{"id":1159,"date":"2026-03-13T00:15:00","date_gmt":"2026-03-13T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1159"},"modified":"2026-03-05T00:15:38","modified_gmt":"2026-03-05T03:15:38","slug":"saida-17","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/saida-17\/","title":{"rendered":"Sa\u00edda 17"},"content":{"rendered":"\n<p>A Rodoferrovi\u00e1ria de Curitiba fede a diesel velho, mijo seco e ansiedade pura.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o 23h47 e o ponto 17 parece o \u00faltimo lugar do mundo que ainda tem luz acesa. A mochila laranja de Jota est\u00e1 jogada no ch\u00e3o ao lado da grade, o caderno marrom de capa dura aberto em cima, uma p\u00e1gina solta rabiscada com o plano original \u2014 rotas alternativas, hor\u00e1rios, o nome do contato em Ponta Grossa \u2014, dobrada em quatro como um talism\u00e3 improvisado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota est\u00e1 encostado na grade enferrujada que separa a plataforma do corredor principal. Camiseta vinho grudada de suor frio, moletom cinza amarrado na cintura, barba cheia co\u00e7ando de nervoso. Ele anda de um lado pro outro, t\u00eanis surrado rangendo no piso molhado, contando cabe\u00e7as sem parar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dezesseis. Dezessete. Dezesseis. Algu\u00e9m some pro banheiro, volta. Dezessete de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>A placa acima da porta est\u00e1 torta, letras brancas quase apagadas: PONTA GROSSA.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m sabe se ainda tem Ponta Grossa pra ir.<\/p>\n\n\n\n<p>O alto-falante chia o tempo todo, voz met\u00e1lica anunciando hor\u00e1rios que ningu\u00e9m acredita mais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00d4nibus das 23h30 para S\u00e3o Paulo\u2026 atrasado\u2026 indefinidamente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00d4nibus das 23h45 para Florian\u00f3polis\u2026 cancelado.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O dele ainda n\u00e3o falaram nada. Talvez nem falem.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 fora, na rua, sirenes distantes. Luzes vermelhas e azuis refletindo nas vidra\u00e7as altas. Ningu\u00e9m olha por muito tempo. Quem olhou demais j\u00e1 n\u00e3o t\u00e1 mais aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tem na m\u00e3o uma folha A4 dobrada em quatro, papel de impressora comum, mas dobrado com tanto cuidado que parece b\u00edblia. \u00c9 o original. O \u00fanico que tem tudo: rotas alternativas, hor\u00e1rios que talvez ainda valham, nome do contato em Ponta Grossa, n\u00famero do galp\u00e3o seguro. Tudo escrito com caneta preta e vermelha, letra apertada dele mesmo. Quem mexe com programa\u00e7\u00e3o sabe escrever pequeno.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele levanta a voz pela en\u00e9sima vez:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quem ainda n\u00e3o fez xerox, faz agora. A m\u00e1quina l\u00e1 no corredor t\u00e1 funcionando. \u00daltima chance.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas pessoas correm. Voltam com folhas quentes na m\u00e3o. Dezessete pap\u00e9is. Dezessete c\u00f3pias. O original continua com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro Costa, vulgo Bitman t\u00e1 encostado na coluna de concreto, garrafa de dois litros de \u00e1gua mineral pendurada no dedo. Olhar perdido. Jota sente o peso da \u00faltima conversa deles, meses atr\u00e1s, porta batida, &#8220;nunca mais quero te ver, seu gordo irrespons\u00e1vel&#8221;. Mas agora \u00e9 agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respira fundo, atravessa os tr\u00eas metros que separam os dois.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bitman.<\/p>\n\n\n\n<p>O cara levanta o olho devagar. Reconhece. N\u00e3o sorri, n\u00e3o xinga. S\u00f3 espera.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Divide essa \u00e1gua a\u00ed? Preciso rachar pros outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman olha pra garrafa, olha pra Jota, entrega sem falar nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pega. Depois a gente v\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pega. O peso da garrafa \u00e9 bom. Dois litros \u00e9 muito quando n\u00e3o tem mais nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele distribui em copos pl\u00e1sticos improvisados, garrafinhas cortadas, tampas de refrigerante. Todo mundo bebe um gole. Ningu\u00e9m reclama da quantidade. Quem reclama nessas horas n\u00e3o dura.<\/p>\n\n\n\n<p>O rel\u00f3gio da rodovi\u00e1ria marca 00h02.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus ainda n\u00e3o deu sinal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o sil\u00eancio l\u00e1 fora mudou.<\/p>\n\n\n\n<p>As sirenes pararam.<\/p>\n\n\n\n<p>As luzes na rua apagaram de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>E o ponto 17 ficou mais escuro do que deveria. Jota enfia a m\u00e3o no bolso da cal\u00e7a moletom, sente o isqueiro amarelo \u2014 &#8220;o Sobrevivente&#8221;, o apelido que ele deu. N\u00e3o fuma, mas o isqueiro acende na primeira, uma chama tr\u00eamula iluminando o papel original por um segundo, sombras dan\u00e7ando nas letras borradas antes de apagar, como se o fogo soubesse que o plano j\u00e1 estava se desfazendo.<\/p>\n\n\n\n<p>00h14.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto 17 parece uma ilha de luz amarela dentro de um mar preto. As l\u00e2mpadas do corredor principal come\u00e7aram a piscar, uma por uma, como se algu\u00e9m estivesse desligando a cidade por setores. Dentro da plataforma ainda tem luz, mas j\u00e1 d\u00e1 pra ouvir o gerador da rodovi\u00e1ria tossindo l\u00e1 no fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota anda de um lado pro outro contando de novo. Dezessete. Sempre dezessete. Ningu\u00e9m pode sumir.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher de uns quarenta e poucos, cabelo curto tingido de loiro, camisa branca amarrotada de quem dormiu vestida h\u00e1 tr\u00eas dias, levanta a m\u00e3o t\u00edmida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Posso ver o original s\u00f3 um segundo? Quero conferir o nome do contato em Ponta Grossa. Acho que conhe\u00e7o o cara.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota hesita meio segundo. O original \u00e9 sagrado. Mas ela parece s\u00e9ria, olhos fundos de quem n\u00e3o dorme h\u00e1 dias. Ele entrega.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cuidado. \u00c9 o \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela desdobra com cuidado, segura contra a luz fraca, franze a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aqui t\u00e1 borrado\u2026 espera.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela vira o papel de lado. Dobra de leve pra ler melhor. Dobra mais. Dobra demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Crac.<\/p>\n\n\n\n<p>O som \u00e9 pequeno, seco, mas corta o ponto 17 como facada.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel rasga exatamente no meio. Perfeitamente no meio.<\/p>\n\n\n\n<p>As duas metades caem lentas no ch\u00e3o imundo, flutuando como folhas mortas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Dezessete pessoas pararam de respirar ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sente o sangue sumir da cara. Ajoelha r\u00e1pido, pega as duas metades. Tenta juntar. Falta um pedacinho de nada bem no centro: o n\u00famero do galp\u00e3o, o hor\u00e1rio exato do toque de cobertura, o nome completo do contato. Coisas que s\u00f3 estavam no original porque ele escreveu em cima, corrigiu, circulou tr\u00eas vezes de vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman \u00e9 o primeiro a falar, voz baixa, sem acusa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 constata\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher de cabelo curto cobre a boca com as duas m\u00e3os, olhos arregalados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu\u2026 eu s\u00f3 dobrei\u2026 eu n\u00e3o queria\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levanta devagar. Os 110 kg parecem 200 agora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Algu\u00e9m tem fita adesiva? Cola? Qualquer porra?<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m tem. Claro que ningu\u00e9m tem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olha pras c\u00f3pias nas m\u00e3os das pessoas. Todas incompletas. Faltam as corre\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00e3o, os riscos, os &#8220;N\u00c3O CONFIEM NO R\u00c1DIO&#8221; em letras garrafais. As c\u00f3pias s\u00e3o mapas de um mundo que j\u00e1 n\u00e3o existe mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma adolescente no fundo come\u00e7a a chorar baixinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cara de bon\u00e9 come\u00e7a a andar em c\u00edrculos, murmurando &#8220;a gente t\u00e1 fudido, a gente t\u00e1 fudido&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman se aproxima, fala s\u00f3 pra Jota ouvir:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando o \u00f4nibus chegar, a gente sobe do mesmo jeito. Improvisa. N\u00e3o tem mais plano B, s\u00f3 tem frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota engole seco. Sente o papel rasgado tremendo entre os dedos grossos.<\/p>\n\n\n\n<p>Guarda as duas metades no bolso da cal\u00e7a moletom como se ainda valesse alguma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Levanta a voz pro grupo, tentando parecer firme:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Escutem. O plano mudou. Quando o \u00f4nibus encostar, a gente sobe. Sem discuss\u00e3o. Sem parar pra pensar. Ponta Grossa ainda t\u00e1 de p\u00e9. A gente chega l\u00e1 e resolve.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m discute.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo mundo s\u00f3 olha pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque ele ainda \u00e9 o cara que tem (ou tinha) o papel.<\/p>\n\n\n\n<p>00h19.<\/p>\n\n\n\n<p>As luzes do ponto 17 apagam de vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Escurid\u00e3o total por tr\u00eas segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voltam, mais fracas, amarelas de emerg\u00eancia, o gerador tossindo alto.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o ouvem o ronco.<\/p>\n\n\n\n<p>Diesel pesado, lento, vindo do p\u00e1tio externo.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus.<\/p>\n\n\n\n<p>Branco, velho, janelas emba\u00e7adas, farol torto.<\/p>\n\n\n\n<p>Para exatamente na frente do ponto 17.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta pneum\u00e1tica abre com um chiado longo, como suspiro de quem esperou demais.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista n\u00e3o desce. N\u00e3o fala. S\u00f3 espera.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota \u00e9 o primeiro a dar um passo, amarra r\u00e1pido o cadar\u00e7o do t\u00eanis surrado que amea\u00e7ava soltar no piso escorregadio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>E as dezessete pessoas se movem como um s\u00f3 corpo atr\u00e1s dele.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta do \u00f4nibus est\u00e1 aberta como boca de bueiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota \u00e9 o primeiro a subir os tr\u00eas degraus de ferro. O cheiro dentro \u00e9 de banco de couro queimado de sol, mofo e diesel velho. O painel est\u00e1 aceso s\u00f3 pela luzinha vermelha do freio de m\u00e3o. O motorista usa bon\u00e9 escuro, aba baixa, rosto na sombra. N\u00e3o vira pra ningu\u00e9m. S\u00f3 mant\u00e9m as m\u00e3os no volante, esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 R\u00e1pido \u2014 Jota fala sem olhar pra tr\u00e1s, voz rouca de quem j\u00e1 gritou demais por dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um por um.<\/p>\n\n\n\n<p>Dezessete corpos se espremem no corredor estreito.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher de cabelo curto sobe chorando baixo, tentando pedir desculpa com os olhos. Jota n\u00e3o olha pra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman sobe em sil\u00eancio, garrafa de \u00e1gua ainda na m\u00e3o, senta na primeira poltrona do lado esquerdo e deixa o lugar do corredor pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cara de bon\u00e9 sobe falando sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma m\u00e3e carrega crian\u00e7a dormindo no colo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um velho de bengala sobe devagar, mas sobe.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota conta de novo enquanto andam:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Um, dois, tr\u00eas\u2026 dezesseis\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Ele mesmo \u00e9 o dezessete.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobe, puxa a porta com for\u00e7a. O pneum\u00e1tico chia e fecha.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor ronca mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus arranca sem esperar ningu\u00e9m sentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeira marcha rangendo, segunda, terceira.<\/p>\n\n\n\n<p>Saem do p\u00e1tio da rodoferrovi\u00e1ria como se estivessem sendo cuspidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela janela esquerda, Curitiba j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<p>Postes apagados.<\/p>\n\n\n\n<p>Pr\u00e9dios escuros.<\/p>\n\n\n\n<p>Far\u00f3is de carros abandonados piscando no meio da avenida.<\/p>\n\n\n\n<p>Um inc\u00eandio longe, na regi\u00e3o do Centro C\u00edvico, laranja contra o c\u00e9u preto.<\/p>\n\n\n\n<p>Sirenes que n\u00e3o s\u00e3o mais de pol\u00edcia nem de bombeiro, s\u00e3o s\u00f3 uivos perdidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus pega a BR-277 sentido oeste sem reduzir nas curvas.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista n\u00e3o liga farol alto. S\u00f3 o baixo, cortando a escurid\u00e3o como faca cega.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro, ningu\u00e9m fala.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o barulho dos pneus no asfalto e o choro abafado da mulher de cabelo curto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota est\u00e1 sentado no banco da frente, do lado do corredor. Bitman ao lado da janela.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tira as duas metades do papel rasgado do bolso, tenta juntar de novo sob a luz fraca do painel.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman olha de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ainda tentando colar?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o. S\u00f3 tentando lembrar o que tava escrito no peda\u00e7o que sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman d\u00e1 um meio sorriso triste.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu lembro de um neg\u00f3cio. O contato em Ponta Grossa\u2026 o apelido dele era Corvo, n\u00e9? Galp\u00e3o 9, sa\u00edda 17 da rodovi\u00e1ria de l\u00e1. Era isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota vira o rosto devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Era. Como tu sabe?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque eu ajudei a escrever esse plano, seu filho da puta. Tr\u00eas meses atr\u00e1s. Quando tu me chamou pra fazer o backup dos servidores e depois sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio pesado entre os dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abaixa a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei. Desculpa.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman suspira, olha pela janela a escurid\u00e3o passando r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o adianta mais. Mas pelo menos a gente sabe pra onde ir. Galp\u00e3o 9. Corvo. Se ainda existir.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus pega velocidade. 100, 110, 120.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa BR-277 que nunca viu um \u00f4nibus velho andar t\u00e3o r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guarda as metades rasgadas no bolso de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pra frente.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista ainda n\u00e3o virou o rosto nenhuma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem pra conferir retrovisor.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem pra olhar pelo canto do olho.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 dirige.<\/p>\n\n\n\n<p>E a placa de Ponta Grossa vai ficando mais perto no para-brisa.<\/p>\n\n\n\n<p>00h47.<\/p>\n\n\n\n<p>A BR-277 est\u00e1 vazia demais pra ser verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem caminh\u00e3o, nem carro, nem moto. S\u00f3 o \u00f4nibus branco rasgando a noite a 130 km\/h, far\u00f3is baixos cortando um t\u00fanel de escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota est\u00e1 de p\u00e9 no corredor, segurando no encosto dos bancos pra n\u00e3o cair. Os 110 kg balan\u00e7am a cada buraco no asfalto. A camiseta vinho est\u00e1 grudada no peito de suor frio.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman olha fixo pela janela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 vendo aquilo?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segue o olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Longe, no retrovisor externo, dois pontos de luz.<\/p>\n\n\n\n<p>Far\u00f3is.<\/p>\n\n\n\n<p>Vindo r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista acelera mais.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor ruge como se tivesse acordado com raiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Os far\u00f3is crescem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficam maiores.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro do \u00f4nibus, algu\u00e9m come\u00e7a a rezar alto.<\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a acorda e chora.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota grita pra frente:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pisa fundo, cara!<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista n\u00e3o responde.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas pisa.<\/p>\n\n\n\n<ol start=\"140\" class=\"wp-block-list\">\n<li><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>O veloc\u00edmetro treme.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito do t\u00eanis surrado solta no balan\u00e7o. Jota trope\u00e7a, se abaixa pra amarrar \u2014 e v\u00ea no ch\u00e3o uma p\u00e1gina do caderno, ca\u00edda da mochila aberta no banco, um rabisco de caneta preta iluminado pela luz fraca: &#8220;n\u00e3o confie nos far\u00f3is&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pontos de luz atr\u00e1s desaparecem de repente.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se tivessem sido apagados.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o barulho do motor e da respira\u00e7\u00e3o de dezessete pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota volta pro banco, senta pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman fala baixo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o eram far\u00f3is normais. Eram\u2026 altos demais. Como se fossem de caminh\u00e3o, mas sem o caminh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sente o est\u00f4mago revirar.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pro r\u00e1dio do painel.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 ligado, volume baixo, s\u00f3 est\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele estica o bra\u00e7o, gira o bot\u00e3o devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre o chiado, uma voz.<\/p>\n\n\n\n<p>Feminina.<\/p>\n\n\n\n<p>Calma demais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u2026sa\u00edda 17 n\u00e3o existe mais\u2026 repito\u2026 sa\u00edda 17 n\u00e3o existe mais\u2026 todos os pontos de coleta foram comprometidos\u2026 n\u00e3o sigam para Ponta Grossa\u2026 parem no pr\u00f3ximo trevo\u2026 repito\u2026 parem\u2026&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A voz corta.<\/p>\n\n\n\n<p>Volta a est\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro do \u00f4nibus, o sil\u00eancio vira gelo.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher de cabelo curto levanta a m\u00e3o tr\u00eamula.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Era\u2026 era pro galp\u00e3o 9, n\u00e9? Sa\u00edda 17 de l\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman confirma com a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Era.<\/p>\n\n\n\n<p>O cara de bon\u00e9 se levanta, voz tr\u00eamula mas decidida:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tem que parar esse \u00f4nibus. A mulher no r\u00e1dio falou. A gente desce no pr\u00f3ximo trevo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sente o papel rasgado queimar no bolso como brasa.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pro r\u00e1dio. Olha pro motorista. Lembra dos far\u00f3is que sumiram quando o caderno mandou n\u00e3o confiar. Lembra da voz calma demais, limpa demais, no meio de uma cidade que j\u00e1 apagou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se levanta, vai at\u00e9 a cabine. O cara de bon\u00e9 vai atr\u00e1s, outros dois se levantam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Motorista \u2014 Jota fala, voz firme agora. \u2014 Para no pr\u00f3ximo trevo.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista n\u00e3o vira.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o responde.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas desvia o volante meio grau pra esquerda, e o \u00f4nibus passa a cent\u00edmetros de algo atravessado na pista que ningu\u00e9m tinha visto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota congela.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo era um carro. Portas abertas, far\u00f3is acesos apontando pro c\u00e9u. Se o motorista n\u00e3o tivesse desviado\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>O cara de bon\u00e9 bate no vidro separador.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 PARA ESSA PORRA! A gente quer descer!<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus passa direto pelo trevo de Campo Largo. O cara de bon\u00e9 tenta for\u00e7ar a porta. N\u00e3o cede. Volta pro banco, xingando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fica de p\u00e9 no corredor, olhando o motorista.<\/p>\n\n\n\n<p>As m\u00e3os dele no volante se movem m\u00ednimas, precisas. Desviam de buracos que ningu\u00e9m v\u00ea. Aceleram antes das curvas como se soubesse o que vem depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota volta pro banco devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman sussurra:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele n\u00e3o vai parar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o \u2014 Jota responde baixo. \u2014 Ele n\u00e3o vai. Mas ele desviou do carro.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman olha pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E da\u00ed?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A voz no r\u00e1dio mandou parar. Os far\u00f3is apareceram quando a gente tava mais devagar. Quando a gente acelerou, sumiram. Agora a voz quer que a gente des\u00e7a no trevo. Mas ele n\u00e3o para.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman processa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu t\u00e1 dizendo que ele t\u00e1 ajudando?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra frente. O motorista continua dirigindo, rosto na sombra, bon\u00e9 baixo. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Mas cada curva feita no momento certo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00f4 dizendo que ele sabe o caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman engole seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso \u00e9 o que me preocupa.<\/p>\n\n\n\n<p>As placas v\u00e3o ficando pra tr\u00e1s, apagadas, algumas arrancadas, outras pintadas com algo que parece sangue seco.<\/p>\n\n\n\n<p>A placa seguinte est\u00e1 torta, balan\u00e7ando com o vento.<\/p>\n\n\n\n<p>PONTA GROSSA \u2013 47 km<\/p>\n\n\n\n<p>Mas algu\u00e9m riscou com tinta preta grossa por cima.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00c3O ENTRE<\/p>\n\n\n\n<p>A tinta ainda pinga.<\/p>\n\n\n\n<p>01h29.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus entra em Ponta Grossa sem reduzir.<\/p>\n\n\n\n<p>As ruas est\u00e3o escuras, mas n\u00e3o vazias.<\/p>\n\n\n\n<p>Carros abandonados atravessados nas pistas, portas abertas, far\u00f3is acesos apontando pro nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns postes ainda acesos, balan\u00e7ando fios cortados.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheiro de fuma\u00e7a que entra pelas frestas das janelas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m fala dentro do \u00f4nibus.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem choro mais.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 respira\u00e7\u00e3o pesada de dezessete pessoas que j\u00e1 entenderam.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista segue direto.<\/p>\n\n\n\n<p>Passa pelo centro, passa pelos bairros, pega a avenida que leva \u00e0 rodovi\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A rodovi\u00e1ria de Ponta Grossa est\u00e1 iluminada.<\/p>\n\n\n\n<p>Luz branca forte, quase ofensiva depois de tanta escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Portas abertas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum seguran\u00e7a, nenhum guich\u00ea aberto.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 sil\u00eancio e luz.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus entra no p\u00e1tio, faz a curva larga, para exatamente no ponto que tem a placa torta:<\/p>\n\n\n\n<p>SA\u00cdDA 17<\/p>\n\n\n\n<p>O motor morre.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta pneum\u00e1tica abre sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista finalmente vira o rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tem rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma superf\u00edcie lisa, sem olhos, sem boca, s\u00f3 pele esticada e p\u00e1lida.<\/p>\n\n\n\n<p>No lugar do rosto, um papel A4 colado com fita crepe.<\/p>\n\n\n\n<p>O original.<\/p>\n\n\n\n<p>Inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem rasgo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com todas as corre\u00e7\u00f5es, todos os c\u00edrculos vermelhos, todos os hor\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o texto est\u00e1 diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora diz, em letras grandes de caneta vermelha:<\/p>\n\n\n\n<p>VOC\u00caS J\u00c1 CHEGARAM<\/p>\n\n\n\n<p>BEM-VINDOS AO GALP\u00c3O 9<\/p>\n\n\n\n<p>A SA\u00cdDA 17 \u00c9 AQUI<\/p>\n\n\n\n<p>O papel est\u00e1 pregado com quatro tiras de fita crepe em forma de cruz.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota \u00e9 o primeiro a entender.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se levanta devagar, pernas tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman segura o bra\u00e7o dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o desce, Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros dezesseis j\u00e1 est\u00e3o de p\u00e9, caminhando pro corredor como son\u00e2mbulos.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher de cabelo curto sorri aliviada.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e pega a crian\u00e7a no colo, feliz.<\/p>\n\n\n\n<p>O velho de bengala desce primeiro, cantarolando uma m\u00fasica antiga.<\/p>\n\n\n\n<p>Um por um, v\u00e3o descendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m olha pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m hesita.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman tenta segurar Jota mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o t\u00e1 certo, porra!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o responde. Tira do bolso as duas metades rasgadas. Olha pra elas. Olha pro motorista sem rosto, pro papel inteiro colado ali, pro plano que nunca falhou de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenta rasgar as metades de vez. Acabar com aquilo. Puxa com for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel n\u00e3o cede. Liso, quente, inteiro nas m\u00e3os. As duas partes j\u00e1 se colaram sozinhas sem que ele percebesse. Puxa de novo. Torce. Nada. O papel se recusa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sente as pernas andarem.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o decidiu descer. Os p\u00e9s se movem sozinhos. O cadar\u00e7o do t\u00eanis direito solta de novo, mas ele n\u00e3o para pra amarrar, n\u00e3o dessa vez, os p\u00e9s continuam descendo o degrau como se o corpo soubesse o que a cabe\u00e7a ainda recusava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota! \u2014 Bitman grita atr\u00e1s dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota quer virar. Quer voltar. Sente o ar frio de Ponta Grossa na cara, o cheiro de fuma\u00e7a e sil\u00eancio, e as pernas continuam andando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olha pra baixo. O papel est\u00e1 inteiro na m\u00e3o. Dobrado em quatro. Perfeito. Como se nunca tivesse rasgado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente consertou, Bitman \u2014 ele fala, e a voz sai calma, quase carinhosa, e isso o assusta mais do que qualquer coisa que aconteceu na viagem inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman fica sozinho no \u00f4nibus gritando JOTA, JOTA, JOTA at\u00e9 a voz quebrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota j\u00e1 n\u00e3o ouve.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta se fecha.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus arranca vazio, pegando a BR de volta pra Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<p>No banco do motorista, agora tem um novo papel colado no painel.<\/p>\n\n\n\n<p>A4.<\/p>\n\n\n\n<p>Inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Com uma \u00fanica frase escrita em vermelho:<\/p>\n\n\n\n<p>PR\u00d3XIMA VIAGEM: 05H30<\/p>\n\n\n\n<p>17 LUGARES DISPON\u00cdVEIS<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto 17 de Curitiba ainda est\u00e1 esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>05h12.<\/p>\n\n\n\n<p>A rodoferrovi\u00e1ria de Curitiba acordou com cheiro de caf\u00e9 requentado e desinfetante barato.<\/p>\n\n\n\n<p>As luzes voltaram.<\/p>\n\n\n\n<p>O gerador parou de tossir.<\/p>\n\n\n\n<p>Os alto-falantes anunciam hor\u00e1rios normais, como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto 17 est\u00e1 limpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Piso seco, placas retas, ningu\u00e9m esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus branco entra devagar no p\u00e1tio, motor tranquilo, janelas limpas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para exatamente na faixa amarela.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta pneum\u00e1tica abre.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista desce o primeiro degrau, bon\u00e9 baixo, camisa polo branca impec\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosto normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois olhos castanhos cansados, barba cheia, cabelo ondulado grisalho nas laterais.<\/p>\n\n\n\n<p>110 kg que ocupam o espa\u00e7o como se fossem donos do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desce, olha ao redor, respira fundo o ar frio da madrugada curitibana.<\/p>\n\n\n\n<p>Tira o bon\u00e9, passa a m\u00e3o no cabelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Guarda na mochila uma folha A4 dobrada em quatro, cheia de anota\u00e7\u00f5es novas, c\u00edrculos vermelhos frescos, o caderno marrom agora fechado ao lado, capa dura sem nenhuma marca.<\/p>\n\n\n\n<p>No painel do \u00f4nibus, um papelzinho colado com fita crepe:<\/p>\n\n\n\n<p>17 LUGARES DISPON\u00cdVEIS<\/p>\n\n\n\n<p>DESTINO: PONTA GROSSA<\/p>\n\n\n\n<p>EMBARQUE IMEDIATO<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras pessoas come\u00e7am a chegar.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas conhecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher de cabelo curto tingido de loiro se aproxima, hesitante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse \u00e9 o \u00f4nibus seguro?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorri, voz calma, quase carinhosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 o \u00fanico que sobrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele entrega uma c\u00f3pia xerocada pra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Guarda bem. N\u00e3o rasga o original.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher assente, segura o papel como se fosse ouro.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitman n\u00e3o aparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca mais vai aparecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sobe de volta, senta no banco do motorista.<\/p>\n\n\n\n<p>Coloca o bon\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Engata a marcha.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus sai suave do ponto 17, pega a BR-277 sentido oeste.<\/p>\n\n\n\n<p>No retrovisor, ele v\u00ea a rodoferrovi\u00e1ria ficando pequena.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00ea tamb\u00e9m, por um segundo s\u00f3, algu\u00e9m sentado no \u00faltimo banco. Ombros largos, garrafa de \u00e1gua na m\u00e3o. Quando olha de novo, sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota vira pro para-brisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois olhos castanhos no reflexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por enquanto.<\/p>\n\n\n\n<p>A placa de Ponta Grossa j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 na frente.<\/p>\n\n\n\n<p>E o ciclo recome\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Rodoferrovi\u00e1ria de Curitiba fede a diesel velho, mijo seco e ansiedade pura. S\u00e3o 23h47 e o ponto 17 parece o \u00faltimo lugar do mundo que ainda tem luz acesa. 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