{"id":1168,"date":"2026-03-22T00:15:00","date_gmt":"2026-03-22T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1168"},"modified":"2026-03-05T00:23:43","modified_gmt":"2026-03-05T03:23:43","slug":"cinquenta-metros-da-praia","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/cinquenta-metros-da-praia\/","title":{"rendered":"Cinquenta Metros da Praia"},"content":{"rendered":"\n<p>A \u00e1gua n\u00e3o era \u00e1gua. Era azul petr\u00f3leo derramado sobre o mundo, t\u00e3o denso que parecia ter peso pr\u00f3prio. A luz vinha de cima, filtrada por quil\u00f4metros de oceano, quebrando em feixes grossos que morriam antes de alcan\u00e7ar qualquer ch\u00e3o. N\u00e3o havia ch\u00e3o vis\u00edvel. S\u00f3 a borda: cinquenta metros de reino iluminado, e depois o abismo. Negrume absoluto que engolia som, luz, mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O reino inteiro vivia nessa faixa estreita entre o que ainda podia ser visto e o que nunca deveria ser encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota caminhava pela avenida principal, p\u00e9s descal\u00e7os na pedra lisa e fria. O t\u00eanis surrado tinha ficado na borda, junto com a camiseta regata vinho e o resto do mundo de cima. Aqui ele usava o manto negro, que pesava nos ombros como se tivesse bebido a pr\u00f3pria \u00e1gua; ca\u00eda reto, desafiando a aus\u00eancia de gravidade, ro\u00e7ando o ch\u00e3o sem levantar sedimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando passava, os habitantes se afastavam com respeito autom\u00e1tico. Pele p\u00e1lida com reflexo azulado, alguns com guelras finas abrindo e fechando, outros com olhos sem p\u00e1lpebra que pareciam buracos de petr\u00f3leo. Ningu\u00e9m perguntava de onde vinham. S\u00f3 viviam.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja pendia no ombro esquerdo, desbotada, al\u00e7as gastas. Dentro, o caderno marrom com a capa dura rachada, p\u00e1ginas cheias de anota\u00e7\u00f5es que ele nem lembrava de ter escrito. E no bolso do manto, sempre, o isqueiro amarelo. O sobrevivente. J\u00e1 tinha ca\u00eddo em \u00e1gua, fogo, concreto. Sempre voltava. Sempre acendia na primeira. Jota n\u00e3o fumava, mas carregava o isqueiro como quem carrega amuleto \u2014 n\u00e3o por f\u00e9, mas por h\u00e1bito de quem j\u00e1 perdeu tudo menos aquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou diante de uma constru\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-erguida. Paredes retas, telhado plano, quarenta e tr\u00eas metros exatos da borda onde o ch\u00e3o desaparecia no abismo. Sete metros dentro do proibido.<\/p>\n\n\n\n<p>O construtor esperava ao lado, guelras nervosas, m\u00e3os cruzadas nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quantos metros?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quarenta e tr\u00eas, meu rei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A lei diz cinquenta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei. Mas o terreno\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A lei diz cinquenta.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem abaixou a cabe\u00e7a. Virou-se e come\u00e7ou a desmontar a parede com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Outros vieram ajudar. Em vinte minutos a casa tinha sido arrastada sete metros para tr\u00e1s. Cinquenta exatos. Nem um cent\u00edmetro a menos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acenou uma \u00fanica vez. Seguiu.<\/p>\n\n\n\n<p>No jardim de coral, vermelho-sangue e roxo-escuro, crian\u00e7as brincavam. Uma delas, humana, cabelo grudado na testa por algas, trope\u00e7ou e arrancou um ramo do tamanho de um punho. Congelou. Olhou o peda\u00e7o na m\u00e3o. Olhou para ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota esperou.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina se abaixou, pegou um fragmento morto do ch\u00e3o, plantou no buraco. Pressionou. O coral brilhou fraco, aceitou. Regra cumprida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desculpa \u2014 sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o respondeu. Continuou andando.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas enquanto andava, a lembran\u00e7a veio sem aviso.<\/p>\n\n\n\n<p>Rodoferrovi\u00e1ria, chuva fina. Daslu com a mala de rodinha, cabe\u00e7inha pendendo. Ela com os olhos \u00e2mbar fundos, brilho dourado apagado pelo cansa\u00e7o: <em>&#8220;Obrigada, nos falamos, Jota.&#8221;<\/em> Ele ali parado, m\u00e3os nos bolsos do moletom, chuva batendo. N\u00e3o respondeu. S\u00f3 viu ela virar e sumir no port\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou. O gosto de chuva velha ainda queimava a l\u00edngua, mesmo quil\u00f4metros abaixo do c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Sacudiu a cabe\u00e7a. O manto pesou um pouco mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou \u00e0 pra\u00e7a central, a maior c\u00fapula de ar respir\u00e1vel do reino. O vidro grosso refletia tudo em tons de petr\u00f3leo. L\u00e1 fora, as algas bioluminescentes pulsavam verde-fraco. De vez em quando passava um som grave, abafado, que lembrava biarticulado descendo a BR-277. Ningu\u00e9m ali embaixo sabia o que era, mas Jota sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou para cima, atrav\u00e9s da c\u00fapula.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas quil\u00f4metros ao norte, cravada na montanha submarina, a torre.<\/p>\n\n\n\n<p>Agulha negra subindo at\u00e9 quase tocar a zona onde a luz ainda ousava chegar. No topo, a plataforma vazia. Janelas como olhos apagados. L\u00e1 havia morado o Voador. O que veio antes. O que segurou enquanto aguentou. O que um dia simplesmente n\u00e3o voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o gosto met\u00e1lico na boca. A press\u00e3o na base do cr\u00e2nio aumentou um grau.<\/p>\n\n\n\n<p>As algas pulsavam irregular. Correntes entravam por fendas que n\u00e3o deviam existir.<\/p>\n\n\n\n<p>O equil\u00edbrio rachava.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele sabia onde precisava ir.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou-se para a torre distante.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas quil\u00f4metros de \u00e1gua aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Territ\u00f3rio sem lei.<\/p>\n\n\n\n<p>Onde as criaturas do abismo circulavam famintas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum habitante ousava.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele n\u00e3o era habitante.<\/p>\n\n\n\n<p>Era rei.<\/p>\n\n\n\n<p>E reis n\u00e3o tinham escolha.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Jota saiu ao &#8220;anoitecer&#8221;, quando a luz filtrada virava azul petr\u00f3leo quase preto, mochila laranja no ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois guardas de guelras largas tentaram acompanh\u00e1-lo at\u00e9 a porta norte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fico sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Meu rei, as criaturas\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fiquem.<\/p>\n\n\n\n<p>Obedeceram. Sempre obedeciam.<\/p>\n\n\n\n<p>Cruzou a soleira e o reino acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>A plan\u00edcie de lama fina e rocha negra se estendia at\u00e9 a base da montanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhou.<\/p>\n\n\n\n<p>A cada passo, uma mem\u00f3ria antiga subia sem licen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Apartamento no Centro, madrugada. Daslu dormindo de lado, respira\u00e7\u00e3o lenta, cabelo loiro espalhado no travesseiro. Ele deitado acordado, olhando o teto rachado. Ela murmurou no sono: <em>&#8220;Fica&#8230;&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ele ficou. Abra\u00e7ou ela por tr\u00e1s, nariz no cabelo que cheirava a xampu de ervas. Dormiu assim. Acordou feliz.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo durou tr\u00eas dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois ela ficou estranha novamente, drogas, rem\u00e9dios, bebidas, ele, n\u00e3o saber\u00e1 ao certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o eco da voz dela ecoar na \u00e1gua ao redor, como se o oceano guardasse tudo que ele tentava esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Sacudiu a cabe\u00e7a. O manto pareceu pesar mais um quilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou \u00e0 base da montanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Rochas cortadas como l\u00e2mina, fendas verticais exalando frio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota encostou a palma na sombra entre duas lajes.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo dissolveu-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Escurid\u00e3o l\u00edquida engoliu tudo \u2014 gosto de sangue e ferro explodindo na boca, frio subindo pela espinha como agulha de gelo atravessando v\u00e9rtebra por v\u00e9rtebra. Por um segundo n\u00e3o havia corpo, n\u00e3o havia peso, n\u00e3o havia nada. S\u00f3 aus\u00eancia pura, como afogamento ao contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Reapareceu vinte metros acima, ar voltando pros pulm\u00f5es num soco.<\/p>\n\n\n\n<p>Repetiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Deslizar, emergir, deslizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco minutos e estava no topo.<\/p>\n\n\n\n<p>A torre erguia-se negra, cil\u00edndrica, sem emendas.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta de a\u00e7o selada.<\/p>\n\n\n\n<p>Encostou a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta deslizou para dentro sem ru\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro, ar seco, pressurizado, respir\u00e1vel. O sil\u00eancio mudou: ficou denso, quase s\u00f3lido. Luzes LED azul-petr\u00f3leo acenderam sozinhas, fracas, reconhecendo o novo rei.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tirou a mochila laranja do ombro, largou na entrada. A al\u00e7a rasgou um pouco mais. Dentro, o caderno marrom com p\u00e1ginas amassadas, o \u00edm\u00e3 do Posto Esso preso na capa com fita adesiva velha, frio como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Corredor estreito.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeira sala: cama militar arrumada, len\u00e7ol frio. Ningu\u00e9m dormia ali h\u00e1 s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segunda sala: mapas antigos do reino, borda sempre marcada em vermelho a cinquenta metros exatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Terceira sala: trof\u00e9us do mundo de cima. Peda\u00e7o de h\u00e9lice de navio, placa enferrujada onde ainda dava pra ler &#8220;CURITIBA&#8221; em letras tortas. O Voador trazia peda\u00e7os da superf\u00edcie como quem traz lembran\u00e7as que n\u00e3o quer esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00daltima sala do segundo andar.<\/p>\n\n\n\n<p>A capa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pendurada na parede, tecido vivo, ondulando sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Azul profundo nas bordas, preto no centro, costurado em pontos onde algo rasgou e nunca cicatrizou de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tocou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda estava quente, como se o corpo tivesse sa\u00eddo h\u00e1 cinco minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>No bolso do manto, o isqueiro amarelo ro\u00e7ou a coxa e acendeu sozinho. Chama azul que durou tr\u00eas segundos, depois morreu. Mas tinha acendido. Como sempre. O sobrevivente n\u00e3o desistia nem quando o mundo desistia dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado, o di\u00e1rio de couro rachado.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu na \u00faltima p\u00e1gina escrita.<\/p>\n\n\n\n<p>Caligrafia que come\u00e7ava firme e terminava tremendo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Dia 12.319 (ou 12.320, j\u00e1 n\u00e3o importa).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eles obedecem porque sempre obedeceram. N\u00e3o por mim. Por h\u00e1bito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu ajusto corrente, movo casa, conserto rachadura. Cada ajuste tira um peda\u00e7o que n\u00e3o volta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Estou cansado de ser necess\u00e1rio e invis\u00edvel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Se algu\u00e9m ler isso: o trono n\u00e3o \u00e9 poder. \u00c9 pris\u00e3o disfar\u00e7ada de dever.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um dia voc\u00ea vai olhar pros cinquenta metros e desejar dar um passo a mais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o d\u00ea. Ou d\u00ea. Tanto faz.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu vou tentar o passo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Se n\u00e3o voltar, \u00e9 porque o abismo era mais honesto que o trono.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Boa sorte.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>P\u00e1gina seguinte em branco.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou o di\u00e1rio devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocou de volta na prateleira.<\/p>\n\n\n\n<p>Subiu a escada em espiral para o terceiro andar.<\/p>\n\n\n\n<p>O peso j\u00e1 come\u00e7ava a se instalar na base do cr\u00e2nio, latejando baixo, constante.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O terceiro andar era s\u00f3 uma sala circular.<\/p>\n\n\n\n<p>Paredes de vidro grosso, azul petr\u00f3leo t\u00e3o denso que parecia s\u00f3lido.<\/p>\n\n\n\n<p>No centro, a cadeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Simples, sem encosto alto, sem ornamento.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 metal frio e estofado gasto.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dela, o painel de controle: telas rachadas, alavancas corro\u00eddas, bot\u00f5es sem legenda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se sentou.<\/p>\n\n\n\n<p>No segundo em que o peso do corpo assentou, as telas acordaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Mapas do reino apareceram em vermelho vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00fapulas com micro-rachaduras.<\/p>\n\n\n\n<p>Jardins de coral morrendo em setores inteiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Correntes girando errado, empurrando as bolhas de ar como dedos invis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Fendas novas se abrindo na borda, cent\u00edmetros por dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Era pior do que ele sentia l\u00e1 embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito pior.<\/p>\n\n\n\n<p>Um bot\u00e3o piscava, insistente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota apertou.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz do Voador explodiu nos alto-falantes, cansada, rouca:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Se voc\u00ea t\u00e1 ouvindo isso, eu j\u00e1 fui.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O reino n\u00e3o precisa de her\u00f3i. Precisa de algu\u00e9m que aguente o peso at\u00e9 o pr\u00f3ximo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No come\u00e7o \u00e9 leve. Depois vira pedra. Depois vira \u00e2ncora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Voc\u00ea vai sentir ele te comendo por dentro. Primeiro a vontade de rir. Depois a vontade de chorar. Depois as duas juntas. No final s\u00f3 fica o sil\u00eancio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eles nunca v\u00e3o te perguntar se voc\u00ea t\u00e1 bem. Porque pra eles voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 gente. Voc\u00ea \u00e9 fun\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Se um dia voc\u00ea quiser largar, larga. Ningu\u00e9m vai te julgar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas se largar, tudo cai.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ent\u00e3o escolhe: afunda com o reino ou afunda sozinho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu escolhi sozinho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Boa sorte.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A grava\u00e7\u00e3o morreu com um estalo seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou olhando os pontos vermelhos piscando.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada ponto era uma rachadura que ele teria que consertar.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada conserto tiraria um peda\u00e7o dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Levou a m\u00e3o ao cabelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mecha inteira, na t\u00eampora esquerda, tinha embranquecido.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o grisalha.<\/p>\n\n\n\n<p>Branca pura.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se a cor tivesse sido sugada em minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou as palmas.<\/p>\n\n\n\n<p>Linhas finas, quase impercept\u00edveis, come\u00e7ando a se desenhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>As telas continuavam piscando, implorando.<\/p>\n\n\n\n<p>Podia sair dali agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Deslizar pelas sombras at\u00e9 o reino, anunciar que a torre estava vazia, deixar o lugar desmoronar enquanto tentava nadar pra cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Podia fazer o que o Voador fez.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3o foi at\u00e9 a ma\u00e7aneta.<\/p>\n\n\n\n<p>Dedos ro\u00e7aram o metal frio.<\/p>\n\n\n\n<p>Um segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>O gosto de sangue voltou \u00e0 boca.<\/p>\n\n\n\n<p>A press\u00e3o na nuca latejou mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o viu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o uma imagem. Uma sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina do coral plantando o fragmento morto.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem desmontando a pr\u00f3pria casa sem reclamar.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as brincando como se o mundo nunca fosse acabar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles n\u00e3o pediram pra ele ficar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se ele largasse, eles afundariam sem nem entender por qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota soltou a ma\u00e7aneta.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou as costas pra porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Desligou o painel.<\/p>\n\n\n\n<p>As telas morreram uma a uma.<\/p>\n\n\n\n<p>Desceu a escada.<\/p>\n\n\n\n<p>No segundo andar parou diante da capa pendurada.<\/p>\n\n\n\n<p>Tocou o tecido mais uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda quente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou a mochila laranja da entrada. Abriu o caderno marrom. Arrancou uma p\u00e1gina em branco. Pegou o isqueiro amarelo do bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o acendeu.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 segurou.<\/p>\n\n\n\n<p>Escreveu com a caneta que encontrou na prateleira do Voador:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Dia 1.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu fico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o porque sou her\u00f3i.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Porque algu\u00e9m tem que ficar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E dessa vez, algu\u00e9m vai lembrar que ficou.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Guardou a p\u00e1gina dobrada no bolso do manto.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu da torre.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta selou atr\u00e1s com som de tumba.<\/p>\n\n\n\n<p>Deslizou pela montanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Atravessou o leito aberto.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou no reino quando a luz come\u00e7ava a clarear.<\/p>\n\n\n\n<p>Os guardas curvaram-se.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Encontrou algo, meu rei?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota passou por eles sem parar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Encontrei o que precisava.<\/p>\n\n\n\n<p>E seguiu andando.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Os dias seguintes foram todos iguais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acordava antes do &#8220;amanhecer&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhava o reino inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinquenta metros da borda.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre cinquenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma casa avan\u00e7ara dois cent\u00edmetros: mandava desmontar e recuar.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ramo de coral quebrara: a crian\u00e7a plantava outro antes mesmo dele falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma corrente girava errado: erguia a m\u00e3o, a \u00e1gua obedecia.<\/p>\n\n\n\n<p>E o peso crescia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era dor.<\/p>\n\n\n\n<p>Era aus\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma cavidade que se abria no peito e ia engolindo peda\u00e7os dele: a vontade de rir de algo idiota, a lembran\u00e7a do cheiro de chuva no Cap\u00e3o da Imbuia, o som da voz da pequena chamando &#8220;Jotaaa&#8221; numa tarde qualquer que nunca mais voltaria.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma tarde, sentado no ch\u00e3o da pra\u00e7a central (n\u00e3o havia trono, nunca houvera), a mesma menina loirinha aproximou-se outra vez.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 sumindo j\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando n\u00e3o aguentar mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela deu de ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 bom.<\/p>\n\n\n\n<p>E voltou correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Um sorriso pequeno, seco, que doeu na cara.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas verdadeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi at\u00e9 uma das c\u00fapulas menores, onde a \u00e1gua batia direto no vidro.<\/p>\n\n\n\n<p>Encostou a testa no vidro frio.<\/p>\n\n\n\n<p>No reflexo, viu.<\/p>\n\n\n\n<p>A mecha branca tinha se espalhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Metade da cabe\u00e7a agora era cinza-chumbo.<\/p>\n\n\n\n<p>As linhas das palmas subiam pelos antebra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz, quando testou, saiu oca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quanto tempo ainda?<\/p>\n\n\n\n<p>O reflexo n\u00e3o respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou \u00e0 pra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou no ch\u00e3o de pedra polida.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria sombra se esticou atr\u00e1s dele, mais escura que o normal, viva, quase l\u00edquida.<\/p>\n\n\n\n<p>De vez em quando erguia a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma corrente se corrigia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma rachadura se fechava.<\/p>\n\n\n\n<p>Um peda\u00e7o dele sumia.<\/p>\n\n\n\n<p>A capa do Voador ainda pendia na torre, esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia a dele penduraria ao lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas hoje n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje ele ainda segurava.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque algu\u00e9m tinha que segurar.<\/p>\n\n\n\n<p>E dessa vez, ele n\u00e3o ia sumir sem deixar rastro.<\/p>\n\n\n\n<p>Puxou do bolso a p\u00e1gina dobrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Leu de novo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Eu fico. N\u00e3o porque sou her\u00f3i. Porque algu\u00e9m tem que ficar. E dessa vez, algu\u00e9m vai lembrar que ficou.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Guardou de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>As sombras dan\u00e7aram ao redor dele, lentas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinquenta metros era lei.<\/p>\n\n\n\n<p>E a lei era ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ao contr\u00e1rio do Voador, ele n\u00e3o ia apagar sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ia gravar o pr\u00f3prio nome na pedra antes de virar cinza.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que ningu\u00e9m lesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que ningu\u00e9m lembrasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo menos ele saberia:<\/p>\n\n\n\n<p>Ele escolheu ficar.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso fazia diferen\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e1gua n\u00e3o era \u00e1gua. Era azul petr\u00f3leo derramado sobre o mundo, t\u00e3o denso que parecia ter peso pr\u00f3prio. A luz vinha de cima, filtrada por quil\u00f4metros de oceano, quebrando em feixes grossos que morriam antes de alcan\u00e7ar qualquer ch\u00e3o. N\u00e3o havia ch\u00e3o vis\u00edvel. 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