{"id":1169,"date":"2026-03-23T00:15:00","date_gmt":"2026-03-23T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1169"},"modified":"2026-03-05T00:24:34","modified_gmt":"2026-03-05T03:24:34","slug":"peixes-voadores","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/peixes-voadores\/","title":{"rendered":"Peixes Voadores"},"content":{"rendered":"\n<p>Jota estava voltando pra casa quando aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Seis e sete da tarde, ter\u00e7a-feira gelada, c\u00e9u j\u00e1 roxo no fundo, laranja s\u00f3 na borda das nuvens.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha descido no terminal do Cap\u00e3o da Imbuia e resolveu visitar o Bosque do Museu Natural que h\u00e1 muito n\u00e3o ia.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminharia um pouco mais, faria bem para a sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Plano simples, quase autom\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>A trilha estava vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Inverno em Curitiba espanta at\u00e9 cachorro vira-lata.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o barulho do cascalho sob o t\u00eanis surrado \u2013 o cadar\u00e7o direito solto como sempre, o buraco no ded\u00e3o deixando o frio entrar direto na alma \u2013 o cheiro forte de eucalipto e pinh\u00e3o podre subindo da terra molhada.<\/p>\n\n\n\n<p>A camiseta regata vinho, grudava no peito com o suor do dia que ainda n\u00e3o tinha ido embora.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensava em nada importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Conta de luz para pagar, passar no Parolin na sexta-feira, se valia a pena enviar uma mensagem para a Larissa ou se era melhor deixar morrer quieto.<\/p>\n\n\n\n<p>De vez em quando o som distante de um carro descendo a Nivaldo Braga, l\u00e1 embaixo, abafado pelas arauc\u00e1rias centen\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando o som parou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o diminuiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou.<\/p>\n\n\n\n<p>De uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se algu\u00e9m tivesse puxado o plugue do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota congelou no meio da trilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra tr\u00e1s: nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra frente: nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o sil\u00eancio era errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tinha vento nas folhas, n\u00e3o tinha passarinho, n\u00e3o tinha nem o ronco da Nivaldo Braga.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o parecia fazer menos barulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu tr\u00eas passos lentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A luz mudou.<\/p>\n\n\n\n<p>O laranja do entardecer virou azul frio, p\u00e1lido, subaqu\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>As arauc\u00e1rias continuavam l\u00e1, mas alongadas, galhos esticando pro c\u00e9u que agora era um vazio uniforme, sem nuvens, sem sol.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>O cascalho tinha sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>No lugar, uma plataforma lisa de metal prateado, sem emenda, refletindo o c\u00e9u de cima.<\/p>\n\n\n\n<p>O reflexo tremia levemente, como se o ch\u00e3o fosse \u00e1gua parada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que porra\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>A voz saiu abafada, como se ele estivesse falando dentro de uma caixa de isopor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 frente, onde a trilha deveria continuar, n\u00e3o tinha mais mata.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 um campo aberto, infinito, ch\u00e3o de metal at\u00e9 o horizonte que n\u00e3o curvava.<\/p>\n\n\n\n<p>E tinha gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez, quinze pessoas espalhadas, paradas, olhando na mesma dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o tamanho estava errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns eram gigantes, tr\u00eas, quatro metros, ombros de caminh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros eram min\u00fasculos, meio metro no m\u00e1ximo, mas com cara de quem j\u00e1 viveu demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher no meio parecia normal, s\u00f3 que flutuava vinte cent\u00edmetros acima do ch\u00e3o, vestido branco esvoa\u00e7ando sem vento.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu um passo pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando percebeu que ele tamb\u00e9m tinha mudado.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pros bra\u00e7os: mais finos, leves.<\/p>\n\n\n\n<p>Perder\u00e1 peso de repente, como se o lugar tivesse decidido que hoje ele ocuparia menos espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ergueu a m\u00e3o na frente do rosto: dedos iguais, mas menores, proporcionais a um corpo que agora parecia flutuar um cent\u00edmetro acima do metal.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentou voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Olho em volta para compreender o ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tinha mais bosque.<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s dele, o mesmo campo aberto.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo c\u00e9u sem fim.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo sil\u00eancio que pesava nos ouvidos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>Um som agudo, fin\u00edssimo, como unha arranhando ta\u00e7a de cristal.<\/p>\n\n\n\n<p>Veio de cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Ergueu a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Peixes.<\/p>\n\n\n\n<p>Dezenas deles, nadando pelo ar como se o c\u00e9u fosse \u00e1gua profunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Corpos longos, prateados, escamas refletindo um verde estranho.<\/p>\n\n\n\n<p>Nadadeiras movendo lentas, desenhando espirais perfeitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Passavam t\u00e3o perto que dava pra sentir o deslocamento de ar, um vento gelado que cheirava a oz\u00f4nio e diesel distante.<\/p>\n\n\n\n<p>No bolso do moletom, o isqueiro amarelo \u2013 o sobrevivente \u2013 faiscou r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso chamou a aten\u00e7\u00e3o de um deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Que desceu mais baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois metros da cabe\u00e7a de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>O olho preto, redondo, fixou nele por um segundo que durou demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois seguiu, deixou um rastro luminoso que demorou pra se desfazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma voz grave cortou o sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos gigantes olhava direto pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas metros e meio f\u00e1cil, barba grisalha, olhos fundos que pareciam po\u00e7os sem fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Usava um manto pesado, tecido que n\u00e3o mexia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem \u2014 repetiu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>Era constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota andou.<\/p>\n\n\n\n<p>As pernas obedeceram antes do c\u00e9rebro.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegou perto, o gigante acenou com a cabe\u00e7a pro centro do campo.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1, no meio de todos, o objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande.<\/p>\n\n\n\n<p>Envolto em tecido transl\u00facido que brilhava de dentro pra fora, pulsando lento, cor que n\u00e3o era azul, n\u00e3o era vidro, n\u00e3o era \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Era algo que do\u00eda tentar nomear.<\/p>\n\n\n\n<p>Os peixes voadores faziam c\u00edrculos largos acima dele, descendo e subindo, atra\u00eddos como ferro por \u00edm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Segura \u2014 disse o gigante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Segura. N\u00e3o solta. Leva at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante apontou o horizonte vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tinha nada l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 mais campo, mais c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher que flutuava aproximou-se.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem pequeno, corpo de crian\u00e7a, rosto de sessenta e poucos, veio logo depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros vieram.<\/p>\n\n\n\n<p>Formaram um c\u00edrculo apertado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se encaixou onde havia espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabia o que fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m explicava.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 esperavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem magro de macac\u00e3o azul desbotado apareceu do nada ao lado do objeto, como se sempre tivesse estado ali mas ningu\u00e9m tivesse reparado.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabelo desgrenhado, ferramentas penduradas no cinto.<\/p>\n\n\n\n<p>Bateu no tecido transl\u00facido com os n\u00f3s dos dedos, ouvindo o som oco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Resson\u00e2ncia t\u00e1 alta \u2014 murmurou, mais pra si mesmo que pros outros. \u2014 Peixes v\u00e3o fundir r\u00e1pido demais se n\u00e3o segurarem firme.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou. Parecia algu\u00e9m conhecido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quem \u00e9 voc\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>O homem olhou pra ele como se a pergunta fosse idiota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rand. T\u00e9cnico. Algu\u00e9m tem que manter isso funcionando.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu dois passos pro lado, sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Literalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se tivesse virado fuma\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou em volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m parecia achar estranho.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante bateu o p\u00e9 uma vez no metal.<\/p>\n\n\n\n<p>O som ecoou como trov\u00e3o abafado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos se abaixaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota imitou.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia al\u00e7as de tecido transl\u00facido nas laterais do objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Pareciam s\u00f3lidas e l\u00edquidas ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele fechou a m\u00e3o em volta de uma.<\/p>\n\n\n\n<p>Calor.<\/p>\n\n\n\n<p>Subiu pelo bra\u00e7o, ombro, peito.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o queimava, mas era intenso.<\/p>\n\n\n\n<p>E com o calor veio o peso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p>Peso de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se todas as coisas que ele j\u00e1 carregou na vida tivessem sido jogadas de volta em cima dele de uma vez s\u00f3, mas a mem\u00f3ria de Daslu e suas tentativas de ela n\u00e3o escolher ele se sobressa\u00edram.<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros sentiram tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher que flutuava fechou os olhos com for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem pequeno tremeu inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ningu\u00e9m soltou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ergue.<\/p>\n\n\n\n<p>Ergueram juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>O objeto subiu trinta cent\u00edmetros do ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Leve e insuport\u00e1vel ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os peixes voadores desceram todos de uma vez, nadando em volta do grupo, t\u00e3o perto que Jota sentiu o vento gelado das nadadeiras invis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ro\u00e7ou seu ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>A escama fria deixou um rastro el\u00e9trico na pele.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o peixe se afastou, parte da luz dele ficou grudada no tecido do objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi sugada pra dentro como \u00e1gua em esponja seca.<\/p>\n\n\n\n<p>O objeto pulsou mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Anda \u2014 disse o gigante.<\/p>\n\n\n\n<p>E come\u00e7aram a andar.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo avan\u00e7ava devagar pelo campo de metal.<\/p>\n\n\n\n<p>Passos sincronizados sem ningu\u00e9m combinar, como se uma m\u00fasica inaud\u00edvel ditasse o ritmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segurava a al\u00e7a com as duas m\u00e3os agora, bra\u00e7os esticados, cotovelos travados.<\/p>\n\n\n\n<p>O objeto balan\u00e7ava levemente entre eles, trinta cent\u00edmetros acima do ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A cada passo, o peso aumentava.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o nos m\u00fasculos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada metro acrescentava uma camada fina de lembran\u00e7a ruim, de palavra engolida, de porta batida cedo demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os peixes voadores acompanhavam, formando um corredor vivo acima das cabe\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Nadavam mais baixo agora, quase ro\u00e7ando o objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>De vez em quando um deles mergulhava, tocava o tecido transl\u00facido e se fundia.<\/p>\n\n\n\n<p>A cada fus\u00e3o, o pulso ficava mais forte, a luz mais intensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota percebeu o padr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eles fazem parte disso \u2014 murmurou.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher que flutuava virou o rosto sem parar de andar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sempre fizeram \u2014 respondeu ela, voz cansada. \u2014 S\u00e3o as coisas que a gente n\u00e3o conseguiu soltar. Elas voltam na forma que conseguem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela apertou a al\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota viu que os dedos dela tremiam.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o som dos passos no metal.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 a respira\u00e7\u00e3o pesada.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o chiado agudo dos peixes cortando o ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeira mem\u00f3ria veio sem aviso.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu no apartamento alugado do Centro, tr\u00eas e meia da manh\u00e3, luz do abajur acesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sentada na beira da cama, olhos inchados de chorar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o aguento mais sentir que sou o problema.&nbsp; As drogas n\u00e3o est\u00e3o mais fazendo o efeito desejado para aguentar a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pensava que estar presente bastava, mas n\u00e3o bastou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ali parado na porta do quarto, sem saber o que dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela noite ele, como em todas que estava com ela, segurou, tentou reparar problemas que n\u00e3o eram dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazia de tudo para ela n\u00e3o se sentir sozinha, mas ela sempre escolhia outra coisa, n\u00e3o ele.<\/p>\n\n\n\n<p>A al\u00e7a queimava na palma.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota apertou mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>Um peixe desceu r\u00e1pido, ro\u00e7ou o ombro da mulher que flutuava.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela cambaleou, quase perdeu o equil\u00edbrio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu deixei meu filho ir embora com o pai dele \u2014 disse ela, voz baixa. \u2014 Tinha visita marcada todo final de semana. Parei de buscar. Achei que era melhor pra ele. Todo dia eu penso se foi mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um fio de l\u00e1grima escorreu, mas n\u00e3o caiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou suspenso na bochecha, brilhando como gota de merc\u00fario.<\/p>\n\n\n\n<p>O peixe que a tocou se fundiu no objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuaram.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem pequeno, corpo de crian\u00e7a, rosto de sessenta e poucos, come\u00e7ou a respirar curto.<\/p>\n\n\n\n<p>Suor escorrendo pela testa grande demais pro corpo mi\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro peixe desceu, tocou o peito dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele falou sem olhar pra ningu\u00e9m:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu era o grand\u00e3o da fam\u00edlia. Um e noventa e cinco, cento e vinte quilos. Meu pai morreu, minha m\u00e3e ficou doente, eu carreguei tudo. Casa, conta, rem\u00e9dio, caix\u00e3o. Quando ela foi embora tamb\u00e9m, eu desabei. Parei de comer. Parei de levantar. Hoje eu sou isso aqui. Tamanho que eu mere\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz saiu infantil e velha ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele segurava a al\u00e7a com as duas m\u00e3ozinhas, n\u00f3s dos dedos brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um peixe maior passou rente ao rosto do gigante.<\/p>\n\n\n\n<p>O grand\u00e3o nem piscou, mas falou pela primeira vez algo que n\u00e3o era ordem:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 a d\u00e9cima quarta vez que eu carrego. Sempre volta. Sempre tem mais algu\u00e9m que precisa aprender a n\u00e3o soltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Segunda mem\u00f3ria atingiu Jota como tijolo.<\/p>\n\n\n\n<p>Rodoferrovi\u00e1ria, Daslu com a mala de rodinha, mas uma vez Jota ajudando e ela indo embora, deixando ele. E Jota sempre querendo que ela ficasse, mas a decis\u00e3o de ficar era dela, sempre foi.<\/p>\n\n\n\n<p>Com os olhos \u00e2mbar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou tentar a vida novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ali parado, m\u00e3os nos bolsos, sem resposta.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o queria ser a obriga\u00e7\u00e3o, queria que ela o escolhesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Viu ela virar as costas, desaparecer no port\u00e3o de embarque.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia ele soltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Um peixe voador desceu direto pro peito dele.<\/p>\n\n\n\n<p>R\u00e1pido demais.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o desviou.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Frio absoluto explodiu dentro do peito, congelou pulm\u00e3o, cora\u00e7\u00e3o, pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota quis gritar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o saiu som.<\/p>\n\n\n\n<p>E viu.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros grupos, outros tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem de t\u00fanica no deserto, areia at\u00e9 o horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher de armadura numa ponte de pedra sobre o abismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Velhos, crian\u00e7as, gente comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos carregando o mesmo objeto disfar\u00e7ado de formas diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos com o mesmo olhar cansado e teimoso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o eram her\u00f3is.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram s\u00f3 os que estavam ali na hora.<\/p>\n\n\n\n<p>E carregaram porque algu\u00e9m tinha que carregar.<\/p>\n\n\n\n<p>A vis\u00e3o sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O peixe saiu do peito e voltou pro cardume.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota cambaleou.<\/p>\n\n\n\n<p>Os joelhos cederam meio cent\u00edmetro.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher que flutuava e o homem pequeno olharam pra ele ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhar de quem entendeu tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m falou.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante apenas repetiu, mais baixo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Continua.<\/p>\n\n\n\n<p>E continuaram.<\/p>\n\n\n\n<p>O horizonte, que nunca mudava, mudou.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro foi s\u00f3 um risco vertical, fino como fio de cabelo, brilhando mais forte que o resto do c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois cresceu, tremendo, abrindo e fechando como p\u00e1lpebra cansada.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma fenda no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>As bordas chiavam baixinho, um som de eletricidade esticada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 L\u00e1 \u2014 disse o gigante, sem apontar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o precisava mais.<\/p>\n\n\n\n<p>A fenda ficava mais n\u00edtida a cada passo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era luz nem escurid\u00e3o do outro lado; era as duas coisas brigando, trocando de lugar a cada segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O metal sob os p\u00e9s come\u00e7ou a vibrar, leve, quase impercept\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Os peixes voadores enlouqueceram.<\/p>\n\n\n\n<p>O cardume inteiro apertou o cerco, c\u00edrculos cada vez mais fechados, mais r\u00e1pidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um por um, mergulhavam de bico no objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tocavam mais; atravessavam o tecido transl\u00facido e sumiam dentro dele.<\/p>\n\n\n\n<p>A cada peixe que entrava, o objeto ficava mais transparente, mais leve no peso f\u00edsico e mais pesado no outro.<\/p>\n\n\n\n<p>A luz agora era t\u00e3o forte que do\u00eda olhar direto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentia os bra\u00e7os mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ombros queimando.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas das al\u00e7as j\u00e1 tinham aberto sulcos na palma, sangue escorrendo fino pelos pulsos, pingando no metal e sumindo sem manchar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sete passos para a fenda.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher que flutuava come\u00e7ou a descer devagar, cent\u00edmetro por cent\u00edmetro, at\u00e9 os p\u00e9s tocarem o ch\u00e3o pela primeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela olhou pra baixo, surpresa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Chegamos \u2014 sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco passos.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem pequeno chorava aberto agora, solu\u00e7os curtos, corpo tremendo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as m\u00e3os mi\u00fadas seguravam firme.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas passos.<\/p>\n\n\n\n<p>O objeto estava quase vazio de tecido.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 luz agora, uma coluna de luz prateada, pulsando t\u00e3o r\u00e1pido que parecia parada.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dela, os peixes ainda nadavam, vis\u00edveis como sombras l\u00edquidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um passo.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante parou.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos pararam.<\/p>\n\n\n\n<p>A fenda se abriu de uma vez, rasg\u00e3o perfeito do ch\u00e3o at\u00e9 o infinito, largura de um corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>O som parou.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 os peixes pararam.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio era absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Coloca \u2014 disse o gigante, voz baixa, quase carinhosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Abaixaram juntos, lentos, sincronizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o objeto (agora s\u00f3 luz pura) tocou o metal, a fenda engoliu tudo num estalo seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Luz explodiu, branca, absoluta, queimando retina mesmo com os olhos fechados.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou o bra\u00e7o na frente do rosto por instinto.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a luz baixou, o objeto tinha sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>No lugar, uma \u00e1rvore.<\/p>\n\n\n\n<p>Pequena.<\/p>\n\n\n\n<p>Tronco fino, retorcido como arauc\u00e1ria jovem apanhada pelo vento.<\/p>\n\n\n\n<p>Folhas prateadas, finas como escamas, balan\u00e7ando sem vento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ra\u00edzes cravando no metal como se o ch\u00e3o tivesse nascido pra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>E nos galhos, pendurados como frutos ainda n\u00e3o maduros, os casulos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um pra cada peixe.<\/p>\n\n\n\n<p>Brilhavam suave, pulsando no mesmo ritmo de um cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era de ningu\u00e9m e era de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pras m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcas.<\/p>\n\n\n\n<p>Linhas fundas, vermelhas, perfeitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Cruzavam as palmas em padr\u00e3o de nadadeiras entrela\u00e7adas.<\/p>\n\n\n\n<p>Subiam pelos dedos, contornavam os pulsos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sangravam mais.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o do\u00edam.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas latejavam vivas, quentes, permanentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher que flutuava tocou as pr\u00f3prias marcas, surpresa, quase sorrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem pequeno olhou pras dele, depois pra \u00e1rvore, depois pro c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Riu baixo, riso de crian\u00e7a misturado com solu\u00e7o de adulto.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante foi o \u00faltimo.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas dele eram antigas, cicatrizes brancas sobre cicatrizes brancas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele s\u00f3 acenou com a cabe\u00e7a, lento, cansado, satisfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra todos, um por um.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou em Jota por mais tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Podem ir.<\/p>\n\n\n\n<p>A fenda se fechou atr\u00e1s deles com um som de tecido rasgando ao contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O azul do c\u00e9u come\u00e7ou a desbotar, voltando ao laranja sujo do inverno curitibano.<\/p>\n\n\n\n<p>O metal do ch\u00e3o tremeu uma vez e virou cascalho de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava de volta na trilha do bosque do Cap\u00e3o da Imbuia.<\/p>\n\n\n\n<p>Arauc\u00e1rias altas, cheiro de terra molhada e eucalipto, barulho de cascalho sob o t\u00eanis.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9u agora era roxo-escuro, laranja s\u00f3 na linha do horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>O rel\u00f3gio do celular marcava 18:41.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou em volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo escuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Usou o isqueiro para iluminar o caminho, lembrou que o celular tinha op\u00e7\u00e3o da lanterna.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhos para m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas estavam l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Linhas vermelhas profundas, perfeitas, desenhando nadadeiras entrela\u00e7adas nas palmas, subindo pelos dedos, contornando os pulsos.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou as m\u00e3os devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Latejavam quentes, vivas, como se ainda carregassem um peda\u00e7o do objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar entrou frio, normal, cortante como toda noite em Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem peso.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem peixes.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja, que ele nem lembrava de ter carregado, estava ca\u00edda no ch\u00e3o da trilha \u2013 o caderno marrom tinha rolado pra fora, p\u00e1gina rasgada onde ele rabiscou &#8220;n\u00e3o soltar&#8221; em letra tremida, \u00edm\u00e3 do posto Esso preso na capa com fita adesiva velha, frio como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou o celular no bolso, continuou andando.<\/p>\n\n\n\n<p>Teve que pular o port\u00e3o do local que j\u00e1 estava fechado, caminho at\u00e9 em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pras m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas brilhavam levemente quando a luz dos postes batia nelas.<\/p>\n\n\n\n<p>Escondeu-as nos bolsos.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou no sobrado do Cap\u00e3o da Imbuia.<\/p>\n\n\n\n<p>Chave tremendo um tiquinho na fechadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Luz acesa na sala (tinha esquecido acesa de manh\u00e3).<\/p>\n\n\n\n<p>Trancou a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio total.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogou a mochila no sof\u00e1, foi direto pro banheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Acendeu a luz fria.<\/p>\n\n\n\n<p>Tirou a camiseta, olhou no espelho.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas pareciam tatuagens rec\u00e9m-feitas, pele levantada, vermelhas, perfeitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu a torneira quente, pegou a bucha vegetal, sab\u00e3o l\u00edquido.<\/p>\n\n\n\n<p>Esfregou.<\/p>\n\n\n\n<p>Forte.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 arder.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o saiu nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem uma linha apagou.<\/p>\n\n\n\n<p>Esfregou mais.<\/p>\n\n\n\n<p>A pele ao redor ficou vermelha, mas as marcas continuavam intocadas, brilhando quase felizes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porra\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Deixou a \u00e1gua correr.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou ali, testa encostada no azulejo frio, vapor subindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomou banho demorado.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu, enrolou a toalha, foi pra cozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu a geladeira: resto de lasanha de dois dias, refrigerante.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogou a lasanha no micro-ondas, sentou na mesa da cozinha olhando pras m\u00e3os em cima da toalha.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou um copo e colocou o refrigerante.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular vibrou na sala.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi pegar.<\/p>\n\n\n\n<p>Conversa com Daslu parada h\u00e1 tr\u00eas meses e quatro dias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00daltima mensagem era de Jota:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Feliz ano novo! Esse texto fiz para ti&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Junto um PDF.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela visualizou, mas nunca respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu o teclado.<\/p>\n\n\n\n<p>Cursor piscando.<\/p>\n\n\n\n<p>Digitou devagar, apagou, digitou de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;oi.. espero que voc\u00eas estejam bem.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Leu quatro vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Dedo em cima do enviar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o enviou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pras marcas.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou o polegar sobre as linhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda quentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o peito apertar de um jeito diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era peso.<\/p>\n\n\n\n<p>Era outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogou o celular no sof\u00e1, apagou a luz da sala.<\/p>\n\n\n\n<p>Deitou na cama ainda com a toalha, quarto escuro, s\u00f3 o brilho fraco das marcas iluminando as palmas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pareciam peixes pequenos nadando em c\u00edrculos lentos na pele.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro teto.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez em meses, tudo parecia diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dormiu direto, profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Teve um sonho maravilhoso.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 fora, no c\u00e9u pesado de Curitiba, um brilho prateado cruzou r\u00e1pido entre as nuvens e sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Peixe voador.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou avi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as marcas continuavam ali, quentes, lembrando que ele tinha carregado, que tinha segurado, e que, pela primeira vez, isso tinha sido suficiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jota estava voltando pra casa quando aconteceu. Seis e sete da tarde, ter\u00e7a-feira gelada, c\u00e9u j\u00e1 roxo no fundo, laranja s\u00f3 na borda das nuvens. Tinha descido no terminal do Cap\u00e3o da Imbuia e resolveu visitar o Bosque do Museu Natural que h\u00e1 muito n\u00e3o ia. Caminharia um pouco mais, faria bem para a sa\u00fade. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1739,"menu_order":82,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"livro":[18],"personagem":[216,27,2392,2378,201,81],"genero":[636],"tom":[494,128,43],"timeline":[57,817],"versao_jota":[49,1073],"categoria_cap":[2238,2106,2237],"item_essencial":[33,31,37,34,32,35],"tema":[2239,2241,2240],"local":[2242,664,2243,1396],"keyword":[2247,1041,2245,2145,2249,2248,2246,2244],"class_list":["post-1169","capitulo","type-capitulo","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","livro-dias-apos-um-fim","personagem-daslu-franca","personagem-gpjota","personagem-gigante","personagem-homem-aleatorio","personagem-mulher","personagem-rand-oliveira","genero-realismo-magico","tom-catartico","tom-melancolico","tom-onirico","timeline-curitiba","timeline-sobrenatural","versao_jota-normal","versao_jota-poderes","categoria_cap-coletivo","categoria_cap-cura","categoria_cap-peso-emocional","item_essencial-caderno-marrom-de-capa-dura","item_essencial-camiseta-regata-vinho","item_essencial-ima-posto-esso","item_essencial-isqueiro-amarelo-o-sobrevivente","item_essencial-mochila-laranja","item_essencial-tenis-surrado","tema-carregar-o-peso-coletivo","tema-marcas-que-nao-apagam","tema-memoria-afetiva-e-perda","local-bosque-do-museu-natural","local-capao-da-imbuia","local-dimensao-alternativa","local-sobrado","keyword-carregar-junto","keyword-daslu","keyword-dimensao-alternativa","keyword-marcas-nas-palmas","keyword-nadadeiras","keyword-nao-soltar","keyword-objeto-de-luz","keyword-peixes-voadores"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo\/1169","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo"}],"about":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulo"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1169"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1739"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"livro","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/livro?post=1169"},{"taxonomy":"personagem","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/personagem?post=1169"},{"taxonomy":"genero","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/genero?post=1169"},{"taxonomy":"tom","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tom?post=1169"},{"taxonomy":"timeline","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/timeline?post=1169"},{"taxonomy":"versao_jota","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/versao_jota?post=1169"},{"taxonomy":"categoria_cap","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_cap?post=1169"},{"taxonomy":"item_essencial","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/item_essencial?post=1169"},{"taxonomy":"tema","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tema?post=1169"},{"taxonomy":"local","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/local?post=1169"},{"taxonomy":"keyword","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/keyword?post=1169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}