{"id":1176,"date":"2026-03-30T00:15:00","date_gmt":"2026-03-30T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1176"},"modified":"2026-03-05T00:30:49","modified_gmt":"2026-03-05T03:30:49","slug":"minas-mortas","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/minas-mortas\/","title":{"rendered":"Minas Mortas"},"content":{"rendered":"\n<p>O lugar \u00e9 um labirinto de t\u00faneis abandonados. Trilhos enferrujados cortam o ch\u00e3o de terra batida. Pilares de concreto rachado sustentam tetos baixos que parecem querer desabar a qualquer momento. O ar \u00e9 pesado. Enxofre. Terra \u00famida. Algo podre que n\u00e3o deveria estar ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota conhece esse cheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira vez que esteve aqui, trouxe fogo.<\/p>\n\n\n\n<p>Seis meses atr\u00e1s, talvez sete. Curiosidade est\u00fapida. Explora\u00e7\u00e3o. Sozinho. Encontrou gente. Infectados. Doentes. Possu\u00eddos por algo que os fazia andar torto, falar errado, olhar com olhos brancos que n\u00e3o piscavam. Movimentos descoordenados. Perigosos. Atacam qualquer pessoa que encontram. Matam. Sem motivo, sem aviso quando ativos. Queimou todos. Foi embora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acabou virando trabalho. Encontrar esses locais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esses pontos existem por todo o mundo agora. Ninhos. Lugares abandonados que atraem infectados como \u00edm\u00e3. Eles saem, vagam, atacam quem cruza o caminho, mas sempre voltam pra dormir. Ficam dormentes. Vulner\u00e1veis. \u00c9 quando algu\u00e9m tem que ir l\u00e1 e queimar antes que saiam de novo. Jota \u00e9 esse algu\u00e9m nessa regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A regra era simples. Elimina\u00e7\u00e3o. Chegar, identificar, queimar, ir embora. Ele tirava fotos antes de atear fogo. Catalogar. Gente que desapareceu e nunca mais foi vista. As fotos davam resposta. Fam\u00edlia que procurava algu\u00e9m pelo menos sabia: infectado, eliminado. Melhor que o nada.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima vez tinha sido h\u00e1 uma semana. Poucos. Cinco, seis. Queimou r\u00e1pido. Fotografou. Saiu mais cedo que deveria.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha ronronava baixo enquanto ele dirigia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mina. Carro refor\u00e7ado para esse tempo. Chapas de metal soldadas nas laterais. Grades nos vidros. Mas o motor continuava o mesmo 1.0 16v de sempre, gritando nas subidas. Sem ar-condicionado. Janela aberta. O cheiro de fuma\u00e7a da \u00faltima vez ainda no nariz.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas pelo menos tinha acabado, pensava.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 range at\u00e9 parar na entrada das minas. Viu na televis\u00e3o. Infectados com queimaduras numa regi\u00e3o que reconheceu. Parecidos com os dos registros. Mesmos corpos, mas com bolhas. O alerta acendeu. Era o local que saiu mais cedo. Trabalho mal feito. Jota teve que voltar. Motor apaga. Jota gira a chave. Nada. Tenta de novo. O motor tosse, morre. Sil\u00eancio. Apenas o tique-taque do metal esfriando.<\/p>\n\n\n\n<p>Merda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sai do carro. Pega a mochila laranja do banco. Joga nas costas. Fecha a porta sem trancar. A coronha da espingarda aparece debaixo do banco do passageiro. Ainda n\u00e3o. A regata vinho est\u00e1 grudada no corpo. Suor. Cinza velha que nunca saiu direito do tecido. Os t\u00eanis surrados nos p\u00e9s. Ded\u00e3o aparecendo pelo buraco do esquerdo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os t\u00faneis est\u00e3o quietos demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota anda devagar. Olha ao redor. Pilares queimados. Paredes enegrecidas. Mas nenhum corpo. Nenhum resto. Como se algu\u00e9m tivesse limpado tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o ouve.<\/p>\n\n\n\n<p>Sussurro.<\/p>\n\n\n\n<p>Baixo. Vindo de dentro dos t\u00faneis.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela vai querer ver isso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para. Cora\u00e7\u00e3o acelera. Vira a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Passos ecoam atr\u00e1s dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se vira.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles est\u00e3o vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Saem das sombras como fantasmas. Quinze deles. Talvez vinte. Pele queimada. Feridas que deveriam ter matado qualquer um. Bolhas estouradas. Carne viva exposta. Mas est\u00e3o andando. Olhando para Jota. Reconhecendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles sorri. Dentes podres. Gengivas sangrando. Parecido com um dos registros. Mesmo rosto, s\u00f3 que coberto de bolhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota recua. A m\u00e3o vai para a mochila. Procura o isqueiro. Os dedos encontram o caderno de anota\u00e7\u00f5es. Capa dura marrom. O \u00edm\u00e3 de geladeira cinza fosco est\u00e1 preso na capa. Logo do Posto Esso quase apagado. N\u00e3o ajuda. Procura mais fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles se movem r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3os queimadas seguram seus bra\u00e7os. Suas pernas. Jota tenta se debater mas eles s\u00e3o muitos. Cordas aparecem. Correntes enferrujadas. Algu\u00e9m puxa a mochila dele. Joga longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Prendem Jota contra um pilar frio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele grita.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o adianta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o v\u00ea ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminha entre os infectados como se fosse uma deles. Talvez seja. Cabelo loiro platinado sujo de cinza. Olhos \u00e2mbar vazios. O corpo magro, alto, se move devagar. A pele clara manchada de fuligem. Ela veste um vestido branco rasgado que j\u00e1 foi bonito. Agora \u00e9 trapo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma m\u00e3o no ombro dela. Guiando. Apertando. Daslu se move na dire\u00e7\u00e3o que a m\u00e3o empurra.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o olha para Jota. N\u00e3o olha para ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Daslu!<\/p>\n\n\n\n<p>Os infectados riem.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 riso humano. \u00c9 algo \u00famido. Gutural. Como se estivessem engasgando com o pr\u00f3prio ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu para. Levanta o rosto. Os olhos encontram Jota por um segundo. Vazios. Mas algo tremula l\u00e1 no fundo. Medo? Reconhecimento? Pena?<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3o no ombro aperta. Puxa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela olha para baixo de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Continua andando.<\/p>\n\n\n\n<p>Desaparece em um dos t\u00faneis laterais. Levada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela n\u00e3o precisa ser salva \u2014 uma voz diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha para a fonte.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher que Daslu chamava de irm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota entende agora por que Daslu sumiu. Foi atr\u00e1s dela. Da irm\u00e3. E a irm\u00e3 deve ter enganado ela. Puxado pra dentro. Presa ali.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o irm\u00e3 de sangue. Apenas algu\u00e9m que Daslu escolheu. Que Daslu chamava de irm\u00e3. Jota nunca soube o nome dela. S\u00f3 sabia que de repente Daslu amava aquela mulher mais que tudo. Mais que ele. Sempre mais. E isso queimava nele tanto quanto o fogo queimou nela.<\/p>\n\n\n\n<p>A irm\u00e3 \u00e9 alta. Magra demais. A pele queimada \u00e9 pior que nos outros. Bolhas abertas. Carne viva. Pus escorrendo. Mas os olhos n\u00e3o s\u00e3o brancos. S\u00e3o escuros. Vivos. Conscientes. Ela n\u00e3o \u00e9 como eles. Ela se move com autoridade. Os corpos queimados se afastam quando ela passa. Abrem caminho. Como se fosse rainha. A dona de Daslu.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota n\u00e3o lembra dela naquela mina antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez estivesse em um local desconhecido, talvez chegaram depois que saiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas perguntas e poucas respostas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Podem ter sobrevivido por causa dela. Jota tentava conectar os pontos mesmo preso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela para na frente de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea queimou muitos de n\u00f3s \u2014 ela diz. Voz calma. Quase doce. Escolhendo cada palavra. \u2014 Achou que ia dar certo. Mas eu n\u00e3o deixei a gente morrer.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota s\u00f3 olha para o rosto dela.<\/p>\n\n\n\n<p>A irm\u00e3 de Daslu sorri.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora vai pagar por isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela olha para os infectados. Depois para Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas primeiro preciso de uma coisa sua.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela se ajoelha.<\/p>\n\n\n\n<p>As m\u00e3os v\u00e3o para o cinto de Jota. Abrem. Puxam. Baixam o z\u00edper.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tenta se debater mas as cordas cortam a pele. Os infectados seguram firme. Alguns assistem. Outros olham para o nada. Como se aquilo fosse rotina.<\/p>\n\n\n\n<p>A boca dela encontra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O calor \u00e9 errado.<\/p>\n\n\n\n<p>A textura \u00e9 errada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fecha os olhos. Tenta pensar em outra coisa. Qualquer coisa. O motor do Gol morrendo. O caderno no ch\u00e3o. O \u00edm\u00e3 apagado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o funciona.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele abre os olhos. Olha para baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Verrugas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos ombros dela. Parece no peito tamb\u00e9m. Espalhadas como mofo vivo. Crescendo enquanto ela se move. Algumas s\u00e3o pequenas. Outras do tamanho de uma moeda. A pele ao redor est\u00e1 vermelha. Inchada. Pus escorre de uma delas. Cai no ch\u00e3o. Sibilando.<\/p>\n\n\n\n<p>O est\u00f4mago de Jota revira.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele n\u00e3o consegue desviar o olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>A boca dela continua. Quente. \u00damida. Errada. O cheiro de podre sobe e enche o nariz dele. \u00c9 pior que a fuma\u00e7a. Pior que a carne queimada. \u00c9 algo vivo. Algo que est\u00e1 apodrecendo enquanto respira. Enquanto o toca.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1grimas escorrem pelo rosto de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o de prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>De nojo.<\/p>\n\n\n\n<p>De derrota.<\/p>\n\n\n\n<p>De algo quebrado dentro dele que n\u00e3o vai se consertar.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu aparece de novo. Fica parada na entrada do t\u00fanel. Assistindo. Os olhos dela ainda vazios. Mas agora h\u00e1 algo l\u00e1. Talvez pena. Talvez ci\u00fame. Um tremor nos l\u00e1bios. Como se fosse chorar mas n\u00e3o conseguisse.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha para ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Daslu desvia o olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>A irm\u00e3 de Daslu termina.<\/p>\n\n\n\n<p>Levanta. Limpa a boca com as costas da m\u00e3o. Sorri de novo. Dentes podres brilhando na penumbra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gostou?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o responde.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o consegue.<\/p>\n\n\n\n<p>A garganta est\u00e1 fechada. O peito aperta. O mundo gira. Ele quer vomitar. Quer gritar. Quer morrer.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o faz nada.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 fica ali. Preso. Sujo. Quebrado.<\/p>\n\n\n\n<p>A raiva vem depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Como brasa que acende no fundo do peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais quente que qualquer fogo que ele ateou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olha ao redor.<\/p>\n\n\n\n<p>Os infectados relaxam. Alguns se afastam. Outros conversam entre si. Baixo. Como se j\u00e1 tivessem esquecido de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o a irm\u00e3 de Daslu volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminha entre eles. Fala algo que Jota n\u00e3o entende. Os infectados viram a cabe\u00e7a. Prestam aten\u00e7\u00e3o nela. Todos. Como cachorros ouvindo a dona. Ela aponta pra um dos t\u00faneis. D\u00e1 ordens. Eles obedecem. Se movem. Se afastam de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m segurando as cordas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m olhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota puxa. Os 110kg inteiros contra as cordas. O pilar range. A corda morde a pele do pulso. Sangue escorre quente. Ele puxa de novo. Mais forte. O n\u00f3 cede. N\u00e3o muito. O suficiente. A m\u00e3o direita passa.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m grita.<\/p>\n\n\n\n<p>Tarde demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota est\u00e1 livre.<\/p>\n\n\n\n<p>Puxa a cal\u00e7a. Fecha o z\u00edper.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurra os que chegam perto.<\/p>\n\n\n\n<p>Corre.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro para a mochila. Pega. N\u00e3o para. Agora direto para o Gol.<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s dele, grunhidos. Passos. Sente os seres se aproximarem. Ele sente os dedos ro\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo ca\u00eddo bloqueia o caminho. Jota pula. Quase trope\u00e7a do outro lado. Recupera. Continua correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol t\u00e1 ali. Dez metros. Cinco.<\/p>\n\n\n\n<p>Abre a porta. Entra. Fecha. Tranca.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3os batem no vidro. Rostos queimados grudados na janela. Dentes rangendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota enfia a chave. Gira.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor tosse.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai, porra \u2014 Jota sussurra.<\/p>\n\n\n\n<p>Gira de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tosse. Morre.<\/p>\n\n\n\n<p>Os infectados cercam o carro. Batem no cap\u00f4. No teto. No vidro traseiro. Rachaduras aparecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota gira a terceira vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 VAI!<\/p>\n\n\n\n<p>Quarta tentativa.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor pega.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota joga em marcha r\u00e9. Acelera. O Gol atropela dois infectados. Eles caem. Rolam. N\u00e3o levantam.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele vira o volante. Joga em primeira. Acelera. A estrada de terra chacoalha o carro. O motor range. Mas aguenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota dirige por vinte minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para na beira da estrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pro Gol. A etanol. Tanque cheio de etanol n\u00e3o ajudaria mesmo. Precisa da gasolina especial, aquela sem cheiro. O que tinha n\u00e3o foi suficiente antes, n\u00e3o seria agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Pega o celular com a m\u00e3o tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Disca.<\/p>\n\n\n\n<p>Atendem no primeiro toque.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Preciso de gasolina especial \u2014 Jota diz. A voz sai rouca. Rachada. \u2014 Muita gasolina. Traz tudo que voc\u00ea tiver.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o pergunta. S\u00f3 me diz onde pegar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pega os detalhes e desliga.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pelo retrovisor.<\/p>\n\n\n\n<p>A regata vinho est\u00e1 ensopada. Suor. Sangue do pulso. Algo mais que ele n\u00e3o quer pensar. O pulso direito sangra. O t\u00eanis surrado parece mais surrado ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pega a mochila do banco do passageiro. Abre. Procura o caderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontra.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 ainda preso na capa. Cinza fosco. Apagado. Beiradas descascando. Antes ele brilhava. Azul p\u00e1lido. Sempre que fam\u00edlia estava perto. Agora n\u00e3o acende mais. N\u00e3o tem pra quem acender.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele abre o caderno. Folheia. L\u00ea e escreve algumas coisas enquanto espera.<\/p>\n\n\n\n<p>Fecha. Guarda na mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorri.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez em meses.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas horas depois, volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta-malas cheio de gal\u00f5es. Caixa de f\u00f3sforos no bolso. O isqueiro amarelo no outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Estaciona num local estrat\u00e9gico. Carrega um gal\u00e3o em cada m\u00e3o. Pesado. O pulso ferido grita. Ele ignora.<\/p>\n\n\n\n<p>Entra nos t\u00faneis.<\/p>\n\n\n\n<p>Idiotas. Fotografados, queimados, e ainda voltam pro mesmo lugar. Dessa vez Jota n\u00e3o vai sair com pressa.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles est\u00e3o dormindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou algo parecido com dormir. Corpos amontoados em cantos. Respira\u00e7\u00e3o lenta. Irregular. Alguns gemem baixo. Outros ficam mudos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota trabalha devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Derrama a gasolina especial sem cheiro pelos t\u00faneis. Pelos corpos. Pelos pilares. Pelas estruturas de metal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m acorda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou eles n\u00e3o se importam.<\/p>\n\n\n\n<p>Continua derramando.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontra Daslu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela est\u00e1 acordada. Sentada contra um pilar. Olha para Jota. Os olhos ainda vazios. Mas h\u00e1 algo l\u00e1 no fundo agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez perd\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou desist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desculpa \u2014 Jota sussurra.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o responde.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os l\u00e1bios se movem. Como se fosse dizer algo. Nenhum som sai.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota derrama gasolina ao redor dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu n\u00e3o se move.<\/p>\n\n\n\n<p>Fecha os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Espera.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota termina de esvaziar os gal\u00f5es. Volta para a entrada. Vai at\u00e9 o Gol. Pega a espingarda debaixo do banco.<\/p>\n\n\n\n<p>Volta para a entrada.<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro amarelo j\u00e1 no bolso. O sobrevivente.<\/p>\n\n\n\n<p>Acende na primeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre acende.<\/p>\n\n\n\n<p>Joga.<\/p>\n\n\n\n<p>As chamas correm pelos t\u00faneis como \u00e1gua. Sobem pelas paredes. Engolem os corpos. Os gritos come\u00e7am. Desesperados. Animais. Alguns tentam correr. Trope\u00e7am. Caem. As chamas os alcan\u00e7am.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fica parado. Assistindo.<\/p>\n\n\n\n<p>A irm\u00e3 de Daslu aparece na entrada de um t\u00fanel. Em chamas. Tenta correr. Grita. Trope\u00e7a. Cai.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota atira. Nela primeiro. Ela \u00e9 o motivo de terem sobrevivido. Sem ela, s\u00e3o s\u00f3 infectados. Com ela, voltam sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo queima at\u00e9 virar cinza.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Daslu \u2014 Daslu n\u00e3o grita.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota a v\u00ea por um segundo. Sentada contra o pilar. O fogo subindo pelas pernas. Pelos bra\u00e7os. Pelo vestido branco rasgado. Pelo cabelo loiro platinado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela olha para Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o desvia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os olhos brilham na luz do fogo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois apagam.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quando as chamas engolem tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fica at\u00e9 o fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Atirou em um ou outro que tentava fugir.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o \u00faltimo grito.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o \u00faltimo movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 tudo virar cinza e sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez, n\u00e3o vai embora sem checar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota caminha pelos t\u00faneis. Devagar. A espingarda na m\u00e3o. Fuma\u00e7a ainda subindo dos corpos. Chuta as cinzas. Procura movimento. Procura respira\u00e7\u00e3o. Procura qualquer coisa que ainda se mova.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Confere cada t\u00fanel. Cada canto. Cada corpo que ainda tem forma suficiente pra reconhecer. Tira fotos dos que ainda d\u00e1 pra tentar identificar o rosto. Catalogar. Algu\u00e9m pode estar procurando. Compara com os registros antigos no celular. Todos parados. Todos quietos. Mas coloca gasolina nesses corpos novamente, precisa queimar tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m sabe por que voltam pra esses lugares. Ningu\u00e9m nunca soube. Mas por enquanto, esse aqui est\u00e1 limpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Acende novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>E espera queimar mais uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>O cheiro de carne queimada volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Vai ficar semanas no nariz de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o se importa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele volta para o Gol.<\/p>\n\n\n\n<p>Entra.<\/p>\n\n\n\n<p>Fecha a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Liga o motor.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele dirige de volta para a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Janela aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Vento no rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o vento n\u00e3o tira o cheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tira o gosto.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tira a sensa\u00e7\u00e3o da boca dela.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tira o olhar vazio de Daslu assistindo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tira nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota aperta o volante com for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O pulso ferido sangra de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o sente.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 dirige.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha seguindo pela estrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Motor ronronando baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os t\u00eanis surrados no p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por hoje, acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez n\u00e3o sobrou ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem Daslu.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem a irm\u00e3 dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem os infectados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem a vers\u00e3o de Jota que entrou naquele lugar pela primeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 cinzas.<\/p>\n\n\n\n<p>E o Gol Bolinha seguindo pela estrada vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Levando Jota para longe das minas mortas.<\/p>\n\n\n\n<p>Levando o que sobrou dele.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ainda consegue dirigir.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ainda consegue acender isqueiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ainda consegue queimar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o consegue esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O lugar \u00e9 um labirinto de t\u00faneis abandonados. Trilhos enferrujados cortam o ch\u00e3o de terra batida. Pilares de concreto rachado sustentam tetos baixos que parecem querer desabar a qualquer momento. O ar \u00e9 pesado. Enxofre. Terra \u00famida. Algo podre que n\u00e3o deveria estar ali. Jota conhece esse cheiro. 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