{"id":1332,"date":"2026-04-01T00:15:00","date_gmt":"2026-04-01T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1332"},"modified":"2026-03-05T21:23:19","modified_gmt":"2026-03-06T00:23:19","slug":"rio-gatinho","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/rio-gatinho\/","title":{"rendered":"Rio Gatinho"},"content":{"rendered":"\n<p>O nome do rio quase sai. Rio Gatinho. Ou algo parecido com isso. N\u00e3o importa. O que importa \u00e9 que est\u00e1 l\u00e1, deslizando pela \u00e1gua verde-escura, quente, espessa, que corre pregui\u00e7osa entre margens de terra vermelha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o lembra exatamente como chegou at\u00e9 aqui. O movimento at\u00e9 o rio n\u00e3o tem forma na mem\u00f3ria. Vieram de carro? De barco? A p\u00e9? Tr\u00eas horas? Talvez.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o destino: encontrar os lugares onde o peixe-gatinho prospera. Leandro Costa sabe. Disse que conhece o rio. Que sabe onde a \u00e1gua fica certa pra esse peixe espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora est\u00e3o numa canoa. Pequena. Madeira velha, remendada em tr\u00eas lugares diferentes com arame e fita isolante.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota rema na frente. Leandro Costa atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Gatinho tem a pele bronzeada de quem vive perto d&#8217;\u00e1gua, sorriso f\u00e1cil, apelido que grudou faz tanto tempo que virou nome. Ningu\u00e9m lembra por qu\u00ea. Talvez nem ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tem uns grande a\u00ed embaixo \u2014 Gatinho fala, remando. \u2014 C\u00ea viu?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota viu. Sombras enormes passando sob a canoa. Peixes gigantes, pintados, bagres do tamanho de homem. Alguns maiores ainda. Deslizam lentos como se o tempo n\u00e3o existisse pra eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota estende a m\u00e3o. Bate num que passa. Sente a pele escamosa, fria, dura. O bicho nem se mexe. S\u00f3 desliza. Como se n\u00e3o tivesse sentido. Ou como se j\u00e1 esperasse. Gatinho ri.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 C\u00ea \u00e9 doido. Consegue tocar eles assim, do nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Gatinho tamb\u00e9m tem um peixe. Pegou horas atr\u00e1s. Pequeno. Largou no fundo da canoa enrolado num pano. Disse que n\u00e3o importa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota carrega um arp\u00e3o improvisado. Cabo de vassoura com ponta de ferro amarrada na ponta. A mochila laranja t\u00e1 jogada no fundo da canoa, molhada, com o caderno de anota\u00e7\u00f5es l\u00e1 dentro protegido por um saco pl\u00e1stico, bem fechado, com o maior cuidado do mundo. O \u00edm\u00e3 de geladeira cinza fosco continua preso na capa do caderno. Logo do Posto Esso quase apagado. Beiradas descascando.<\/p>\n\n\n\n<p>A camiseta regata vinho gruda no corpo pelo calor. O suor desce pelas costas, mistura com a \u00e1gua do rio que respinga toda vez que rema. O isqueiro amarelo, o sobrevivente, pesa no bolso da cal\u00e7a. Os t\u00eanis t\u00e3o encharcados. O cadar\u00e7o direito solto de novo. O ded\u00e3o esquerdo aparece pelo buraco, vermelho de tanto ro\u00e7ar na madeira da canoa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ali \u2014 Gatinho aponta.<\/p>\n\n\n\n<p>Um peixe-gato gigante sobe, quase tocando a superf\u00edcie. Mas n\u00e3o \u00e9 bagre comum. Bigodes longos e curvos que lembram bigodes de gato. Olhos grandes e redondos, quase felinos. Uma nadadeira traseira que balan\u00e7a como rabo. Corpo grosso, couro manchado de dourado e preto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esse. O peixe-gatinho. O que vieram procurar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o pensa. S\u00f3 levanta o arp\u00e3o e crava.<\/p>\n\n\n\n<p>O ferro entra fundo. O bicho explode em movimento. A \u00e1gua vira espuma. A canoa balan\u00e7a violenta. Gatinho ri alto, segura na borda, ajuda a puxar a corda amarrada no arp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Segura! Segura, porra!<\/p>\n\n\n\n<p>Sangue tinge o rio. Vermelho escuro se espalhando em redemoinhos. O peixe se debate mais tr\u00eas vezes antes de parar. Fica boiando de lado, olho vidrado, boca aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho \u2014 Gatinho ri mais ainda. \u2014 C\u00ea \u00e9 doido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota puxa o bicho pra perto da canoa. Pesado demais pra subir. Amarra na lateral. A \u00e1gua ao redor ainda t\u00e1 vermelha. O cheiro de ferro sobe forte.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles seguem.<\/p>\n\n\n\n<p>O rio vai mudando.<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o \u00e9 sutil. S\u00f3 um cheiro diferente. Menos terra, mais ferrugem. Depois a cor muda. O verde-escuro vai ficando acinzentado. Manchas de \u00f3leo aparecem na superf\u00edcie. Pequenas no in\u00edcio. Depois maiores. Iridescentes. Refletindo nada.<\/p>\n\n\n\n<p>As margens v\u00e3o se fechando. A vegeta\u00e7\u00e3o some aos poucos. \u00c1rvores tortas, galhos secos, ra\u00edzes expostas como veias. A luz entra torta. O calor aumenta mas o ar fica mais pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 fudido aqui \u2014 Gatinho fala.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota concorda sem falar. Para de remar. Pega o caderno da mochila. O \u00edm\u00e3 frio na palma da m\u00e3o quando vira a capa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenta escrever o nome do rio. A caneta para no ar. Nada vem.<\/p>\n\n\n\n<p>Rio Gatinho. Peixe-gatinho. Leandro Costa, Gatinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo com o mesmo nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Estranheza que n\u00e3o questiona. S\u00f3 sente.<\/p>\n\n\n\n<p>Anota r\u00e1pido, com a caneta quase sem tinta:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Rio muda. Cheiro de podre. \u00c1gua cinza. Gatinho calado.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Guarda o caderno de volta. A mochila laranja parece mais pesada agora. Ou talvez seja s\u00f3 impress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O rio faz uma curva fechada. Eles seguem.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1gua fica preta.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o aos poucos. De repente. Como se algu\u00e9m tivesse jogado tinta. Preta. Espessa. Oleosa. Garrafas pet flutuam sem dire\u00e7\u00e3o. Peda\u00e7os de madeira, pl\u00e1stico, pano. Um bicho morto passa boiando. Inchado. Irreconhec\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>O peixe-gato amarrado na canoa come\u00e7a a feder. R\u00e1pido demais. Como se a \u00e1gua tivesse acelerado o apodrecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Puta merda \u2014 Gatinho tampa o nariz. \u2014 Que lugar \u00e9 esse?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o responde. Olha pra frente.<\/p>\n\n\n\n<p>O rio polu\u00eddo onde est\u00e3o segue por mais uns cinquenta metros.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois encontra outro rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A conflu\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles param a canoa onde as \u00e1guas se encontram.<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 brutal.<\/p>\n\n\n\n<p>O rio onde est\u00e3o \u2014 o que desceram remando \u2014 \u00e9 preto. Morto. N\u00e3o reflete c\u00e9u, n\u00e3o reflete nada. S\u00f3 engole luz. A superf\u00edcie oleosa se move, carregando o lixo flutuante em c\u00edrculos pregui\u00e7osos.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro rio \u2014 o que vem de outro lugar, de outra nascente \u2014 \u00e9 limpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cristalino. Verde-claro. \u00c1gua correndo r\u00e1pida, viva, com espuma branca nas pedras. Peixes pequenos pulam. P\u00e1ssaros voam baixo. A luz bate certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles est\u00e3o na linha. Exatamente onde o podre encontra o puro. Mas n\u00e3o se misturam. Ficam ali, lado a lado, como dois mundos diferentes se recusando a se tocar.<\/p>\n\n\n\n<p>Gatinho larga o remo. Olha a conflu\u00eancia em sil\u00eancio. O sorriso some pela primeira vez desde que entraram no rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente atravessa?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele pergunta. Mas j\u00e1 sabe a resposta. Sente no corpo que n\u00e3o pode. Que precisa voltar. Da mesma forma que Jota sente que precisa procurar algo, Gatinho sente que precisa ficar onde est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o responde.<\/p>\n\n\n\n<p>Solta o arp\u00e3o no fundo da canoa. Levanta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou subir. Ver de cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Gatinho olha sem entender. Mas antes que pergunte, Jota j\u00e1 subiu. A canoa balan\u00e7a. Ele sobe no ar como quem sobe num degrau. Natural.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho \u2014 Gatinho balan\u00e7a a cabe\u00e7a. \u2014 Por mais que eu veja, sempre impressiona. N\u00e3o se v\u00ea mais muitos com esse dom.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota j\u00e1 n\u00e3o ouve. J\u00e1 t\u00e1 no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Voa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o alto. Rente \u00e0 superf\u00edcie. De um lado pro outro. Sobre a linha que separa os rios. Bra\u00e7os abertos. M\u00e3os cortando o ar. Procurando.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabe o qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 sabe que perdeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Voa mais r\u00e1pido. Passa por cima do rio preto. Passa por cima do rio limpo. Volta pra linha. Mergulha as m\u00e3os na \u00e1gua. Agarra vazio. Tenta de novo. Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Gatinho fica na canoa. Parado. Olhando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que c\u00ea t\u00e1 procurando? \u2014 ele grita.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o responde. N\u00e3o sabe responder.<\/p>\n\n\n\n<p>Voa de um lado pro outro. Passa sobre o rio preto. Passa sobre o rio limpo. Volta pra linha. Mergulha as m\u00e3os. Agarra vazio. Voa de novo. Passa. Volta. Mergulha. Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>O peixe-gato morto pendurado na lateral da canoa. Inerte. O sangue dele j\u00e1 se misturou com a \u00e1gua preta. Sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O nome do rio ainda n\u00e3o vem. O que ele perdeu tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota continua voando.<\/p>\n\n\n\n<p>Passa sobre a linha de novo. As m\u00e3os abertas. Tentando agarrar algo que n\u00e3o consegue ver. Algo entre o que morreu e o que ainda vive. Entre o rio que apodreceu e o rio que ainda respira.<\/p>\n\n\n\n<p>Gatinho grita de novo, mas a voz chega distorcida, como se estivesse do outro lado de um vidro grosso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota faz mais uma passagem. Mais baixo. T\u00e3o baixo que os dedos arrastam na \u00e1gua. Deixam rastros que somem em segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o percebe.<\/p>\n\n\n\n<p>A corda balan\u00e7a vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>O peixe-gatinho \u2014 o que arpoaram, o \u00fanico que pescaram hoje \u2014 afundou. Engolido pela \u00e1gua preta. Levado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para no ar. Fica suspenso. Olhando a corda vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Gatinho segue o olhar. V\u00ea a corda. Entende.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Afundou \u2014 ele diz baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra conflu\u00eancia de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>A linha continua ali. Perfeitamente vis\u00edvel. Perfeitamente intranspon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Preto de um lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Limpo do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>E no meio, nada.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 a fronteira.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o vazio entre dois mundos que n\u00e3o se tocam.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desce. Pousa na canoa. A madeira range sob o peso. Ele senta. Pega o remo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamo voltar \u2014 Gatinho fala. N\u00e3o \u00e9 pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota balan\u00e7a a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles viram a canoa. Remam em sil\u00eancio. A \u00e1gua preta vai ficando pra tr\u00e1s. Aos poucos, o cinza volta. Depois o verde sujo. Depois, l\u00e1 longe, o verde-escuro de antes.<\/p>\n\n\n\n<p>A corda vazia continua amarrada na lateral.<\/p>\n\n\n\n<p>Balan\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrando.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltam.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha cinza ainda t\u00e1 l\u00e1. Estacionado embaixo de uma \u00e1rvore. Coberto de poeira vermelha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha. Reconhece.<\/p>\n\n\n\n<p>Vieram de carro, ent\u00e3o. Deixaram aqui. Pegaram o barco-motor. Depois a canoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota senta no banco do motorista. Pega a mochila laranja. Abre. Tira o caderno. O \u00edm\u00e3 frio na capa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenta escrever o nome do rio de novo. A caneta treme. Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Anota:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Conflu\u00eancia. Rio preto \/ rio limpo. N\u00e3o se misturam. Procurei o que perdi. N\u00e3o achei. Peixe afundou. Corda vazia. Gatinho viu tudo. A gente voltou.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Fecha o caderno. Guarda.<\/p>\n\n\n\n<p>Gatinho encosta na porta do passageiro. Acende um cigarro. Olha pro rio ao longe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que c\u00ea tava procurando l\u00e1? \u2014 ele pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota gira a chave. O motor do Gol tosse. Pega na segunda tentativa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei \u2014 Jota responde. \u2014 Meu corpo sabia. Sentia que tinha algo ali. Saberia quando visse.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele para. Olha pro rio ao longe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas parece que n\u00e3o estava mais l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele sabe, mesmo sem saber como sabe, que ainda t\u00e1 l\u00e1. Em algum lugar entre o podre e o puro. Entre o que foi e o que poderia ser. Entre o rio que morreu e o rio que ainda respira.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ele perdeu.<\/p>\n\n\n\n<p>O nome que esqueceu.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 precisa agarrar.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 precisa encontrar.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 precisa voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota liga o motor. Dirige alguns metros pela estrada de terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o carro.<\/p>\n\n\n\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa. Aperta no peito. Precisa voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Desce do Gol. Olha pra Gatinho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou voltar l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Gatinho s\u00f3 acena. Acende outro cigarro. J\u00e1 sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sobe no ar. Voa de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha fica parado na estrada. Motor ligado. Porta aberta. Poeira vermelha entrando.<\/p>\n\n\n\n<p>Gatinho fuma em sil\u00eancio. Sozinho. Olhando o c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>E Jota voa.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta pra conflu\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta pra linha que separa os rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurando o que perdeu.<\/p>\n\n\n\n<p>O nome que esqueceu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nome do rio quase sai. Rio Gatinho. Ou algo parecido com isso. N\u00e3o importa. O que importa \u00e9 que est\u00e1 l\u00e1, deslizando pela \u00e1gua verde-escura, quente, espessa, que corre pregui\u00e7osa entre margens de terra vermelha. Jota n\u00e3o lembra exatamente como chegou at\u00e9 aqui. O movimento at\u00e9 o rio n\u00e3o tem forma na mem\u00f3ria. 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