{"id":1170,"date":"2026-03-24T00:15:00","date_gmt":"2026-03-24T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1170"},"modified":"2026-03-05T00:25:26","modified_gmt":"2026-03-05T03:25:26","slug":"telhado-da-casa-do-joao-da-netuno","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/telhado-da-casa-do-joao-da-netuno\/","title":{"rendered":"Telhado da Casa do Jo\u00e3o da Netuno"},"content":{"rendered":"\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban estaciona duas casas antes. Motor desliga com um suspiro cansado. Jota fica sentado por uns cinco segundos, m\u00e3os no volante de pl\u00e1stico duro, olhando a casa do Jo\u00e3o da Netuno l\u00e1 na frente. N\u00e3o v\u00ea ela faz uns anos. Desde que saiu da empresa de inform\u00e1tica. Desde que juntou grana suficiente pra dar entrada nesse carro que agora range quando freia e cheira a etanol velho toda manh\u00e3 de inverno curitibano.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro emprego de carteira assinada. Primeiro sal\u00e1rio que prestou. Primeiro lugar onde se sentiu gente.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora t\u00e1 aqui de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Hesita. Pega a mochila laranja do banco de tr\u00e1s, abre, tira o caderno de capa dura marrom. Abre numa p\u00e1gina em branco. A caneta azul na m\u00e3o. Fica olhando a casa do Jo\u00e3o da Netuno pela janela emba\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o escreve nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Guarda o caderno de volta. Fecha a mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>Abre a porta. O metal geme. Fecha. O vento bate forte, empurra pra cima como se quisesse arrancar as telhas do mundo. Jota olha a casa. Porta da frente entreaberta. Movimento l\u00e1 dentro. Vozes abafadas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o quer entrar direto.<\/p>\n\n\n\n<p>Contorna pelo muro baixo de tijolos. Apoia o p\u00e9 na calha de concreto rachada. Sobe. O brasilit t\u00e1 quente que nem chapa de fog\u00e3o. Queima a palma da m\u00e3o quando apoia todo o peso dos cento e dez quilos. Mas sobe. Fica de p\u00e9 no telhado, equilibrado entre duas ondas de telha, mochila laranja nas costas balan\u00e7ando de leve.<\/p>\n\n\n\n<p>Tira o caderno de capa dura marrom de dentro da mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>Abre numa p\u00e1gina em branco.<\/p>\n\n\n\n<p>A caneta azul na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica olhando a rua l\u00e1 embaixo. Tarum\u00e3 quieto. \u00c1rvores balan\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o escreve nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Guarda o caderno de volta. Fecha a mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica ali. No telhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra baixo. O buraco no ded\u00e3o esquerdo mostra a meia furada por dentro. O cadar\u00e7o direito pende solto, bambo, como sempre faz nos piores momentos. Ele abaixa. Amarra. Demora mais que deveria. E nesse momento, olhando pro pr\u00f3prio p\u00e9 fodido no telhado quente, v\u00ea um carro chegando l\u00e1 embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cara bate na porta entreaberta. Algu\u00e9m abre mais. O cara entra carregando uma maleta preta.<\/p>\n\n\n\n<p>Vozes l\u00e1 dentro. Movimenta\u00e7\u00e3o de cadeiras sendo arrastadas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o devia estar aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m sai para olhar a rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o olha pra cima. V\u00ea ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O Jota chegou! T\u00e1 em cima do telhado, caralho!<\/p>\n\n\n\n<p>A voz ecoa at\u00e9 a rua. Risadas nervosas. Algu\u00e9m repete mais alto, quase gritando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 NO TELHADO!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respira fundo. Olha pra escada de pintura encostada no canto da casa, aquela de alum\u00ednio com propaganda desbotada da Suvinil. Desce devagar. P\u00e9s no degrau gelado apesar do sol. A mochila balan\u00e7a nas costas. O t\u00eanis amarra firme agora. Firme demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Chega no ch\u00e3o. Entra pela cozinha dos fundos.<\/p>\n\n\n\n<p>A cozinha t\u00e1 vazia. Pia cheia de copo de pl\u00e1stico. Garrafa de refrigerante pela metade na mesa forrada com toalha xadrez velha. Cheiro de caf\u00e9 velho misturado com algo mais forte. \u00c1lcool. \u00c1lcool de hospital.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para na soleira da porta que d\u00e1 pra sala. Sombra de jaleco branco passa r\u00e1pida pelo corredor. Sil\u00eancio pesado do outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Atravessa. Entra na sala.<\/p>\n\n\n\n<p>Para no batente.<\/p>\n\n\n\n<p>A sala virou outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Cadeiras em c\u00edrculo. Umas dez, doze pessoas. Jalecos brancos. Alguns de manga curta mostrando tatuagem no antebra\u00e7o. Outros com estetosc\u00f3pio pendurado no pesco\u00e7o. Uma mesa no centro coberta com papel branco, tipo de exame m\u00e9dico. Clima de audit\u00f3rio universit\u00e1rio. Clima de necropsia emocional.<\/p>\n\n\n\n<p>No canto, sentados lado a lado numa cadeira dupla:<\/p>\n\n\n\n<p>Maju Kuzito e o marido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela t\u00e1 de m\u00e3os dadas com ele. Os dedos entrela\u00e7ados, apertados, brancos de tanta for\u00e7a. Jota lembra desses dedos em outro lugar. Outro tempo. Outra perda. Ela olha pra frente. N\u00e3o v\u00ea Jota entrar. Ou finge que n\u00e3o v\u00ea. O cabelo castanho-escuro cai sobre os ombros. Ela veste blusa preta de manga longa apesar do calor.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fica parado na porta. A m\u00e3o direita entra no bolso. Sente o \u00edm\u00e3 no bolso da cal\u00e7a esquentar. Retangular, cinza fosco, logo quase apagado do Posto Esso. O pai colou na geladeira quando Jota era garoto. Jota levou quando saiu de casa. S\u00f3 um pouco de calor. Discreto. Quase nada. Mas esquenta quando tem fam\u00edlia perto.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem de jaleco \u2014 barba grisalha, \u00f3culos de grau grosso, crach\u00e1 escrito &#8220;Dr. Oliveira&#8221; \u2014 vira a cabe\u00e7a e olha direto pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 o irm\u00e3o do Deco, n\u00e9? \u2014 Ele pergunta. Voz grave.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pode sentar. Falta pouca gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota entra. Procura cadeira vazia. Tem uma no canto, perto da porta. \u00daltima dispon\u00edvel. Senta. A mochila laranja fica no ch\u00e3o, entre os p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais dois chegam. Uma mulher de jaleco \u2014 cabelo preso em coque apertado, prancheta na m\u00e3o \u2014 e um homem alto, mais novo, com estetosc\u00f3pio vermelho no pesco\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aorta! \u2014 A mulher chama. \u2014 Pega mais uma cadeira ali.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem alto pega. Arrasta. Senta do outro lado do c\u00edrculo. Jota reconhece o rosto. Leandro Costa, que tocou o projeto adiante quando Jota saiu. Os olhos se encontram por um segundo. Leandro assente de leve, como se dissesse &#8220;obrigado por ter vindo&#8221;. Jota retribui.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica de coque bate na prancheta com a caneta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bom. Agora que estamos todos\u2026 \u2014 Olha ao redor. Conta mentalmente. \u2014 Todos aqui deveriam estar?<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju solta a m\u00e3o do marido. S\u00f3 por um segundo. Depois aperta de novo. Mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sim \u2014 ela responde. Voz firme mas fina.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica assente. Olha pra mesa no centro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o vamos come\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>No centro da mesa: o prot\u00f3tipo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pequeno. Feito de silicone transl\u00facido. Forma vagamente humana. Bra\u00e7os. Pernas. Cabe\u00e7a desproporcional, grande demais pro corpo. Jota conhece cada detalhe desse modelo. Passou meses desenvolvendo ele. Parece boneco de teste. Parece manequim de ressuscita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem l\u00edquido dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica pega o prot\u00f3tipo com as duas m\u00e3os. Levanta. Mostra pra todos como quem mostra evid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Submergiram na \u00e1gua. Pressionaram. \u2014 Ela aperta de leve. O l\u00edquido vermelho se mexe l\u00e1 dentro, ondula, mas n\u00e3o sai. \u2014 A press\u00e3o externa deveria ter for\u00e7ado o l\u00edquido pra fora. Mas n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela coloca o prot\u00f3tipo de volta na mesa. Pega uma seringa grossa. Injeta mais l\u00edquido. O prot\u00f3tipo incha. Fica tenso. Ela mergulha ele num balde de \u00e1gua transparente ao lado da mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Aperta.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edquido vermelho jorra. Sai pelos orif\u00edcios invis\u00edveis. Tinge a \u00e1gua. Nuvens vermelhas se espalhando devagar, pesadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora sim. \u2014 A m\u00e9dica tira o prot\u00f3tipo da \u00e1gua. Segura ele pingando sobre a mesa. Gotas vermelhas caem no papel branco. \u2014 A quest\u00e3o \u00e9: por que na primeira vez n\u00e3o saiu?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela olha ao redor. Espera resposta. Os olhos passam pela sala. Param em Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sabe a resposta.<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhou nisso. Calculou as vari\u00e1veis. Testou as hip\u00f3teses.<\/p>\n\n\n\n<p>Levanta a m\u00e3o. Hesita.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju continua olhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abaixa a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem de jaleco come\u00e7a a falar algo t\u00e9cnico sobre viscosidade e temperatura. Jota perde a linha de racioc\u00ednio. Quando volta a prestar aten\u00e7\u00e3o, o homem j\u00e1 parou de falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju vira a cabe\u00e7a. Olha pro marido. Aperta a m\u00e3o dele. Depois olha pro outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pro Deco.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele t\u00e1 sentado tr\u00eas cadeiras \u00e0 esquerda de Jota. Bra\u00e7os cruzados sobre a barriga. Olhando a m\u00e9dica com aten\u00e7\u00e3o dobrada, aquele jeito dele de prestar aten\u00e7\u00e3o que todo mundo subestima mas que \u00e9 mais inteligente que metade da sala.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deco \u2014 Maju fala. Voz firme agora. Como quem faz uma aposta. \u2014 O que voc\u00ea acha?<\/p>\n\n\n\n<p>Deco olha pra ela. Pisca. Demora um segundo organizando a resposta na cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acho que\u2026 \u2014 Ele co\u00e7a a barba rala. \u2014 Tinha ar dentro. Ar impede o l\u00edquido de sair r\u00e1pido. Precisa tirar o ar antes. Sen\u00e3o fica preso.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica assente. Sorriso discreto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Exatamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju sorri tamb\u00e9m. Um sorriso pequeno, quase invis\u00edvel, mas real. Aperta a m\u00e3o do marido. Olha pro Deco de novo com algo que parece orgulho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sabia que voc\u00ea ia acertar, Deco.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois olha pra Jota. Por um segundo. O sorriso some.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fica quieto. As m\u00e3os no colo. Deco ouviu ele explicar isso dezenas de vezes. Anos atr\u00e1s. Quando Jota ainda conseguia falar sobre o projeto sem sentir o peito fechar. O irm\u00e3o guardou tudo. E acabou de salvar Jota de ter que falar. Mas Maju viu. Viu Jota escolher o sil\u00eancio. De novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro amarelo, que estava no outro bolso, aparece entre os dedos sem ele perceber como. Acende. Apaga. Acende. Apaga. Click. Click. Click.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica continua. A voz mais baixa agora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fizemos outros testes. Diferentes n\u00edveis de press\u00e3o. Diferentes volumes. \u2014 Ela aponta pra parede onde tem gr\u00e1ficos colados com fita crepe, linhas vermelhas subindo e descendo. \u2014 As vari\u00e1veis s\u00e3o muitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela para. Respira fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas a conclus\u00e3o \u00e9 clara. A falha foi estrutural. N\u00e3o operacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio pesado cai sobre a sala como cobertor molhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju solta a m\u00e3o do marido. Devagar. Cruza os bra\u00e7os sobre o peito. O corpo inteiro endurece. Ela n\u00e3o olha mais pro Deco. Olha pra frente. Pro vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica respira fundo. Fecha a prancheta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Todos aqui deveriam estar? \u2014 Ela pergunta de novo. A voz mais dura agora. Quase acusat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m responde.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota continua acendendo o isqueiro. Click. Click. Click. A chama dan\u00e7a amarela, pequena, viva.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m do outro lado da sala, uma mulher de jaleco com piercing no nariz:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 D\u00e1 pra parar com isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha. Para. As m\u00e3os voltam pro colo. Fica im\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju se levanta. Devagar. Como se cada movimento doesse. Olha pra m\u00e9dica. O rosto dela n\u00e3o expressa nada. Nem raiva. Nem tristeza. Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acho que\u2026 \u2014 Ela hesita. Engole seco. \u2014 Acho que nem todos precisam continuar aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica franze a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n\n\n\n<p>Maju n\u00e3o responde com palavras. S\u00f3 olha.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha direto pra Jota. Como se dissesse: voc\u00ea teve a chance de estar presente. Escolheu n\u00e3o estar. De novo. Ent\u00e3o vai embora. De novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio fica mais pesado ainda. Cada segundo dura uma hora. Jota sente todos os olhos virando na dire\u00e7\u00e3o dele. Sente o telhado ainda queimando nos joelhos. Sente o \u00edm\u00e3 esquentando mais forte no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Levanta.<\/p>\n\n\n\n<p>Devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pega a mochila laranja. Coloca nas costas. O peso familiar. O peso de sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desculpa \u2014 ele murmura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m responde.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m olha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele atravessa a sala. Passa pela cozinha. O cheiro de \u00e1lcool ainda no ar. Sai pela porta dos fundos.<\/p>\n\n\n\n<p>O vento continua soprando forte. Quente. Empurrando pra cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota n\u00e3o sobe mais.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 caminha at\u00e9 o Gol Bolinha. Abre a porta. O metal range de novo. Senta no banco do motorista. O estofado afundado marca as costas dele como sempre marca.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica ali.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3os no volante.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando a casa do Jo\u00e3o da Netuno.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa onde conseguiu o primeiro emprego.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa onde juntou grana pro carro.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa que agora acabou de expuls\u00e1-lo sem dizer uma palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tira o caderno de capa dura marrom da mochila. Abre. A caneta azul aparece. Escreve r\u00e1pido, letra torta:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Deco acertou. Com palavras que aprendeu me ouvindo falar anos atr\u00e1s. Eu sabia a resposta. Maju me olhou. Me deu a chance. Escolhi ficar calado. Deco me salvou. Mas Maju viu. Broxei. N\u00e3o s\u00f3 hoje. Segunda vez que n\u00e3o consigo estar presente quando ela mais precisa. Casa do Jo\u00e3o da Netuno n\u00e3o \u00e9 mais minha.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Fecha o caderno. Guarda. Respira fundo. Liga o carro.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor tosse. Tosse de novo. Pega no terceiro giro de chave.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota d\u00e1 r\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Sai da rua.<\/p>\n\n\n\n<p>No retrovisor, a casa vai sumindo.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 no bolso esfria. Fica s\u00f3 peso morto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segue dirigindo. O Gol Bolinha corta Curitiba no fim da tarde.<\/p>\n\n\n\n<p>In\u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p>Como tudo que ele trouxe pra essa reuni\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Gol Bolinha Cinza Urban estaciona duas casas antes. Motor desliga com um suspiro cansado. Jota fica sentado por uns cinco segundos, m\u00e3os no volante de pl\u00e1stico duro, olhando a casa do Jo\u00e3o da Netuno l\u00e1 na frente. N\u00e3o v\u00ea ela faz uns anos. Desde que saiu da empresa de inform\u00e1tica. 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