{"id":634,"date":"2026-01-03T00:15:00","date_gmt":"2026-01-03T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=634"},"modified":"2026-03-10T13:10:23","modified_gmt":"2026-03-10T16:10:23","slug":"o-bloquinho-que-nunca-aconteceu","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/o-bloquinho-que-nunca-aconteceu\/","title":{"rendered":"O Bloquinho que Nunca Aconteceu"},"content":{"rendered":"\n<p>Sexta-feira de fevereiro de um ano qualquer, quatro da manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular de Jota vibra. Para. Vibra de novo. Rosquinha. De novo e de novo. Jota sabia que quando Rosquinha insistia na liga\u00e7\u00e3o logo depois de ter deixado ele algo tinha acontecido e agora era mais um problema para resolver. Aguardou uma mensagem, \u00e0s vezes, era somente pedido de dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Meu pai me botou pra fora de casa. T\u00f4 com a mala na cal\u00e7ada.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha era gay: boca-dura, s\u00f3 bebia cacha\u00e7a barata, adorador de necas e que vivia em guerra declarada com os pais. Dessa vez a briga tinha passado do ponto. Sexualidade, hor\u00e1rios, desemprego, religi\u00e3o, conservadorismo, futuro, &#8220;vergonha pra fam\u00edlia&#8221;, o pacote completo. Porta na cara. Mala na rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota (o que n\u00e3o bebe, s\u00f3 cheira pra aguentar o tranco, dirige sempre, resolve tudo, nunca desliga) levantou da cama, tinha deixado Rosquinha algumas horas antes. A camiseta regata vinho j\u00e1 estava amassada, tinha acabado de conseguir desligar um pouco. Depois de ler a mensagem e responder pegou a chave e voou.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontrou Rosquinha sentado na guia, bigode grosso com pontas viradas pra cima tremendo, mochila preta tombada no ch\u00e3o. Cara inchada de choro e raiva. As m\u00e3os abriam e fechavam como se quisessem socar algo que n\u00e3o estava mais l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha entrou no Gol Bolinha Cinza Urban e desabou. Jota ouviu tudo em sil\u00eancio, rodando a cidade. Ligaram pra geral. Ningu\u00e9m atendia \u00e0s cinco da manh\u00e3. Continuaram a volta pela cidade at\u00e9 Yohan, um dos picotinhos de Rosquinha falar que podia ficar com ele, mas s\u00f3 liberava \u00e0s nove e meia, aguardaram. Deixou Rosquinha l\u00e1 e prometeu: &#8220;Volto antes do fim do mundo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Resolveu o dia no autom\u00e1tico: irm\u00e3o na fisio, banco para a m\u00e3e, desculpa pro trabalho. Pensava no Rosquinha sozinho e o que faria agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase final da tarde, depois de conseguir resolver tudo entrou em contato e ouviu que o Rosquinha estava na pra\u00e7a do Athletico, jogando v\u00f4lei. Incr\u00edvel o que as pessoas fazem depois de serem expulsas de casa. Chegou l\u00e1 e Rosquinha no seu avatar de foda-se o mundo. Pegou o amigo e foram em dire\u00e7\u00e3o do Cidade Honestidade, local de trabalho de umas amigas. Passaram na Nissei antes: Rosquinha tinha sa\u00eddo de casa sem nem prestobarba, mas pires e x\u00edcara ele n\u00e3o esqueceu, \u00f3bvio.<\/p>\n\n\n\n<p>No Cidade Honestidade encontraram Rabet\u00e3o e Monica Souza. Rabet\u00e3o era o apelido carinhoso que Cambu recebeu, companhia foda pra caralho ganhou. Monica Souza era uma pessoa de cora\u00e7\u00e3o enorme, mas com filhos muito novos ainda. Rosquinha em p\u00e9 come\u00e7ou contar sua hist\u00f3ria e Jota sentou numa cadeira qualquer, que por obra do destino era o lugar da Rabetinha a amiga que ainda n\u00e3o tinha chegado.<\/p>\n\n\n\n<p>Rabetinha chegou instantes depois, a Maju Kuzito, cabelo molhado, sorriso tranquilo, glitter j\u00e1 na bolsa. Jota estava afim dela. Rabetinha chegou dizendo que ali era seu lugar e Jota levantou e foi procurar outro. Rabetinha sentou com o ar mais natural do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha contou tudo de novo. O grupo abra\u00e7ou, xingaram, planejaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edram. Parolin (G\u00f3es, pularam o carrinho rapidinho, ningu\u00e9m pergunta detalhes). Itupava, Tingui, Barigui, Tork, 29 de Mar\u00e7o. Carro lotado, m\u00fasica alta no celular de algu\u00e9m, Rabet\u00e3o cantando tudo errado. Jota dirigindo. Monica gravando as coreografias. Rosquinha animando. Rabetinha com o um v\u00ea e fazendo a eg\u00edpcia. Chuva caindo grossa, limpador lutando pra dar conta. Monica foi deixada em casa, tinha que cuidar das crias. Ent\u00e3o decidiram ir para a casa de Rabet\u00e3o pois o clima n\u00e3o ajudava.<\/p>\n\n\n\n<p>Na casa da Rabet\u00e3o discutiram s\u00e9rio: Rosquinha precisava de teto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele pode dormir aqui \u2014 Rabet\u00e3o disse. \u2014 Se voc\u00ea ficar tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota entendeu o jogo na hora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o vai rolar, Cambu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o ele tamb\u00e9m n\u00e3o fica \u2014 ela devolveu, fria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porra, o cara foi expulso de casa!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E eu t\u00f4 oferecendo minha casa. Voc\u00eas dois ou nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio. Rosquinha olhava pro ch\u00e3o como se quisesse sumir ali mesmo. Rabet\u00e3o j\u00e1 tinha bebido v\u00e1rias e Jota sabia que se passasse a noite ali, teria que ficar evitando Rabet\u00e3o, mas n\u00e3o estava afim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Uma noite \u2014 Jota soltou entre os dentes. \u2014 Amanh\u00e3 terei uma outra solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Uma noite, mas tu volta o mais r\u00e1pido poss\u00edvel pra c\u00e1 \u2014 ela repetiu. Jota aceitou.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixou Rosquinha em seguran\u00e7a, voltou dirigindo no autom\u00e1tico, madrugada vazia. Caiu na cama de roupa. Apagou.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e1bado 13h30.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegou na casa da Rabet\u00e3o, a galera inteira j\u00e1 estava de camiseta nova cinza, estampada em letras brancas:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que acontece no Bloquinho fica no Bloquinho. A\u00cd PORRA&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Deram uma pra ele. Vestiu. Sorriso bobo de quem j\u00e1 sabia que ia ser \u00e9pico.<\/p>\n\n\n\n<p>Condor pra comprar bebida. Um cobertor tigre apareceu no porta-malas do Gol Bolinha j\u00e1 lotado. Jota n\u00e3o sabia de onde tinha surgido, mas deixou para l\u00e1. Ningu\u00e9m parava de falar. Desceram a Graciosa com m\u00fasica alta, o carro todo animado, chuva desabando como se o c\u00e9u tivesse rasgado mas ningu\u00e9m ligava. Pararam no portal, tiraram fotos. No mirante, o vento e a chuva estavam pesados demais, ningu\u00e9m quis descer. Direto Antonina, carnaval esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegaram \u00e0s cinco da tarde. Pier molhado, madeira inchada rangendo. Cheiro de maresia misturado com fritura de pastel. Distribu\u00edram glitter, passaram na cara de todo mundo. Foto em grupo pra registrar: Rabet\u00e3o, Rabetinha, Jota e Rosquinha prontos pra guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Procuraram bloco. Nada. A chuva tinha espantado o pessoal \u2014 a cidade queria carnaval, mas as ruas estavam vazias, bares vazios, som desligado. Perguntavam onde estava a porra desse carnaval em Antonina. S\u00f3 eles quatro estavam firmes, animados, os \u00fanicos loucos o suficiente pra fazer o carnaval acontecer na chuva. Portinho vazio, som de \u00e1gua batendo nas pedras. Ponta da Pita deserto, cheiro de maresia. Sil\u00eancio pesado, s\u00f3 chuva.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota saiu do carro, t\u00eanis surrado com cadar\u00e7o direito solto afundando na lama. Abriu a mochila laranja no banco de tr\u00e1s, procurou uma buchinha, viu o caderno marrom e isqueiro amarelo ali dentro, o sobrevivente. Encontrou o que procurava, jogou a mochila na parte de cima do porta-malas.<\/p>\n\n\n\n<p>Rabetinha viu o cadar\u00e7o solto dele arrastando na lama.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea vai trope\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Valeu! Mas \u00e9 costume, pra dar sorte.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela riu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o voc\u00ea sempre quase cai?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a verdade \u00e9 que Jota n\u00e3o ca\u00eda. Nunca caiu. O cadar\u00e7o vivia solto, todo mundo achava que ele ia desabar, mas era ele quem segurava os outros quando desabavam. Rosquinha na guia, mochila no ch\u00e3o, cara inchada de chorar? Jota aparecia. Quatro da manh\u00e3, fim do mundo, fodido de cansa\u00e7o? Jota aparecia. Era isso que ele fazia \u2014 e n\u00e3o s\u00f3 pra Rosquinha. Tinha sido outro amigo antes. Sempre tinha algu\u00e9m. Jota era o cara que ficava em p\u00e9 quando todo mundo ca\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>Rabetinha n\u00e3o sabia disso. Talvez nem fosse descobrir.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica oficial surgiu em algum momento dali pra frente, gritada na avenida quase vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota come\u00e7ou a gritar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 o Rabet\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota emendou levantando o bra\u00e7o da Rabetinha, rindo alto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 &#8230;a Rabetinha!<\/p>\n\n\n\n<p>Rabetinha girou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro Rosquinha. Faltava algu\u00e9m. Gritou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 &#8230;o Rabeteco!<\/p>\n\n\n\n<p>Apontou pra si mesmo. Rosquinha entendeu na hora, bateu na pr\u00f3pria bunda e Jota terminou com o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 &#8230;e o Rabico!<\/p>\n\n\n\n<p>Todo mundo explodiu de rir. Fizeram de novo, mais alto, at\u00e9 grudar:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 o Rabet\u00e3o, a Rabetinha, o Rabeteco e o Rabico desfilando em Antonina! Nesse carnaval!!!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Cantaram isso at\u00e9 ficar rouco. Pulando em po\u00e7a, \u00e1gua gelada entrando no t\u00eanis, asfalto escorregadio. Glitter escorrendo com a chuva, grudando na boca, gosto de pl\u00e1stico e sal. P\u00f3 no nariz pra aguentar mais uma hora, mais uma volta, mais uma ideia idiota que virava \u00e9pica. Era a droga fazendo o trabalho dela: dissolvia o cansa\u00e7o, dissolvia a chuva, dissolvia qualquer coisa que n\u00e3o fosse aquela rua e aquelas quatro pessoas completamente fora do eixo num carnaval que n\u00e3o existia.<\/p>\n\n\n\n<p>A chuva deu uma aliviada, e come\u00e7ou a aparecer gente \u2014 curiosos nas janelas, galera saindo de botecos, carros buzinando junto. A cidade acordou pra ver quem eram os loucos cantando na chuva.<\/p>\n\n\n\n<p>A expuls\u00e3o tinha ficado para tr\u00e1s. Ningu\u00e9m mais lembrava o motivo de terem se reunido e parado num carnaval chuvoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Rabeteco encontrava a Rabetinha do lado em todo canto: no banheiro improvisado, no carro, na rua. Ela rindo alto, cabelo grudado na testa, olhando pra ele de um jeito que fazia o peito apertar. Ele queria. Mas o rol\u00ea era maior que isso. E Rabetinha e Rabet\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o ajudavam, s\u00f3 ficavam lembrando de exs.<\/p>\n\n\n\n<p>Rabico, para variar, sumiu uma hora. Pessoal ficou preocupado. E quando voltou, outra hist\u00f3ria surgiu. Estava com uma nova amiga aleat\u00f3ria que ningu\u00e9m conhecia. Falou que encontrou uma neca odara e caiu de boca. O grupo s\u00f3 ficou aliviado em encontrar a ovelha.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas da manh\u00e3. A festa &#8220;oficial&#8221; morreu. Rua novamente vazia, cheiro de churrasquinho frio, lixo molhado espalhado no asfalto. Algu\u00e9m gritou &#8220;Ponta da Pita agora!&#8221;. Voltaram pro carro. Som de teclado barato ecoando de longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Um novo bar, e como j\u00e1 eram, continuaram sendo a alma do carnaval em Antonina. Rabetinha girava num cobertor tigre. Eram quatro no lugar ao som de um cara que cantava com um teclado, mas pareciam mil. Continuavam os \u00fanicos que pareciam animar a cidade toda. Pessoal foi minguando novamente. Dan\u00e7aram no meio da rua como se fosse o \u00faltimo dia da Terra. E assim, o fogo foi apagando, tiraram umas fotos do dia amanhecendo, voltaram para o carro.<\/p>\n\n\n\n<p>No carro, Rabetinha e Rabet\u00e3o desabaram. Rabico e Rabeteco n\u00e3o paravam de conversar \u2014 p\u00f3 sumindo, vida passando no para-brisa emba\u00e7ado. Pararam em Morretes, mas n\u00e3o tinha nada ali \u00e0quela hora. Continuaram. Curitiba amanhecendo, McDonald&#8217;s com cheiro de fritura misturado \u00e0 chuva fina. As duas acordaram. Comeram algo r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Destino, casa da Rabet\u00e3o. Rabico e Rabet\u00e3o desabaram. Rabeteco ficou mais uns minutos, ainda firme.<\/p>\n\n\n\n<p>Rabetinha estava enrolada no cobertor de tigre no sof\u00e1, glitter ainda grudado no rosto. Olhos fechados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rabetinha?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela abriu um olho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu vou indo \u2014 ele disse baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Hm.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 isso. &#8220;Hm.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele esperou mais um segundo. Achando que ela ia falar algo. Talvez um &#8220;valeu&#8221;, talvez um &#8220;foi massa&#8221;, talvez qualquer coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada veio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Qualquer coisa, tu sabe onde me achar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela j\u00e1 tinha voltado a dormir.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele saiu devagar. Fechou a porta sem fazer barulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela nem percebeu que ele tinha ido embora.<\/p>\n\n\n\n<p>Rabeteco foi pra casa prometendo que voltava logo.<\/p>\n\n\n\n<p>Domingo, 13h15.<\/p>\n\n\n\n<p>Rabeteco voltou para a casa de Rabet\u00e3o. Algu\u00e9m mencionou uma Zumbi Walk. Rabeteco falou: vamos. Rabico, que tinha parado de beber por tr\u00eas horas, piscou o cu e quis voltar a beber. Rabetinha tentava segurar a onda \u2014 &#8220;Calma, Rabico, pelo amor de Deus&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, Rabico e Rabeteco sa\u00edram pela porta tentando animar as outras. Um deles gritou &#8220;Bora, Rabetas!&#8221; tentando convencer. N\u00e3o colou. Rabet\u00e3o n\u00e3o quis ir. Rabetinha falava em voltar para casa. Rabico s\u00f3 queria beber. Rabeteco reparou que n\u00e3o adiantava mais, o pessoal n\u00e3o estava t\u00e3o animado, e desistiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Rabico ent\u00e3o tomou uma decis\u00e3o e pediu para Rabeteco uma carona pra casa. Rabeteco perguntou se ele estava certo disso, ele confirmou e ent\u00e3o foram. Rabetinha aproveitou a viagem tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixaram Rabetinha na casa dela. E Rabeteco levou o amigo pra casa vazia. No caminho passaram pelo pai dele na esquina. Pelo menos Rabico disse que passaram, Rabeteco nem sabia quem ele era naquele momento. Rabeteco desovou Rabico e voltou para casa.<\/p>\n\n\n\n<p>15h30.<\/p>\n\n\n\n<p>Rabeteco chegou em casa. Mandou mensagem para todos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Cheguei em casa mas feliz pra caralho.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Responderam com emoji de cora\u00e7\u00e3o. Rabico e Rabet\u00e3o agradeceram. Rabetinha s\u00f3 olhou e n\u00e3o falou nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Desabou na cama ainda de glitter na cara.<\/p>\n\n\n\n<p>Em algum momento enquanto Jota dormia chegou uma mensagem do Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estou em casa ainda. T\u00e1 tudo&#8230; resolvido, acho.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou aliviado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o insistiu. Em nenhum momento perguntou o que exatamente tinha acontecido. Se Rosquinha quisesse contar, contaria. O bigode de guid\u00e3o do pai dele, o grito, a porta batendo, a reconcilia\u00e7\u00e3o \u2014 tudo isso era territ\u00f3rio do Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota s\u00f3 tinha feito o que sabia fazer: estar l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Respondeu: &#8220;Qualquer coisa, tu sabe onde me achar, irm\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha: &#8220;\u2764\ufe0f&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E no meio daquele caos todo \u2014 um fim de semana inteiro sem parar, quil\u00f4metros rodados no Gol Bolinha Cinza Urban que nunca reclamou, um amigo salvo, um bloco que nunca existiu de verdade \u2014 Jota s\u00f3 queria que a Rabetinha tivesse olhado pra ele do jeito que ele olhava pra ela o fim de semana inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ela olhou. Ou n\u00e3o olhou. Ou olhou mas ele perdeu. E agora nunca vai saber.<\/p>\n\n\n\n<p>O bloco que nunca aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>O beijo que nunca veio.<\/p>\n\n\n\n<p>A chance que foi perdida.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque \u00e0s vezes a vida n\u00e3o resolve.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi o melhor carnaval que qualquer um deles viveu at\u00e9 aquele momento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta-feira de fevereiro de um ano qualquer, quatro da manh\u00e3. O celular de Jota vibra. Para. Vibra de novo. Rosquinha. De novo e de novo. Jota sabia que quando Rosquinha insistia na liga\u00e7\u00e3o logo depois de ter deixado ele algo tinha acontecido e agora era mais um problema para resolver. 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