{"id":1173,"date":"2026-03-27T00:15:00","date_gmt":"2026-03-27T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1173"},"modified":"2026-03-05T00:27:39","modified_gmt":"2026-03-05T03:27:39","slug":"onda-que-nao-acreditaram","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/onda-que-nao-acreditaram\/","title":{"rendered":"Onda que N\u00e3o Acreditaram"},"content":{"rendered":"\n<p>O c\u00e9u est\u00e1 cinza de fuma\u00e7a e sirenes. Helic\u00f3pteros pairam sobre as pra\u00e7as de Guaratuba, rotores cortando o ar pesado que cheira a querosene e p\u00e2nico. As ruas est\u00e3o lotadas. Gente correndo. Gente parada. Gente olhando pro c\u00e9u esperando algo que n\u00e3o sabe nomear.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo, ou Jota, flutua trinta metros acima da avenida principal, mochila laranja presa nas costas, camiseta regata vinho colada de suor, t\u00eanis surrado guardado dentro da mochila desde que descobriu que voar \u00e9 melhor descal\u00e7o. Olhos fixos no horizonte onde o mar late escuro. Ele sente a press\u00e3o no peito. A onda vem. Ele sabe. Todo mundo deveria saber.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 embaixo, ao lado de um Jeep militar abandonado, tr\u00eas pessoas levantam voo. Devagar. Incerto. Como quem aprendeu ontem. Uma mulher de vestido florido sobe cinco metros e para, suspensa, olhando as pr\u00f3prias m\u00e3os como se fossem asas invis\u00edveis. Um homem de bermuda e camiseta do Vasco tenta descer mas sobe mais, gritando de susto. Uma crian\u00e7a ri, sobe dez metros de uma vez, a m\u00e3e grita de baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os poderes chegaram pra todo mundo ao mesmo tempo. Tr\u00eas dias atr\u00e1s. Alguns voam. Outros atravessam paredes. Outros levantam carros. O apocalipse trouxe presentes. Mas ningu\u00e9m sabe usar direito. E a descren\u00e7a \u00e9 maior que o medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desce em voo rasante. Utiliza um megafone:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Saiam de Guaratuba! Subam pra serra! A onda t\u00e1 vindo!<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher de vestido florido olha pra ele. Ri.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 maluco. Que onda?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota aponta pro mar. Ela olha. N\u00e3o v\u00ea nada. Desiste. Continua voando em c\u00edrculos, testando o pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Feriado e praia cheia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sobe de novo. Respira fundo. O peito aperta. Se a Daslu, o amor que mais o machucou, estivesse aqui, acreditaria? Ou riria tamb\u00e9m?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o vai conseguir salvar todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado da cidade, pr\u00f3ximo ao aeroporto improvisado no estacionamento do supermercado, um monomotor pequeno liga o motor. Jota reconhece o piloto de longe. Rand Oliveira. O t\u00e9cnico. O cara que aparece quando precisa e some quando n\u00e3o espera.<\/p>\n\n\n\n<p>O avi\u00e3o acelera. Levanta voo. Baixo. Inst\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota agarra a asa, apenas acompanhando. Rand olha pela janela. V\u00ea Jota pendurado l\u00e1 fora. N\u00e3o parece surpreso. Apenas acena com a cabe\u00e7a. Liga o r\u00e1dio.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz chiada atravessa o vento:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;&#8230;confirmado tsunami em Florian\u00f3polis&#8230; Santos submersa&#8230; Rio de Janeiro evacuando zona sul&#8230; helic\u00f3pteros direcionados para \u00e1reas altas&#8230; repito: dirijam-se \u00e0s serras&#8230; Pico do Paran\u00e1, Marumbi, qualquer altitude acima de mil metros&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Rand desliga o r\u00e1dio. Olha pra frente. Decide sobrevoar a orla pra &#8220;confirmar com os pr\u00f3prios olhos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota grita de fora:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o vai l\u00e1! Volta!<\/p>\n\n\n\n<p>Rand ignora. Vira o manche. O avi\u00e3o desce em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 praia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o o motor engasga.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas.<\/p>\n\n\n\n<p>Morre.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand xinga alto. Puxa a manete. Nada. O avi\u00e3o perde altitude r\u00e1pido. Jota solta a asa, voa paralelo enquanto as rodas tocam o asfalto rachado da avenida Beira-Mar.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto chacoalha tudo. Mas o avi\u00e3o aguenta. Continua deslizando. R\u00e1pido. As asas viram algo entre asa e roda. O monomotor agora \u00e9 ve\u00edculo terrestre. Como drone que perdeu altura mas ainda funciona no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand freia. Desvia de um carro abandonado. Depois de uma barricada. Depois de tr\u00eas corpos no meio da rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acompanha pelo ar, gritando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vira \u00e0 esquerda! Tem corredor!<\/p>\n\n\n\n<p>Rand n\u00e3o ouve. Segue reto. Direto pra um beco estreito entre dois pr\u00e9dios altos. As asas n\u00e3o v\u00e3o passar. V\u00e3o quebrar. V\u00e3o prender o avi\u00e3o ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sabe que gritar \u00e9 in\u00fatil, nem usar o megafone adiantaria agora.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00faltimo segundo, Rand aperta um bot\u00e3o vermelho no painel. As asas se dobram. Como l\u00e2minas de canivete su\u00ed\u00e7o. Recolhem pro corpo do avi\u00e3o. Perfeitas. Aerodin\u00e2micas.<\/p>\n\n\n\n<p>O avi\u00e3o entra no beco raspando as laterais. Fa\u00edscas. Metal rangendo. Mas passa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota perde a paci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sobe. Atravessa o teto de telhas de um galp\u00e3o como se fosse papel. Os estilha\u00e7os voam. Cacos vermelhos chovem na rua. Desce dentro do corredor coberto onde o avi\u00e3o entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Escuro. Apertado. Cheiro de mofo e gasolina.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim do corredor, Cabrito aparece. Camiseta preta rasgada. Ele tamb\u00e9m voa. Baixo. Uns dois metros do ch\u00e3o. Bra\u00e7o erguido. Apontando pra frente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Reto! Vai reto, porra! \u2014 Cabrito grita pro piloto.<\/p>\n\n\n\n<p>O avi\u00e3o acelera. Obedece. Segue reto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota agarra a fuselagem com as duas m\u00e3os. O metal frio. Vibrando. Ele sente o peso. Uns 400 kg. Talvez 500 com Rand dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele puxa.<\/p>\n\n\n\n<p>Levanta.<\/p>\n\n\n\n<p>O avi\u00e3o sai do ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota atravessa o teto de novo carregando ele. Mais telhas explodindo. Mais cacos. O sol bate no rosto dele. O vento quente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele pousa o avi\u00e3o do lado de fora. No meio da rua. S\u00e3o e salvo.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand abre a porta. Sai cambaleando. Olha pra Jota. Mudo. Boca aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acredita agora? \u2014 Jota pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand n\u00e3o responde. Apenas olha pro horizonte. Pro mar que j\u00e1 come\u00e7a a recuar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sinal.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabrito pousa ao lado de Jota. Olha pro c\u00e9u. Pro mar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quanto tempo? \u2014 ele pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Poucos minutos \u2014 Jota responde.<\/p>\n\n\n\n<p>Olham para o mar e ele j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais t\u00e3o perto. O tsunami est\u00e1 vindo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o vamos \u2014 Cabrito diz. E sobe. Voando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s ruas cheias.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra Rand uma \u00faltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sobe pra serra. Agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand acena. Mas n\u00e3o se mexe. Jota voa atr\u00e1s de Cabrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando olha pra tr\u00e1s, Rand j\u00e1 sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Do alto, Jota v\u00ea o horizonte mudar.<\/p>\n\n\n\n<p>O mar incha.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma parede de \u00e1gua preta avan\u00e7a. Silenciosa. R\u00e1pida. Maior que os pr\u00e9dios. Maior que tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desce em voo rasante. Passa sobre as ruas. Sobre as pra\u00e7as. Usando o megafone pras pessoas, fala:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 SAIAM! VOEM! SUBAM! SAIAM DE GUARATUBA!<\/p>\n\n\n\n<p>Ele v\u00ea rostos. Centenas deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns param. Olham. Veem a onda no horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>E riem.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros pegam o celular. Filmam. Postam nos stories. &#8220;Olha o maluco falando de onda hahaha&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher grita de volta:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sai fora, gordo! T\u00e1 querendo aparecer!<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem de bon\u00e9 joga uma pedra nele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desvia. Tenta pegar uma crian\u00e7a no colo. A m\u00e3e puxa de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o encosta no meu filho, tarado!<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tenta grupos. Cinco pessoas de uma vez. Elas se debatem. Gritam. Caem. Ele n\u00e3o consegue segurar. Um por vez funciona melhor. Mas leva tempo. Tempo que n\u00e3o tem.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenta carregar uma senhora de bengala. Ela bate nele com a bengala.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Me larga! N\u00e3o te conhe\u00e7o! Me deixa!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para no ar. Flutua. Respira fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Donaro, seu primeiro amor, acreditaria? O pai entenderia?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 sabe que precisa tentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o v\u00ea um homem. Sozinho. Parado na cal\u00e7ada. Olhando pro horizonte. Pro mar. Pra onda que agora j\u00e1 \u00e9 vis\u00edvel at\u00e9 pra quem n\u00e3o quer ver.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem olha pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Acena com a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Me tira daqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desce. Agarra ele contra o peito. Segura firme. Sobe.<\/p>\n\n\n\n<p>A onda finalmente chega.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o faz barulho at\u00e9 o \u00faltimo segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 um rugido. Surdo. Profundo. Como se a terra estivesse gritando.<\/p>\n\n\n\n<p>A parede de \u00e1gua engole a orla. Os quiosques. Os carros. As pessoas que ainda filmavam. Os que riam. Os que corriam tarde demais.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem nos bra\u00e7os de Jota vira o rosto. N\u00e3o consegue olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota olha.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00ea os pr\u00e9dios desabando. As \u00e1rvores arrancadas. Os corpos flutuando. A \u00e1gua preta, suja, cheia de destro\u00e7os levando tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00ea tr\u00eas pessoas tentando voar. A mulher de vestido florido. O homem de bermuda. A crian\u00e7a. Eles sobem. Mas n\u00e3o r\u00e1pido o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>A onda os alcan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Puxa.<\/p>\n\n\n\n<p>Engole.<\/p>\n\n\n\n<p>Somem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fecha os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Voa mais r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele leva o homem at\u00e9 um morro seco. Longe da \u00e1gua. Pousa. Solta ele.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem cai de joelhos. Vomita. Chora. N\u00e3o fala.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o fala tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas sobe de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Procura sobreviventes.<\/p>\n\n\n\n<p>Passa uma hora voando sobre destro\u00e7os. Carrega sete pessoas. Dois agarrados num telhado. Um pendurado numa \u00e1rvore. Tr\u00eas dentro de um carro virado. Uma mulher flutuando agarrada numa porta. Um menino em cima de uma caixa d&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois disso, n\u00e3o encontra mais ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 lama.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota voa alto. Mais alto que antes.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00ea Guaratuba de cima.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, a costa \u00e9 s\u00f3 \u00e1gua suja. Destro\u00e7os flutuando. Alguns telhados. Nada mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele vira pra oeste. Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 serra. \u00c0 Serra do Mar. Onde o r\u00e1dio disse que os helic\u00f3pteros estavam indo.<\/p>\n\n\n\n<p>Voa por vinte minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>O verde da mata aparece. Denso. Fechado. A altitude sobe. 500 metros. 800. 1.000. 1.200.<\/p>\n\n\n\n<p>De longe v\u00ea a cadeia de picos. Qual \u00e9 o Pico Paran\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>1.877 metros acima do n\u00edvel do mar.<\/p>\n\n\n\n<p>Acima da onda.<\/p>\n\n\n\n<p>Acima de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o d\u00e1 para saber ao certo para um leigo como ele qual \u00e9 o mais alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Os helic\u00f3pteros est\u00e3o pousados na regi\u00e3o. Dezenas deles. Espalhados pelos pontos planos, mas muito na cadeia de montanhas. Civis. Do governo. De empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas est\u00e3o sentadas ao redor. Cobertas com mantas t\u00e9rmicas prateadas. Olhando pro nada. Algumas choram. Outras apenas respiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pousa devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Os p\u00e9s tocam a pedra fria do cume.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele caminha entre os helic\u00f3pteros. Verifica rotor por rotor. Conta. Um. Dois. Dez. Vinte. Trinta. Quarenta e tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta e tr\u00eas helic\u00f3pteros.<\/p>\n\n\n\n<p>Perto de um deles, Rand Oliveira aparece. Macac\u00e3o azul. Ferramentas na m\u00e3o. Consertando algo no rotor. Sorri cansado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea tinha raz\u00e3o \u2014 ele diz baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acena. Continua caminhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado de uma pedra grande, Cabrito est\u00e1 sentado. Cabe\u00e7a baixa. M\u00e3os nos joelhos. Ele levantou a cabe\u00e7a quando Jota chegou. Os dois se olharam. N\u00e3o precisaram falar. Ambos tentaram. Ambos n\u00e3o conseguiram salvar quantos queriam.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais adiante, encostado num helic\u00f3ptero militar, Leandro Costa, mas mais conhecido como Topgun, fuma um cigarro. \u00d3culos de aviador pendurados na camiseta. Capacete de piloto ao lado. Ele olha pra Jota. Sorri sem humor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed, Topgun? \u2014 Jota pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro solta fuma\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Salvei dezesseis. Voc\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oito.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro acena. Olha pro horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tem ideia de quantos estava l\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o responde.<\/p>\n\n\n\n<p>Tira a mochila laranja das costas. Abre. Procura algo l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontra o caderno de capa dura marrom. Abre numa p\u00e1gina nova. Pega a caneta.<\/p>\n\n\n\n<p>Anota:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Guaratuba: n\u00famero imposs\u00edvel contar ou saber.<br>Salvos: ~300 (segundo as informa\u00e7\u00f5es que obteve)<br>Helic\u00f3pteros: 43<br>Muitos n\u00e3o acreditaram at\u00e9 ser tarde demais.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Fecha o caderno. Guarda.<\/p>\n\n\n\n<p>Pega o isqueiro amarelo.<\/p>\n\n\n\n<p>O sobrevivente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele acende.<\/p>\n\n\n\n<p>A chama pequena treme no vento frio da altitude.<\/p>\n\n\n\n<p>Apaga.<\/p>\n\n\n\n<p>Acende de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Apaga.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Vinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha ao redor. Pras pessoas. Pros helic\u00f3pteros. Pro c\u00e9u limpo que veio depois do fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabrito levanta. Caminha at\u00e9 ele. Fica ao lado. N\u00e3o fala. Apenas fica ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro tamb\u00e9m se aproxima. Oferece o cigarro. Jota recusa. Topgun guarda.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand passa carregando uma caixa de ferramentas. Acena de novo. Continua andando. Desaparece atr\u00e1s de um helic\u00f3ptero.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guarda o isqueiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Fecha a mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>Joga nas costas de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pro horizonte. Pro leste. Onde Guaratuba estava.<\/p>\n\n\n\n<p>Onde agora s\u00f3 tem \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>E lama.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabrito coloca a m\u00e3o no ombro dele. Aperta. Solta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente tentou \u2014 ele diz baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acena.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o foi suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nunca \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro olha pro c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas a gente t\u00e1 vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respira fundo. Olha pra baixo. V\u00ea as trezentas pessoas que sobreviveram porque algu\u00e9m acreditou. Ou porque tiveram sorte. Ou porque o destino decidiu poupar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabrito acena.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acena de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>E fica ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas olhando pro horizonte onde a cidade sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Onde a onda provou que eles estavam certos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas de que adianta estar certo quando quase todo mundo est\u00e1 morto?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 sabe que Cabrito est\u00e1 ali.<\/p>\n\n\n\n<p>E Topgun.<\/p>\n\n\n\n<p>E Rand aparecendo e desaparecendo.<\/p>\n\n\n\n<p>E trezentas pessoas respirando.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso vai ter que ser suficiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O c\u00e9u est\u00e1 cinza de fuma\u00e7a e sirenes. Helic\u00f3pteros pairam sobre as pra\u00e7as de Guaratuba, rotores cortando o ar pesado que cheira a querosene e p\u00e2nico. As ruas est\u00e3o lotadas. Gente correndo. Gente parada. Gente olhando pro c\u00e9u esperando algo que n\u00e3o sabe nomear. 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