{"id":170,"date":"2026-02-05T00:15:00","date_gmt":"2026-02-05T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=170"},"modified":"2026-03-01T21:33:38","modified_gmt":"2026-03-02T00:33:38","slug":"capitulo-2-o-chefe-chega","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/o-evento\/capitulo\/capitulo-2-o-chefe-chega\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 2 \u2014 O CHEFE CHEGA"},"content":{"rendered":"\n<p>Geraldo ficou ali agachado, o fuzil encostado na coxa, olhando o verde do sinalizador se dissolver no c\u00e9u como veneno entrando na veia da favela inteira. O r\u00e1dio ficou mudo. Nem o comando central ousava chiar agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Passaram-se trinta e cinco minutos que pareceram trezentos e cinquenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Um Uno branco sem placa subiu o morro devagar, motor roncando baixo. Parou dois quarteir\u00f5es abaixo do ponto de Geraldo. A porta abriu. Magr\u00e3o saiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem farda. Sem colete. Cal\u00e7a jeans desbotada, camisa preta lisa, bota de couro gasta. Cabelo grisalho grudado na testa. Cicatriz exposta \u2014 aquela que ia do ombro at\u00e9 o umbigo, presente de uma faca em 2009, Complexo da Mar\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o olhou pra cima, localizou Geraldo no ponto alto, acenou uma vez. Geraldo desceu devagar, fuzil nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegou perto, Magr\u00e3o j\u00e1 tinha acendido um cigarro com isqueiro Zippo enferrujado. A chama iluminou o rosto marcado: olho esquerdo ligeiramente mais baixo que o direito depois de uma coronhada em 2008, dente de ouro no canto da boca que brilhava quando ele sorria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quantos anos tu tem de caveira, sargento?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sete anos e quatro meses, capit\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E quantos Eventos tu viu?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o tragou fundo, soltou a fuma\u00e7a devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu vi o primeiro em 2003. Entrei achando que ia prender todo mundo. Sa\u00edmos carregando tr\u00eas. Dois mortos, um que nunca mais andou. Desde ent\u00e3o a regra \u00e9 clara: quem usa farda n\u00e3o pisa no c\u00edrculo. Quem pisa vira alvo de todas as fac\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele cuspiu no ch\u00e3o, limpou a boca com o dorso da m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas hoje a gente vai fazer diferente. Hoje, cheguei a tempo!<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo engoliu seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim, capit\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o abriu o porta-malas do Uno. Dentro, havia um mapa amassado da cidade, com c\u00edrculos vermelhos marcados \u00e0 caneta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rocinha, Alem\u00e3o, Jacarezinho, Cidade de Deus, Manguinhos, Pav\u00e3o-Pav\u00e3ozinho, Complexo do Lins. Sete zonas. Sete equipes. Uma ia dar certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo olhou o mapa. Entendeu tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O senhor posicionou a gente estrategicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O Evento sempre acontece no dia 24 de novembro, duas da tarde. Mas o local muda. Sinalizador verde sobe \u00e0s 13h, mostra onde vai ser. A equipe mais perto vem correndo, mas normalmente eles preparam entraves. Tu deu sorte. Ou azar. Depende do ponto de vista.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o fechou o porta-malas, olhou pra cima, pro morro que subia em degraus de concreto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Chama teus homens. Torres, Lima, Baiano, Moreira. Manda tirarem tudo. Colete, fuzil, r\u00e1dio, farda. Tudo fica aqui. A gente sobe \u00e0 paisana.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c0 paisana?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Hoje a gente n\u00e3o \u00e9 caveira. Hoje a gente \u00e9 gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo hesitou. Magr\u00e3o olhou nos olhos dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quem vence o Evento tem voz, sargento. Voz pol\u00edtica sem voto, sem elei\u00e7\u00e3o. S\u00f3 respeito. E respeito salva mais vida que fuzil. Tu vai entender quando chegar l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo pegou o r\u00e1dio, apertou o bot\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Torres, Lima, Baiano, Moreira. Des\u00e7am pro ponto alfa. Ordem do capit\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco minutos depois, os cinco estavam ali. Moreira branco como papel, m\u00e3o tremendo. Torres e Lima trocaram olhares. Baiano cuspiu no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o falou baixo, mas firme:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tirem tudo. Colete, arma, r\u00e1dio. Deixem no carro. A gente sobe como homem, n\u00e3o como s\u00edmbolo.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreira abriu a boca:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Capit\u00e3o, sem arma a gente t\u00e1&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Respeitado. A gente t\u00e1 respeitado. Confia em mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Um por um, foram tirando. Coletes ca\u00edram no ch\u00e3o como pele velha. Fuzis empilhados no banco de tr\u00e1s. R\u00e1dios desligados. Ficaram s\u00f3 de cal\u00e7a preta e camisa, botas pesadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o olhou pra Moreira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu volta pra base com o equipamento. Quando eu ligar, volta com um carro maior. A gente vai precisar de espa\u00e7o. Fica de prontid\u00e3o. Se a gente n\u00e3o ligar em ate o come\u00e7o da noite, manda refor\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreira assentiu, aliviado e envergonhado ao mesmo tempo. Entrou no Uno, deu r\u00e9 devagar, desceu o morro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros quatro seguiram Magr\u00e3o morro acima.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>Subiam devagar. Cada passo ecoava. As vielas iam abrindo sem ningu\u00e9m mandar. Olhares de janela, de laje, de porta. Ningu\u00e9m apontava celular, ningu\u00e9m gritava &#8220;\u00f3 o caveira&#8221;. S\u00f3 olhavam.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio do caminho, um traficante de uns 22 anos apareceu na esquina. Fuzil no ombro, dedo no gatilho. Bloqueou a passagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o parou a tr\u00eas metros. N\u00e3o correu, n\u00e3o recuou. S\u00f3 levantou as duas m\u00e3os na altura do peito. M\u00e3os vazias. Abertas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sem farda. Sem fuzil. Lei da porta aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>O traficante olhou pras m\u00e3os vazias. Depois pro rosto de Magr\u00e3o. Reconheceu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Magr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu sabe onde t\u00e1 indo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sei.<\/p>\n\n\n\n<p>O jovem olhou pros outros quatro atr\u00e1s. Tamb\u00e9m desarmados. M\u00e3os vazias.<\/p>\n\n\n\n<p>Baixou o fuzil devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Lei da porta aberta. Pode subir.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu da frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo passou por ele, cora\u00e7\u00e3o martelando. O traficante n\u00e3o desviou o olhar, mas tamb\u00e9m n\u00e3o amea\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque quem sobe com Magr\u00e3o sem farda no dia do Evento n\u00e3o \u00e9 pol\u00edcia comum.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>No meio do caminho, um moleque de uns 10 anos, p\u00e9s descal\u00e7os, bola de meia na m\u00e3o, parou na frente deles. Olhou pro capit\u00e3o, reconheceu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tio Magr\u00e3o&#8230; trouxe os homens pra ver o Evento?<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o bagun\u00e7ou o cabelo do menino.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 pra ver, Lucas. Hoje n\u00e3o \u00e9 dia de brincar de pol\u00edcia e ladr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O menino riu e saiu correndo, gritando pra algu\u00e9m l\u00e1 em cima:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00d4, v\u00f3! O Magr\u00e3o subiu!<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegaram na laje maior, o sil\u00eancio j\u00e1 era absoluto. Nem funk, nem crian\u00e7a chorando, nem moto acelerando. Centenas de pessoas formando um c\u00edrculo natural. No centro, o giz branco j\u00e1 desenhado no ch\u00e3o. Seis metros de di\u00e2metro. Tra\u00e7o grosso, firme.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentado numa cadeira de pl\u00e1stico branca, esperando: Seu Z\u00e9 Catita.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo mundo conhecia. Oitenta e poucos anos, bengala de jacarand\u00e1 com cabo de prata encardida, ponta manchada de sangue seco. Diziam que ele tinha visto o primeiro Evento em 1961. Outros juravam que tinha sido antes. Ningu\u00e9m perguntava. Perguntar era desrespeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o parou a cinco metros da borda. Geraldo e os outros do lado.<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o abriu espa\u00e7o. Olhares pesados. Ningu\u00e9m falava.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita levantou a cabe\u00e7a devagar. Olhos leitosos, mas que enxergavam tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra Magr\u00e3o. Reconheceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Bateu a bengala no ch\u00e3o. Uma vez. Seca.<\/p>\n\n\n\n<p>O Evento podia come\u00e7ar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo ficou ali agachado, o fuzil encostado na coxa, olhando o verde do sinalizador se dissolver no c\u00e9u como veneno entrando na veia da favela inteira. O r\u00e1dio ficou mudo. Nem o comando central ousava chiar agora. Passaram-se trinta e cinco minutos que pareceram trezentos e cinquenta. 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