{"id":1166,"date":"2026-03-20T00:15:00","date_gmt":"2026-03-20T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1166"},"modified":"2026-03-05T00:21:32","modified_gmt":"2026-03-05T03:21:32","slug":"zefrao-de-deus","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/zefrao-de-deus\/","title":{"rendered":"Zefr\u00e3o de Deus"},"content":{"rendered":"\n<p>Jota chegou no Centro Polit\u00e9cnico \u00e0s sete e cinquenta e cinco da manh\u00e3, sol j\u00e1 queimando o asfalto, c\u00e9u aberto sem uma nuvem.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta e quatro anos, 1,83 m, 110 kg, barba por fazer, camiseta regata vinho, rasgada nos ombros, que marcava o peito e os bra\u00e7os que a vida tinha engrossado.<\/p>\n\n\n\n<p>Estacionou o Gol bolinha 2003 cinza no canto mais longe do estacionamento, porque o bicho tossia demais quando esquentava e ele n\u00e3o queria chamar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito soltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele parou pra amarrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando sentiu o cheiro de enxofre come\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Desceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou a porta com o ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheiro de capim cortado e gasolina subindo do asfalto quente.<\/p>\n\n\n\n<p>O campus do Jardim das Am\u00e9ricas estava lotado de garotos de dezoito anos carregando mochila, garrafa d&#8217;\u00e1gua, ansiedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota atravessou o gramado largo como quem atravessa um campo minado que j\u00e1 conhece de cor.<\/p>\n\n\n\n<p>Camiseta grudando nas costas de suor.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcas antigas nas palmas latejando de leve, como sempre faziam quando algo grande estava pra acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha se inscrito no vestibular por um motivo idiota:<\/p>\n\n\n\n<p>pra provar pra si mesmo que ainda conseguia fazer algo normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Que ainda era gente comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Que n\u00e3o era s\u00f3 o cara que carregava peso que ningu\u00e9m via.<\/p>\n\n\n\n<p>Pavilh\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>Fila. Fiscal. Documento. Adesivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sala 14 \u2013 Carteira 237.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Gin\u00e1sio enorme, cheiro de detergente industrial misturado com suor adolescente, ar condicionado velho chiando como se tivesse bronquite.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota achou a carteira no meio da fileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou.<\/p>\n\n\n\n<p>A cadeira rangeu sob o peso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado, carteira 238, um garoto de uns vinte anos que ele nunca viu na vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O guri olhou, acenou r\u00e1pido, voltou pro caderno de f\u00f3rmulas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez minutos depois, o coordenador subiu no tablado.<\/p>\n\n\n\n<p>Terno cinza mal cortado, gravata frouxa, \u00f3culos grossos, cabelo grisalho penteado pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosto que lembrava Christian Bale em dia ruim.<\/p>\n\n\n\n<p>Queixo quadrado, olhos fundos, verruga pequena perto do maxilar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bom dia. Sou o Professor Miguel, coordenador desta aplica\u00e7\u00e3o. Cinco horas. N\u00e3o saiam antes das duas primeiras. Boa sorte.<\/p>\n\n\n\n<p>Desceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu o caderno de prova.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou a primeira quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou pela Trigonometria.<\/p>\n\n\n\n<p>Fez todo o resto.<\/p>\n\n\n\n<p>Terminou.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajustou a cadeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Conseguiu uma boa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora era esperar, pensar na vida<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou a tentar dormir um pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>O garoto ao lado olhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorriu de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>Se ajustou tamb\u00e9m..<\/p>\n\n\n\n<p>Tentando dormir<\/p>\n\n\n\n<p>Ignorando o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Trinta minutos depois, o cheiro come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sutil.<\/p>\n\n\n\n<p>Enxofre queimado com fundo de podre.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se algu\u00e9m tivesse aberto uma tampa de esgoto dentro do gin\u00e1sio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ergueu a cabe\u00e7a devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m mais parecia sentir.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele sentia.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecia aquele cheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Era o mesmo cheiro de quando um portal se abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro tablado.<\/p>\n\n\n\n<p>Professor Miguel estava l\u00e1 de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Parado.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando direto pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pra sala.<\/p>\n\n\n\n<p>Pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorriso pequeno.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 no canto da boca.<\/p>\n\n\n\n<p>A verruga pulsou uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sustentou o olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>O Professor acenou com a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Lento.<\/p>\n\n\n\n<p>Como quem diz:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;te achei&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas horas depois, o microfone chiou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Candidatos da Sala 14, dirijam-se imediatamente ao Bloco C, terceiro andar, para continua\u00e7\u00e3o da prova. Levem todos os pertences. N\u00e3o retornem a este local.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio confuso.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois o rebanho se moveu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou com o resto.<\/p>\n\n\n\n<p>Caderno de prova conclu\u00eddo embaixo do bra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu pelo corredor lateral, sol batendo forte l\u00e1 fora, atravessou o gramado em dire\u00e7\u00e3o ao Bloco C.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando a viu.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado do gramado, encostada num fusca azul descascado, pernas cruzadas, fumando um cigarro com calma de quem n\u00e3o tem pressa de lugar nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju Kuzito.<\/p>\n\n\n\n<p>1,80 m de altura, pernas intermin\u00e1veis, sainha rosa mini, jaquetinha jeans curta aberta sobre blusinha branca decotada.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabelo castanho-escuro ondulado at\u00e9 os ombros, delineado gatinho afiado, piercing na narina brilhando no sol.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhos castanho-claros, quase mel, que te fodem s\u00f3 de olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela soltou a fuma\u00e7a devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou direto pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorriso de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>Tipo: &#8220;oi, ot\u00e1rio, demorou&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o est\u00f4mago dar um n\u00f3 antigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela mulher tinha entrado na vida dele uma \u00fanica vez, alguns anos atr\u00e1s, numa festa.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois sumiu tr\u00eas dias, voltou como se nada tivesse acontecido e ainda chamou ele de ciumento quando ele perguntou onde tinha se metido.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora estava ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Fumando.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se soubesse.<\/p>\n\n\n\n<p>O cheiro de enxofre voltou mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou as costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuou andando pro Bloco C.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro, o corredor era um caos.<\/p>\n\n\n\n<p>Duzentas pessoas empurrando, fiscais gritando n\u00fameros de sala, suor, ansiedade, medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota foi carregado pela corrente.<\/p>\n\n\n\n<p>O cheiro ficava pior a cada metro.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou numa sala pequena, paredes descascando, luz fluorescente piscando.<\/p>\n\n\n\n<p>Uns quinze candidatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns fiscais.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns que n\u00e3o eram nem uma coisa nem outra.<\/p>\n\n\n\n<p>E no fundo, encostado na parede, bra\u00e7os cruzados, Professor Miguel.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhos fixos nele.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta bateu atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Trancou sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Click.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00edrculo come\u00e7ou a fechar devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea sentiu desde o come\u00e7o \u2014 disse Miguel.<\/p>\n\n\n\n<p>Voz calma, quase carinhosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O cheiro. A press\u00e3o. Voc\u00ea sabe o que somos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou em volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorrisos largos demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Pupilas dilatadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Movimentos mec\u00e2nicos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 problema \u2014 Miguel continuou, dando um passo \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>A verruga pulsou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00f3s sabemos o que voc\u00ea carrega. Por isso te isolamos aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro passo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea vai calar agora. E n\u00f3s vamos tomar o que \u00e9 nosso.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00edrculo apertou.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois metros.<\/p>\n\n\n\n<p>Um e meio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o peso antigo nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas nas palmas queimando.<\/p>\n\n\n\n<p>No bolso, o isqueiro amarelo \u2013 o sobrevivente \u2013 o item necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Preparou o isqueiro na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o ouviu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o com os ouvidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma voz que n\u00e3o era voz.<\/p>\n\n\n\n<p>Um trov\u00e3o que era sussurro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Diga o nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu a boca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Colocou o isqueiro aceso na frente da boca<\/p>\n\n\n\n<p>E gritou com tudo que tinha:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 ZEFR\u00c3O DE DEUS!<\/p>\n\n\n\n<p>O grito saiu como trov\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 ZEFR\u00c3O DE DEUS!<\/p>\n\n\n\n<p>O ar rasgou.<\/p>\n\n\n\n<p>Luz branca, pura, cegante, explodiu da boca de Jota, da garganta, do peito.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas nas palmas acenderam como ferro em brasa, linhas brilhando t\u00e3o forte que iluminaram a sala inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>Professor Miguel levou as m\u00e3os ao rosto e gritou.<\/p>\n\n\n\n<p>Som animal, desumano.<\/p>\n\n\n\n<p>A verruga estourou.<\/p>\n\n\n\n<p>Fuma\u00e7a preta jorrou do buraco.<\/p>\n\n\n\n<p>Os olhos viraram brasas vermelhas, depois racharam, luz branca vazando pelas fendas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 ZEFR\u00c3O DE DEUS! \u2014 Jota gritou de novo, voz mais grave, mais antiga, como se n\u00e3o fosse s\u00f3 dele. Guardando o isqueiro no bolso. Pois o isqueiro amarelo era apenas o ativador.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas candidatos ca\u00edram de joelhos, convulsionando.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois correram pra janela, quebraram o vidro, se jogaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Corpos batendo no p\u00e1tio l\u00e1 embaixo com som seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros desfizeram.<\/p>\n\n\n\n<p>Fuma\u00e7a preta saindo pela boca, narinas, olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Casca humana caindo vazia, como roupa largada.<\/p>\n\n\n\n<p>Miguel foi o \u00faltimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentou avan\u00e7ar, garras saindo dos dedos, boca abrindo al\u00e9m do poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 ZEFR\u00c3O DE DEUS!<\/p>\n\n\n\n<p>O nome bateu nele como martelo.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo do Professor explodiu em luz.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas segundos de claridade absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando apagou, s\u00f3 sobrou um inv\u00f3lucro cinza no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhos ocos.<\/p>\n\n\n\n<p>Morto ou expulso, tanto faz.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou parado, peito arfando, sangue escorrendo do nariz, pingando na camiseta regata vinho.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3os tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcas ainda brilhando fraco, como brasas morrendo.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta explodiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Chute violento de fora.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju Kuzito entrou com a faca j\u00e1 na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Cruz de prata balan\u00e7ando no decote.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou no meio da sala.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou os corpos vazios.<\/p>\n\n\n\n<p>A fuma\u00e7a preta subindo pro teto e sumindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>E sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Lento.<\/p>\n\n\n\n<p>Debochado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho, Jota. Eu sabia que voc\u00ea era gostoso, mas gritando nome de anjo assim? Isso foi foda.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou a faca na cintura.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quantos eram?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Uns quinze.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E sobrou algum?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou ao redor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acho que n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju deu um passo, ficou perto.<\/p>\n\n\n\n<p>Altura quase igual \u00e0 dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea falou o nome sem eu te ensinar nada. Isso n\u00e3o acontece todo dia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tenho umas informa\u00e7\u00f5es \u2014 ele disse, voz rouca. \u2014 Dentro da cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o mencionou o isqueiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ouviu o Serafim.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela mordeu o l\u00e1bio inferior, olhou pra ele de cima a baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 problema, Geraldo. Mas \u00e9 o meu tipo de problema.<\/p>\n\n\n\n<p>Chutou a porta trancada do outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Madeira voou.<\/p>\n\n\n\n<p>Corredor vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eles fugiram quando voc\u00ea gritou. Metade da cidade sentiu. A guerra come\u00e7ou mais cedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota limpou o sangue do nariz com as costas da m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E agora?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela virou, j\u00e1 andando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora a gente limpa o resto. E eu te ensino a fazer isso sem sangrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou na porta, olhou pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem, grand\u00e3o. Tem dem\u00f4nio sobrando em Curitiba inteira e eu t\u00f4 com tes\u00e3o de ver voc\u00ea gritando de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles sa\u00edram do Bloco C como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Gramado cheio de garotos saindo do gin\u00e1sio, reclamando da prova, checando gabarito no celular, rindo alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m olhava pro terceiro andar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m via o vidro quebrado, a fuma\u00e7a fina subindo pro c\u00e9u azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju caminhava na frente, pernas marcando o passo, sainha rosa balan\u00e7ando, coturnos batendo firme no asfalto quente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota atr\u00e1s, camiseta regata vinho manchada de sangue seco, marcas nas m\u00e3os ainda quentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Pararam no estacionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O fusca estava l\u00e1, sozinho no canto, para-choque torto, adesivo velho desbotado no vidro traseiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea dirige \u2014 ela disse.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sempre dirijo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu a porta do motorista.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju entrou do lado do passageiro, jogou a mochila no banco de tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja de Jota tombou com o impacto, escapou o caderno marrom \u2013 p\u00e1gina rasgada marcando &#8220;Zefr\u00e3o de Deus&#8221; em letra tremida, \u00edm\u00e3 do pai preso na capa com fita adesiva velha, frio como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele girou a chave.<\/p>\n\n\n\n<p>O fusca pegou no terceiro giro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pra onde?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Viaduto do Alto da XV. Minha casa \u00e9 ali perto, tenho um arsenal e umas coisinhas que v\u00e3o te interessar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pisou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>E fusca saiu cantando pneu, motor gritando na sa\u00edda do Polit\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edram pela BR-277, fizeram o retorno, pegaram a Linha Verde depois Victor Ferreira e ent\u00e3o chegaram no Viaduto do Alto da XV.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desligou o motor.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 conseguiam ver a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Fuma\u00e7a preta fina subindo de tr\u00eas, quatro pontos da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era churrasco.<\/p>\n\n\n\n<p>Era o que sobrou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eles t\u00e3o marcando territ\u00f3rio \u2014 Maju disse. \u2014 Hoje foi s\u00f3 teste. Amanh\u00e3 vem mais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a gente?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente vai ca\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela olhou pra ele de lado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea gritou o nome de um Serafim sem ningu\u00e9m te ensinar. Isso n\u00e3o \u00e9 sorte, Jota. Isso \u00e9 voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio dentro do carro.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o barulho do motor lutando e o vento entrando pela janela entreaberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou ali parado, m\u00e3os no volante, olhando Curitiba l\u00e1 embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Luzes da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Fuma\u00e7a preta subindo lenta em v\u00e1rios pontos.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio pesava.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju virou pra ele, joelho no banco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha pra mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais o cara que s\u00f3 carrega peso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 o cara que queima dem\u00f4nio com o nome de anjo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso eu ainda t\u00f4 descobrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sorriu, lento, perigoso, mordendo o l\u00e1bio inferior.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o descobre r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclinou o corpo, chegou perto, cheiro de cigarro e perfume doce invadindo tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque eu n\u00e3o perco tempo com fracote.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segurou o rosto dela com as duas m\u00e3os marcadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Beijou.<\/p>\n\n\n\n<p>Beijo que n\u00e3o pedia licen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Que sabia exatamente o estrago que causava.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando separaram, Maju riu baixo, olho brilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Foi s\u00f3 uma vez, relaxa \u2014 disse, j\u00e1 se afastando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeira vez em muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sempre \u00e9 s\u00f3 uma vez contigo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Exatamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela bateu no painel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Liga esse carro. A gente tem trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota girou a chave.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edram do Viaduto, motor gritando.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram para casa de Maju e pegaram alguns itens.<\/p>\n\n\n\n<p>Sairam quando a noite que come\u00e7ava a cair.<\/p>\n\n\n\n<p>Curitiba pegava fogo l\u00e1 embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fuma\u00e7a preta subindo em mais pontos agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco.<\/p>\n\n\n\n<p>Seis.<\/p>\n\n\n\n<p>Sete.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju apontou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 vendo? Eles n\u00e3o v\u00e3o parar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a gente?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela olhou pra ele, sorriso de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota apertou o acelerador.<\/p>\n\n\n\n<p>O fusca desceu a XV de Novembro cortando o vento, camiseta vinho manchada de sangue seco, marcas nas m\u00e3os ainda quentes, gosto de ferro na boca.<\/p>\n\n\n\n<p>E pela primeira vez na vida,<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o estava s\u00f3 carregando.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava come\u00e7ando a revidar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jota chegou no Centro Polit\u00e9cnico \u00e0s sete e cinquenta e cinco da manh\u00e3, sol j\u00e1 queimando o asfalto, c\u00e9u aberto sem uma nuvem. Quarenta e quatro anos, 1,83 m, 110 kg, barba por fazer, camiseta regata vinho, rasgada nos ombros, que marcava o peito e os bra\u00e7os que a vida tinha engrossado. 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