{"id":1167,"date":"2026-03-21T00:15:00","date_gmt":"2026-03-21T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1167"},"modified":"2026-03-05T00:22:30","modified_gmt":"2026-03-05T03:22:30","slug":"a-tabela-que-nao-entrega","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/a-tabela-que-nao-entrega\/","title":{"rendered":"A Tabela que N\u00e3o Entrega"},"content":{"rendered":"\n<p>Jota chegou em casa \u00e0s seis e quarenta e sete, c\u00e9u cinza pesado, frio seco que entrava pelos ossos e ficava.<\/p>\n\n\n\n<p>Estacionou o Gol bolinha 2003 cinza na garagem do sobrado do Cap\u00e3o da Imbuia, abriu a porta e jogou a mochila laranja no sof\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Camiseta regata vinho grudada nas costas de suor frio, rasgada nos ombros, marcando o peito largo de quem carregou demais por tempo demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi pra cozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Copo d&#8217;\u00e1gua gelada direto da torneira.<\/p>\n\n\n\n<p>Bebeu metade em p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando viu.<\/p>\n\n\n\n<p>Envelope bege, grosso, envelhecido, canto amassado.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem selo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem remetente.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o nome dele em caneta preta, letra firme, quase agressiva:<\/p>\n\n\n\n<p>GERALDO P. JUNIOR<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Rasgou com o polegar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro, uma folha dobrada em tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Papel \u00e1spero, cheiro de mofo e oz\u00f4nio velho.<\/p>\n\n\n\n<p>Texto datilografado, teclas que pulavam, como m\u00e1quina velha que j\u00e1 n\u00e3o aguenta:<\/p>\n\n\n\n<p>CONVOCA\u00c7\u00c3O<\/p>\n\n\n\n<p>GERALDO P. JUNIOR<\/p>\n\n\n\n<p>VOC\u00ca FOI SELECIONADO PARA PROCESSO DE DESIGNA\u00c7\u00c3O.<\/p>\n\n\n\n<p>COMPARE\u00c7A O MAIS R\u00c1PIDO POSS\u00cdVEL.<\/p>\n\n\n\n<p>EM: GALP\u00c3O NA PEDREIRA DO ORLEANS \u2013 CURITIBA\/PR<\/p>\n\n\n\n<p>SUA PRESEN\u00c7A \u00c9 OBRIGAT\u00d3RIA. N\u00c3O HAVER\u00c1 SEGUNDA CONVOCA\u00c7\u00c3O.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O SISTEMA<\/p>\n\n\n\n<p>Jota leu quatro vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedreira do Orleans.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele conhecia aquele lugar de cor.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um local que a familia tinha hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Amassou a carta.<\/p>\n\n\n\n<p>Desamassou.<\/p>\n\n\n\n<p>Leu de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Sistema.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A palavra pesou mais que o papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou em jogar fora.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou em queimar.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocou a m\u00e3o num bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontrou o isqueiro amarelo \u2013 o sobrevivente \u2013 ro\u00e7ou os dedos como se quisesse ajudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou em fingir que nunca recebeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quem deixou o convite em cima da mesa, sabia que ele leria.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembran\u00e7as vieram.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrou das marcas nas m\u00e3os que ainda latejavam em noites frias.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrou do trono de sombra onde se sentou sabendo que um dia sumiria.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrou do pai dizendo &#8220;funciona&#8221; antes de soltar a mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre soube que um dia ia ter que voltar ao galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou o papel no bolso do casaco.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou as chaves do Gol e a mochila laranja.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou o rel\u00f3gio: 18:54.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltavam sessenta e seis minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00eanis surrado rangeu no concreto, o buraco no ded\u00e3o esquerdo deixando o frio entrar direto na alma.<\/p>\n\n\n\n<p>A Pedreira do Orleans era diferente toda vez que vinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Rua estreita, mato crescendo, lixo, estrada de ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota dirigiu devagar e j\u00e1 conseguia ver o galp\u00e3o ao longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Teve que parar no meio do caminho, pois tinham interditado a rua a partir dali.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou que talvez fosse para evitar desova de carros roubados, ou proteger o acesso \u00e0 propriedade abandonada.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou o Gol.<\/p>\n\n\n\n<p>Desligou o motor.<\/p>\n\n\n\n<p>O 1.0 morreu com o suspiro de sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou olhando.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o estava l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Pintura descascando, janelas escuras como olhos mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou a mochila laranja.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhou at\u00e9 o port\u00e3o enferrujado que estava entreaberto, rangendo leve com o vento frio.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurrou o port\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O rangido cortou a noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheiro de oz\u00f4nio velho, metal queimado, madeira podre.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo cheiro da noite em que o pai sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O local estava quase vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>As mesas tinham sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>Os equipamentos tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 restavam as cicatrizes: c\u00edrculos negros queimados no ch\u00e3o de madeira, fios velhos pendurados no teto como teias de aranha, cacos de \u00edm\u00e3 enferrujados nos cantos, cobertos por dez anos de poeira.<\/p>\n\n\n\n<p>E no centro, completamente fora de lugar, um computador.<\/p>\n\n\n\n<p>Desktop simples, gabinete preto, monitor de vinte polegadas, teclado, mouse.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Limpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem tomada.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem cabo de for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem nada que explicasse por que estava ligado.<\/p>\n\n\n\n<p>A tela acesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Azul clara.<\/p>\n\n\n\n<p>Cursor piscando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota caminhou devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada passo ecoava.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou a um metro da tela.<\/p>\n\n\n\n<p>Texto branco, fonte simples:<\/p>\n\n\n\n<p>BEM-VINDO, GERALDO.<\/p>\n\n\n\n<p>AGUARDE INSTRU\u00c7\u00d5ES.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez.<\/p>\n\n\n\n<p>A tela piscou.<\/p>\n\n\n\n<p>Carregou.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma planilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Excel puro.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinquenta linhas vazias.<\/p>\n\n\n\n<p>Colunas: NOME | IDADE | CIDADE | HABILIDADE | FOTO<\/p>\n\n\n\n<p>No topo, em vermelho vivo:<\/p>\n\n\n\n<p>SELE\u00c7\u00c3O DE GUARDI\u00d5ES<\/p>\n\n\n\n<p>NECESS\u00c1RIOS: 50<\/p>\n\n\n\n<p>SELECIONADOS: 0\/50<\/p>\n\n\n\n<p>Embaixo, instru\u00e7\u00f5es menores:<\/p>\n\n\n\n<p>CLIQUE EM CADA LINHA PARA SELECIONAR UM CANDIDATO.<\/p>\n\n\n\n<p>OS ESCOLHIDOS CARREGAR\u00c3O.<\/p>\n\n\n\n<p>VOC\u00ca SABER\u00c1 QUANDO TERMINAR.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00c3O TENTE SAIR ANTES DE COMPLETAR A SELE\u00c7\u00c3O.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>O port\u00e3o estava fechado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o tinha fechado.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhou at\u00e9 ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentou empurrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Trancado.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pro computador.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocou a mochila de lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Puxou a cadeira velha que ainda estava encostada na parede, madeira rangendo como osso velho.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira linha se expandiu sozinha:<\/p>\n\n\n\n<p>NOME: Mariana Costa Silva<\/p>\n\n\n\n<p>IDADE: 31<\/p>\n\n\n\n<p>CIDADE: Curitiba \u2013 Port\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>HABILIDADE: Executar tarefas repetitivas por tempo indeterminado<\/p>\n\n\n\n<p>FOTO: [mulher de olhos fundos, fundo neutro]<\/p>\n\n\n\n<p>Cursor sobre o bot\u00e3o verde: SELECIONAR.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o est\u00f4mago afundar.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrou das marcas nas m\u00e3os que ainda latejavam em noites frias.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrou do pai dizendo \u2014 Desculpa, filho \u2014 antes de soltar a mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrou do pr\u00f3prio reflexo no espelho d&#8217;\u00e1gua do reino submerso, mecha branca aparecendo de repente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os escolhidos carregar\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Carregar\u00e3o o qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>E depois v\u00e3o sumir?<\/p>\n\n\n\n<p>Igual o pai?<\/p>\n\n\n\n<p>Igual o Voador?<\/p>\n\n\n\n<p>Igual ele mesmo um dia?<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3o tremeu sobre o mouse.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a press\u00e3o \u2014 n\u00e3o era voz, era peso \u2014 empurrou o dedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Clicou.<\/p>\n\n\n\n<p>A linha ficou cinza.<\/p>\n\n\n\n<p>SELECIONADOS: 1\/50<\/p>\n\n\n\n<p>Nada aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum portal se abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o n\u00famero mudou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o soube quando a hesita\u00e7\u00e3o morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez no d\u00e9cimo nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez no vig\u00e9simo.<\/p>\n\n\n\n<p>O mouse j\u00e1 n\u00e3o tremia.<\/p>\n\n\n\n<p>Clicava sozinho, quase.<\/p>\n\n\n\n<p>Linha ap\u00f3s linha se abria, rosto ap\u00f3s rosto aparecia, habilidade ap\u00f3s habilidade era julgada em meio segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Manter rotina sem questionar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Aceitar perda sem reagir.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ignorar dor prolongada.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Suportar isolamento total.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>20\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>25\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tentou parar.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A perna n\u00e3o obedecia.<\/p>\n\n\n\n<p>Press\u00e3o pesada desceu na nuca, como m\u00e3o invis\u00edvel empurrando a cabe\u00e7a pra baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Formigamento subiu pelos bra\u00e7os, dedos dormentes mas ainda funcionando, clicando sozinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para \u2014 disse em voz alta.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o vazio devolveu o eco como deboche.<\/p>\n\n\n\n<p>A tela respondeu com letras vermelhas grandes:<\/p>\n\n\n\n<p>CONTINUE.<\/p>\n\n\n\n<p>30\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>Mem\u00f3ria veio sem aviso.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu na cozinha do apartamento antigo, voz cansada, comprimidos alinhados na pia:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea carrega tudo sozinho, Jota. Tudo. E nunca larga. Um dia isso vai te matar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tinha dado de ombro na \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuou carregando.<\/p>\n\n\n\n<p>35\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa conversa com Donaro na varanda do sobrado:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por que voc\u00ea n\u00e3o larga nunca?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque algu\u00e9m tem que segurar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E quando cansar?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando cansar, continua segurando.<\/p>\n\n\n\n<p>40\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tentou de novo levantar.<\/p>\n\n\n\n<p>A cadeira n\u00e3o mexeu um cent\u00edmetro.<\/p>\n\n\n\n<p>Suor frio escorreu pela testa.<\/p>\n\n\n\n<p>Vis\u00e3o turva nas bordas, como se o mundo estivesse desaparecendo aos poucos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o quero fazer isso \u2014 sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>A tela n\u00e3o piscou.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3xima linha se abriu sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>42\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>45\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3os tremiam tanto que errou dois cliques.<\/p>\n\n\n\n<p>Teve que tentar de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>47\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>48\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>49\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma linha restava.<\/p>\n\n\n\n<p>O cursor ficou parado sobre o bot\u00e3o SELECIONAR da quadrag\u00e9sima nona pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Clicou.<\/p>\n\n\n\n<p>49\/50.<\/p>\n\n\n\n<p>A tela congelou.<\/p>\n\n\n\n<p>Piscou branca.<\/p>\n\n\n\n<p>Preta.<\/p>\n\n\n\n<p>Branca de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois carregou uma \u00fanica linha centralizada.<\/p>\n\n\n\n<p>NOME: Geraldo P Junior<\/p>\n\n\n\n<p>IDADE: 44<\/p>\n\n\n\n<p>CIDADE: Curitiba \u2013 PR<\/p>\n\n\n\n<p>HABILIDADE: Carregar at\u00e9 o fim<\/p>\n\n\n\n<p>FOTO: [ele mesmo, anos atr\u00e1s, sorrindo, antes de tudo ruir]<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou olhando a pr\u00f3pria cara mais jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorriso que n\u00e3o existia mais.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o ficou em sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>O cursor piscava sobre o bot\u00e3o verde.<\/p>\n\n\n\n<p>SELECIONAR.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu.<\/p>\n\n\n\n<p>Riu seco, rouco, sem gra\u00e7a nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p>O som ecoou pelo galp\u00e3o vazio como gargalhada de fantasma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sempre fui eu \u2014 disse.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desde a encruzilhada. Desde o primeiro deslize pelas sombras. Desde o dia que vi o pai escolher o vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pras m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas ainda estavam l\u00e1, linhas finas de nadadeiras, brilhando fraco no escuro do galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou o caderno marrom da mochila laranja ca\u00edda ao lado da cadeira, rabiscou r\u00e1pido alguns nomes que lembrava.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra tela.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tinha escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca teve.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocou a m\u00e3o no mouse.<\/p>\n\n\n\n<p>Hesitou cinco segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois clicou.<\/p>\n\n\n\n<p>A tela piscou uma \u00faltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p>SELECIONADOS: 50\/50<\/p>\n\n\n\n<p>PROCESSO COMPLETO.<\/p>\n\n\n\n<p>Obrigado pela colabora\u00e7\u00e3o, Guardi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois apagou de vez.<\/p>\n\n\n\n<p>O computador morreu junto.<\/p>\n\n\n\n<p>Monitor preto, gabinete sem vida, sil\u00eancio t\u00e3o pesado que parecia s\u00f3lido.<\/p>\n\n\n\n<p>Clique seco do ferrolho da porta da frente destravando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou a mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>Pernas dormentes.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3os marcadas latejando.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhou at\u00e9 o port\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Noite fria entrou de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedreira vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Poste amarelo iluminando o Gol bolinha ao longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra tr\u00e1s uma \u00faltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o estava escuro.<\/p>\n\n\n\n<p>O port\u00e3o estava fechado.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se nunca tivesse aberto.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou no carro e entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou sentado, m\u00e3os no volante, olhando o para-brisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinquenta pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinquenta guardi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinquenta nomes que nunca v\u00e3o saber que foram escolhidos por ele.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele era o \u00faltimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ligou o motor.<\/p>\n\n\n\n<p>O 1.0 tossiu, pegou.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu devagar pela rua, pegou o contorno.<\/p>\n\n\n\n<p>Cidade vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Far\u00f3is cortando neblina baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou no acostamento pr\u00f3ximo ao antigo local do Caf\u00e9 Alvorada.<\/p>\n\n\n\n<p>Motor desligado.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu o porta-luvas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tirou a caixinha de madeira pequena, veludo vermelho desbotado.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 do posto Esso estava l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Frio.<\/p>\n\n\n\n<p>Morto.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem brilho.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sempre esteve.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou.<\/p>\n\n\n\n<p>Segurou contra a luz do painel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea escolheu primeiro \u2014 disse baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E agora eu tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou o punho em volta do metal.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas nas palmas latejaram forte, como se reconhecessem o toque.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 fora, um caminh\u00e3o passou na pista contr\u00e1ria, luzes brancas cortando a escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Curitiba seguia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre seguia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guardou o \u00edm\u00e3 de volta na caixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou no porta-luvas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ligou o carro de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pra cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou no sobrado j\u00e1 depois das duas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Trancou.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi direto pro quarto.<\/p>\n\n\n\n<p>Deitou de roupa.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou o teto que n\u00e3o via.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez em anos, n\u00e3o abriu a caixa de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque n\u00e3o precisava mais.<\/p>\n\n\n\n<p>O chamado j\u00e1 tinha vindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele j\u00e1 tinha respondido.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora era s\u00f3 esperar.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia o galp\u00e3o vai chamar de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou o bosque.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou o mar petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou uma carta sem remetente.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele vai ter que ir.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque guardi\u00f5es n\u00e3o escolhem carregar.<\/p>\n\n\n\n<p>Carregam at\u00e9 sumir.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 fora, Curitiba seguia.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele ficou ali, marcas nas m\u00e3os ainda quentes, esperando o dia em que ser\u00e1 a vez dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque cinquenta estava completo.<\/p>\n\n\n\n<p>E o Sistema, pelo que sabe, n\u00e3o falha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jota chegou em casa \u00e0s seis e quarenta e sete, c\u00e9u cinza pesado, frio seco que entrava pelos ossos e ficava. 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