{"id":671,"date":"2026-01-06T00:15:00","date_gmt":"2026-01-06T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=671"},"modified":"2026-03-11T17:59:15","modified_gmt":"2026-03-11T20:59:15","slug":"arvore-que-nao-acaba","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/arvore-que-nao-acaba\/","title":{"rendered":"\u00c1rvore que N\u00e3o Acaba"},"content":{"rendered":"\n<p>Jota dirige o Gol Bolinha Cinza Urban pela BR-277 com o pai ao lado. O crach\u00e1 da Gr\u00e1fica Vicentina balan\u00e7a no retrovisor, pl\u00e1stico amarelado batendo no vidro a cada lombada. O evento acabou faz meia hora, mas o cheiro de caf\u00e9 velho e sala fechada ainda gruda na roupa. Camiseta regata vinho marcada de suor, rasgo no ombro esquerdo deixando a pele respirar.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai olha pela janela, bra\u00e7o apoiado na porta. M\u00e3os de tip\u00f3grafo, dedos com tinta que n\u00e3o sai mais. Sil\u00eancio de sempre. S\u00f3 que hoje o sil\u00eancio pesa mais.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1rvore aparece.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rvore. \u00c9 um organismo \u00fanico que engoliu a margem inteira da rodovia. Tronco cont\u00ednuo, grotesco, galhos entrela\u00e7ados formando t\u00fanel vivo. Copa t\u00e3o fechada que o sol vira lembran\u00e7a. Jota diminui sem pensar. O Gol Bolinha geme em segunda.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai fala, voz baixa, quase surpresa: \u2014 Que \u00e1rvore grande\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>O pai olha pra \u00e1rvore como quem reconhece algo. Jota assente. Engata terceira. Segue.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco minutos depois o pai fala de novo: \u2014 A tua m\u00e3e\u2026 como era mesmo o nome dela?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota aperta o volante. O cora\u00e7\u00e3o d\u00e1 um pulo seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gertrudes, pai.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gertrudes\u2026 \u2014 o velho repete, como se provasse a palavra. \u2014 Faz tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1rvore continua dos dois lados. Quil\u00f4metros. A mesma raiz. O mesmo tronco. O mesmo corpo vegetal engolindo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito do t\u00eanis se solta.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pro p\u00e9, pro cadar\u00e7o arrastando no pedal. Aquele filho da puta de novo. Sempre no momento errado. Sempre exato.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai vira pra ele: \u2014 E tu\u2026 tu \u00e9 o filho de quem mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pisa no freio. Para no acostamento. O Gol morre. O crach\u00e1 para de balan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pro pai. Pro cadar\u00e7o solto. Pra \u00e1rvore l\u00e1 fora que n\u00e3o termina nunca.<\/p>\n\n\n\n<p>Entende sem entender.<\/p>\n\n\n\n<p>As ra\u00edzes j\u00e1 est\u00e3o subindo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pode ficar parado.<\/p>\n\n\n\n<p>Engata. Volta pra pista. O cadar\u00e7o fica solto, arrastando.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular toca. Viva-voz.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ch\u00f4, desce na Pedreira do Orleans, t\u00e1 osso aqui de frio, mas t\u00e1 bom, Ch\u00f4. Vem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o Rosquinha. Vento e risada ao fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00f4 indo.<\/p>\n\n\n\n<p>Curva \u00e0 esquerda. Pega o contorno norte. Neblina sobe do vale, engole a pista. O Gol desce devagar, freio reclamando. Faz o retorno. Entra na estradinha. A pedreira aparece \u2013 buraco fundo na terra, \u00e1gua parada refletindo c\u00e9u cinza.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando estaciona, o pai j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 no banco.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o saiu. N\u00e3o desceu. N\u00e3o abriu a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Simplesmente n\u00e3o est\u00e1 mais.<\/p>\n\n\n\n<p>O crach\u00e1 continua balan\u00e7ando sozinho. O cheiro de tinta tipogr\u00e1fica antiga fica no estofado, impregnado, como se o pai tivesse derramado a vida inteira ali e evaporado junto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pega a mochila laranja do banco de tr\u00e1s. Desce.<\/p>\n\n\n\n<p>O vento corta. Fogueira acesa no centro. Galera espalhada \u2014 Rosquinha filmando, Rand Oliveira de macac\u00e3o azul mexendo em algo que parece ferramenta mas n\u00e3o \u00e9, Mama e Cabrito abra\u00e7ados perto do fogo. E no meio de tudo, F\u00e1bio Porchat de sunga laranja, pele arrepiada, olhando pro fogo sem express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos tremendo. Todos quietos demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha acena: \u2014 Ch\u00f4! Pensei que tu n\u00e3o vinha mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Porchat vira a cabe\u00e7a devagar: \u2014 E a\u00ed, Agnaldo? \u2014 a voz sai baixa, quase pedindo confirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o corrige. Deixa o nome errado grudar. At\u00e9 quem \u00e9 famoso j\u00e1 n\u00e3o sabe mais quem \u00e9 quem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota chega perto do fogo. Ningu\u00e9m pergunta do pai. Como se soubessem. Como se j\u00e1 tivessem passado por isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand aparece do lado, fantasma de sempre: \u2014 Ele sumiu no carro?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assente.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand volta pra sombra. \u2014 A gente t\u00e1 perdendo muita coisa, Jota. Muito nome. Muito rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha tenta rir, mas a voz sai torta: \u2014 Ch\u00f4, tu lembra quando a gente\u2026 \u2014 para. \u2014 N\u00e3o, pera. Esqueci.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota procura na mochila. Caderno de capa dura marrom. Precisa anotar. Precisa registrar antes que suma.<\/p>\n\n\n\n<p>Abre o caderno. As p\u00e1ginas sobre o pai est\u00e3o em branco.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o apagadas. Brancas. Como se nunca tivessem sido escritas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fecha o caderno. Guarda.<\/p>\n\n\n\n<p>A frase vem clara, urgente: N\u00e3o posso esquecer de pesquisar qual \u00e9 a maior \u00e1rvore de Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1rvore da BR ainda late na cabe\u00e7a. Precisa ter nome. Precisa ter fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Procura o isqueiro no bolso. O amarelo. O sobrevivente. Sempre ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Acende pra ver melhor o caderno na sombra da pedreira.<\/p>\n\n\n\n<p>A chama pisca. O cheiro de eucalipto vem com ela.<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro continua aceso na m\u00e3o, mas a m\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 na pedreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Luz amarelada. Poeira parada no ar. Aparelhos enferrujados, espuma rasgada. Academia fechada. Cheiro de mofo e tempo esquecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Na parede do fundo, quadro enorme. \u00c1rvore geneal\u00f3gica em moldura rachada.<\/p>\n\n\n\n<p>No topo, foto antiga: Oscar Schmidt, uniforme da sele\u00e7\u00e3o, m\u00e3o na bola.<\/p>\n\n\n\n<p>Do nome dele desce uma linha preta grossa at\u00e9 uma foto pequena no canto, quase apagada: Larissa Albuquerque. Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sente o peito apertar.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa.<\/p>\n\n\n\n<p>A que quase virou fam\u00edlia. A que quase entrou na \u00e1rvore.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea esqueceu meu sobrenome, n\u00e9? \u2014 voz atr\u00e1s dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa encostada na barra de supino, bra\u00e7os cruzados. Real. Mais velha. Cansada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o responde.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Todo mundo esquece \u2014 ela continua, sem acusar. \u2014 \u00c9 assim que come\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela aponta pro quadro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olha pra \u00e1rvore geneal\u00f3gica. Oscar Schmidt no topo. Larissa embaixo. Linha preta descendo como raiz invertida.<\/p>\n\n\n\n<p>Pai esquecendo o nome da m\u00e3e. Pai esquecendo o nome do filho. \u00c1rvore apagando os galhos mais novos primeiro. Sempre de baixo pra cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa empurra uma porta de metal sem ma\u00e7aneta: \u2014 Vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar vira gelatina. Jota atravessa com esfor\u00e7o, isqueiro ainda aceso na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado: estacionamento vazio. Asfalto rachado. Luzes de s\u00f3dio laranja zumbindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa some.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 resta o cheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Eucalipto.<\/p>\n\n\n\n<p>Forte, fresco, invadindo tudo. O mesmo da \u00e1rvore da BR. Jota sempre soube. Sempre conheceu. S\u00f3 n\u00e3o queria lembrar.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1rvore n\u00e3o \u00e9 planta. \u00c9 pai sumindo sem abrir a porta. \u00c9 Rosquinha esquecendo a frase no meio. \u00c9 Porchat chamando ele de Agnaldo. \u00c9 Larissa quase virando galho. \u00c9 raiz no calcanhar. \u00c9 nome que some antes do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guarda o celular sem pesquisar. A maior \u00e1rvore de Curitiba n\u00e3o tem nome. Ela tem ra\u00edzes que atravessam asfalto, lembran\u00e7as, tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Apaga o isqueiro. A m\u00e3o queimou onde segurou tempo demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha pro cadar\u00e7o direito ainda solto, arrastando no ch\u00e3o sujo do estacionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Se abaixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Amarra.<\/p>\n\n\n\n<p>Levanta. A mochila laranja pesa no ombro. A camiseta regata vinho gruda na pele fria.<\/p>\n\n\n\n<p>O vento do estacionamento sopra eucalipto.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o solta de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele come\u00e7a a caminhar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabe pra onde, mas sabe que parar seria deixar a raiz subir.<\/p>\n\n\n\n<p>E enquanto o cadar\u00e7o ficar solto, enquanto o isqueiro acender, enquanto a mochila laranja estiver no ombro \u2014 enquanto isso, ele ainda \u00e9 Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda \u00e9 Geraldo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda \u00e9 o filho de algu\u00e9m cujo nome a \u00e1rvore ainda n\u00e3o comeu por completo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jota dirige o Gol Bolinha Cinza Urban pela BR-277 com o pai ao lado. O crach\u00e1 da Gr\u00e1fica Vicentina balan\u00e7a no retrovisor, pl\u00e1stico amarelado batendo no vidro a cada lombada. O evento acabou faz meia hora, mas o cheiro de caf\u00e9 velho e sala fechada ainda gruda na roupa. 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