{"id":1339,"date":"2026-04-08T00:15:00","date_gmt":"2026-04-08T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=1339"},"modified":"2026-03-05T21:35:58","modified_gmt":"2026-03-06T00:35:58","slug":"mesquita-na-areia","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/mesquita-na-areia\/","title":{"rendered":"Mesquita na Areia"},"content":{"rendered":"\n<p>O deserto se estende at\u00e9 o horizonte. Areia branca. C\u00e9u azul sem nuvens. Sol que queima a pele em segundos. O calor sobe do ch\u00e3o em ondas vis\u00edveis. Nada cresce. Nada se move. S\u00f3 o vento carregando gr\u00e3os finos que arranham o rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio do nada: a mesquita.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande. Imponente. C\u00fapula dourada refletindo luz como segunda estrela. Minaretes altos apontando pro c\u00e9u. Paredes brancas cobertas de azulejos azuis e verdes formando padr\u00f5es geom\u00e9tricos que repetem at\u00e9 o infinito. Porta de madeira entalhada. Tapetes vermelhos cobrindo o ch\u00e3o de pedra fria.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota chega pela entrada lateral. Mochila laranja no ombro. Camiseta regata vinho grudada de suor. Cal\u00e7a jeans clara com areia grudada nos bolsos. T\u00eanis surrado fazendo barulho no m\u00e1rmore. Cadar\u00e7o direito solto. Ded\u00e3o esquerdo aparecendo pelo buraco.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu est\u00e1 ao lado. Vestido longo branco. Cabelo loiro platinado preso. \u00d3culos escuros escondendo os olhos \u00e2mbar. Ela n\u00e3o fala. Dois passos atr\u00e1s, olhos acompanhando cada gesto dele como quem vigia uma briga que ainda n\u00e3o come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m se aproxima. Homem alto. Roupa ocidental. Camisa de bot\u00e3o bege. Cal\u00e7a social marrom.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 o Jota?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bom. \u2014 O homem aponta pra dentro da mesquita. \u2014 Voc\u00ea organiza isso aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 pedido. \u00c9 ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assente.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro: caos controlado.<\/p>\n\n\n\n<p>Crist\u00e3os de um lado. Mu\u00e7ulmanos do outro. Alguns grupos menores espalhados. Judeus. Budistas. Gente sem religi\u00e3o nenhuma. Todos ali. Todos esperando algo. Ningu\u00e9m sabe exatamente o qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota caminha entre os grupos. Daslu dois passos atr\u00e1s. Sempre dois passos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele v\u00ea o homem de barba grisalha. L\u00edder dos crist\u00e3os. Bem-vestido. Bem-falado. Rodeado por fi\u00e9is que sorriem quando ele fala. Mas quando um mu\u00e7ulmano de turbante passa perto, o sorriso congela. Os olhos ficam duros. O corpo enrijece.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota percebe. Todo mundo percebe. Ningu\u00e9m comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se aproxima.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea precisa mover seu grupo pro lado oeste.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem franze a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque eu t\u00f4 pedindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio. O homem avalia. Os olhos dos fi\u00e9is tamb\u00e9m. Depois:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tudo bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles se movem. Devagar. Reclamando baixo. Mas se movem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota continua. Apontando. Organizando. Separando. Mediando. A voz firme. O gesto curto. A autoridade que lhe deram pesando nos ombros como manto invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher se aproxima. Jovem. V\u00e9u branco cobrindo o cabelo. Olhos baixos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O padre quer falar com voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segue ela at\u00e9 um canto. O padre est\u00e1 ali. Velho. Batina preta surrada. M\u00e3os tr\u00eamulas segurando um ros\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Obrigado por organizar isso \u2014 ele fala. Voz rouca.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assente.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o v\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>A irm\u00e3 do padre. Atr\u00e1s dele. Segurando algo na m\u00e3o. Bolacha pequena. Redonda. Ela tenta esconder quando os olhos de Jota cruzam os dela. Coloca atr\u00e1s das costas. R\u00e1pido demais.<\/p>\n\n\n\n<p>O padre vira o rosto. Disfar\u00e7a. Olha pra parede como se estivesse admirando os azulejos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o pergunta. N\u00e3o comenta. S\u00f3 aceita o agradecimento e se afasta.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu continua observando. Os olhos dela captam tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea viu? \u2014 ela pergunta baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vi.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deixa pra l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se ajoelha pra ajustar um tapete que estava torto. As m\u00e3os puxam as pontas. Alinham com os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>E repara.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito do t\u00eanis. Completamente solto. Arrastando no ch\u00e3o. O ded\u00e3o esquerdo saindo pelo buraco. Vermelho de tanto ro\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olha. Suspira. N\u00e3o amarra. N\u00e3o tem tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Levanta. Continua andando.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o arrasta. O ded\u00e3o aparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nada acontece. Nada muda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 s\u00f3 um t\u00eanis velho. Mais um dia. \u00c0s vezes ele s\u00f3 desamarra. N\u00e3o salva nada.<\/p>\n\n\n\n<p>De repente. No canto da vis\u00e3o. Entre dois pilares.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju Kuzito.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabelo curto. Quase rapado nas laterais. Olhos fixos nele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para. Vira pra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o gostei do cabelo \u2014 ele fala. Seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela abre a boca.<\/p>\n\n\n\n<p>E desaparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Simples assim. Como fuma\u00e7a. Como se nunca tivesse estado ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pisca. Olha ao redor. Ningu\u00e9m mais viu. Ningu\u00e9m reage.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu franze a testa. Olha pro espa\u00e7o vazio entre os pilares. N\u00e3o comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 bem?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele balan\u00e7a a cabe\u00e7a. Volta ao trabalho.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Duas horas depois. O sol mais alto. O calor insuport\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota est\u00e1 do lado de fora. Encostado na sombra de um minarete. Bebendo \u00e1gua morna de uma garrafa pl\u00e1stica que Daslu trouxe.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem aparece correndo. Jovem. Barba rala. Olhos brilhando. Suado. Ofegante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota! \u2014 Ele para na frente. Sorriso enorme. \u2014 Consegui!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>O homem olha ao redor. Verifica se tem algu\u00e9m perto. Abre a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro: saquinho pl\u00e1stico pequeno. Transparente. Dentro do saquinho: torr\u00e3o escuro. Irregular. Com desenho estranho gravado na superf\u00edcie. Linhas. S\u00edmbolos. Algo que parece escrita antiga.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00d3pio \u2014 o homem sussurra. Reverente. Como se estivesse mostrando diamante.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pega o saquinho. Sente o peso. Cheira. Doce. Pesado. Promessa de esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem vibra. Quase pula.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Podemos usar agora? Agora? S\u00f3 um pouco?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha o torr\u00e3o. Olha o homem. Olha a mesquita atr\u00e1s dele. As pessoas esperando. A responsabilidade pesando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 na sexta \u2014 ele fala.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sexta-feira. \u2014 A voz sai firme. Final.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem murcha. Mas assente. Sabe que n\u00e3o adianta insistir.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guarda o saquinho no bolso direito da cal\u00e7a. Sente o contato contra a coxa. Pequeno. Mas presente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sexta \u2014 o homem repete. Olhos ainda brilhando. \u2014 Sexta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se afasta. R\u00e1pido. Animado. Contando os dias na cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu se aproxima. Para ao lado de Jota. Olha o bolso onde o saquinho sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 sentindo o peso disso? \u2014 ela pergunta. Voz baixa. Mas firme.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o responde. Volta pra dentro da mesquita.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f3pio no bolso lembra de si mesmo a cada passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sexta-feira come\u00e7a a latejar na cabe\u00e7a. Como segundo cora\u00e7\u00e3o. Distante mas constante.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Dentro. Mais gente chegou. Mais vozes. Mais tens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota reorganiza filas. Separa grupos que come\u00e7aram a discutir. Aponta onde cada um deve ficar. Quem fala. Quem cala. Quem reza. Quem espera.<\/p>\n\n\n\n<p>A c\u00fapula dourada reflete luz pelos vitrais coloridos. Azul. Verde. Vermelho. Amarelo. Padr\u00f5es dan\u00e7ando nas paredes. No ch\u00e3o. Nas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de barba grisalha se aproxima de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Os crist\u00e3os precisam de mais espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o tem mais espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o tire dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra ele. Firme.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem aperta os l\u00e1bios. Mas n\u00e3o insiste. Volta pro grupo. Reclamando baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando um mu\u00e7ulmano passa perto, o homem aperta os l\u00e1bios at\u00e9 sumir a cor. As m\u00e3os fecham. Os ombros enrijecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m comenta. Todo mundo v\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sai de novo. Precisa de ar. Precisa de sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Encosta na parede externa. Sombra curta. Areia entrando nos olhos com o vento.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju Kuzito.<\/p>\n\n\n\n<p>Do nada. Entre a parede e o port\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabelo curto. Olhos fixos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota nem se surpreende mais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o gostei do cabelo \u2014 ele repete. Mesmo tom. Mesmas palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela abre a boca.<\/p>\n\n\n\n<p>Desaparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu aparece ao lado dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 De novo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 De novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea precisa parar de dizer isso pra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota suspira. Volta pra dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>O saquinho no bolso lembra sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sexta-feira pulsa mais forte.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O dia marcado no calend\u00e1rio chegou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sabe porque algu\u00e9m avisou. Porque a data importava por algum motivo que ele n\u00e3o lembra mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado da mesquita: tenda branca. Grande. Armada durante a noite. Cadeiras de pl\u00e1stico em fileiras. Altar improvisado na frente. Cruz de madeira. Velas. Incenso queimando.<\/p>\n\n\n\n<p>A missa crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota est\u00e1 na entrada da tenda. Daslu ao lado. Os dois observando o movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas entrando. Saindo. Preparando. Organizando.<\/p>\n\n\n\n<p>E Jota sente.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de ver. Antes de saber.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo vai dar errado.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar fica pesado. A luz muda. O som abafa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele entra na tenda.<\/p>\n\n\n\n<p>E v\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher. No meio do caminho. Parada. Como est\u00e1tua.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e9u branco ca\u00eddo. Cabelo solto. Vestido longo azul.<\/p>\n\n\n\n<p>E os seios \u00e0 mostra.<\/p>\n\n\n\n<p>Completamente expostos. Como se fosse normal. Como se n\u00e3o houvesse problema.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns homens j\u00e1 se aproximam. Olhando pra baixo. Comentando. Rindo baixo. Nenhum olha pro rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota bloqueia a passagem. Bra\u00e7o aberto. Olhos no ambiente. Na gest\u00e3o. No perigo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m entra ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 algu\u00e9m pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque eu t\u00f4 mandando.<\/p>\n\n\n\n<p>Murm\u00farios. Reclama\u00e7\u00f5es. Mas ningu\u00e9m avan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra mulher. Ela n\u00e3o se mexe. N\u00e3o fala. S\u00f3 fica ali. Olhos vazios.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu toca o bra\u00e7o dele. Mais urgente agora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Little Boobs t\u00e1 vindo \u2014 ela sussurra.<\/p>\n\n\n\n<p>O cora\u00e7\u00e3o de Jota acelera.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora. Qualquer hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olha pra entrada da tenda. Pra estrada de terra que vem do deserto. Nenhum carro. Nenhuma poeira. Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ela vem. Ele sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o pode deixar ela entrar. N\u00e3o assim. N\u00e3o com isso acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sai correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixa Daslu na porta. Bra\u00e7o aberto. Impedindo entrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Corre pro estacionamento de terra batida. Carros espalhados. Jipes. Caminhonetes. Motos. Poeira subindo com o vento.<\/p>\n\n\n\n<p>Procura o carro dela. N\u00e3o sabe qual \u00e9. Mas vai saber quando ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Passa por um homem mexendo embaixo do cap\u00f4 de um Corolla velho. Macac\u00e3o azul. Ferramentas espalhadas no ch\u00e3o. Cabelo bagun\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desacelera. Fala baixo, sem parar de andar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sexta-feira. Novo lote.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand n\u00e3o olha de volta. A ferramenta para por meio segundo. Recome\u00e7a. Nada mais.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o encontra.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala.<\/p>\n\n\n\n<p>Andando entre os carros. Vestido curto amarelo. Cabelo castanho preso. \u00d3culos de sol. Corpo bronzeado. Sorriso f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cavala!<\/p>\n\n\n\n<p>Ela vira. Sorri mais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Opa! \u2014 Ela se aproxima. \u2014 Tudo certo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cad\u00ea a Little Boobs?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Little Boobs? \u2014 Ela franze a testa. Para. Pensa. \u2014 Ainda n\u00e3o chegou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela vem com voc\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o. Sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Merda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem. \u2014 Jota pega o bra\u00e7o dela. \u2014 Ajuda a procurar.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois come\u00e7am a circular. Entre os carros. Entre as pessoas. Olhando. Procurando.<\/p>\n\n\n\n<p>Passam por um jipe velho. Leandro Costa est\u00e1 encostado nele. Fumando. Olhando o deserto. Todo mundo chama ele de Costacurta desde que algu\u00e9m disse que ele parecia o jogador. O apelido grudou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Costacurta! \u2014 Jota grita.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele vira. Acena. Sorri de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota para na frente dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Little Boobs. T\u00e1 chegando. Voc\u00ea conhece todo mundo aqui, pergunta em volta. \u2014 Aponta pro fundo do estacionamento. \u2014 L\u00e1 atr\u00e1s tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Costacurta joga o cigarro no ch\u00e3o. Assente. Sem perguntar mais nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cavala, fica com ele. \u2014 Jota j\u00e1 est\u00e1 se afastando. \u2014 Eu cubro desse lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala assente. Os dois somem em dire\u00e7\u00f5es opostas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota continua.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e1 voltas. Mais voltas. O estacionamento \u00e9 enorme. Carros demais. Gente demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs n\u00e3o aparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Passa meia hora. Uma hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota procura. Sem parar.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban est\u00e1 estacionado num canto. Sozinho. Coberto de areia. Ele passa por perto. Pensa em entrar. Descansar. Esperar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o entra. Continua procurando.<\/p>\n\n\n\n<p>Procura um lugar melhor pra estacionar. Mais perto da entrada. Mais vis\u00edvel. Se Little Boobs chegar, vai ver o carro. Vai saber que ele t\u00e1 ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Move o Gol. Estaciona de novo. Mais perto.<\/p>\n\n\n\n<p>Desce. Tranca. Volta a procurar.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre dois carros. Como fantasma.<\/p>\n\n\n\n<p>Maju Kuzito.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabelo curto. Olhos fixos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota nem para mais. S\u00f3 fala andando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o gostei do cabelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela abre a boca.<\/p>\n\n\n\n<p>Desaparece antes de qualquer som sair.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota continua. Sem olhar pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais meia hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs n\u00e3o chega.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota volta pra tenda. Suado. Cansado. Frustrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu ainda est\u00e1 na porta. Bra\u00e7o aberto. A mulher de seios expostos ainda dentro. Im\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela chegou? \u2014 Daslu pergunta. Preocupada agora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai chegar?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se posiciona do outro lado da porta. Tira a mochila do ombro. Sente o z\u00edper meio aberto, fecha. Sabe que o caderno marrom est\u00e1 l\u00e1 dentro. O \u00edm\u00e3 do Posto Esso preso na capa, cinza fosco, logo quase apagado. Recoloca no ombro. Bra\u00e7o aberto tamb\u00e9m. Os dois formando barreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m entra. Ningu\u00e9m sai.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f3pio no bolso faz sua presen\u00e7a conhecida.<\/p>\n\n\n\n<p>Sexta-feira lateja. Mais forte agora. Mais pr\u00f3xima.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol come\u00e7a a descer.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira est\u00e1 parado perto da entrada da tenda. Ferramentas ainda na m\u00e3o. Mas parou de mexer no carro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota passa por ele. Fala baixo, quase pra si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sexta-feira.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand n\u00e3o responde. S\u00f3 olha fixo pra dentro da tenda. N\u00e3o pro altar. N\u00e3o pras cadeiras. Pra mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand que nunca olha pra nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segue o olhar dele.<\/p>\n\n\n\n<p>E v\u00ea de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo. A postura. A forma.<\/p>\n\n\n\n<p>Os seios.<\/p>\n\n\n\n<p>Empinados. Naturais. Grandes demais pro vestido. Perfeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>O cora\u00e7\u00e3o dele para.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhece.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele conhece esses seios. Sem v\u00e9u. Sem roupa. De outras vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Daslu \u2014 ele fala. Voz rouca. \u2014 Essa mulher&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu olha pra ele. L\u00ea o rosto. Depois olha pra mulher. Depois de volta pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 ela \u2014 Daslu confirma baixo. \u2014 Little Boobs.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo gira.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota estava procurando ela o tempo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>E ela estava ali. Na tenda. Parada. Sem v\u00e9u. Seios \u00e0 mostra. Esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m reconheceu porque sempre a viram de v\u00e9u. Os homens olhavam pra baixo. Jota olhava pro caos. Daslu n\u00e3o a conhecia assim.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 ele. Que j\u00e1 a tinha visto de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quanto tempo ela t\u00e1 a\u00ed? \u2014 ele pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desde antes de voc\u00ea sair.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respira fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O saquinho de \u00f3pio no bolso parece mais pesado agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Sexta-feira pulsa como tambor.<\/p>\n\n\n\n<p>A sombra da tenda cresce. Cobre a areia. Cobre os carros. Cobre Jota e Daslu parados ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala aparece pelo lado. Vestido amarelo coberto de poeira. Cabelo desfeito. Ela olha pra Jota. Ele balan\u00e7a a cabe\u00e7a. Ela entende. Olha pra dentro da tenda. V\u00ea a mulher parada, seios \u00e0 mostra. N\u00e3o reconhece. Nunca a viu sem v\u00e9u. Fica ali de qualquer jeito. Mais um bra\u00e7o na barreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs continua dentro. Im\u00f3vel. Seios \u00e0 mostra. Olhos vazios.<\/p>\n\n\n\n<p>A missa ainda n\u00e3o come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sexta-feira ainda n\u00e3o chegou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Little Boobs estava ali o tempo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>E Jota continua na porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardando.<\/p>\n\n\n\n<p>Carregando o \u00f3pio.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentindo o peso de organizar o caos alheio.<\/p>\n\n\n\n<p>De proteger quem n\u00e3o pediu prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De procurar quem j\u00e1 estava encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>O deserto continua quente.<\/p>\n\n\n\n<p>A mesquita continua cheia.<\/p>\n\n\n\n<p>E Jota continua de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque algu\u00e9m precisa ficar.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque algu\u00e9m precisa organizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque algu\u00e9m precisa impedir que o errado aconte\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quando o certo estava ali o tempo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele n\u00e3o viu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O deserto se estende at\u00e9 o horizonte. Areia branca. C\u00e9u azul sem nuvens. Sol que queima a pele em segundos. O calor sobe do ch\u00e3o em ondas vis\u00edveis. Nada cresce. Nada se move. S\u00f3 o vento carregando gr\u00e3os finos que arranham o rosto. No meio do nada: a mesquita. Grande. Imponente. 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