{"id":656,"date":"2026-01-05T00:15:00","date_gmt":"2026-01-05T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=656"},"modified":"2026-03-11T13:46:03","modified_gmt":"2026-03-11T16:46:03","slug":"o-cadarco-do-tempo","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/o-cadarco-do-tempo\/","title":{"rendered":"O Cadar\u00e7o do Tempo"},"content":{"rendered":"\n<p>O Gol Bolinha cinza Urban 2003 parou antes da ponte destru\u00edda na Pedreira do Orleans. Motor 1.0 16v gritava suspiros de etanol e tinha aquele cheiro doce e forte de cana queimada que sai do escapamento quando o bicho t\u00e1 quente demais. Jota desligou o carro, puxou o freio de m\u00e3o e desceu.<\/p>\n\n\n\n<p>110 kg pisando pesado na terra batida.<\/p>\n\n\n\n<p>Camiseta regata vinho colada nas costas, suor escorrendo pela nuca, barba cheia de lobo que n\u00e3o dorme h\u00e1 tr\u00eas dias. Mochila laranja pendurada num ombro s\u00f3. T\u00eanis surrado (ded\u00e3o esquerdo j\u00e1 aparecendo pelo buraco) pisando em pedra, barro, raiz. O cadar\u00e7o direito, claro, j\u00e1 meio solto, balan\u00e7ando como quem avisa: hoje vai dar merda.<\/p>\n\n\n\n<p>A noite estava quente demais pra Curitiba. E a lua ajuda mostrando o caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota atravessou a p\u00e9 os trezentos metros que faltavam. Passou pela ponte e as constru\u00e7\u00f5es abandonadas, mato alto ro\u00e7ando na cal\u00e7a moletom, at\u00e9 chegar na beira do lago seco.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 embaixo, a pedra vertical parecia tocar a lua.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto. Nem grilo. Nem carro no contorno norte l\u00e1 longe. S\u00f3 o cora\u00e7\u00e3o dele batendo forte no peito, como se soubesse de algo que a cabe\u00e7a ainda n\u00e3o entendia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele parou na beirada.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu a mochila e tirou o isqueiro amarelo sobrevivente, que era mais velho que metade das mulheres que partiram seu cora\u00e7\u00e3o. Acendia na primeira sempre. Colocou a mochila ainda aberta no ch\u00e3o e come\u00e7ou a procurar alguns gravetos para acender uma pequena fogueira. Foi a\u00ed que o ch\u00e3o tremeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro baixo, como caminh\u00e3o passando longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois forte. Forte demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma rachadura azul (luz fria, el\u00e9trica) rasgou a parede de pedra da pedreira de baixo pra cima, como se algu\u00e9m tivesse cortado o mundo com faca de luz. O ar ficou pesado. O tempo pareceu engasgar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu um passo pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito desamarrou de vez. Jota pisou em falso no musgo, praguejou baixo, caiu. Sentou, amarrou. Quando levantou os olhos, a pedreira tinha sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>O vale estava l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era mais a Pedreira do Orleans.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um vale imenso, verde, antigo, coberto de musgo e est\u00e1tuas partidas. O c\u00e9u tinha aquela cor que ningu\u00e9m lembra de ter visto antes. Um roxo-azulado doentio, como hematoma que n\u00e3o cicatriza.<\/p>\n\n\n\n<p>E no centro, dois tit\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>De um lado, o gigante verde.<\/p>\n\n\n\n<p>Pele rasgada, olhos brancos de \u00f3dio puro, cada passo abrindo cratera. Rugia como se o pr\u00f3prio planeta tivesse ofendido a m\u00e3e dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro, o homem de capa azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Sereno. Flutuava a meio metro do ch\u00e3o, capa batendo sem vento. Olhar de quem j\u00e1 decidiu tudo mil vezes e ainda assim carrega o peso de cada escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto entre os dois fez o ch\u00e3o tremer at\u00e9 onde Jota estava.<\/p>\n\n\n\n<p>Onda de choque jogou ele de bunda no musgo. A mochila rolou, o caderno capa dura marrom caiu aberto. Uma p\u00e1gina solta voou, dan\u00e7ou no ar, queimando sozinha com fogo azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou, corpo pesado, carne e osso no meio de deuses.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que porra \u00e9 essa? \u2014 murmurou, voz rouca.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de capa azul virou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou direto pra ele. Olhar que atravessava eras.<\/p>\n\n\n\n<p>E falou, com voz calma que fez o gigante verde parar no meio do soco:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora \u00e9 com voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>O vento soprou forte.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante verde olhou tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>E no meio do vale, entre ru\u00ednas que pareciam lembrar de batalhas que nunca aconteceram neste mundo, Jota sentiu o cadar\u00e7o direito bater de leve na canela.<\/p>\n\n\n\n<p>Como quem diz:<\/p>\n\n\n\n<p>Calma, Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda n\u00e3o acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, t\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de capa azul ergueu a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar se rasgou como pano velho. Tr\u00eas portais de luz azulada se abriram no vale, flutuando a um metro do ch\u00e3o. Cada um pulsava de um jeito diferente: um batia como cora\u00e7\u00e3o acelerado, outro parecia choro abafado, o terceiro cheirava a sexo e aeroporto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea precisa ver \u2014 disse o homem de capa, sem olhar para Jota. \u2014 Ver de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante verde estava parado, peito subindo e descendo, punhos ainda cerrados, mas os olhos brancos j\u00e1 n\u00e3o tinham \u00f3dio. Tinham vergonha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu um passo.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro portal o sugou.<\/p>\n\n\n\n<p>Era o sagu\u00e3o do Aeroporto Afonso Pena.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu estava l\u00e1, loira platinada, pernas intermin\u00e1veis dentro de um jeans que custava mais que o Gol inteiro. Olhava para ele com aqueles olhos \u00e2mbar que congelavam o sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Geraldo\u2026 \u2014 ela sorriu, aquele sorriso que era faca e carinho ao mesmo tempo. \u2014 Voc\u00ea veio mesmo me buscar?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele abriu a boca para responder, mas ela j\u00e1 estava se afastando, mala de rodinha rolando, filho pequeno de m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz dela ecoou sem virar o rosto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu precisava ficar longe de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>O portal cuspiu Jota de volta no vale.<\/p>\n\n\n\n<p>O cora\u00e7\u00e3o batia t\u00e3o forte que o tecido vinho parecia pequeno demais. Ele caiu de joelhos no musgo, m\u00e3os tremendo, suor frio escorrendo pela testa.<\/p>\n\n\n\n<p>Respirou fundo tr\u00eas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar tinha gosto de saudade velha.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo portal o pegou antes que ele conseguisse se levantar direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez era o banheiro lotado de uma balada no Batel, luz vermelha, cheiro de vodka barata.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos Cruel encostou ele na parede de azulejo, tatuagens brilhando de suor, olhos verdes g\u00e9lidos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota \u2014 ela falou no ouvido, voz rouca de quem manda no mundo. \u2014 Cala a boca e me beija logo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele obedeceu.<\/p>\n\n\n\n<p>O beijo foi violento, perfeito, eterno. Quando ela afastou o rosto, o batom preto estava borrado na boca dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora termina comigo \u2014 ela ordenou, j\u00e1 se afastando. \u2014 Termina antes que eu decida por voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>O portal fechou como porta batida.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota cambaleou, m\u00e3o na parede invis\u00edvel, sentindo o gosto do batom que n\u00e3o existia mais. As pernas fraquejaram. Ele sentou no musgo, costas curvadas, a regata grudada pelo suor.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o som da pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o, pesada, descompassada.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro portal foi mais cruel ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>Era a rua do Professor, Cap\u00e3o da Imbuia, cinco da manh\u00e3, neblina grossa.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha estacionado, cap\u00f4 quente. Little Boobs estava sentada ali, pernas de fora, short desfiado, peitos gigantes quase pulando da blusinha preta. Sorria com aquela carinha de anjo que destr\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem \u2014 ela chamou, voz doce como veneno. \u2014 S\u00f3 mais uma vez antes de eu sumir pra sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota foi.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegou perto, ela se desfez em p\u00f3 dourado, entrou pelos buracos do t\u00eanis surrado, subiu pelas pernas dele como areia quente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea sempre demora demais, Jota \u2014 a voz dela sussurrou dentro do peito dele. \u2014 Sempre tarde demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o portal se fechou, Jota estava deitado no musgo.<\/p>\n\n\n\n<p>O tecido vinho agora tinha marcas de m\u00e3os que nunca existiram de verdade. A mochila estava ali perto. O caderno ainda aberto no ch\u00e3o, p\u00e1ginas tremendo como se lessem a si mesmas. Uma delas tinha um t\u00edtulo riscado com tanta for\u00e7a que o papel rasgou. Outra tinha s\u00f3 uma frase ileg\u00edvel, tinta azul borrada sobre azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ficou assim por um tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 respirando.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentindo o peso de tudo que j\u00e1 foi e nunca mais vai ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o um quarto portal se abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m chamou. Ningu\u00e9m abriu. Apareceu e pronto, sem luz e sem som, s\u00f3 aquele cheiro de madrugada fria que Jota conhecia de cor.<\/p>\n\n\n\n<p>Era a porta do banheiro do Cap\u00e3o, quatro da manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Maninho no ch\u00e3o, m\u00e3o no peito, olhos ainda abertos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ajoelhado ao lado, m\u00e3o na m\u00e3o do irm\u00e3o, sentindo o calor ir embora devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma palavra. S\u00f3 aquele sil\u00eancio que tem peso.<\/p>\n\n\n\n<p>O portal se fechou antes que Jota pudesse fazer qualquer coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sempre tinha se fechado.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante verde deu um passo \u00e0 frente. Ficou parado um tempo. Depois falou, voz grossa, quase humana:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m j\u00e1 perdi algu\u00e9m assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou o rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Os olhos do gigante estavam marejados, verdes, enormes, humanos demais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu destru\u00ed cidades inteiras por causa disso \u2014 o gigante continuou. \u2014 E voc\u00ea\u2026 voc\u00ea s\u00f3 carrega o peso da saudade.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de capa azul baixou a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ainda tem mais. Mas agora voc\u00ea j\u00e1 sabe o gosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito balan\u00e7ou, solto, ro\u00e7ando o tornozelo como quem consola.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu aguento \u2014 ele disse, voz rouca. \u2014 Manda o pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>O vale pareceu sorrir.<\/p>\n\n\n\n<p>O vale mudou de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>As ru\u00ednas cresceram, viraram torres tortas de pedra e metal, como se o tempo tivesse vomitado peda\u00e7os de outros mundos ali. Tr\u00eas figuras surgiram do nada, cada uma ocupando um canto do c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro veio o vulto dourado.<\/p>\n\n\n\n<p>R\u00e1pido demais pra ver direito, s\u00f3 rastro de luz e som de vento cortando. Parou a meio metro de Jota, tremendo como imagem de TV mal sintonizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a forma se solidificou por um segundo, Jota reconheceu:<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Bigode de guid\u00e3o, sorriso torto, aquele jeito de quem nunca para quieto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tudo acontece ao mesmo tempo, Jota \u2014 disse a voz, vindo de todos os lados. \u2014 Voc\u00ea corre atr\u00e1s do que j\u00e1 foi e perde o que ainda vem.<\/p>\n\n\n\n<p>O vulto deu uma volta completa ao redor dele em menos de um segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu te chamei tantas vezes, Ch\u00f4. Mas voc\u00ea tava ocupado correndo atr\u00e1s de fantasma.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes que Jota respondesse, o vulto sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixou s\u00f3 um eco de risada conhecida.<\/p>\n\n\n\n<p>A risada do Rosquinha quando chamava ele de Ch\u00f4 no grupo do WhatsApp \u00e0s quatro da manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu sem querer.<\/p>\n\n\n\n<p>O peito apertou.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo eco veio das sombras entre as ru\u00ednas.<\/p>\n\n\n\n<p>Capa escura, capuz baixo, passos silenciosos. Parou na frente dele e ergueu o rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Era ele mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota mais velho, barba mais grisalha, olhos fundos de quem carregou demais por tempo demais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cada ru\u00edna tem dono \u2014 falou o outro Jota, voz cansada. \u2014 E tu insiste em carregar todas.<\/p>\n\n\n\n<p>A sombra estendeu a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na palma, uma foto antiga: Pop\u00f3, Deco, Beag\u00e1, fam\u00edlia, todos rindo numa churrasqueira na casa do Cap\u00e3o. Jota sentiu o cheiro de carv\u00e3o e de carne assada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eles ainda est\u00e3o a\u00ed fora. Mas tu t\u00e1 aqui dentro, tentando consertar o que nunca quebrou sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>A sombra se dissolveu em fuma\u00e7a preta, entrou pelo nariz dele como lembran\u00e7a que d\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tossiu, sentiu o gosto de cinza na boca.<\/p>\n\n\n\n<p>Caiu de joelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro eco veio devagar, passos firmes, bra\u00e7os cruzados.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabelos castanhos ondulados, tra\u00e7os finos, aquele sorriso largo que aparecia sem aviso e iluminava o ambiente inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhar de quem j\u00e1 viu Jota cair mil vezes e sempre ajudou a levantar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00danica que sempre chamou ele de &#8220;Gera&#8221;, \u00fanica que nunca foi embora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea carrega todo mundo, Gera \u2014 ela disse, voz firme mas carinhosa. \u2014 Menos voc\u00ea mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela se aproximou, descruzou os bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea me liga quando precisa de conserto, Gera \u2014 disse ela, sem acusa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 observa\u00e7\u00e3o. \u2014 Mas voc\u00ea n\u00e3o me liga quando t\u00e1 bem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Daslu foi embora. Satogos sumiu. Little Boobs desapareceu. Mas eu? Eu t\u00f4 aqui desde sempre. E voc\u00ea nem percebe.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela abriu os bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>O abra\u00e7o foi curto, apertado, real.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheirava a amaciante, perfume franc\u00eas e amizade verdadeira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu ainda t\u00f4 aqui, Gera \u2014 sussurrou Mama no ouvido dele. \u2014 Mas voc\u00ea precisa parar de achar que s\u00f3 existe quando t\u00e1 salvando algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>E sumiu como quem sai pela porta da frente, sem drama, deixando o cheiro do abra\u00e7o grudado na pele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou parado, sozinho no meio das ru\u00ednas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentindo o vazio do abra\u00e7o que acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante verde, agora bem menor (quase tamanho humano), aproximou-se devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m j\u00e1 fui eco \u2014 ele disse. \u2014 Achava que for\u00e7a resolvia. Quebrei o mundo inteiro e n\u00e3o consertei nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito soltou completamente e virou uma cobra morta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se abaixou pra pegar. Quando tocou o cadar\u00e7o, o vale inteiro parou de tremer por um segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de capa azul apareceu ao lado dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tr\u00eas ecos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele apontou pro gigante verde, quase humano agora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E ele \u00e9 a raiva que voc\u00ea guarda pra n\u00e3o sentir o resto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota colocou o cadar\u00e7o de novo, devagar, envergonhado, pensativo e ap\u00f3s todo esse processo deu n\u00f3 duplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando terminou, o vale parecia menos hostil.<\/p>\n\n\n\n<p>O vento mudou de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou frio de repente, aquele frio de Curitiba que corta at\u00e9 os ossos.<\/p>\n\n\n\n<p>O ch\u00e3o esfriou sob os p\u00e9s dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo estava vindo.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de capa ergueu a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9u escureceu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ainda tem os que querem te ensinar. Aguenta firme, Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>O vento voltou a soprar, carregando cheiro de terra molhada e etanol distante.<\/p>\n\n\n\n<p>O vale rachou de cima a baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um trov\u00e3o sem som rasgou o c\u00e9u roxo e tr\u00eas novas presen\u00e7as se materializaram como se sempre tivessem estado ali, s\u00f3 esperando a hora certa.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro foi Rand Oliveira, o t\u00e9cnico fantasma.<\/p>\n\n\n\n<p>Macac\u00e3o azul, prancheta na m\u00e3o, sorriso de quem j\u00e1 planejou tudo tr\u00eas vezes antes de come\u00e7ar. Parou a dois passos de Jota, m\u00e3os cruzadas nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea conserta demais, Jota \u2014 disse, voz calma, quase carinhosa. \u2014 Planeja, remenda, segura a barra de todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele deu um passo \u00e0 frente e o ch\u00e3o virou tabuleiro de xadrez gigante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas o caos precisa existir. Sem ele n\u00e3o tem gra\u00e7a. Sem ele n\u00e3o tem voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Com um estalar de dedos, mostrou imagens flutuando no ar:<\/p>\n\n\n\n<p>Jota de joelhos no banheiro, chorando por Donaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota dirigindo o Gol \u00e0s cinco da manh\u00e3 atr\u00e1s de Maju que nunca mais respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segurando a m\u00e3o do irm\u00e3o Maninho ca\u00eddo na porta do banheiro, sabendo que j\u00e1 tinha acabado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ordem \u00e9 ilus\u00e3o, Jota \u2014 sussurrou Rand, j\u00e1 sumindo como sempre sumia no meio de uma frase. \u2014 Eu te ensinei isso desaparecendo quando voc\u00ea mais precisava.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo surgiu do riso.<\/p>\n\n\n\n<p>Um riso que come\u00e7ou baixo e virou gargalhada de hiena louca.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro Costa, fantasiado de Coringa, apareceu pintado de branco, boca rasgada at\u00e9 as orelhas, olhos fundos de quem j\u00e1 morreu mil vezes e voltou rindo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha s\u00f3 o her\u00f3i! \u2014 gritou, rodopiando. \u2014 Corpo pesado de sofrimento tentando salvar o mundo que nem pediu ajuda!<\/p>\n\n\n\n<p>Ele jogou confete preto que virou cinza ao tocar o ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quer saber o segredo, Jotinha? O mundo n\u00e3o quer ser salvo. Quer ser sentido. Quer a porrada, a trai\u00e7\u00e3o, o beijo que d\u00f3i, o &#8220;adeus&#8221; no aeroporto. Quer voc\u00ea chorando no Gol \u00e0s quatro da manh\u00e3 porque \u00e9 a\u00ed que a coisa fica viva!<\/p>\n\n\n\n<p>O palha\u00e7o se aproximou tanto que Jota sentiu o h\u00e1lito de bala de menta e desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se tudo der certo o tempo inteiro\u2026 que gra\u00e7a tem viver?<\/p>\n\n\n\n<p>E explodiu em risada, se desfazendo em fuma\u00e7a colorida que queimava a garganta.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro foi o pior.<\/p>\n\n\n\n<p>Maninho.<\/p>\n\n\n\n<p>Maior que o gigante verde j\u00e1 tinha sido. Corpo de pedra e sombra, olhos que pareciam buracos negros, mas o rosto (o rosto era do irm\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Sorrindo de lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sorria antes do incidente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tudo que existe precisa acabar um dia, irm\u00e3o \u2014 trovejou. \u2014 At\u00e9 voc\u00ea. At\u00e9 eu. At\u00e9 o amor que tu guarda feito trof\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ergueu a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma imagem gigante apareceu no c\u00e9u: Maninho, sorrindo, acenando de longe, depois ca\u00eddo no ch\u00e3o frio do banheiro, m\u00e3o no peito, sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Lutar contra o fim \u00e9 o que te mata devagar. Aceita. Entrega. Deixa ir.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu as pernas falharem.<\/p>\n\n\n\n<p>Caiu de joelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>O tecido vinho rasgou nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>O vale inteiro come\u00e7ou a desabar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedras gigantes caindo, portais se fechando como guilhotinas, o ch\u00e3o se abrindo em abismos de luz negra.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota correu.<\/p>\n\n\n\n<p>O peso do corpo voou pelo musgo, a mochila batendo nas costas como tambor.<\/p>\n\n\n\n<p>Um portal se fechou na frente dele (corte limpo, mortal).<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o ia conseguir desviar.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a\u00ed que aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito desamarrou novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi acidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca foi acidente.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o enrolou no tornozelo com um pux\u00e3o seco, firme, quase aud\u00edvel \u2014 como corda de rapel se fechando.<\/p>\n\n\n\n<p>Travou o p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o tecido apertar, segurar, proteger.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele trope\u00e7ou com for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo inteiro voou pra frente, joelhos bateram no musgo, m\u00e3os arranharam pedra.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00e2mina de luz cortou o ar exatamente onde a nuca dele estava um segundo antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou t\u00e3o perto que ele sentiu o calor, o cheiro de oz\u00f4nio queimado, o zumbido el\u00e9trico que faz o c\u00e9rebro tremer.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois cent\u00edmetros.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou deitado, rosto afundado no musgo, respirando terra, suor, sangue do l\u00e1bio cortado.<\/p>\n\n\n\n<p>O cora\u00e7\u00e3o batia t\u00e3o forte que ele sentia o pulso na garganta.<\/p>\n\n\n\n<p>As m\u00e3os tremiam.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o solto batia de leve na canela.<\/p>\n\n\n\n<p>Como quem diz: &#8220;Calma, Jota. Eu te peguei.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E pela primeira vez em 44 anos, Jota entendeu:<\/p>\n\n\n\n<p>O que ele sempre achou que era defeito&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o que soltava em hora errada&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O trope\u00e7o que atrapalhava tudo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;era a \u00fanica coisa que nunca falhou com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque o cadar\u00e7o n\u00e3o soltava em hora errada.<\/p>\n\n\n\n<p>Soltava na hora certa.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre soltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre salvou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ficou ali, deitado, sentindo o musgo frio no rosto, a terra \u00famida nas m\u00e3os, o gosto de sangue na boca.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante verde se abaixou ao lado dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu caiu pra n\u00e3o morrer \u2014 disse, voz grossa, quase emocionada. \u2014 Eu s\u00f3 ca\u00ed pra machucar os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota cuspiu sangue, riu sem gra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o a gente t\u00e1 aprendendo, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>O tit\u00e3 de pedra com o rosto de Maninho j\u00e1 tinha sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>O Coringa tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand desapareceu como sempre fez.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as palavras ficaram grudadas na pele.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de capa azul apareceu de p\u00e9 ao lado deles.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00daltimo ato. Agora voc\u00ea decide se carrega tudo\u2026 ou se queima o que n\u00e3o serve mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele apontou para a mochila aberta no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O caderno de capa gasta estava ali, p\u00e1ginas soltas tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se levantou devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito balan\u00e7ava solto, sujo de terra, vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos terminar isso \u2014 disse.<\/p>\n\n\n\n<p>O vale parou de desabar.<\/p>\n\n\n\n<p>As pedras ficaram suspensas no ar, como se algu\u00e9m tivesse apertado pause no fim do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou de p\u00e9 no centro, a regata rasgada nas costas, suor e sangue misturados, o corpo tremendo de cansa\u00e7o e de algo maior.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de capa azul estava a tr\u00eas passos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez, n\u00e3o flutuava. Pisava no ch\u00e3o como gente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 viu tudo. Raiva, medo, amor, perda, riso, plano, fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele apontou pro gigante verde, agora apenas um homem alto, careca, olhos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele tamb\u00e9m viu.<\/p>\n\n\n\n<p>O ex-gigante deu um passo \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu carreguei o mundo nas costas pra n\u00e3o sentir o buraco. Voc\u00ea carregou o buraco pra n\u00e3o quebrar o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele estendeu a m\u00e3o enorme.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deu empate, irm\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota apertou a m\u00e3o. Sentiu osso, calo, calor humano.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de capa azul abriu espa\u00e7o entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 falta uma coisa. O que voc\u00ea n\u00e3o consegue soltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou para a mochila no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu. Tirou o caderno, j\u00e1 t\u00e3o manuseado que a capa estava quase solta.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu na \u00faltima p\u00e1gina escrita.<\/p>\n\n\n\n<p>Letra grande, nervosa, tinta azul borrada:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Enquanto o cadar\u00e7o estiver solto, ainda d\u00e1 tempo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele rasgou a p\u00e1gina com as duas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel tremeu como se tivesse vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Tirou o isqueiro amarelo do bolso da cal\u00e7a moletom.<\/p>\n\n\n\n<p>Girou a rodinha. Chama forte, viva, perfeita.<\/p>\n\n\n\n<p>Encostou a chama no canto da folha.<\/p>\n\n\n\n<p>O fogo pegou r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>A p\u00e1gina queimou inteira na m\u00e3o dele, cinza subindo em espiral azulada que desenhou no ar formas vagas \u2014 rodas girando, pedras caindo, um cadar\u00e7o balan\u00e7ando solto.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a \u00faltima brasa morreu, o vale inteiro se iluminou com luz suave, quase manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>O vale n\u00e3o era mais lugar de guerra. Era de testemunho. E quem precisava ser protegido era exatamente o homem que nunca aprendeu a se incluir na conta.<\/p>\n\n\n\n<p>As pedras suspensas desceram devagar, se encaixaram no ch\u00e3o como pe\u00e7as de quebra-cabe\u00e7a antigo.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9u perdeu o roxo doente, virou azul de Curitiba no inverno.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A minha perda tinha nome de cidade \u2014 disse o ex-gigante, baixinho, quase pra si. \u2014 A tua tem nome de bairro. O tamanho do buraco \u00e9 o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>O ex-gigante deu um abra\u00e7o de urso que quase quebrou as costelas de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Valeu por me lembrar que eu tamb\u00e9m sou gente \u2014 murmurou, e se desfez em luz verde que subiu pro c\u00e9u e sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de capa azul sorriu (primeira vez que Jota viu sorriso nele).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O tempo agora anda pra frente. E voc\u00ea anda junto.<\/p>\n\n\n\n<p>Acenou com a cabe\u00e7a e desapareceu como fuma\u00e7a de etanol.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou sozinho no meio do vale que agora era a Pedreira do Orleans de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O lago seco, as paredes de pedra, o cheiro de mato e terra.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila estava fechada, mais leve.<\/p>\n\n\n\n<p>O caderno dentro dela agora tinha uma p\u00e1gina a menos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou para o p\u00e9 direito.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o balan\u00e7ava solto, sujo, vivo, inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Subiu os trezentos metros de volta, pisando firme.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou pelos galp\u00f5es abandonados, pela ponte destru\u00edda, at\u00e9 chegar no Gol Bolinha estacionado, banco do motorista afundado.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Girou a chave. O motor 1.0 16v gritou, tossiu, pegou.<\/p>\n\n\n\n<p>Abaixou o vidro el\u00e9trico dianteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota engatou a r\u00e9, deu meia-volta na terra batida, apontou pro asfalto do contorno norte.<\/p>\n\n\n\n<p>O vento frio de Curitiba entrou, bateu na cara suada, levou embora o resto de cinza que ainda estava na pele.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele acelerou.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito solto, livre.<\/p>\n\n\n\n<p>E pela primeira vez em muito tempo, Jota dirigiu sem olhar pelo retrovisor.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque o tempo, agora, andava pra frente.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele tamb\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Gol Bolinha cinza Urban 2003 parou antes da ponte destru\u00edda na Pedreira do Orleans. Motor 1.0 16v gritava suspiros de etanol e tinha aquele cheiro doce e forte de cana queimada que sai do escapamento quando o bicho t\u00e1 quente demais. 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