{"id":171,"date":"2026-02-06T00:15:00","date_gmt":"2026-02-06T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=171"},"modified":"2026-03-01T23:02:49","modified_gmt":"2026-03-02T02:02:49","slug":"capitulo-3-o-circulo","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/o-evento\/capitulo\/capitulo-3-o-circulo\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 3 \u2014 O C\u00cdRCULO"},"content":{"rendered":"\n<p>A multid\u00e3o esperava em sil\u00eancio de cemit\u00e9rio. Nem beb\u00ea chorando, nem vento nas antenas. S\u00f3 o som da bengala de Seu Z\u00e9 Catita batendo no concreto \u2014 seco, definitivo, como sino de igreja marcando hora de enterro.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar exalava respeito. Pesado. Denso. Como se a favela inteira estivesse prendendo a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegaram, lutas paralelas j\u00e1 aconteciam. Duas, tr\u00eas ao mesmo tempo, em outros c\u00edrculos menores, espalhadas pelas lajes. Jovens provando coragem, outros mais velhos cobrando respeito, outros procurando respeito. Sangue no concreto, mas sem morte \u2014 morte s\u00f3 no palco principal.<\/p>\n\n\n\n<p>No centro, c\u00edrculo de giz maior. Palco principal. Onde Z\u00e9 Catita presidia. Onde lordes lutavam. Onde morte era permitida.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado, encostados no muro baixo, tr\u00eas corpos cobertos com len\u00e7ol branco manchado de vermelho. J\u00e1 tinha come\u00e7ado. Os que quebraram regra no ano passado. Executados antes das lutas principais. Tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m chorava. Ningu\u00e9m reclamava. Respeito ao Evento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o deu mais tr\u00eas passos \u00e0 frente. Geraldo ficou atr\u00e1s, cora\u00e7\u00e3o martelando nas t\u00eamporas. Torres, Lima e Baiano formaram linha. Ningu\u00e9m ousou sacar arma que n\u00e3o tinham mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita ficou sentado na cadeira de pl\u00e1stico, bengala apoiada nas duas m\u00e3os. A ponta manchada de sangue seco brilhava na luz da tarde. Ele n\u00e3o olhou pra Magr\u00e3o imediatamente. Deixou o sil\u00eancio trabalhar. Velho conhecia o valor do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, voz rouca que parecia vir de dentro da terra:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Magr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Seu Z\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Faz tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Faz.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00daltima vez que tu subiu aqui sem farda foi em 2012. Tentou prender o Bator\u00e9. Levou tiro na coxa. Desceu mancando.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o sorriu de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mem\u00f3ria boa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mem\u00f3ria \u00e9 o que sobra quando tudo vai embora. Eu sou a mem\u00f3ria viva desse lugar, Magr\u00e3o. \u00daltimo neutro. Se eu morrer, o Evento morre. E se o Evento morrer, voc\u00eas voltam a se matar todo dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio pesado. A multid\u00e3o sabia que era verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Z\u00e9 Catita continuou, voz baixa mas que ecoou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E eu s\u00f3 t\u00f4 vivo porque ningu\u00e9m quer ser o respons\u00e1vel por acabar com a \u00fanica coisa que traz paz um dia e respeito por um ano. Sorte minha.<\/p>\n\n\n\n<p>O velho bateu a bengala duas vezes. Som diferente. N\u00e3o era come\u00e7o de luta. Era convoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>Do centro do c\u00edrculo, um homem deu passo \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarent\u00e3o, corpo pesado marcado de cadeia, tatuagem de cemit\u00e9rio no peito inteiro \u2014 caveiras, cruzes, nomes de mortos. M\u00e3os grandes como p\u00e1s. Olhos mortos. Apelido: Crocodilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Matou onze (que se sabia). Vinte anos de Bangu 1. Saiu fazia um ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Campe\u00e3o do Evento de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo bateu no peito com as duas m\u00e3os, som oco de tambor. Olhou pra multid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sou o campe\u00e3o. Quem desafia?<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o ficou muda. Ningu\u00e9m se mexeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita apontou a bengala pra Magr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E tu, Magr\u00e3o? Veio desafiar o campe\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o prendeu a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o olhou pra Crocodilo. Depois pra Z\u00e9 Catita.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu mais um passo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vim.<\/p>\n\n\n\n<p>Murm\u00fario baixo correu pela laje. Gente se olhando, incr\u00e9dula. Pol\u00edcia desafiando campe\u00e3o vigente. Nunca tinha acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo sorriu mostrando dente de ouro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Magr\u00e3o, lenda viva. Tu \u00e9 louco. Mas respeito isso. Vamo ver se tu sangra.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita olhou pros dois. Depois pra multid\u00e3o. Ningu\u00e9m protestou. Ningu\u00e9m apoiou. S\u00f3 esperaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem na terceira fila gritou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E Bator\u00e9? Lembra de Bator\u00e9!<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o ficou muda. O nome pesava.<\/p>\n\n\n\n<p>Z\u00e9 Catita bateu a bengala uma vez. Forte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bator\u00e9, 2012. Fac\u00e7\u00e3o inteira do Borel quebrou a regra do Evento, foi moleque. Apostaram dinheiro nas lutas. Filmaram. Postaram. Desrespeitaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa. Voz que cortou o ar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 No m\u00eas seguinte, quatorze deles foram executados. N\u00e3o por fac\u00e7\u00e3o rival. Por todas as fac\u00e7\u00f5es juntas. Porque quem quebra o Evento vira inimigo de todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto. At\u00e9 crian\u00e7a parou de se mexer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Essa \u00e9 a puni\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 pol\u00edcia que mata. Somos n\u00f3s. Porque o Evento \u00e9 sagrado. E sagrado se protege com sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>O velho levantou devagar, apoiado na bengala. Caminhou at\u00e9 Magr\u00e3o. Parou a um palmo de dist\u00e2ncia. Cheiro de cacha\u00e7a velha e cigarro de palha.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou nos olhos dele. Magr\u00e3o n\u00e3o desviou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Homem \u00e9 homem \u2014 Seu Z\u00e9 Catita falou, voz que ecoou na laje inteira. \u2014 Pode entrar. Mas se sair carregado, sai sem nome. Sem distintivo. Sem funeral de her\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o assentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aceito.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita voltou pra cadeira, sentou com barulho de osso rangendo. Bateu a bengala tr\u00eas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que comece.<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o respondeu em un\u00edssono, voz baixa que parecia vir do ch\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Respeita o Evento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>LUTA 1: MAGR\u00c3O vs. CROCODILO (CAMPE\u00c3O DE 2019)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o tirou a camisa ali mesmo, jogou pra Geraldo. Ficou s\u00f3 de cal\u00e7a e bota, cicatriz exposta \u2014 aquela que cortava o peito do ombro ao umbigo, presente de 2009. A pele era mapa de guerra: marcas de bala, queimadura, faca.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou no c\u00edrculo de giz.<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo j\u00e1 estava l\u00e1. Tirou a camisa tamb\u00e9m. Corpo maci\u00e7o, m\u00fasculo misturado com gordura de cadeia. Tatuagem de cemit\u00e9rio cobrindo o peito inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois se mediram no centro do c\u00edrculo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois veteranos. Quarenta e poucos anos cada um. Corpo que j\u00e1 viu demais. Alma que matou demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo cuspiu no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Magr\u00e3o. Respeito tua lenda. Mas hoje tu vai entender por que eu sou campe\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o n\u00e3o respondeu. S\u00f3 abriu a guarda, joelhos flexionados, m\u00e3os na altura do peito. Postura de boxeador velho \u2014 economia de movimento, sem desperd\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita ergueu a bengala.<\/p>\n\n\n\n<p>Bateu uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo n\u00e3o avan\u00e7ou com pressa. Campe\u00e3o n\u00e3o precisa provar nada. Circulou devagar, medindo dist\u00e2ncia, estudando.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o fez o mesmo. Os dois veteranos conheciam o jogo: quem ataca primeiro, gasta energia. Quem espera, controla.<\/p>\n\n\n\n<p>Quinze segundos de c\u00edrculo. Tens\u00e3o absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo atacou primeiro \u2014 chute lateral baixo querendo quebrar canela. Magr\u00e3o levantou o joelho, bloqueou. Som de madeira batendo em madeira. Contra-atacou com jab r\u00e1pido no rosto. Pegou de rasp\u00e3o. Crocodilo cuspiu sangue, sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o come\u00e7ou o coro baixo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Uhhhh&#8230; uhhhh&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois trocaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Soco, chute, cotovelada. Crocodilo era pesado \u2014 cada golpe tinha peso de caminh\u00e3o. Magr\u00e3o era t\u00e9cnico \u2014 cada movimento calculado, sem desperd\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas minutos. Suor misturado com sangue. Os dois respirando pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo tentou finalizar \u2014 sequ\u00eancia r\u00e1pida, gancho no f\u00edgado, joelhada subindo. Magr\u00e3o bloqueou o gancho com cotovelo, desviou da joelhada por pouco. Contra-atacou com cotovelada descendente na nuca. Som de carne rasgando madeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo cambaleou. Cuspiu sangue. Mas n\u00e3o caiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou, olhos injetados de raiva. Avan\u00e7ou com tudo \u2014 agarrou Magr\u00e3o pela cintura, levantou, jogou no ch\u00e3o. Laje rachou.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o sentiu costela trincando. Ar fugindo. Mundo virando preto nas bordas.<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo subiu em cima. Posi\u00e7\u00e3o de montada. Ergueu o punho pra finalizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Magr\u00e3o tinha quarenta anos de rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Girou o quadril no \u00faltimo segundo, encaixou as pernas na cintura de Crocodilo, puxou. Inverteu a posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora Magr\u00e3o em cima. Soco atr\u00e1s de soco. Um, dois, tr\u00eas no rosto de Crocodilo. Nariz explodiu. Sangue espirrando.<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo tentou cobrir o rosto. Magr\u00e3o mudou de alvo \u2014 soco nas costelas flutuantes. Som de osso rangendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Crocodilo urrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o finalizou com cotovelada na t\u00eampora. Crocodilo apagou.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita bateu a bengala tr\u00eas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o n\u00e3o gritou. N\u00e3o aplaudiu.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 abriu alas em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque campe\u00e3o tinha ca\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois caras entraram no c\u00edrculo, pegaram Crocodilo pelos bra\u00e7os, arrastaram pra fora. Ele respirava, mas desacordado. Vivo, mas derrotado.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o ficou de p\u00e9 no centro, peito arfando, sangue escorrendo do rosto. Costelas quebradas latejando. Mas de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo, na beira, olhou pro capit\u00e3o. Primeiro pensamento:<\/p>\n\n\n\n<p>Ele t\u00e1 velho. N\u00e3o aguenta muito mais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita olhou pra Magr\u00e3o. Depois pros outros quatro desafiantes que esperavam na beira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quem mais?<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>O velho apontou a bengala pro segundo desafiante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Entra.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>LUTA 2: MAGR\u00c3O vs. CAVALO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado, um jovem deu passo \u00e0 frente. Uns 25 anos, corpo magro cheio de tatuagem \u2014 santa no peito, l\u00e1grima no rosto, &#8220;Deus \u00e9 fiel&#8221; no bra\u00e7o. Olhos injetados de \u00f3dio puro. Apelido: Cavalo. Matou o primeiro aos 14. Ningu\u00e9m sabia quantos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavalo entrou no c\u00edrculo, olhando pra Magr\u00e3o com desprezo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Magr\u00e3o, lenda viva. Tu venceu o campe\u00e3o. Mas t\u00e1 velho. T\u00e1 cansado. E eu? Eu t\u00f4 faminto.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuspiu no ch\u00e3o, mostrou dente de ouro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamo ver se tu sangra igual gente comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o cuspiu sangue no giz. Limpou a boca. Abriu a guarda de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o respondeu. Veterano n\u00e3o gasta energia com conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita bateu a bengala.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>Cavalo avan\u00e7ou r\u00e1pido \u2014 chute baixo querendo quebrar canela. Magr\u00e3o levantou o joelho, bloqueou, sentiu o impacto subir at\u00e9 o quadril. Costela quebrada latejou. Contra-atacou com soco curto no plexo solar. O jovem dobrou como canivete, ar saindo da boca num grunhido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o caiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Devolveu com gancho largo que pegou de rasp\u00e3o na t\u00eampora de Magr\u00e3o. Sangue escorreu fino pelo rosto do capit\u00e3o. A multid\u00e3o continuou o coro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Uhhhh&#8230; uhhhh&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Cavalo tentou sequ\u00eancia r\u00e1pida \u2014 soco, soco, joelhada. Magr\u00e3o desviou dos dois primeiros, bloqueou o joelho com o antebra\u00e7o. Dor subiu como choque el\u00e9trico, mas ele n\u00e3o recuou. Encaixou cotovelada descendente na nuca do garoto. O som foi de carne rasgando madeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavalo cambaleou, cuspiu sangue, sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Velho ainda bate forte, porra.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o n\u00e3o sorriu de volta. Corpo cobrando. Costela quebrada, respira\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, perna mancando.<\/p>\n\n\n\n<p>Avan\u00e7ou com sequ\u00eancia antiga \u2014 jab, direto, gancho no f\u00edgado. O \u00faltimo pegou limpo. Cavalo urrou, caiu de joelhos. Tentou levantar. N\u00e3o conseguiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita bateu a bengala tr\u00eas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois caras entraram no c\u00edrculo, pegaram Cavalo pelos bra\u00e7os, arrastaram pra fora. Ele ainda respirava, mas ia mijar sangue por uma semana.<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o n\u00e3o gritou. S\u00f3 murmurou baixo. Respeito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A multid\u00e3o esperava em sil\u00eancio de cemit\u00e9rio. Nem beb\u00ea chorando, nem vento nas antenas. S\u00f3 o som da bengala de Seu Z\u00e9 Catita batendo no concreto \u2014 seco, definitivo, como sino de igreja marcando hora de enterro. O ar exalava respeito. Pesado. Denso. Como se a favela inteira estivesse prendendo a respira\u00e7\u00e3o. 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