{"id":174,"date":"2026-02-09T00:15:00","date_gmt":"2026-02-09T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=174"},"modified":"2026-03-01T21:51:36","modified_gmt":"2026-03-02T00:51:36","slug":"capitulo-6-o-novo-rei","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/o-evento\/capitulo\/capitulo-6-o-novo-rei\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 6 \u2014 O NOVO REI"},"content":{"rendered":"\n<p>Geraldo ficou no centro do c\u00edrculo, mundo girando devagar. Sangue escorrendo pelos punhos, rosto inchado, costelas latejando. Cada respira\u00e7\u00e3o do\u00eda como facada. Mas estava de p\u00e9. Ainda estava de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o abria alas sem ningu\u00e9m mandar. Olhares pesados, respeitosos. Ningu\u00e9m tirava foto. Ningu\u00e9m filmava. Quem filma o Evento vira o pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Z\u00e9 Catita caminhou at\u00e9 Geraldo, bengala batendo no concreto. Parou a um palmo de dist\u00e2ncia. Cheiro de cacha\u00e7a velha e fumo de corda. Olhou nos olhos dele \u2014 olhos leitosos que enxergavam tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como \u00e9 teu nome?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Geraldo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nome de rua?<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo hesitou. Nunca teve apelido. Sempre foi s\u00f3 Geraldo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho.<\/p>\n\n\n\n<p>O velho sorriu mostrando gengiva sem dente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora tem. Cara Fechada. Porque tu n\u00e3o sorriu nem quando ganhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou pra multid\u00e3o, ergueu a bengala.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Respeitem o Cara Fechada. Campe\u00e3o do Evento!<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o respondeu em un\u00edssono, voz baixa que ecoou na laje inteira:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Respeita o Evento.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo saiu do c\u00edrculo cambaleando. Torres e Lima correram, seguraram pelos bra\u00e7os. Baiano pegou a camisa que ele tinha jogado no ch\u00e3o, ajudou a vestir. Geraldo gemeu \u2014 cada movimento puxava costela quebrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o ainda estava sentado no muro, rosto desfigurado mas sorrindo. Olho fechado, l\u00e1bios rachados. Tentou levantar, n\u00e3o conseguiu. Geraldo foi at\u00e9 ele, agachou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Capit\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o agarrou o ombro dele com m\u00e3o tr\u00eamula.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Parab\u00e9ns, sargento. Hoje tu salvou mais vida que em sete anos de fuzil.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo n\u00e3o entendeu. Magr\u00e3o viu a confus\u00e3o no rosto dele, riu \u2014 depois gemeu de dor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai entender. Depois. Agora a gente desce.<\/p>\n\n\n\n<p>Torres e Baiano ajudaram Magr\u00e3o a levantar. Lima ficou do lado de Geraldo. Desceram devagar. A multid\u00e3o continuava abrindo alas. Crian\u00e7as olhavam de longe, m\u00e3es seguravam filhos no colo, velhos tiravam o bon\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando passaram pelo corpo do Rato (ainda no ch\u00e3o, tremendo), Geraldo viu que algu\u00e9m j\u00e1 tinha colocado pano molhado no rosto dele. Cuidado. Mesmo com quem perdeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegaram no ponto onde tinham subido. Magr\u00e3o puxou o r\u00e1dio pequeno do bolso (tinha guardado um, desligado).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Moreira, aqui \u00e9 Magr\u00e3o. Traz o carro. Ponto alfa. J\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 C\u00f3pia, capit\u00e3o. Tr\u00eas minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>A Hilux cinza descaracterizada apareceu subindo. Moreira desceu, branco como cera, quando viu os cinco ensanguentados.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o entrou no banco da frente, gemendo a cada movimento. Geraldo do lado dele. Torres, Lima e Baiano no banco de tr\u00e1s. Moreira dirigiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Desceram o morro em sil\u00eancio. Motor diesel e suspens\u00e3o rangendo. S\u00f3 quando passaram pelo asfalto, tr\u00eas quarteir\u00f5es de dist\u00e2ncia, Magr\u00e3o pegou o r\u00e1dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Voz calma como se tivesse tomado caf\u00e9 na padaria:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Comando, aqui \u00e9 Magr\u00e3o. Opera\u00e7\u00e3o encerrada. Sem ocorr\u00eancias. Voltando pra base.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio do outro lado. Depois a voz do Coronel Braga, hesitante:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 C\u00f3pia&#8230; tudo bem a\u00ed?<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o olhou pro espelho retrovisor. Viu Geraldo respirando pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tudo \u00f3timo, coronel. Hoje foi dia de aprendizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Desligou o r\u00e1dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m falou durante o trajeto. Quando chegaram na base, port\u00e3o abriu autom\u00e1tico. Sentinelas bateram contin\u00eancia. Todo mundo j\u00e1 sabia. Not\u00edcia corria mais r\u00e1pido que r\u00e1dio.<\/p>\n\n\n\n<p>No vesti\u00e1rio, cheiro de desinfetante e suor velho. Tiraram as botas em sil\u00eancio. Magr\u00e3o foi o primeiro a falar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Hoje ningu\u00e9m abre a boca. Nem pra mulher, nem pra padre, nem pra psic\u00f3logo do batalh\u00e3o. O que aconteceu l\u00e1 fica l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros assentiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo tirou a camisa rasgada, olhou no espelho rachado: olho roxo fechando, l\u00e1bio partido, hematomas nas costelas. Do\u00eda pra caralho. Do\u00eda bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomou banho frio. A \u00e1gua escorreu vermelha no ralo por um tempo. Quando saiu, o vesti\u00e1rio estava vazio. S\u00f3 Magr\u00e3o esperando, encostado no arm\u00e1rio, cigarro na boca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem comigo, sargento.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram pro canto dos fundos, dep\u00f3sito de material velho. Magr\u00e3o fechou a porta, acendeu a luz fraca. Pegou garrafa de cacha\u00e7a mineira sem r\u00f3tulo de dentro do arm\u00e1rio, serviu dois copos de pl\u00e1stico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bebe.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo bebeu de uma vez. Queimou a garganta cortada.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o encheu de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nos pr\u00f3ximos meses, as coisas v\u00e3o mudar. A gente tem voz agora. De verdade. Quando a gente chegar numa favela, eles v\u00e3o ouvir. N\u00e3o por medo da farda. Por respeito do Evento.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo franziu a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu venceu o Evento. Isso vale mais que qualquer distintivo. Fac\u00e7\u00e3o vai sentar pra negociar. Guerra vai parar antes de come\u00e7ar. Corpo vai deixar de cair.<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o bebeu o copo inteiro, limpou a boca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas tem pre\u00e7o. Tu vai carregar isso pro resto da vida. Vai ver corpo de crian\u00e7a e saber que talvez pudesse ter evitado se tivesse feito diferente. Vai negociar com traficante e dormir mal. Vai questionar tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou nos olhos de Geraldo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas hoje tu salvou mais vida que todo batalh\u00e3o junto em um ano. Lembra disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo olhou pro copo vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E ano que vem?<\/p>\n\n\n\n<p>Magr\u00e3o sorriu de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ano que vem a gente volta. E tu defende o t\u00edtulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois ficaram ali no dep\u00f3sito, no escuro, sentindo o corpo doer e a cabe\u00e7a girar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Geraldo finalmente foi pra casa, j\u00e1 era madrugada. Apartamento pequeno no Piedade. Entrou devagar, tentando n\u00e3o fazer barulho.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher estava dormindo no sof\u00e1, TV ligada no mudo. O filho de cinco anos no quarto, brinquedo de pol\u00edcia na m\u00e3o. Geraldo foi pro banheiro, acendeu a luz baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>No espelho: o mesmo rosto inchado, os mesmos cortes, o mesmo olhar que ele viu em cada um antes de derrubar.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu a torneira, jogou \u00e1gua no rosto. Gelada. Ardeu nos cortes.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou a mochila laranja do canto (a mesma de sempre), tirou o caderno de capa marrom de dentro. Sentou na beirada da banheira, caneta na m\u00e3o tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Escreveu:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Venci o Evento. Hoje sou campe\u00e3o. Magr\u00e3o diz que vamos salvar vidas com isso. Vamos ver.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou o caderno. Pegou o isqueiro amarelo da prateleira \u2014 o sobrevivente, sempre ali. Acendeu. Olhou a chama dan\u00e7ar por tr\u00eas segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Apagou.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi pro quarto, deitou de roupa mesmo. Mulher se mexeu, virou pro lado. Filho respirava fundo no beliche.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraldo fechou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dormiu sem sonhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o Evento n\u00e3o esquecia.<\/p>\n\n\n\n<p>E ano que vem ia voltar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo ficou no centro do c\u00edrculo, mundo girando devagar. Sangue escorrendo pelos punhos, rosto inchado, costelas latejando. Cada respira\u00e7\u00e3o do\u00eda como facada. Mas estava de p\u00e9. Ainda estava de p\u00e9. 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