{"id":1160,"date":"2026-03-14T00:15:00","date_gmt":"2026-03-14T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1160"},"modified":"2026-03-05T00:16:24","modified_gmt":"2026-03-05T03:16:24","slug":"nove-olhos","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/nove-olhos\/","title":{"rendered":"Nove Olhos"},"content":{"rendered":"\n<p>O Gol Bolinha ficou dormindo na garagem do sobrado no Cap\u00e3o da Imbuia, tanque cheio, esperando quieto. Jota acordou \u00e0s sete. A fam\u00edlia j\u00e1 tinha sa\u00eddo pra missa na Catedral. Ele n\u00e3o ia. Nunca ia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomou banho sem pressa, vestiu a camiseta vinho, o moletom cinza, o t\u00eanis surrado. Pegou a mochila laranja e jogou no ombro. O caderno marrom de capa dura estava dentro, com uma p\u00e1gina solta rabiscada de leve: &#8220;Serra do Mar \u2013 n\u00e3o olhe pra baixo&#8221;, uma anota\u00e7\u00e3o velha de outra viagem que ele nem lembrava quando fez.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s sete e meia chamou um Uber. Hoje ele merecia n\u00e3o dirigir.<\/p>\n\n\n\n<p>A excurs\u00e3o era ideia de uma tia: ela organizou tudo, fez o cronograma, conseguiu at\u00e9 um daqueles \u00f4nibus verdes de dois andares da Linha Turismo de Curitiba. Missa das sete na Catedral, caf\u00e9 da manh\u00e3 no Mercado Municipal, depois descida pra Morretes, almo\u00e7o de barreado, volta no fim da tarde. Barato, alegre, fam\u00edlia. Jota topou porque fazia tempo que n\u00e3o via a fam\u00edlia toda reunida. Mas missa, n\u00e3o. Missa ele pulava.<\/p>\n\n\n\n<p>O Uber deixou ele na Pra\u00e7a Tiradentes um pouco antes das oito. O \u00f4nibus verde de dois andares j\u00e1 esperava, motor desligado, porta aberta. A Catedral ainda tinha gente dentro. Dava pra ouvir o coro baixinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota subiu sozinho pro segundo andar. A lona de cobertura estava esticada por causa da garoa fina. Escolheu a primeira fileira, banco de ferro pintado de verde, aquele que range quando um gordo de 110 kg se acomoda. Jogou a mochila laranja no banco ao lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quinze minutos depois, a fam\u00edlia come\u00e7ou a sair da Catedral.<\/p>\n\n\n\n<p>Primos adolescentes bocejavam. Crian\u00e7as corriam ao redor da fonte. A tia que organizou tudo conferia a lista num caderninho. O pai de Jota ajeitava a bolsa t\u00e9rmica. Tias comentavam a homilia, felizes, abra\u00e7adas.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo mundo subiu pro \u00f4nibus.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista ligou o motor. Um ronco manso, de Scania antigo. A porta pneum\u00e1tica chiou e fechou. O guia de turismo, um cara magro de bigode fino e microfone na m\u00e3o, come\u00e7ou o bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 de sempre: &#8220;Bem-vindos \u00e0 Linha Turismo especial, hoje vamos conhecer\u2026&#8221;. Ningu\u00e9m prestava aten\u00e7\u00e3o de verdade. As crian\u00e7as gritavam. As tias tiravam selfie com a Catedral ao fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus desceu devagar pela Pra\u00e7a Tiradentes, fez a volta curta e parou em frente ao Mercado Municipal. Porta abriu. Todo mundo desceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Caf\u00e9 da manh\u00e3 coletivo. P\u00e3o na chapa, caf\u00e9 preto, suco de laranja, bolo de fub\u00e1 que uma tia trouxe de casa. O cheiro bom de manteiga derretendo, farinha torrada, conversa alta. Jota comeu devagar, observando. A fam\u00edlia inteira reunida, feliz, rindo. Fazia tempo mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Meia hora depois, todo mundo de volta pro \u00f4nibus. Barriga cheia, \u00e2nimo alto. A tia conferia a lista de novo. Todos presentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus saiu do Mercado, passou pelo Viaduto Colorado, contornou o Jardim Bot\u00e2nico. Tudo normal. Tudo feliz. A garoa parou. Algu\u00e9m recolheu a lona de cobertura do segundo andar. O sol come\u00e7ou a bater forte. Tias passaram protetor solar nos sobrinhos. Jota encostou a cabe\u00e7a no banco e deixou o vento bater no rosto. Sentia o peso bom do corpo afundando no banco, o cora\u00e7\u00e3o tranquilo de quem n\u00e3o precisa provar nada pra ningu\u00e9m hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sa\u00edda da cidade, o tr\u00e2nsito ainda leve. A BR-277 se abriu inteira, reta, limpa, o asfalto brilhando com a garoa. Placas de Morretes e Paranagu\u00e1 aparecendo de vez em quando. O c\u00e9u foi clareando. O sol bateu forte no metal do \u00f4nibus. O guia anunciou que em quarenta minutos come\u00e7ava a descida da Serra do Mar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostava daquela parte. Sempre gostou. Jota n\u00e3o conseguia lembrar quantas vezes tinha feito esse trajeto. Acompanhado ou sozinho. As mem\u00f3rias se misturavam, emba\u00e7adas como o vidro do Gol.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus pegou velocidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo andar balan\u00e7ava levinho nas curvas. Algumas tias j\u00e1 desciam pro andar de baixo, com medo da altura. Jota ficou. Abriu os bra\u00e7os no encosto do banco, ocupando dois lugares porque podia. Respirou fundo o ar frio que entrava por cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a\u00ed que ele sentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro como uma coceira na nuca. Depois como um peso inexplic\u00e1vel no peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo errado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabia o qu\u00ea ainda. S\u00f3 sabia que tinha.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista trocou de marcha. O ronco do motor mudou de tom.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus cruzou a faixa amarela cont\u00ednua por meio segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um carro buzinou l\u00e1 atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus voltou pro lado certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota franziu a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro retrovisor externo.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista estava l\u00e1, de bon\u00e9, m\u00e3os firmes no volante, perfil normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas algo n\u00e3o era normal.<\/p>\n\n\n\n<p>E a Serra ainda nem tinha come\u00e7ado de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>A Serra come\u00e7ou de verdade um pouco mais \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>A pista afunilou, o guard-rail virou uma fita prateada colada na beira do abismo, e a mata atl\u00e2ntica engoliu o c\u00e9u. O sol sumiu atr\u00e1s da encosta. A temperatura caiu de uma vez. A neblina come\u00e7ou a subir do vale, grudando no vidro.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus desceu a primeira curva fechada, motor sendo exigido mais do que deveria. O segundo andar balan\u00e7ou forte. Uma crian\u00e7a gritou de empolga\u00e7\u00e3o l\u00e1 embaixo. Outra crian\u00e7a chorou. O guia de turismo ainda tentava manter o roteiro: &#8220;\u2026aqui \u00e0 nossa direita temos o Viaduto dos Padres, um dos pontos mais\u2026&#8221; Ningu\u00e9m ouvia mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o est\u00f4mago subir at\u00e9 a garganta. N\u00e3o era medo de altura. Era outra coisa. Aquele peso que aperta atr\u00e1s dos olhos. Ele se inclinou pra frente, apoiou os antebra\u00e7os grossos no corrim\u00e3o gelado e olhou pra baixo, pro asfalto que se desenrolava como uma cobra preta.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus cruzou a faixa amarela de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez n\u00e3o foi meio segundo. Foram tr\u00eas, quatro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um Palio Weekend cinza subia devagar na m\u00e3o correta. O motorista do Palio viu o \u00f4nibus verde vindo de frente, pisou fundo no freio, jogou pro acostamento. O \u00f4nibus passou raspando, t\u00e3o perto que Jota viu o cara de olhos arregalados, boca aberta num grito que n\u00e3o saiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus n\u00e3o desviou. Nem diminuiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pro lado errado como se fosse o certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um sil\u00eancio estranho caiu no segundo andar.<\/p>\n\n\n\n<p>As tias pararam de falar. Os primos baixaram os celulares. At\u00e9 as crian\u00e7as ficaram quietas. S\u00f3 o barulho do motor e o chiado dos pneus nas curvas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desceu dois degraus de uma vez, o peso fazendo o metal ranger alto. Chegou no meio do segundo andar e olhou pra tr\u00e1s. O Palio estava parado torto no acostamento, farol piscando, o motorista com a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os. Nenhuma batida ainda. S\u00f3 o susto. Mas j\u00e1 era o primeiro aviso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Algu\u00e9m viu isso? \u2014 ele perguntou, voz mais rouca do que queria.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma tia levantou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Viram o qu\u00ea, Jota?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O \u00f4nibus\u2026 ele t\u00e1 na contram\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela deu risadinha nervosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 doido, filho? \u00c9 s\u00f3 curva, o motorista sabe o que faz.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota voltou pro corrim\u00e3o. Olhou pra frente.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3xima curva passava por um trecho onde a pista estava simples, mas tinha sinais de deslizamento antigo. O \u00f4nibus entrou direto. Na contram\u00e3o. Velocidade constante. Sem buzinar, sem reduzir.<\/p>\n\n\n\n<p>Um hatch prateado apareceu do nada, subindo.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista do hatch jogou pro lado, tentou escapar pela esquerda. N\u00e3o tinha esquerda. S\u00f3 mato e abismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O choque foi seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Metal contra metal. O para-choque do hatch dobrou como papel, o cap\u00f4 subiu, o vidro dianteiro explodiu em mil peda\u00e7os. O \u00f4nibus tremeu um segundo, como quem toma um tapa leve, e seguiu. Sem arranh\u00e3o. A lataria verde brilhando intacta. O hatch rodou duas vezes, bateu no guard-rail e parou de frente pro abismo, cap\u00f4 fumegando.<\/p>\n\n\n\n<p>Gritos explodiram l\u00e1 embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 PARA! PARA ESSA PORRA!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 ELE BATEU EM ALGU\u00c9M!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 MOTORISTA, PELO AMOR DE DEUS!<\/p>\n\n\n\n<p>O guia largou o microfone. O microfone caiu, rolou pelo corredor, ficou chiando sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota j\u00e1 estava descendo a escada em espiral quando o segundo choque aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma van branca descia na pista correta. Tentou frear, tentou desviar. O \u00f4nibus pegou ela de lado, arrancou o retrovisor com espelho e tudo, amassou a porta de correr como se fosse lata de sardinha. A van derrapou, rodou, bateu de traseira na mureta e ficou atravessada na pista. Portas abriram. Gente saiu correndo, gritando, alguns com celular na m\u00e3o filmando o \u00f4nibus verde que j\u00e1 sumia na pr\u00f3xima curva.<\/p>\n\n\n\n<p>O cheiro de borracha queimada entrou pelas janelas abertas.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai de Jota estava de p\u00e9 no corredor, rosto vermelho, segurando no encosto dos bancos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente precisa fazer alguma coisa!<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque ningu\u00e9m sabia o qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra cabine. A porta estava fechada. O \u00f4nibus era adaptado, cabine isolada com vidro fum\u00ea que refletia o caos l\u00e1 dentro: tias chorando, crian\u00e7as agarradas nas m\u00e3es, primos adolescentes com o celular apontado pras janelas como se aquilo fosse conte\u00fado pro TikTok.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro choque veio mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>Um Gol branco, modelo antigo, tentou subir pelo acostamento. O \u00f4nibus pegou de cheio na lateral. O Gol voou, literalmente voou uns dois metros, capotou uma vez e caiu de rodas pro alto no meio fio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o cora\u00e7\u00e3o bater t\u00e3o forte que do\u00eda o peito.<\/p>\n\n\n\n<p>O suor frio escorreu pela nuca, grudou na camiseta vinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou pros lados. A maioria ainda em p\u00e2nico. Mas algo estava mudando.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas sobrinhas, l\u00e1 no fundo, pararam de chorar. Olharam pra janela. Come\u00e7aram a rir.<\/p>\n\n\n\n<p>Riam alto. Apontavam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha o carro voando, tia! Que legal!<\/p>\n\n\n\n<p>Uma prima que gritava h\u00e1 dois minutos agora mexia no celular, ajeitando o cabelo, procurando \u00e2ngulo pra selfie.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu um arrepio que n\u00e3o era do frio da Serra.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus n\u00e3o tinha um arranh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem um risco na pintura.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se o mundo \u00e9 que estivesse quebrando ao redor dele.<\/p>\n\n\n\n<p>E a neblina ficava mais densa.<\/p>\n\n\n\n<p>A descida, mais r\u00e1pida.<\/p>\n\n\n\n<p>E a pr\u00f3xima curva j\u00e1 vinha.<\/p>\n\n\n\n<p>A neblina agora era parede.<\/p>\n\n\n\n<p>Branca, grossa, engolindo far\u00f3is, guard-rail, at\u00e9 o barulho dos motores. S\u00f3 existia o asfalto preto na frente e o \u00f4nibus verde cortando ele como faca quente em manteiga. O veloc\u00edmetro marcava 80 numa descida que qualquer caminhoneiro faz de segunda. O motor rugia satisfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pr\u00f3ximos minutos foram metal retorcido, vidro explodindo, fa\u00edscas azuis. Uma Saveiro vermelha jogada na mureta. Um caminh\u00e3o tombando em c\u00e2mera lenta, bloqueando a pista inteira l\u00e1 atr\u00e1s. Uma moto arrastada debaixo do \u00f4nibus como osso de frango, cuspida pra tr\u00e1s soltando fa\u00edsca. Jota parou de contar.<\/p>\n\n\n\n<p>O andar de baixo agora era meio manic\u00f4mio, meio passeio escolar.<\/p>\n\n\n\n<p>Metade das tias ainda rezava alto, o ter\u00e7o batendo no peito. A outra metade comentava da paisagem, tirava foto da neblina. Primos adolescentes filmavam tudo em vertical, mas agora metade narrava como terror (&#8220;a gente vai morrer!&#8221;) e metade como divers\u00e3o (&#8220;que louco, olha s\u00f3!&#8221;). Crian\u00e7as chorando. Outras rindo. O pai de Jota ainda tentava arrombar a porta da cabine com o ombro, mas a voz j\u00e1 sa\u00eda mais fraca, menos convicta:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente precisa&#8230; precisa fazer alguma coisa&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A porta n\u00e3o abria.<\/p>\n\n\n\n<p>O vidro fum\u00ea n\u00e3o deixava ver nada l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota estava no meio do corredor, pernas abertas pra aguentar as curvas, 110 kg balan\u00e7ando como navio em tempestade. O suor escorria pela testa, pingava na barba. A camiseta vinho colada nas costas. Ele sentia o cheiro: medo, urina de crian\u00e7a que se mijou, borracha queimada entrando pelas janelas.<\/p>\n\n\n\n<p>E o pior:<\/p>\n\n\n\n<p>cada vez menos gente via o que ele via.<\/p>\n\n\n\n<p>Um tio que rezava h\u00e1 cinco minutos guardou o ter\u00e7o no bolso e apontou pro vale:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que vista incr\u00edvel, olha isso, amor!<\/p>\n\n\n\n<p>Uma prima parou de gritar, abriu o Instagram, come\u00e7ou a escolher filtro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou ao redor, desesperado.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade estava se dividindo. E ele estava do lado errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota gritou, a voz rasgando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 VOC\u00caS N\u00c3O T\u00c3O VENDO? A GENTE VAI MORRER!<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns olharam pra ele como se estivesse louco.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros nem olharam.<\/p>\n\n\n\n<p>A divis\u00e3o estava quase completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Um carro azul pequeno, um Up ou algo assim, apareceu subindo devagar. O \u00f4nibus pegou de frente. O cap\u00f4 do Up dobrou pra dentro, o carro girou como pi\u00e3o e desapareceu na neblina, direto pro abismo. Jota ouviu o barulho distante de metal batendo em \u00e1rvore, depois sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>O guia tur\u00edstico estava sentado no ch\u00e3o do corredor, microfone esquecido, olhos vidrados. Repetia baixinho:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u2026 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Jota passou por cima dele, chegou na porta da cabine.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai j\u00e1 estava ali, esmurrando a porta com os dois punhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 ABRE! ABRE AGORA!<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus seguia firme na contram\u00e3o, como se tivesse trilho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tentou olhar pelo vidro fum\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Conseguiu ver s\u00f3 um peda\u00e7o do perfil do motorista: bon\u00e9, m\u00e3os no volante, postura calma. Normal demais. Errado demais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente precisa entrar a\u00ed \u2014 Jota disse, mais pra si mesmo do que pro pai.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o abre, porra! J\u00e1 tentei!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota encostou a testa no vidro frio. Respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu fa\u00e7o o que for preciso \u2014 disse baixo, quase num sussurro.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta se abriu sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Um clique seco. Dois cent\u00edmetros.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai recuou, assustado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota empurrou a porta devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>O suficiente pra ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f4nibus de linha comum, daqueles vermelhos da Via\u00e7\u00e3o Castelo Branco, subindo lotado. O motorista do vermelho viu o verde vindo, tentou frear, tentou jogar pro lado. N\u00e3o tinha lado. Os dois \u00f4nibus se olharam de frente por um segundo eterno.<\/p>\n\n\n\n<p>Impacto.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo inteiro tremeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Vidros estouraram. Bancos se soltaram dos parafusos. Pessoas voaram pelos corredores. Jota foi jogado contra a parede, sentiu o ombro bater forte, o ar sumir dos pulm\u00f5es. O \u00f4nibus verde deslizou de lado, pneus cantando, mas n\u00e3o tombou. N\u00e3o parou. Continuou descendo.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro \u00f4nibus ficou l\u00e1 atr\u00e1s, atravessado, portas abertas, gente saindo cambaleando, alguns no ch\u00e3o, outros correndo pra mata.<\/p>\n\n\n\n<p>O cheiro agora era de diesel queimado, pl\u00e1stico derretido, medo puro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se levantou, sangue na boca (mordeu a l\u00edngua), cambaleando at\u00e9 a cabine de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez a porta estava entreaberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dedo. Dois cent\u00edmetros.<\/p>\n\n\n\n<p>O suficiente pra ele ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Nove olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas fileiras perfeitas de tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem p\u00e1lpebras marcadas, sem rugas, s\u00f3 nove bolas brancas com \u00edris pretas, cada uma olhando pra um canto diferente. Um olhava pra estrada. Dois vigiavam o retrovisor externo. Um acompanhava o painel. Outro parecia fixo no guard-rail. Tr\u00eas observavam pontos mortos que Jota n\u00e3o conseguia identificar.<\/p>\n\n\n\n<p>E um \u2014 s\u00f3 um \u2014 se moveu na cabe\u00e7a do motorista e fixou direto em Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista n\u00e3o virou o rosto inteiro. S\u00f3 aquele olho. Cravado nele.<\/p>\n\n\n\n<p>E continuou dirigindo.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai ao lado de Jota ofegava, mas n\u00e3o entrava. Ficou parado no batente, olhos arregalados, boca aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou ali, m\u00e3o na ma\u00e7aneta, o corpo inteiro tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s dele, o caos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na frente dele, o sil\u00eancio absoluto da cabine.<\/p>\n\n\n\n<p>E a pr\u00f3xima curva j\u00e1 vinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota empurrou a porta com o ombro inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O metal rangeu como se doesse, mas abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar dentro da cabine era outro: mais frio, mais pesado, sem cheiro de nada. Nem diesel, nem borracha, nem medo. S\u00f3 sil\u00eancio absoluto, como se o som tivesse morrido ali dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja estava no ch\u00e3o, encostada no banco do carona.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota reconheceu na hora. Era dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o lembrava de ter trazido pra cabine.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o lembrava de ter deixado ali.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista n\u00e3o virou o rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuava com as m\u00e3os \u00e0s dez e duas no volante, bon\u00e9 simples, camisa cinza padr\u00e3o de motorista de \u00f4nibus de Curitiba, postura de quem cumpre o trajeto como qualquer outro dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o rosto\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Nove olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas fileiras perfeitas, alinhadas como teclas de calculadora antiga.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum piscava junto. Alguns nem piscavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Um olhava fixo pra estrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois vigiavam o retrovisor externo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas se cravaram em Jota assim que ele entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Um parecia olhar pra tr\u00e1s, pra dentro do pr\u00f3prio cr\u00e2nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois \u00faltimos\u2026 olhavam pra lugares que n\u00e3o existiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o est\u00f4mago virar do avesso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era nojo. Era algo pior.<\/p>\n\n\n\n<p>Era reconhecer que aquilo n\u00e3o era humano, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era monstro. Era outra coisa. Algo que dirige \u00f4nibus, usa uniforme, cumpre hor\u00e1rio. Algo que est\u00e1 aqui pra fazer exatamente o que est\u00e1 fazendo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para esse \u00f4nibus agora \u2014 a voz saiu baixa, rouca, quase um rosnado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os nove olhos n\u00e3o reagiram.<\/p>\n\n\n\n<p>A boca (uma boca normal, pequena, sem l\u00e1bios marcados) n\u00e3o se moveu.<\/p>\n\n\n\n<p>Um barulho seco l\u00e1 fora. Metal sendo esmagado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota nem olhou pra tr\u00e1s. Sabia o que era. Mais um carro virando sucata na Serra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 ouvindo? \u2014 Jota deu um passo \u00e0 frente. O ch\u00e3o da cabine era limpo demais. Nem poeira. \u2014 Tem fam\u00edlia minha a\u00ed atr\u00e1s. Crian\u00e7a. Minha m\u00e3e. Para essa porra.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus pegou outra curva fechada, inclinou, os pneus cantaram, mas o motorista nem corrigiu o volante. O ve\u00edculo se equilibrou sozinho, como se a estrada obedecesse a ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o sangue pulsar nas t\u00eamporas.<\/p>\n\n\n\n<p>A raiva subiu quente, misturada com medo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para essa porra \u2014 disse entre dentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele esticou o bra\u00e7o devagar, a m\u00e3o se aproximando do volante.<\/p>\n\n\n\n<p>Hesitou.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois tocou.<\/p>\n\n\n\n<p>As m\u00e3os do motorista eram frias.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o geladas. Frias como metal que ficou a noite inteira na garoa.<\/p>\n\n\n\n<p>No segundo em que Jota encostou os dedos no volante, todos os nove olhos viraram pra ele ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um movimento perfeitamente sincronizado, como se fossem um s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu um peso cair em cima dele.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p>Era como se algu\u00e9m tivesse aberto a tampa do c\u00e9rebro e despejado cimento frio l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagens que n\u00e3o eram dele come\u00e7aram a passar:<\/p>\n\n\n\n<p>Ele mesmo no banco. Bon\u00e9 verde da Linha Turismo. Nove olhos olhando pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>O ciclo repetindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele soltou o volante como se tivesse levado choque.<\/p>\n\n\n\n<p>Os olhos voltaram cada um pro seu canto.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus continuou na contram\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo, o peito subindo e descendo pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que voc\u00ea quer?<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fala comigo, porra!<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou pro painel.<\/p>\n\n\n\n<p>O veloc\u00edmetro marcava 92.<\/p>\n\n\n\n<p>A temperatura externa: 8 \u00b0C.<\/p>\n\n\n\n<p>O r\u00e1dio estava desligado.<\/p>\n\n\n\n<p>No canto do para-brisa, um adesivo pequeno: &#8220;Deus \u00e9 fiel&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma risada seca, sem gra\u00e7a, que morreu na garganta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea quer que eu dirija, \u00e9 isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Os nove olhos piscaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas de cada vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Lento.<\/p>\n\n\n\n<p>Como quem diz sim.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra tr\u00e1s pela fresta da porta.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia ainda gritava, chorava, filmava, rezava, ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns j\u00e1 estavam quietos demais. Olhos vidrados. Como se estivessem desistindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele voltou a encarar o motorista.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se eu sentar a\u00ed\u2026 posso fazer o que quiser?<\/p>\n\n\n\n<p>Os olhos n\u00e3o responderam.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o \u00f4nibus diminuiu um tiquinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase um sim.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o cora\u00e7\u00e3o bater t\u00e3o forte que do\u00eda o peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou na m\u00e3e l\u00e1 atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>No pai tentando arrombar a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas sobrinhas que ainda riam.<\/p>\n\n\n\n<p>Engoliu seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele deu um passo pro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista soltou o volante.<\/p>\n\n\n\n<p>Devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>As m\u00e3os subiram, se juntaram no colo.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo inteiro virou pra Jota, lento, como boneco de posto.<\/p>\n\n\n\n<p>O lugar estava vazio agora.<\/p>\n\n\n\n<p>O banco do motorista esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Os nove olhos continuavam olhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu o primeiro passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou a mochila laranja do ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O caderno marrom estava l\u00e1 dentro, quieto, esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou.<\/p>\n\n\n\n<p>O banco do motorista era mais quente do que deveria.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o quente de sol, quente de corpo. Como se algu\u00e9m tivesse acabado de levantar dali depois de horas. O vinil rangeu sob os 110 kg, mas n\u00e3o afundou como afundava no segundo andar. Aqui o banco parecia feito pra ele. Moldado pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele segurou o volante \u00e0s dez e duas.<\/p>\n\n\n\n<p>As m\u00e3os se encaixaram perfeitas, como se j\u00e1 conhecessem cada curva do pl\u00e1stico gasto.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, l\u00e1 atr\u00e1s, o \u00faltimo grito se calou.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio caiu como chuva.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade piscou.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando voltou, j\u00e1 era outra.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista (o que j\u00e1 n\u00e3o era mais motorista) ficou de p\u00e9 ao lado, im\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Nove olhos fixos nele.<\/p>\n\n\n\n<p>Silencioso.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus ainda descia a 90 km\/h, na contram\u00e3o, neblina grossa lambendo os vidros.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pisou no freio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>O pedal desceu at\u00e9 o fundo, macio, como se estivesse pisando em algod\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor nem tossiu. A velocidade nem tremeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele engatou a r\u00e9 por instinto.<\/p>\n\n\n\n<p>A alavanca mexeu, mas o \u00f4nibus continuou descendo.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00e2nico subiu quente pela espinha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para essa porra! \u2014 gritou pra ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Os nove olhos do ex-motorista n\u00e3o reagiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas observavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o veio o peso.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro na nuca.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois atr\u00e1s dos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um formigamento que desceu pela testa, pelas t\u00eamporas, como se pequenos dedos frios estivessem abrindo caminho dentro do cr\u00e2nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levou a m\u00e3o ao rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentiu a pele esticando.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o do\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m n\u00e3o era confort\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou pro retrovisor interno.<\/p>\n\n\n\n<p>Seus olhos ainda eram dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Por enquanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele via\u2026 diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Via o carro que vinha subindo a pr\u00f3xima curva (um Corsa prata, placa de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Pinhais, mulher no volante, dois filhos no banco de tr\u00e1s).<\/p>\n\n\n\n<p>Via a trajet\u00f3ria que o \u00f4nibus faria.<\/p>\n\n\n\n<p>Via o ponto onde o guard-rail estava podre.<\/p>\n\n\n\n<p>Via.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou estava enlouquecendo?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabia mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tirou o p\u00e9 do freio.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus acelerou sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo come\u00e7ou a mudar no canto da boca dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Pequeno.<\/p>\n\n\n\n<p>Discreto.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez um sorriso.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No retrovisor, viu a fam\u00edlia l\u00e1 atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns ainda gritavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros j\u00e1 estavam quietos, olhando pro vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma sobrinha levantou o celular, filmou a cabine, sorriu e fez joinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o formigamento descer pro peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Pro abd\u00f4men.<\/p>\n\n\n\n<p>Pros bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pras pr\u00f3prias m\u00e3os no volante.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um segundo, achou que eram mais m\u00e3os do que deveriam ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quando piscou, eram s\u00f3 duas.<\/p>\n\n\n\n<p>O ex-motorista deu um passo pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>E come\u00e7ou a se desfazer.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o derreter.<\/p>\n\n\n\n<p>Desfazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Como fuma\u00e7a verde que a neblina engoliu.<\/p>\n\n\n\n<p>Sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Restou s\u00f3 o bon\u00e9 verde, ca\u00eddo no ch\u00e3o da cabine.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou o bon\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocou na cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Serviu perfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus pegou a pr\u00f3xima curva.<\/p>\n\n\n\n<p>O Corsa prata tentou desviar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deu tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto foi limpo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Corsa rodou, capotou, caiu no abismo sem nem tocar no \u00f4nibus.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus verde continuou impec\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem um arranh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro retrovisor de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Seus olhos ainda eram dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas j\u00e1 n\u00e3o piscavam juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>E a descida ainda n\u00e3o tinha terminado.<\/p>\n\n\n\n<p>A neblina afrouxou de repente, como se algu\u00e9m tivesse aberto uma cortina.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol da baixada bateu forte no para-brisa, refletiu no verde impec\u00e1vel do \u00f4nibus.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrada alargou, o asfalto ficou liso, as curvas sumiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Placa: Morretes \u2013 2 km.<\/p>\n\n\n\n<p>O veloc\u00edmetro marcava 50 agora, tranquilo, velocidade normal de descida.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota (ou o que sentava no lugar dele) tirou o p\u00e9 do acelerador.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus desacelerou sozinho, suave, profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou na cidadezinha devagarinho, como qualquer excurs\u00e3o que se preze.<\/p>\n\n\n\n<p>Rua de paralelep\u00edpedo, casario antigo, cheiro de barreado no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>As barraquinhas de artesanato j\u00e1 montadas pra receber turista.<\/p>\n\n\n\n<p>Cachorro latindo pregui\u00e7oso no meio da rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Crian\u00e7as correndo atr\u00e1s de pipa.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus parou exatamente em frente ao ponto oficial, ao lado da igreja matriz.<\/p>\n\n\n\n<p>Freio de m\u00e3o puxado com um clique seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Motor desligado.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta pneum\u00e1tica abriu com um suspiro longo.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado de fora, o pessoal das barraquinhas acenou.<\/p>\n\n\n\n<p>O guia de turismo desceu tamb\u00e9m, recuperado, microfone na m\u00e3o de novo como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pessoal, temos v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es pra almo\u00e7o! Tem um local com \u00f3timo barreado, outro com frutos do mar frescos. E ali voc\u00eas podem comprar a famosa bala de banana de Morretes!<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 dentro, os passageiros come\u00e7aram a descer.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro as tias, pernas tr\u00eamulas, mas sorrindo como se tivessem acabado de sair de um passeio normal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que descida r\u00e1pida, nem senti!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O motorista \u00e9 bom mesmo, viu?<\/p>\n\n\n\n<p>Os primos adolescentes postando stories: &#8220;Serra do Mar raiz, 10\/10&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Crian\u00e7as correndo, pulando os degraus, rindo alto.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai de Jota desceu por \u00faltimo, cara fechada, mas calado.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra cabine uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o olhou de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m perguntou baixo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E aqueles barulhos todos?<\/p>\n\n\n\n<p>O pai franziu a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que barulhos? Dormi a viagem toda. N\u00e3o aconteceu nada de estranho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu um arrepio percorrer a espinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m falou dos carros destru\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m falou dos gritos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m falou do cheiro de borracha queimada que ainda grudava nas roupas.<\/p>\n\n\n\n<p>Era como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota foi o \u00faltimo a descer.<\/p>\n\n\n\n<p>Bon\u00e9 verde da Linha Turismo na cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Camiseta vinho suada, mas seca agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Mochila laranja no ombro. O caderno marrom l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Passo firme, 110 kg pisando o paralelep\u00edpedo como se fosse dono da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou na cal\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro retrovisor externo do \u00f4nibus.<\/p>\n\n\n\n<p>Nove olhos o encararam de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas fileiras perfeitas de tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um olhou pra rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois olharam pras barraquinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas olharam direto pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Um olhou pra dentro do pr\u00f3prio cr\u00e2nio.<\/p>\n\n\n\n<p>E sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a boca dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das tias gritou l\u00e1 de longe:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, vem tirar foto com a gente!<\/p>\n\n\n\n<p>Ele virou o rosto devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os nove olhos acompanharam o movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 J\u00e1 vou \u2014 respondeu, voz calma, quase carinhosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou no restaurante. A fam\u00edlia ria, pedia barreado, brindava com guaran\u00e1. Jota sentou na cabeceira. Comeu devagar, mastigando cada garfada como se estivesse aprendendo. O pai evitava seu olhar. A m\u00e3e perguntou se ele estava bem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00d3timo \u2014 respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quando ela olhou nos olhos dele pra conferir, desviou r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se tivesse visto algo que n\u00e3o devia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando saiu, o sol j\u00e1 estava baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus verde esperava, motor ligado, pronto pra volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Os passageiros subiram rindo, falando alto, cheios de sacola de bala de banana e cacha\u00e7a de gengibre.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentou no banco do motorista.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto ainda estava vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3ximo grupo s\u00f3 chegaria amanh\u00e3 cedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele engatou a marcha.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus saiu suave da pra\u00e7a, pegou a estrada de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Subindo a Serra agora.<\/p>\n\n\n\n<p>A neblina j\u00e1 come\u00e7ava a descer de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ajustou o bon\u00e9 verde.<\/p>\n\n\n\n<p>No retrovisor, seus olhos \u2014 ainda dois, mas n\u00e3o por muito tempo \u2014 refletiram a neblina descendo de novo sobre a Serra.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrada inteira era dele.<\/p>\n\n\n\n<p>E amanh\u00e3 tem excurs\u00e3o nova.<\/p>\n\n\n\n<p>Curitiba \u2192 Morretes.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edda \u00e0s 8h00 da manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d4nibus verde da Linha Turismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Lugar garantido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Gol Bolinha ficou dormindo na garagem do sobrado no Cap\u00e3o da Imbuia, tanque cheio, esperando quieto. Jota acordou \u00e0s sete. A fam\u00edlia j\u00e1 tinha sa\u00eddo pra missa na Catedral. Ele n\u00e3o ia. Nunca ia. Tomou banho sem pressa, vestiu a camiseta vinho, o moletom cinza, o t\u00eanis surrado. Pegou a mochila laranja e jogou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1730,"menu_order":73,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"livro":[18],"personagem":[222,27,2380,248,224,275],"genero":[2087,841],"tom":[525,43,56],"timeline":[57,281],"versao_jota":[2088,49],"categoria_cap":[2089,844],"item_essencial":[33,31,32,35],"tema":[2093,2090,2092,2091],"local":[668,664,2095,1979,2096,719,2094,1302,1396,2097],"keyword":[2104,2102,2103,2098,2099,2101,2100,426],"class_list":["post-1160","capitulo","type-capitulo","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","livro-dias-apos-um-fim","personagem-dona-tude","personagem-gpjota","personagem-guia-de-turismo","personagem-motorista","personagem-pai","personagem-tia","genero-body-horror","genero-terror-sobrenatural","tom-crescente","tom-onirico","tom-perturbador","timeline-curitiba","timeline-onirico","versao_jota-entidade","versao_jota-normal","categoria_cap-possessao","categoria_cap-transformacao","item_essencial-caderno-marrom-de-capa-dura","item_essencial-camiseta-regata-vinho","item_essencial-mochila-laranja","item_essencial-tenis-surrado","tema-inevitabilidade-do-destino","tema-possessao","tema-realidade-dissociativa-coletiva","tema-transformacao-identitaria","local-br-277","local-capao-da-imbuia","local-catedral-de-curitiba","local-garagem","local-mercado-municipal-de-curitiba","local-morretes","local-praca-tiradentes","local-serra-do-mar","local-sobrado","local-viaduto-dos-padres","keyword-contramao","keyword-entidade","keyword-excursao-familiar","keyword-nove-olhos","keyword-onibus-verde","keyword-possessao","keyword-serra-do-mar","keyword-transformacao"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo\/1160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo"}],"about":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulo"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1160"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1730"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"livro","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/livro?post=1160"},{"taxonomy":"personagem","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/personagem?post=1160"},{"taxonomy":"genero","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/genero?post=1160"},{"taxonomy":"tom","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tom?post=1160"},{"taxonomy":"timeline","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/timeline?post=1160"},{"taxonomy":"versao_jota","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/versao_jota?post=1160"},{"taxonomy":"categoria_cap","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_cap?post=1160"},{"taxonomy":"item_essencial","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/item_essencial?post=1160"},{"taxonomy":"tema","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tema?post=1160"},{"taxonomy":"local","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/local?post=1160"},{"taxonomy":"keyword","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/keyword?post=1160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}