p>\n\n\n\n<p>A bota para no ar, a 20 cm do alvo.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial perde o equil\u00edbrio na hora, corpo inclinado pra frente, bra\u00e7os abrindo pra compensar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota trava.<\/p>\n\n\n\n<p>Dedos melados de margarina agarram firme o couro, a carne, o osso.<\/p>\n\n\n\n<p>Segura a perna no alto como se fosse trof\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Libera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial arregala os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro de raiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque agora ele pode apanhar.<\/p>\n\n\n\n<p>E vai.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O policial ainda tenta puxar a perna. Um pux\u00e3o bruto, cheio de for\u00e7a, mas Jota j\u00e1 travou o joelho dele com o antebra\u00e7o, o peso inteiro dos 110 kg apoiado na canela. A bota n\u00e3o desce nem um cent\u00edmetro. A margarina suada na camiseta vinho de Jota deixa um rastro viscoso no couro da bota, como se o tecido rasgado estivesse marcando territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney d\u00e1 um passo \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro soco vem de lado, um gancho seco que pega em cheio nas costelas flutuantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar sai do policial num &#8220;humpf&#8221; rouco, o corpo dobra pra frente.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial levanta o bra\u00e7o esquerdo pra bloquear o pr\u00f3ximo golpe, mas ao fazer isso o peso vai todo pra perna de apoio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sente a mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Torce o tornozelo cinco graus pra fora.<\/p>\n\n\n\n<p>O equil\u00edbrio vai embora de vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Little entra por tr\u00e1s, r\u00e1pida, baixinha, cruel.<\/p>\n\n\n\n<p>Soco curto, seco, direto no rim direito.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial grunhe alto, tenta girar o tronco pra se proteger, mas o movimento s\u00f3 abre o lado esquerdo.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney acerta outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez no f\u00edgado.<\/p>\n\n\n\n<p>O som \u00e9 abafado, carne contra carne, mas o policial dobra mais, a boca aberta procurando ar que n\u00e3o entra.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tenta chutar com a perna livre.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desvia o corpo, segura firme a perna presa e gira o quadril.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial quase cai de cara no ch\u00e3o, se segura com as duas m\u00e3os no cimento quente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deixa eu ir, seu filho da puta! \u2014 a voz sai fina, quebrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fala baixo, quase carinhoso:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu bateu primeiro, lembra?<\/p>\n\n\n\n<p>O policial tenta se levantar nos bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney coloca o joelho nas costas dele, empurra pra baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Little aproveita e d\u00e1 um tapa aberto na nuca, daqueles que ecoam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quieto, porco.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial tenta gritar por socorro.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz morre na garganta quando Barney, de alguma maneira conseguiu fecha o antebra\u00e7o no pesco\u00e7o dele, s\u00f3 o suficiente pra lembrar quem manda agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ainda segura a perna no alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dedos melados de margarina escorregam um pouco no couro, mas ele ajusta o aperto.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pro policial direto nos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Dona Marli chorou tr\u00eas noites por causa da tua &#8220;taxinha&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Torce mais cinco graus.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial solta um gemido que parece cachorro machucado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Da pr\u00f3xima vez que tu aparecer na casa de qualquer velhinha desse bairro, a gente volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra tor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed n\u00e3o vai ser margarina.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney solta o pesco\u00e7o, d\u00e1 um \u00faltimo tapa na cabe\u00e7a, de leve, quase paternal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aprende, cabo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abre as m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>A perna cai no ch\u00e3o com um baque seco.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial fica de quatro no quintal, respirando pesado, uniforme sujo de terra e margarina, saliva escorrendo no queixo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o olha pra cima.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fala mais nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas se afastam devagar, sem correr.<\/p>\n\n\n\n<p>Little ainda filma tudo, sorrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney limpa as m\u00e3os na cal\u00e7a como quem acabou um servi\u00e7o honroso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota \u00e9 o \u00faltimo a sair pelo port\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para na sa\u00edda, vira o rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Boa tarde, seu Naldo.<\/p>\n\n\n\n<p>E fecha o port\u00e3o com calma.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo lado de dentro, o policial ainda est\u00e1 de quatro, cercado de gordura amarela brilhando no sol.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo lado de fora, o Gol Bolinha, esperando.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha arranca com tudo agora, etanol rugindo, primeira, segunda, terceira. Jota pisa fundo \u2014 a aproxima\u00e7\u00e3o tinha que ser silenciosa, mas a sa\u00edda \u00e9 r\u00e1pida e barulhenta. O cheiro de margarina impregnou tudo: dedos, barba, camiseta vinho, at\u00e9 o estofado do carro. Little est\u00e1 no banco de tr\u00e1s, pernas cruzadas, olhando o v\u00eddeo no celular com um sorriso de quem acabou de ganhar na loteria. A mochila laranja escorrega do banco com uma curva, abrindo de leve \u2014 o caderno marrom pula pra fora, uma p\u00e1gina solta voando contra o vidro traseiro como um lembrete m\u00edstico do plano rabiscado mais cedo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou cortar o v\u00eddeo tirando nosso rosto \u2014 ela fala, voz concentrada. \u2014 S\u00f3 deixa ele gemendo e a voz do gordo falando. Vai direto pro grupo do bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney, no banco do carona, limpa as m\u00e3os na cal\u00e7a jeans, olha pelo retrovisor externo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 limpo atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assente, mas n\u00e3o relaxa.<\/p>\n\n\n\n<p>Vira \u00e0 direita numa rua, pega a esquerda na avenida e j\u00e1 est\u00e3o sentido Cap\u00e3o da Imbuia. Tr\u00e2nsito por enquanto tranquilo, sol j\u00e1 baixo, laranja batendo no para-brisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco minutos de sil\u00eancio gostoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Adrenalina baixando.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele sil\u00eancio de miss\u00e3o cumprida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o o r\u00e1dio da pol\u00edcia chia.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro baixo, depois mais alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma viatura passa na pista do lado, devagar demais pra ser coincid\u00eancia. PM 1904, prata, dois ocupantes. O passageiro vira o rosto, olha direto pro Gol Bolinha. \u00d3culos escuros, queixo quadrado. Jota reconhece na hora: o parceiro do cabo Naldo, o que sempre anda junto, o que faz a &#8220;cobran\u00e7a&#8221; quando o chefe n\u00e3o quer sujar a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A viatura n\u00e3o liga giroflex.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 acompanha na mesma velocidade, dois carros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Little percebe, guarda o celular r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Merda.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney se vira no banco, olha pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quer que eu des\u00e7a e resolva?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o \u2014 Jota responde, voz firme. \u2014 Deixa eles acharem que a gente t\u00e1 com medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele mant\u00e9m 60 km\/h, sinaliza, entra na pr\u00f3xima \u00e0 direita, rua residencial estreita. A viatura entra atr\u00e1s. Mant\u00e9m dist\u00e2ncia, mas n\u00e3o disfar\u00e7a mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pega o celular, liga pro n\u00famero que s\u00f3 usa em emerg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas toques.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma voz grossa atende:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fala.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acabei de deixar o cabo Naldo de joelhos no quintal dele. Untado de margarina. Agora tem viatura no meu rabo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio curto do outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Onde voc\u00eas t\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quase chegando no Cap\u00e3o da Imbuia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai pra casa e deixa o port\u00e3o aberto. Eu cuido. Estou indo pra l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desliga.<\/p>\n\n\n\n<p>Vira \u00e0 esquerda, chega no sobrado e, para o Gol na garagem aberta. Os tr\u00eas descem r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>A viatura para na esquina.<\/p>\n\n\n\n<p>Motor ligado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ponto morto.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro da garagem, a porta de casa se abre.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cara de uns 40 anos, camisa amarela, bra\u00e7os tatuados, sai com um cabo de vassoura na m\u00e3o como se fosse taco de beisebol. Atr\u00e1s dele, mais dois amigos do bairro, um com chave de roda e outro com peda\u00e7o de cano.<\/p>\n\n\n\n<p>A viatura fica parada mais dez segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista olha, calcula, v\u00ea que o jogo virou.<\/p>\n\n\n\n<p>Engata a r\u00e9, sai cantando pneu.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney solta o ar que estava segurando.<\/p>\n\n\n\n<p>Little ri alto, nervosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota entra em casa, abre a geladeira, pega tr\u00eas latas de Coca-Cola gelada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por hoje acabou \u2014 fala, entregando uma pra cada. \u2014 Mas semana que vem ele volta. E vai trazer refor\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney abre a lata, toma um gole longo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando ele voltar, a gente t\u00e1 pronto.<\/p>\n\n\n\n<p>Little encosta na parede, ainda com o celular na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E eu j\u00e1 tenho o v\u00eddeo pra quando ele aparecer de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota bebe a Coca de uma vez, amassa a lata na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pro Gol Bolinha estacionado ali, tranquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe que a guerra come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>E que margarina foi s\u00f3 o aperitivo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Alguns dias depois, 21h14. O Cap\u00e3o da Imbuia t\u00e1 quieto demais pra uma noite quente. Jota t\u00e1 na sala do sobrado, luz apagada, s\u00f3 a TV ligada no mudo passando as not\u00edcias. Camiseta vinho trocada por uma preta lisa, cal\u00e7a moletom cinza, t\u00eanis surrado nos p\u00e9s \u2014 ded\u00e3o esquerdo espiando pelo buraco, cadar\u00e7o direito frouxo como sempre, pronto pra morder em momento cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular vibra sem parar no sof\u00e1: mensagens do grupo do bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Duas viaturas na esquina da padaria.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;PM 1904 e mais uma.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quatro caras desceram, armados.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Galera j\u00e1 t\u00e1 mobilizada desde a tarde, combinamos no Whats.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele j\u00e1 esperava.<\/p>\n\n\n\n<p>Little t\u00e1 na cozinha, shortinho jeans, top preto, cabelo preso, faca de churrasco na m\u00e3o s\u00f3 por garantia.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney t\u00e1 na varanda dos fundos, camisa regata, bra\u00e7os cruzados, olhando a rua por cima do muro.<\/p>\n\n\n\n<p>O port\u00e3o da frente range.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m for\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levanta, apaga a TV, vai at\u00e9 a janela lateral.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00ea o cabo Naldo na cal\u00e7ada, agora de civil (camisa polo azul, cal\u00e7a jeans), mas com o cassetete na m\u00e3o. Ao lado dele, o parceiro de \u00f3culos escuros (mesmo \u00e0 noite) e mais dois PMs fardados, coletes, pistolas no coldre, taser na cintura.<\/p>\n\n\n\n<p>Naldo fala alto o suficiente pra meio bairro ouvir:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota! Abre esse port\u00e3o, seu filho da puta!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abre a porta da casa, fica no batente, luz do poste iluminando s\u00f3 metade do rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Boa noite, cabo. Licen\u00e7a pra qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Naldo d\u00e1 um passo \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Licen\u00e7a pra te levar preso por agress\u00e3o a autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p>Little aparece atr\u00e1s de Jota, celular j\u00e1 filmando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agress\u00e3o, que agress\u00e3o? Temos s\u00f3 v\u00eddeos de um cara fardado extorquindo velhinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos PMs d\u00e1 um passo, m\u00e3o no taser.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney surge do lado da casa, voz calma, mas alta o suficiente:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tira a m\u00e3o da\u00ed, soldado. Aqui \u00e9 uma resid\u00eancia particular. Voc\u00eas sabem, precisam de um mandado ou uma desculpa.<\/p>\n\n\n\n<p>Naldo sorri feio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mandado eu trago depois. Hoje eu vim resolver do meu jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele empurra o port\u00e3o com for\u00e7a. O trinco cede. Os quatro entram no quintal.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o recua.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quatro contra tr\u00eas, cabo? T\u00e1 com medo ainda?<\/p>\n\n\n\n<p>Naldo avan\u00e7a dois passos, cassetete balan\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Dessa vez teu grand\u00e3o n\u00e3o vai te salvar.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney j\u00e1 t\u00e1 no quintal, descal\u00e7o no ch\u00e3o de cimento, m\u00fasculos tensos.<\/p>\n\n\n\n<p>Little fica na porta, filmando tudo, voz firme:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 J\u00e1 estou transmitindo ao vivo aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Naldo para a um metro de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 De joelho, gordo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorri de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Faz eu.<\/p>\n\n\n\n<p>O cassetete sobe r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas dessa vez Jota t\u00e1 em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>E casa tem regra pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O cassetete desce. Pode n\u00e3o parecer, mas Jota sabe brigar. E em casa, conhecendo cada irregularidade do quintal, o desvio vem instintivo \u2014 gira o corpo, bra\u00e7o esquerdo subindo em bloco. O golpe passa raspando, o couro do cassetete ro\u00e7ando a barba dele. Sem aquilo, teria sido o cr\u00e2nio rachado; com aquilo, \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o da virada.<\/p>\n\n\n\n<p>O cabo Naldo perde o impulso, o corpo vai junto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota agarra o pulso fardado com as duas m\u00e3os, 110 kg girando inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O bra\u00e7o do cabo torce pra tr\u00e1s, o cassetete cai no ch\u00e3o com som seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney j\u00e1 t\u00e1 em cima do parceiro de \u00f3culos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um soco de esquerda no est\u00f4mago dobra o cara ao meio.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo PM avan\u00e7a, taser na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Little aparece do lado, baixinha, r\u00e1pida, chuta a parte de tr\u00e1s do joelho do soldado.<\/p>\n\n\n\n<p>O cara cai de cara no gramado, taser voando longe.<\/p>\n\n\n\n<p>O quarto PM hesita, m\u00e3o na pistola.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pro celular de Little filmando.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe que um tiro aqui vira o bairro inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3o para no coldre.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota grita sem soltar o cabo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tira a m\u00e3o da\u00ed ou teu chefe sai daqui sem bra\u00e7o!<\/p>\n\n\n\n<p>O cabo Naldo tenta se soltar, rosto vermelho, veia explodindo no pesco\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota torce mais o bra\u00e7o pra cima, for\u00e7a o cara a ficar na ponta dos p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Lembra da regra, cabo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu bateu primeiro de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney j\u00e1 t\u00e1 com o parceiro de \u00f3culos de joelhos, bra\u00e7o torcido nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Little pega o taser do ch\u00e3o, aponta pro PM que ainda t\u00e1 de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sempre fui curiosa em ver isso aqui funcionando?<\/p>\n\n\n\n<p>O PM levanta as m\u00e3os, devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Naldo tenta um \u00faltimo grito:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00eas t\u00e3o fudidos! Eu acabo com essa porra de bairro!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota solta o bra\u00e7o de repente, d\u00e1 um passo atr\u00e1s e chuta com tudo a parte de tr\u00e1s do joelho direito do cabo.<\/p>\n\n\n\n<p>O grandalh\u00e3o desaba, joelho no ch\u00e3o, exatamente onde queria que Jota ficasse minutos antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se abaixa, pega o cassetete do cabo, pesa na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Levanta.<\/p>\n\n\n\n<p>Naldo tenta. A perna direita n\u00e3o obedece direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota d\u00e1 um passo, coloca o p\u00e9 em cima do joelho machucado, pressiona s\u00f3 o suficiente pra doer pra caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha pra mim, cabo.<\/p>\n\n\n\n<p>Naldo levanta o rosto, \u00f3dio puro nos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fala baixo, mas todo mundo ouve:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Semana passada foi margarina. Hoje \u00e9 s\u00f3 aviso.<\/p>\n\n\n\n<p>Da pr\u00f3xima vez que tu ou qualquer fardado aparecer aqui sem mandado, melhor sem motivo, eu quebro essa perna de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>E mando o v\u00eddeo pra tua mulher, pro teu comandante e pro plant\u00e3o da porra de tv que for.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendeu?<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pressiona mais um segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O cabo solta um gemido abafado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Entendeu?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u2026entendi.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tira o p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Pega o celular de Little, filma o cabo de joelhos, os outros tr\u00eas rendidos, o quintal do sobrado como palco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Boa noite, autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz sinal pros amigos do bairro que estavam na sombra do muro, esperando desde a tarde, combinado no grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quatro caras entram, todos conhecidos, todos com celular na m\u00e3o, todos filmando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Levem eles at\u00e9 o port\u00e3o. Devagarinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Os PMs s\u00e3o erguidos, empurrados, conduzidos at\u00e9 a rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m corre. Ningu\u00e9m precisa.<\/p>\n\n\n\n<p>E eles v\u00eaem, o bairro todo estava ali na rua, preparados j\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e3o at\u00e9 as duas viaturas.<\/p>\n\n\n\n<p>O cabo Naldo entra mancando no banco do passageiro da 1904, rosto inchado, joelho tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de fechar a porta, olha uma \u00faltima vez pro sobrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota t\u00e1 no port\u00e3o, bra\u00e7os cruzados, 110 kg ocupando o mundo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Levanta a m\u00e3o, faz um tchauzinho.<\/p>\n\n\n\n<p>As viaturas saem cantando pneu, mas dessa vez pra longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Little encosta no ombro de Jota, voz baixa, sorrindo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele ainda n\u00e3o aprendeu..<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pro c\u00e9u do Cap\u00e3o da Imbuia, lua cheia, calor de ver\u00e3o come\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sim, n\u00e3o aprendeu nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas agora sabe o pre\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Barney fecha o port\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se voltar, a gente t\u00e1 aqui. E olha para o pessoal do bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota entra em casa, abre a geladeira, pega mais tr\u00eas Coca-Colas geladas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrega uma pra cada.<\/p>\n\n\n\n<p>Brindam sem palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>Little pega um cigarro, mas n\u00e3o encontra um isqueiro. Jota saca do bolso um isqueiro amarelo, acende na primeira. Na luz breve da chama, ele v\u00ea o cassetete do cabo esquecido no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pega, diz para Little fazer uma pequena postagem. Com a hashtag, olha o que esqueceram. E estende pro cara da camisa amarela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Guarda a\u00ed. Se precisar, voc\u00ea sabe onde encontrar o dono.<\/p>\n\n\n\n<p>E fecha a porta do sobrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por hoje, o Cap\u00e3o da Imbuia dorme em paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas todo mundo sabe:<\/p>\n\n\n\n<p>a perna ainda pode ser presa de novo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Gol Bolinha cinza 2003 t\u00e1 estacionado duas casas depois da alvo, meio escondido entre uma Saveiro e um Palio velho. Motor frio, vidro emba\u00e7ado, banco do carona ainda com o formato da bunda da \u00faltima que sentou ali. Jota desligou o farol h\u00e1 tr\u00eas quarteir\u00f5es, veio devagar, silencioso, at\u00e9 encostar no meio-fio. 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