{"id":612,"date":"2026-01-02T00:15:00","date_gmt":"2026-01-02T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=612"},"modified":"2026-03-09T16:48:15","modified_gmt":"2026-03-09T19:48:15","slug":"chamado-sem-motivo","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/chamado-sem-motivo\/","title":{"rendered":"Chamado sem Motivo"},"content":{"rendered":"\n<p>O corredor estreito da Galeria Tijucas cheirava a pastel requentado e naftalina velha. Tr\u00eas da tarde de uma quinta-feira, sol de rachar l\u00e1 fora. Jota tinha deixado o Gol Bolinha Cinza Urban na C\u00e2ndido Lopes, motor ainda esfriando, cheiro de etanol grudado na roupa. Entrou pela galeria \u2014 atalho entre a C\u00e2ndido e a Luiz Xavier. Tinha um celular esperando por ele numa loja de conserto ali perto da Boca Maldita: aparelho extra, b\u00e1sico, desbloqueado, que ia deixar em casa pra banco e burocracia. Empurrou a porta de vidro emba\u00e7ada e deixou o barulho da cidade morrer atr\u00e1s de si.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja pesava no ombro direito. Dentro, o caderno de capa dura marrom com anota\u00e7\u00f5es que nunca viravam nada, caneta seca. No bolso da bermuda jeans desbotada, o celular piscava de vez em quando com notifica\u00e7\u00f5es e um isqueiro amarelo que carregava sempre. A camiseta regata vinho grudava nas costas de suor, e o t\u00eanis surrado com o ded\u00e3o quase aparecendo pelo buraco, o cadar\u00e7o direito amarrado \u2014 tinha amarrado tr\u00eas vezes desde que saiu de casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro da galeria, o tempo parecia ter engasgado nos anos 80. Paredes de gesso descascando em camadas grossas, manchas de umidade subindo como mapas de pa\u00edses que n\u00e3o existem mais. L\u00e2mpadas amarelas penduradas em suportes enferrujados piscavam com pregui\u00e7a, como se estivessem decidindo se valia a pena continuar acesas. O ch\u00e3o de cer\u00e2mica rachada devolvia os passos dele em eco curto, abafado, como se o pr\u00f3prio corredor engolisse som.<\/p>\n\n\n\n<p>A inten\u00e7\u00e3o de Jota era s\u00f3 atravessar, pegar o celular, voltar pro sobrado no Cap\u00e3o da Imbuia.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando ouviu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota!<\/p>\n\n\n\n<p>A voz veio l\u00e1 do fundo, em uma curva estranha que n\u00e3o parecia estar ali. Clara, firme, sem hesita\u00e7\u00e3o. O tipo de chamado que faz o corpo virar antes da cabe\u00e7a entender.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele parou no meio do corredor. A mochila escorregou um pouco do ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota!<\/p>\n\n\n\n<p>De novo. Mais alto. Quase alegre.<\/p>\n\n\n\n<p>O cora\u00e7\u00e3o deu um pulo idiota. Larissa Albuquerque estava l\u00e1, uns vinte metros \u00e0 frente, parada diante de uma vitrine cheia de pulseiras douradas falsas. Um metro e setenta e cinco de cabelo castanho-escuro longo com franjinha reta, olhos puxadinhos, boca pequena que ele lembrava abrindo num sorriso no churrasco do Pilarzinho. Vestido azul, rabo de cavalo meio bagun\u00e7ado, celular na m\u00e3o. Acenou r\u00e1pido, sorriso aberto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota caminhou at\u00e9 ela. Passos ecoando. Dez metros. Cinco. Dois. O cadar\u00e7o direito do t\u00eanis soltou, arrastando no ch\u00e3o rachado.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou perto o suficiente pra sentir o perfume leve, floral barato que ela usava, misturado ao mofo da galeria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela nem olhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuou mexendo no celular como se ele fosse feito de ar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Larissa?<\/p>\n\n\n\n<p>Nada. Os polegares deslizando na tela, sobrancelhas franzidas de leve, concentrada em outra coisa qualquer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Larissa, ouvi voc\u00ea me chamando! Vim voando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ergueu os olhos, enfim. Mas era um olhar vazio, de quem acaba de notar um estranho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oi.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 isso. &#8220;Oi.&#8221; Como se nunca tivesse chamado o nome dele duas vezes no corredor deserto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o tinha te visto. Tudo bem? \u2014 Ele sorriu de canto, ainda tentando manter o tom leve. \u2014 Acho que ganhei na loteria, encontrando voc\u00ea aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela inclinou a cabe\u00e7a, express\u00e3o de quem ouve uma piada ruim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah, oi? Tudo bem tamb\u00e9m, Ge. N\u00e3o tinha te reconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota reparou e lembrou que ela somente chamava ele de Ge.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o foi voc\u00ea que me chamou?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou em volta. O corredor estranho n\u00e3o parecia existir mais. E a galeria estava vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota insistiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas ouvi algu\u00e9m me chamar, que estranho, e como vi voc\u00ea pensei que foi tu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela deu de ombros, voltou pro celular.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o, nem tinha te visto, Ge. Estava concentrada no celular.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o inc\u00f4modo subir. Engoliu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 bom. Mas voc\u00ea n\u00e3o ouviu uma voz? Antes. Foi bem alto e parecia que me chamava. Olhei na sua dire\u00e7\u00e3o e vi voc\u00ea meio que acenando. E vim at\u00e9 aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa guardou o celular na bolsa com um suspiro de professora cansada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o chamei nada e n\u00e3o acenei, Ge. Juro. Esses vidros das vitrines refletem tudo torto, deve ter sido isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse exato momento uma das l\u00e2mpadas do teto deu um estalo alto e apagou. A sombra avan\u00e7ou dois metros na dire\u00e7\u00e3o deles, como se a galeria tivesse engolido um peda\u00e7o do corredor.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra cima. Quando olhou de volta, Larissa estava de lado, olhando a vitrine, como se a conversa j\u00e1 tivesse acabado. Jota pensou: ser\u00e1 que ela n\u00e3o reparou nisso, ou era ele que estava ficando maluco.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ficou ali parado um segundo, olhando pro perfil dela. Deixou passar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1. Desculpa. Devo estar maluco mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Relaxa. \u2014 Ela deu um sorriso pequeno, quase gentil. \u2014 Voc\u00ea t\u00e1 bem, Ge?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Beleza. A Little deve t\u00e1 chegando. Voc\u00ea quer encontrar ela tamb\u00e9m?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Adoraria, mas tenho umas coisas pra resolver ainda. Quem sabe depois.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu tr\u00eas passos pra tr\u00e1s, ainda olhando pra ela. Larissa j\u00e1 tinha voltado pro celular. Quando ele virou de costas, ouviu de novo, baixinho, quase um sussurro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Parou. Virou r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela nem tinha levantado a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00e2mpada que tinha apagado voltou a acender sozinha, com outro estalo seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota saiu andando r\u00e1pido, sem olhar pra tr\u00e1s. Empurrou a porta de vidro da Luiz Xavier, o sol bateu como tapa na cara.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 fora, movimento de sempre na Boca Maldita. Mas o nome dele ainda ecoava dentro da cabe\u00e7a, numa voz que ele jurava que era dela.<\/p>\n\n\n\n<p>E que ela jurava que nunca tinha usado.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou na loja de conserto tr\u00eas portas adiante. O atendente trouxe o celular sem perguntar nada. Jota checou e enfiou na mochila laranja.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhou at\u00e9 a Pra\u00e7a Os\u00f3rio. A feira ocupava metade da pra\u00e7a, barracas de roupa, bugiganga, discos de vinil velhos. Ele parou na primeira barraca, olhando sem ver nada. Abriu o WhatsApp no celular principal. Conversa com Larissa parada h\u00e1 tr\u00eas dias. \u00daltima mensagem dela: um meme idiota de gatinho. Ele tinha respondido s\u00f3 com \ud83d\ude02. Fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Digitou:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Desculpa se fui grosso l\u00e1 dentro. Juro que ouvi algu\u00e9m me chamar. E pensei que foi voc\u00ea.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou a frase uns dez segundos. Apagou tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou o celular. Olhou pro outro lado e viu a entrada da Galeria Tijucas, a menos de cinquenta metros, porta de vidro sujo brilhando como olho cego. O Gol Bolinha esperava na C\u00e2ndido Lopes, do outro lado. N\u00e3o custava ir at\u00e9 l\u00e1 e talvez encontrar Larissa e Little Boobs.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que se foda \u2014 murmurou, e foi.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo cheiro. Pastel, mofo, perfume floral barato. Mas agora o perfume estava mais forte, como se ela tivesse acabado de passar por ali e deixado uma nuvem inteira. Jota caminhou devagar, mochila laranja escorregando do ombro, olhando cada loja. Ia passando, nada mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o perfume n\u00e3o sa\u00eda do nariz. Era parecido com o que sentiu no churrasco no Pilarzinho, quando ela sentou do lado dele na mesa de pl\u00e1stico, riu da piada ruim sobre programador que n\u00e3o sabe assar picanha e disse &#8220;vai que a gente se encontra de novo por a\u00ed&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tinha registrado aquilo. Tinha guardado o &#8220;vai que&#8221; como promessa.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora parecia piada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o sentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Um toque leve no ombro. Dedos. Quentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o perfume ficou mais forte, quase sufocante. E agora misturado com outra coisa: cerveja gelada, carv\u00e3o queimando, protetor solar com cheiro de coco. O cheiro inteiro do churrasco no Pilarzinho. Como se algu\u00e9m tivesse aberto uma porta invis\u00edvel e deixado a tarde de s\u00e1bado vazar pra dentro da galeria.<\/p>\n\n\n\n<p>No bolso, Jota sentiu o isqueiro amarelo esquentar e enfiou a m\u00e3o, tirou o sobrevivente, e a chama acendeu. Pequena, firme, azul nas bordas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>O sussurro vinha \u00e0 direita. Ele virou por instinto com o isqueiro ainda aceso.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma sombra pequena estava parada ali, de costas. Vestido azul. Cabelo preso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>A sombra virou o rosto devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma menina de uns dez, doze anos no m\u00e1ximo. Olhos grandes, pele morena, olhar triste. Vestido azul id\u00eantico ao da Larissa. Ela segurava um ursinho de pel\u00facia sem um olho.<\/p>\n\n\n\n<p>O olhar da menina foi direto pro isqueiro. A chama azul nas bordas. Ela deu um passo pra tr\u00e1s \u2014 pequeno, involunt\u00e1rio \u2014 e o sorriso sumiu por meio segundo. Jota reparou no gesto estranho. Apagou o isqueiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea me chamou? \u2014 a menina perguntou com a voz da Larissa. Mas havia algo diferente agora. Cautela.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota apertou o isqueiro na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina recuperou o sorriso devagar. Mas ficou onde estava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu t\u00f4 esperando a mam\u00e3e h\u00e1 muito tempo. Ela disse que vinha me buscar.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00e2mpada acima deles acendeu sozinha, forte demais, estourando em fa\u00edsca branca. Jota levou a m\u00e3o aos olhos. Quando abriu de novo, parecia que a menina tinha corrido para um corredor que n\u00e3o existia ali antes e sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>O perfume tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 restou o mofo e o medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota saiu pela porta da C\u00e2ndido Lopes, suor frio descendo pelas costas, camiseta regata vinho encharcada. Chegou no Gol Bolinha, enfiou a chave na porta, entrou, bateu a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou ali sentado, respirando fundo, m\u00e3os no volante. O isqueiro ainda quente no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular vibrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Oi! A little chegou. Tamo indo pro bar do Mignon tomar uma, Ge?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou a mensagem. Tinha acabado de passar pela galeria e n\u00e3o tinha ningu\u00e9m. Digitou:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ainda tenho que fazer umas coisas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela visualizou na hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Digitando\u2026 digitando\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Beleza. fica bem, Ge :)&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele jogou o celular no banco do passageiro, deu partida, saiu devagar. No espelho retrovisor, a entrada da Galeria Tijucas foi diminuindo at\u00e9 sumir.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o perfume continuava no nariz.<\/p>\n\n\n\n<p>E a voz continuava na cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Jota\u2026&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota dava volta na quadra quando o celular piscou novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Jota!!! Larissa me contou que voc\u00eas se encontraram h\u00e1 pouco. Precisava te conhecer de verdade. Tamo no bar do Mignon. Vem.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou a mensagem por uns dez segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Digitou:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas \u00e9 claro, j\u00e1 chego a\u00ed!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas pontinhos. Sumiram. Voltaram.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Que \u00f3timo! Estamos te esperando.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu uma pequena volta e parou na mesma vaga que tinha acabado de sair na C\u00e2ndido Lopes, mas dessa vez n\u00e3o iria pela Galeria Tijucas.<\/p>\n\n\n\n<p>O bar estava cheio. Mesas de madeira engordurada, cheiro de calabresa na chapa misturado com cerveja derramada, som alto que todo mundo suportava pelo clima do bar. Jota entrou, viu as duas sentadas l\u00e1 no fundo, perto da parede com p\u00f4ster desbotado.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa olhou, deu um tchauzinho t\u00edmido. Do outro lado, Little Boobs acenou largo \u2014 baixinha, n\u00e3o devia passar muito de um metro e cinquenta e cinco, mas com um par de peitos que desafiavam qualquer lei de propor\u00e7\u00e3o e gravidade, cabelo ruivo avermelhado caindo sobre os ombros, sorriso aberto que tomava o rosto inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele caminhou at\u00e9 a mesa, puxou a cadeira, sentou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed, Jota! \u2014 Little empurrou o card\u00e1pio pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota chamou o gar\u00e7om, pediu uma Coca-Cola. Larissa mexia no celular, olhar de canto. Little bebia uma cerveja, olhos j\u00e1 brilhando daquele jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oi, Ge \u2014 Larissa disse baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oi.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio esquisito por uns segundos. Ent\u00e3o Little bebeu um gole longo, se inclinou pra frente \u2014 blusa decotada mostrando exatamente o que o apelido prometia \u2014 e soltou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, eu tava contando pra Larissa sobre aquela vez no motel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o engasgou. N\u00e3o ficou sem gra\u00e7a. Sorriu de canto, pegou a lata de Coca que o gar\u00e7om trouxe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah \u00e9? E o que voc\u00ea tava contando?<\/p>\n\n\n\n<p>Little mordeu o l\u00e1bio, animada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que voc\u00ea me comeu por horas. Que eu implorei pra voc\u00ea parar e voc\u00ea n\u00e3o parou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota bebeu um gole devagar, olhando direto pra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bem, eu me esfor\u00e7o. Quem sabe rolar uma segunda. \u2014 Jota riu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nunca tinha me sentido assim \u2014 Little confirmou sem vergonha nenhuma, virando pra Larissa. \u2014 Ele me botou de quatro na beirada da cama, puxou meu cabelo e me fez gozar. Nunca tinha gozado daquele jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa encarava Little. Olhou fixo pro copo de cerveja, bochechas vermelhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se acomodou na cadeira, confort\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Foram tr\u00eas? Ou talvez quatro vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Little riu alto, batendo na mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Foram quatro! Caralho, \u00e9 verdade! A \u00faltima eu praticamente desmaiei.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela respirou fundo, mexendo no cabelo, e Jota viu quando a express\u00e3o dela mudou. Ficou mais s\u00e9ria. Mais carnal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00f4 ficando molhada s\u00f3 de lembrar \u2014 Little disse baixo, mas n\u00e3o baixo o suficiente. Larissa ouviu. Todo mundo ouviu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00f4. \u2014 Little olhou pra ele com aquele olhar. \u2014 Voc\u00ea soube exatamente o que fazer comigo aquele dia, Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele virou pra Larissa, que ainda n\u00e3o tinha falado nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed, Larissa? Como voc\u00eas chegaram nessa hist\u00f3ria, hein?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ergueu os olhos. Olhou pra ele. Ficou uns tr\u00eas segundos sem falar, boca entreaberta, respira\u00e7\u00e3o acelerada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu\u2026 n\u00e3o sei o que falar, Ge.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o precisa falar nada. \u2014 Jota deu de ombros, bebeu mais um gole. \u2014 Eu sempre dou o melhor de mim. Com todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Little se inclinou mais ainda, agora quase em cima da mesa, olhando pra Larissa:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nossa, voc\u00ea tem sorte, viu? Se n\u00e3o rolar entre voc\u00eas\u2026 \u2014 ela olhou de volta pro Jota \u2014 \u2026eu quero de novo. S\u00e9rio. N\u00e3o \u00e9 saudade. \u00c9 que eu quero mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa apertou o copo com for\u00e7a. As orelhas ficaram vermelhas. As m\u00e3os tremendo de leve.<\/p>\n\n\n\n<p>Little continuou, implac\u00e1vel:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 digo que nunca me senti como aquele dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o respondeu. S\u00f3 sorriu, olhando pra Larissa esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela respirou fundo, olhos indo de Little pra Jota, de Jota pra Little. O ci\u00fame subia vis\u00edvel no pesco\u00e7o, na respira\u00e7\u00e3o ficando mais curta, nas pernas se apertando debaixo da mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00eas dois s\u00e3o\u2026 \u2014 come\u00e7ou, mas n\u00e3o terminou.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa parou antes de tudo. Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Somos o qu\u00ea? O que voc\u00ea ia dizer? \u2014 Jota perguntou, olhando direto nos olhos dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa engoliu seco. Desviou o olhar. Bebeu o resto da cerveja de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nada. Esquece.<\/p>\n\n\n\n<p>Little se jogou pra tr\u00e1s na cadeira, rindo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah, Larissa, relaxa! Foi s\u00f3 sexo. Sexo muito bom, mas \u00e9 s\u00f3 sexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota terminou a Coca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Depende de quem t\u00e1 do outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa ficou mais alguns segundos ali, respira\u00e7\u00e3o acelerada, pernas apertadas, m\u00e3os tremendo. Ent\u00e3o pegou a bolsa, levantou devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu vou ao banheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela saiu andando r\u00e1pido, quase correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>Little olhou pra Jota e riu baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela t\u00e1 fudida de tes\u00e3o. E ci\u00fames, n\u00e3o parava de falar de ti antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou. Esperou ela voltar, s\u00f3 por educa\u00e7\u00e3o. Quando Larissa sentou de novo, a conversa j\u00e1 tinha esfriado no ritmo natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuaram outras conversas.<\/p>\n\n\n\n<p>Little falou em sinuca, Larissa topou. Jota ofereceu carona \u2014 as duas recusaram. Acertou a conta, se despediu, saiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhou sozinho pela cal\u00e7ada na dire\u00e7\u00e3o da \u00c9bano Pereira. O ar frio de Curitiba bateu na cara. Pensou em Larissa. Pensou na galeria. Pensou que tinha sido uma quinta-feira estranha pra caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava chegando no Gol quando o celular brilhou. Era uma liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ge. \u2014 A voz dela soou diferente. \u2014 Est\u00e1 muito longe j\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00f4 chegando no carro. Voc\u00ea t\u00e1 bem?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acabei de sair do bar. Queria continuar conversando contigo, mas sem a Little. \u2014 Uma pausa. \u2014 Ge, tem uma menina ali na entrada da Galeria Tijucas, sozinha. A essa hora, que estranho. Vestido azul. T\u00e1 me olhando de um jeito esquisito. J\u00e1 falo contigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns sons estranhos. Jota parou com a m\u00e3o na porta do carro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela t\u00e1 me chamando. Vou l\u00e1 ver, Ge, ela t\u00e1 chorando. Tem um ursinho de pel\u00facia sem um olho na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O sangue gelou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Larissa. N\u00e3o chega perto. Anda. Sai da\u00ed agora.<\/p>\n\n\n\n<p>A linha morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota j\u00e1 come\u00e7ou a caminhar para a entrada da galeria. Tentava ligar e nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou na Luiz Xavier em dois minutos. Nada. Ningu\u00e9m na rua, nem na entrada da galeria.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentou ligar. Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi mais perto da porta e ela estava encostada \u2014 entreaberta como se algu\u00e9m tivesse acabado de passar. Empurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>O corredor estava escuro. N\u00e3o parecia a galeria que se via de dia, mas havia uma porta enferrujada ao fundo, com uma luz amarela que piscava mais devagar, como se estivesse cansada de fingir que funcionava. O cheiro tinha mudado \u2014 n\u00e3o era mais pastel e naftalina. Era terra molhada. \u00d3leo queimado. Perfume podre.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Larissa! \u2014 chamou.<\/p>\n\n\n\n<p>O eco voltou distorcido, mais longo do que deveria.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou e empurrou a porta de metal enferrujado, entreaberta. Atr\u00e1s dela, uma escada de concreto descendo pro escuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurou um interruptor, n\u00e3o encontrou. O isqueiro no bolso esquentou. Tirou o sobrevivente, e a chama acendeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Desceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Os degraus estavam \u00famidos, corrim\u00e3o enferrujado soltando lascas vermelhas nos dedos. Cada passo ecoava duas vezes \u2014 uma normal, outra mais baixa, atrasada, como se algu\u00e9m descesse junto, mas meio segundo depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou num local que parecia um estacionamento. Parou.<\/p>\n\n\n\n<p>O teto estava alto demais. Muito alto pra estar embaixo de um pr\u00e9dio estreito da Luiz Xavier. As paredes recuavam al\u00e9m do que a planta do edif\u00edcio permitia. O espa\u00e7o n\u00e3o cabia ali \u2014 simples assim, n\u00e3o cabia \u2014 mas estava ali do mesmo jeito, respirando na cara dele como se sempre tivesse existido e fosse ele o intruso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tinha como ter um estacionamento ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Carros fantasmas: Opala verde sem rodas, Chevette com vidros estilha\u00e7ados, Fusca coberto por lona rasgada que se mexia sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>No centro do sal\u00e3o, uma \u00fanica l\u00e2mpada pendurada por fio desencapado balan\u00e7ava devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Debaixo dela, sentada no cap\u00f4 do Opala, a menina de vestido azul balan\u00e7ava as pernas. Ursinho de pel\u00facia sem um olho no colo. Ao lado dela, Larissa estava parada, olhar vazio, como se tivesse sa\u00eddo de dentro de si mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ge\u2026 \u2014 ela murmurou, mas n\u00e3o se mexeu.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina olhou pro isqueiro na m\u00e3o de Jota. A chama azul nas bordas. Deu um passo pra tr\u00e1s \u2014 o mesmo movimento involunt\u00e1rio de antes \u2014 e o sorriso escorregou por um segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim? Logo voc\u00ea? \u2014 disse a menina.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota avan\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina recuou mais, bra\u00e7os cruzados na frente do corpo, olhos fixos na chama.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota moveu o isqueiro na dire\u00e7\u00e3o dela, quase sem querer. A menina recuou um passo. Ele moveu de novo \u2014 ela recuou mais. Ent\u00e3o entendeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se aproximar de Larissa com o isqueiro aceso, a menina recuou para as sombras e sumiu. O ar esfriou de repente. Sentindo uma presen\u00e7a avan\u00e7ar pela direita, Jota virou r\u00e1pido, esticando o isqueiro \u00e0s cegas. A chama tocou a barra do vestido pu\u00eddo. A menina gritou \u2014 um som que n\u00e3o era humano, que veio de dentro das paredes, dos carros, do concreto \u2014 e recuou at\u00e9 a sombra entre o Opala e o Chevette, abra\u00e7ando o ursinho.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o morreu. Mas recuou.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa piscou. Olhou em volta como quem acorda no meio de um quarto errado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ge? O que\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele pegou a m\u00e3o dela, puxou na dire\u00e7\u00e3o da escada. Correram em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 escada. Antes de chegarem \u00e0 porta viram um homem de macac\u00e3o azul que repetia em loop, olhos vazios, ferramentas na m\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Conserta&#8230; conserta&#8230; conserta\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito do t\u00eanis soltou no mesmo instante \u2014 arrastando no concreto \u00famido. Jota trope\u00e7ou com o isqueiro ainda aceso, que apagou, mas ainda firme na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem saiu do transe, parou o que estava fazendo e amparou Jota antes de ele cair de joelhos no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem soltou Jota, olhou em volta. Contemplou as m\u00e3os. Encarou Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>O loop tinha quebrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira piscou devagar. A express\u00e3o vazia foi saindo, camada por camada, como poeira assentando depois de uma queda. Ele olhou em volta \u2014 os carros, a l\u00e2mpada, as sombras nos cantos \u2014 e respirou fundo pela primeira vez em quanto tempo, era imposs\u00edvel saber.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea me ajudou \u2014 disse Rand, voz rouca de quem n\u00e3o usava h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Foi voc\u00ea que me ajudou \u2014 Jota respondeu, levantando.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand olhou pras pr\u00f3prias ferramentas. Colocou no cinto devagar, uma por uma, com cuidado de quem est\u00e1 lembrando como se faz. Depois olhou pra Jota com uma express\u00e3o dif\u00edcil de nomear.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Continua com esse isqueiro aceso. E t\u00f4 te devendo uma. \u2014 Uma pausa curta. \u2014 Quando precisar, eu apare\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o esperou resposta. Caminhou at\u00e9 a escada e sumiu, passos firmes, sem olhar pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Das sombras, a menina observou em sil\u00eancio. O ursinho apertado no peito. O vestido com a barra chamuscada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou a m\u00e3o de Larissa de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Subiram.<\/p>\n\n\n\n<p>O corredor estava vazio quando chegaram de volta. As l\u00e2mpadas amarelas piscavam normal, com pregui\u00e7a de sempre. Cheiro de pastel requentado e naftalina.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa saiu primeiro pela porta da Luiz Xavier, respirou o ar da madrugada, ficou parada na cal\u00e7ada por uns segundos s\u00f3 respirando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que era aquilo? \u2014 ela perguntou, voz baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sei l\u00e1. \u2014 Jota parou do lado dela. \u2014 Mas acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ficou olhando pra porta da galeria. Depois olhou pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ge. Eu n\u00e3o quero ficar sozinha hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o respondeu na hora. S\u00f3 colocou a m\u00e3o no bolso, guardando o isqueiro ainda quente, e acenou com a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que era aquela menina? \u2014 ela perguntou quando chegaram na cal\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Mas ela me conhecia. Sabia meu nome antes de eu dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu achei que era uma crian\u00e7a de verdade. Ela tinha um ursinho parecido com o meu. \u2014 Larissa pausou. \u2014 At\u00e9 olhar nos olhos dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram andando. Ela tinha uma teoria. Ele tinha outra. Nenhuma fechava direito, mas as duas juntas chegavam mais perto do que qualquer uma sozinha. Entraram no Gol, deram a partida, e a conversa continuou \u2014 ela falando com as m\u00e3os, ele respondendo com o olhar no tr\u00e2nsito vazio. O homem de macac\u00e3o. A menina. O isqueiro. O que teria acontecido se Jota n\u00e3o tivesse trope\u00e7ado. O que ainda podia acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9u come\u00e7ou a clarear nas bordas quando ele parou o carro na frente do sobrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum dos dois tinha percebido a hora passar.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito do t\u00eanis arrastava no asfalto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda solto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O corredor estreito da Galeria Tijucas cheirava a pastel requentado e naftalina velha. Tr\u00eas da tarde de uma quinta-feira, sol de rachar l\u00e1 fora. Jota tinha deixado o Gol Bolinha Cinza Urban na C\u00e2ndido Lopes, motor ainda esfriando, cheiro de etanol grudado na roupa. 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