{"id":722,"date":"2026-01-12T00:15:00","date_gmt":"2026-01-12T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=722"},"modified":"2026-03-26T15:36:50","modified_gmt":"2026-03-26T18:36:50","slug":"laser-em-curitiba","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/laser-em-curitiba\/","title":{"rendered":"Laser em Curitiba"},"content":{"rendered":"\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava estacionado na sombra de uma \u00e1rvore velha na Pra\u00e7a Os\u00f3rio, duas portas fechadas, vidro emba\u00e7ado pelo frio da tarde. Jota saiu do carro com a mochila laranja pendurada no ombro direito, camiseta regata vinho grudada no peito pelo suor frio, t\u00eanis surrado batendo no asfalto rachado com o cadar\u00e7o direito solto como sempre. Ele nunca amarrava aquela porra direito.<\/p>\n\n\n\n<p>O Edif\u00edcio Tijucas erguia-se \u00e0 frente como uma boca de concreto aberta pro c\u00e9u cinza. Pr\u00e9dio antigo, fachada descascada, janelas escuras demais mesmo pra tarde nublada. Jota entrou, atravessou o sagu\u00e3o de piso xadrez gasto, e foi at\u00e9 o elevador enferrujado que gemia a cada andar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentia que precisava estar nesse pr\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Vig\u00e9simo s\u00e9timo andar.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta do apartamento estava entreaberta. Jota empurrou com o ombro, entrou. O lugar era vazio: paredes descascadas, ch\u00e3o de t\u00e1bua rangendo, uma janela grande aberta pro nada. Vento gelado entrava como l\u00e2mina invis\u00edvel, cortando a pele, trazendo o cheiro de chuva que nunca chegava.<\/p>\n\n\n\n<p>Curitiba l\u00e1 embaixo parecia respirar errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pr\u00e9dios se inclinavam levemente, como se estivessem b\u00eabados. O c\u00e9u cinza tinha nuances de vermelho nas bordas, como se estivesse sangrando devagar. As ruas formavam \u00e2ngulos que n\u00e3o faziam sentido, curvas imposs\u00edveis, esquinas que dobravam duas vezes pro mesmo lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota caminhou at\u00e9 a varanda, encostou na grade de ferro frio. A mochila laranja pesava nas costas. Dentro dela, o caderno de capa dura marrom batia contra as costas a cada movimento. O isqueiro amarelo queimava no bolso da cal\u00e7a, pesado, quente, como se estivesse vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>E o cadar\u00e7o direito do t\u00eanis surrado enroscou numa barra de ferro solta da varanda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele trope\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a\u00ed que o ataque veio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota nem viu direito. S\u00f3 sentiu o empurr\u00e3o brutal, m\u00e3os invis\u00edveis ou reais demais, jogando o corpo dele contra o canto da sacada. Por um instante, o equil\u00edbrio sumiu. O mundo virou noventa graus. O vazio l\u00e1 embaixo abriu a boca, vinte e sete andares de queda livre, asfalto esperando l\u00e1 no fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota esticou a m\u00e3o, agarrou a grade.<\/p>\n\n\n\n<p>Caiu de joelhos no ch\u00e3o de concreto rachado da varanda, ar saindo dos pulm\u00f5es num grunhido. E foi exatamente nesse segundo que o agressor passou por cima dele, corpo desequilibrado demais, r\u00e1pido demais, sem conseguir parar.<\/p>\n\n\n\n<p>A pessoa que o empurrou foi cortada ao meio. Algu\u00e9m que o cortou voou pro vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o gritou. S\u00f3 sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou de joelhos, respirando fundo, cora\u00e7\u00e3o batendo na garganta. O cadar\u00e7o do t\u00eanis ainda estava enroscado na barra de ferro. Ele olhou pro pr\u00f3prio p\u00e9, confuso, e ent\u00e3o ouviu a voz.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cuidado, Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira estava parado na porta da varanda, macac\u00e3o azul sujo de graxa, ferramentas penduradas no cinto, barba por fazer, olhos cansados mas atentos. Ele segurava uma chave inglesa na m\u00e3o direita, como se tivesse acabado de consertar algo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rand? Que que voc\u00ea\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Rand j\u00e1 tinha sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou. A porta da varanda estava vazia. Ningu\u00e9m. S\u00f3 o vento frio entrando, s\u00f3 o som distante de Curitiba respirando errado l\u00e1 embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se levantou devagar, desamarrou o cadar\u00e7o do ferro, e foi nesse momento que sentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Subindo pelos dedos, atravessando os bra\u00e7os, enchendo o peito como eletricidade pura. Ele levantou a m\u00e3o, olhou pras pr\u00f3prias palmas. Tinha empurrado o agressor sem tocar nele. Algo dentro dele acordou no limite.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota correu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desceu as escadas do Edif\u00edcio Tijucas tr\u00eas degraus de cada vez, mochila laranja batendo nas costas, camiseta regata vinho grudada de suor. O pr\u00e9dio parecia n\u00e3o ter fim: corredores que dobravam pra lugar nenhum, portas que se repetiam, n\u00fameros de apartamento que n\u00e3o seguiam ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando finalmente chegou na rua, o ar estava ainda mais frio.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos olhavam para cima, assustados, mas continuavam seu caminho, como se estivessem fugindo de algo invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o Jota viu os dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama apareceu primeiro, correndo pela cal\u00e7ada, cabelo preso num rabo de cavalo, jaqueta jeans aberta, olhos arregalados. Cabrito vinha atr\u00e1s dela, mais alto, ombros largos, barba cheia, m\u00e3os nos bolsos mas tenso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gera! \u2014 Mama gritou, parando na frente dele, ofegante. \u2014 Voc\u00ea viu o que est\u00e1 acontecendo aqui?<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto Jota respirava um pouco Cabrito emendou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Escutamos explos\u00f5es, barulhos, parece que de todo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo, tomou f\u00f4lego.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Mas estava no pr\u00e9dio e algu\u00e9m tentou me empurrar l\u00e1 de cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama arregalou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim empurrar?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o sei, s\u00f3 sei que quase ca\u00ed e senti medo e fugi.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabrito olhou em volta, nervoso, depois de volta pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea viu quem foi?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o. S\u00f3\u2026 voou antes de mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio pesado. Mama abriu a boca pra perguntar mais, mas Cabrito pegou ela pelo bra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Depois a gente entende. Estou com uma sensa\u00e7\u00e3o estranha, vamos sair daqui agora, vem com a gente, t\u00e1 perigoso pra caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>Mal tinham dado tr\u00eas passos, o laser surgiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma linha vermelha, fina como fio de cabelo, silenciosa como respira\u00e7\u00e3o. Cortava o ar sem som, sem calor vis\u00edvel, s\u00f3 aquela luz vermelha intensa que atravessava tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher vinha andando na dire\u00e7\u00e3o deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Loira, casaco cinza, bolsa pendurada no ombro, olhando pro celular, distra\u00edda. O laser passou por ela de cima pra baixo, da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Por um segundo, nada aconteceu. Ela continuou andando, dois passos, tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o o corpo se abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Metade direita caiu pro lado direito. Metade esquerda pro lado esquerdo. O corte era t\u00e3o perfeito que dava pra ver cada camada: pele separada limpa, m\u00fasculo vermelho-escuro exposto, \u00f3rg\u00e3os ainda pulsando por um instante antes de desligar, osso branco cortado como se fosse manteiga mole. A coluna vertebral ficou exposta no meio, cada v\u00e9rtebra dividida ao meio com precis\u00e3o cir\u00fargica.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o teve grito.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o som \u00famido de carne batendo no asfalto, duas metades caindo ao mesmo tempo, sangue come\u00e7ando a escorrer devagar, formando po\u00e7a vermelha que se espalhou pelos paralelep\u00edpedos da Pra\u00e7a Os\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama gritou.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabrito puxou ela pro ch\u00e3o, segurando pelos ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>E o laser apareceu pr\u00f3ximo a Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Horizontal.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou pela barriga dele na altura do umbigo, atravessando a camiseta regata vinho, rasgando o tecido como se fosse papel molhado. Jota sentiu o calor primeiro: queimadura profunda, fogo cortando pele, m\u00fasculo, v\u00edsceras.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>A camiseta estava rasgada ao meio na horizontal, mas n\u00e3o completamente, somente uns dez cent\u00edmetros. A pele da barriga tinha um corte limpo, saiu um pouco de sangue, mas a borda cauterizada pelo calor mantinha ainda aberta. S\u00f3 dava pra ver um fino filete de sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o do\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o do\u00eda como deveria.<\/p>\n\n\n\n<p>O laser parou e n\u00e3o feriu ou machucou mais ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou as duas m\u00e3os, colocou uma de cada lado do corte, e empurrou. Com for\u00e7a mental pura, com vontade bruta, com poder que ele nem sabia de onde vinha. A carne respondeu. As bordas do corte se aproximaram, se tocaram, se fundiram. A pele voltou a fechar como se nunca tivesse sido cortada, deixando s\u00f3 uma linha rosa-clara no meio da barriga.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama deu um passo \u00e0 frente, estendeu a m\u00e3o como se fosse tocar o corte, mas parou no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gera, que que\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>O laser riscou de novo, mais perto. Cabrito puxou ela novamente pro ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Saiam daqui \u2014 Jota disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Correram. Se esconderam atr\u00e1s de um muro baixo, respira\u00e7\u00e3o curta, cora\u00e7\u00e3o batendo forte.<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro amarelo no bolso come\u00e7ou a queimar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era calor normal. Era fogo atravessando o tecido, marcando a pele da coxa. Jota enfiou a m\u00e3o no bolso, pegou o isqueiro. Estava t\u00e3o quente que quase largou. A chama acendeu sozinha, azul intensa, apontando pra cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Pro Edif\u00edcio Tijucas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, sentiu. Uma presen\u00e7a no topo do pr\u00e9dio, pesada, antiga, chamando.<\/p>\n\n\n\n<p>E Curitiba tremeu.<\/p>\n\n\n\n<p>As ruas come\u00e7aram a se inclinar. Pr\u00e9dios se dobraram devagar, como se fossem feitos de borracha quente. O c\u00e9u vermelho pulsou mais forte, descendo como teto desabando. O asfalto rachou, paralelep\u00edpedos se soltando, formando buracos que n\u00e3o tinham fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama segurou o bra\u00e7o de Cabrito, olhos arregalados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A cidade t\u00e1\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei \u2014 Jota cortou, olhando pro isqueiro. A chama azul n\u00e3o mentia, s\u00f3 apontava. \u2014 \u00c9 l\u00e1 em cima. Eu devo subir. J\u00e1 sentia isso desde que entrei no pr\u00e9dio, mas tive medo. Se eu n\u00e3o for, mais gente morre.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama deu um passo \u00e0 frente, olhou nos olhos dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gera, o que t\u00e1 acontecendo com voc\u00ea? O laser te cortou, mas voc\u00ea\u2026 fechou o corte. Como?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tocou o peito, onde a linha rosa ainda ardia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei explicar. Mas eu senti. O laser n\u00e3o cortou pra matar. Cortou pra avisar. Quem t\u00e1 l\u00e1 em cima n\u00e3o quer voc\u00eas. Quer eu. Se eu ficar aqui, vai matar mais pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio pesado. O pr\u00e9dio gemia ao fundo, Curitiba tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabrito olhou pra Mama, depois pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 maluco? Como voc\u00ea sabe disso tudo?<\/p>\n\n\n\n<p>Cabrito olhou pro c\u00e9u vermelho pulsando, depois pro Edif\u00edcio Tijucas que parecia crescer, sugar tudo pra dentro, depois pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se tu pensa assim, ent\u00e3o vai l\u00e1, eu n\u00e3o iria \u2014 disse, firme. \u2014 Recomendo correr pro outro lado, o mais longe daqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama hesitou, mas Cabrito pegou ela pela m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela olhou pra tr\u00e1s uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o v\u00e1, Gera.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acenou, guardou o isqueiro (ainda quente, ainda aceso no bolso).<\/p>\n\n\n\n<p>E voltou pro Edif\u00edcio Tijucas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>O sagu\u00e3o estava vazio. Piso xadrez rachado, paredes suando umidade, sil\u00eancio pesado. Jota olhou pro elevador enferrujado. Porta entreaberta, cabo de a\u00e7o partido pendendo solto pelo buraco escuro. O laser tinha cortado.<\/p>\n\n\n\n<p>Escadas ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou a subir, cora\u00e7\u00e3o batendo r\u00e1pido demais, respira\u00e7\u00e3o curta. A m\u00e3o direita enfiou no bolso da cal\u00e7a, pegou o isqueiro amarelo, acendeu. A chama era amarela, normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas degraus depois acendeu de novo. A chama tremeu, ficou azul nas bordas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais alguns degraus. Acendeu outra vez. A chama agora era totalmente azul, mais alta, queimando forte sem vento nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto mais subia, mais azul a chama ficava.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m estava esperando l\u00e1 em cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada degrau que subia, sentia o medo crescer.<\/p>\n\n\n\n<p>Medo de quem era o homem que esperava. Medo de Mama e Cabrito morrerem l\u00e1 embaixo. Medo de n\u00e3o conseguir segurar Curitiba. Medo de cair do vig\u00e9simo s\u00e9timo andar de novo. Medo de tudo desmoronar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao subir encontrava pessoas fatiadas, mas somente partes, parecia que pouco antes de Jota chegar ali, essas pessoas eram eliminadas, algu\u00e9m estava limpando o caminho para ele subir.<\/p>\n\n\n\n<p>E quanto mais subia, mais medo sentia e algo dentro dele crescia.<\/p>\n\n\n\n<p>For\u00e7a subindo pelos bra\u00e7os, m\u00fasculos ficando tensos, reflexos acelerando. O corpo todo come\u00e7ou a brilhar: aura fraca no come\u00e7o, azul-clara, transparente. Depois ficou mais forte, mais densa, cor mudando pra verde, depois dourada, depois vermelha.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou no meio da escada, olhou pras pr\u00f3prias m\u00e3os. A aura vermelha pulsava ao redor dos dedos como fogo frio. Ele fechou o punho, sentiu o poder se concentrar, e quando abriu a m\u00e3o de novo uma onda de for\u00e7a invis\u00edvel explodiu pra fora, rachando a parede de concreto ao lado.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima escada rangeu mais forte. O ar ficou mais frio, mais fino. Cheiro de ferrugem e oz\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>O terra\u00e7o do Edif\u00edcio Tijucas era um quadrado de concreto rachado, cercado por grade baixa de ferro enferrujado, c\u00e9u aberto em cima. Curitiba l\u00e1 embaixo parecia uma maquete quebrada: pr\u00e9dios inclinados, ruas tortas, c\u00e9u vermelho-escuro sangrando nas bordas. O vento soprava forte, gelado, trazendo o cheiro de tempestade que nunca chegava.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele estava l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Alto. Mais de dois metros f\u00e1cil. Corpo coberto de cicatrizes que brilhavam como brasas apagando devagar, linhas vermelhas e douradas percorrendo os bra\u00e7os, o peito, o pesco\u00e7o. Aura preta e densa ao redor do corpo, vibrando com poder antigo, cansado, mas ainda letal. Olhos fundos, barba grisalha, m\u00e3os grandes e cheias de calos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota reconheceu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabia de onde. N\u00e3o sabia quando. Mas conhecia aquele homem. J\u00e1 tinha lutado com ele antes. J\u00e1 tinha vencido ele antes. Em outro sonho, em outra vida, em outra vers\u00e3o de Curitiba que n\u00e3o existia mais.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem das cicatrizes sorriu. Um sorriso cansado, respeitoso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea demorou, Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou a tr\u00eas metros de dist\u00e2ncia, camiseta regata vinho rasgada no meio, aura vermelha pulsando ao redor do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu te conhe\u00e7o \u2014 Jota disse, voz rouca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Conhece \u2014 o homem confirmou. \u2014 Faz tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele deu um passo \u00e0 frente, m\u00e3os nos bolsos, relaxado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 me quebrou antes. Agora eu vim devolver o favor.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota franziu a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n\n\n\n<p>O homem das cicatrizes n\u00e3o respondeu. S\u00f3 tirou algo do bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma caixa de metal. Pequena, do tamanho de duas m\u00e3os juntas, pesada, fria. A superf\u00edcie estava coberta de arranh\u00f5es profundos, marcas de batalha, amassados que pareciam ter sido feitos por golpes imposs\u00edveis. N\u00e3o tinha fechadura, n\u00e3o tinha dobradi\u00e7a vis\u00edvel. S\u00f3 uma tampa que parecia fundida no corpo da caixa.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem das cicatrizes segurou a caixa com as duas m\u00e3os, estendeu pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Toma. Abre.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota hesitou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que? Por que me atacou? O que tem dentro?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que voc\u00ea precisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou a caixa. Era mais pesada do que parecia, como se tivesse um peda\u00e7o de estrela morta l\u00e1 dentro. A superf\u00edcie era gelada, t\u00e3o fria que queimava as m\u00e3os. Ele olhou pro homem das cicatrizes, procurando sinal de armadilha, mas s\u00f3 encontrou aquele sorriso cansado e honesto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segurou a tampa da caixa.<\/p>\n\n\n\n<p>E abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Luz.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era luz branca, nem dourada, nem nenhuma cor que tivesse nome. Era luz pura, como se fosse a ess\u00eancia de todas as cores ao mesmo tempo, concentrada num ponto imposs\u00edvel. A luz saiu da caixa como explos\u00e3o silenciosa, atravessou as m\u00e3os de Jota, subiu pelos bra\u00e7os, entrou no peito, encheu os pulm\u00f5es, queimou cada c\u00e9lula, cada nervo, cada pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota gritou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o de dor. De transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A aura ao redor do corpo dele explodiu. Vermelho virou dourado, dourado virou branco, branco virou algo que n\u00e3o tinha cor. O poder multiplicou mil vezes em um segundo. Cada batida do cora\u00e7\u00e3o era um terremoto. Cada respira\u00e7\u00e3o era um furac\u00e3o. O corpo inteiro vibrava como se fosse feito de energia s\u00f3lida.<\/p>\n\n\n\n<p>Curitiba l\u00e1 embaixo tremeu de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Pr\u00e9dios pararam de se inclinar. Ruas voltaram a fazer sentido. O c\u00e9u vermelho come\u00e7ou a clarear, dourado subindo pelas bordas, empurrando o sangue pra longe.<\/p>\n\n\n\n<p>E o laser, aquela linha vermelha que cortava tudo, apagou. Simplesmente deixou de existir, como se nunca tivesse sido real.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota caiu de joelhos no concreto do terra\u00e7o, mochila laranja escorregando das costas, camiseta regata vinho rasgada caindo em peda\u00e7os. A aura ao redor dele pulsava t\u00e3o forte que o ar tremia, ondas de calor distorcendo a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem das cicatrizes abaixou, ficou de c\u00f3coras na frente dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bem-vindo ao pr\u00f3ximo n\u00edvel, Jota \u2014 disse, voz suave.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou a cabe\u00e7a, olhos brilhando com luz pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quem \u00e9 voc\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>O homem sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota insistiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por que atacar os outros? Por que me atacar?<\/p>\n\n\n\n<p>O homem s\u00f3 sorria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Jota conseguiu ficar de p\u00e9 de novo, o homem das cicatrizes ainda estava l\u00e1. Ou n\u00e3o estava. Era dif\u00edcil dizer. A figura parecia oscilar entre presente e ausente, s\u00f3lida e transparente, como se estivesse saindo de fase com a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pras pr\u00f3prias m\u00e3os. A aura tinha diminu\u00eddo, mas ainda pulsava fraca ao redor dos dedos, branca e dourada, quente mas n\u00e3o queimando. O poder estava l\u00e1, controlado agora, obediente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele pegou a mochila laranja do ch\u00e3o, colocou nas costas. O caderno de capa dura marrom ainda estava l\u00e1 dentro, intacto. O isqueiro amarelo ainda queimava no bolso da cal\u00e7a. O t\u00eanis surrado ainda tinha o cadar\u00e7o direito solto, batendo no tornozelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro homem das cicatrizes uma \u00faltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem acenou com a cabe\u00e7a, lento, respeitoso.<\/p>\n\n\n\n<p>E sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou n\u00e3o sumiu. Jota piscou, e quando abriu os olhos de novo o terra\u00e7o estava vazio. S\u00f3 ele, s\u00f3 o vento frio, s\u00f3 Curitiba l\u00e1 embaixo respirando normal de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>O elevador do Edif\u00edcio Tijucas tinha voltado ao normal, como se nada tivesse acontecido. Jota desceu por ele, observando o cabo de a\u00e7o intacto, a porta funcionando suave.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando saiu do elevador no t\u00e9rreo, Mama e Cabrito estavam no sagu\u00e3o. Tinham voltado quando notaram que tudo parecia ter retornado ao normal. Os olhos deles se arregalaram quando viram Jota aparecer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gera \u2014 Mama levantou, caminhou at\u00e9 ele. \u2014 Voc\u00ea t\u00e1 bem?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra ela, depois pro Cabrito. A mulher cortada ao meio tinha sumido. N\u00e3o tinha corpo, n\u00e3o tinha sangue, n\u00e3o tinha nada. Como se nunca tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00f4 \u2014 Jota respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabrito olhou pro corpo de Jota, procurando o corte na barriga. Mas n\u00e3o tinha nada. S\u00f3 uma linha rosa-clara na pele, quase invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que aconteceu l\u00e1 em cima? \u2014 Cabrito perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo, olhou pras pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Eles sa\u00edram do Edif\u00edcio Tijucas juntos, os tr\u00eas, Pra\u00e7a Os\u00f3rio j\u00e1 voltando ao normal. Gente andando devagar, olhando pro celular, sem pressa. O c\u00e9u estava cinza de novo, nuvens baixas e pesadas, cheiro de chuva que ainda n\u00e3o tinha chegado.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 continuava estacionado debaixo da \u00e1rvore velha, exatamente onde Jota tinha deixado. Duas portas fechadas, vidro emba\u00e7ado, banco do motorista afundado pelos 110 kg.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu a porta, jogou a mochila laranja no banco do carona, sentou, ajustou o retrovisor. Mama e Cabrito ficaram do lado de fora, olhando pra ele atrav\u00e9s do vidro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai ficar bem? \u2014 Mama perguntou, voz abafada pelo vidro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu cansado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 J\u00e1 t\u00f4 bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabrito bateu no teto do carro, duas vezes, despedida silenciosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ligou o Gol Bolinha. O motor 1.0 16v a etanol tossiu, engasgou, pegou. Cheiro de etanol velho encheu o ar. Jota engatou a primeira, soltou a embreagem sem dire\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica, e saiu devagar pela Pra\u00e7a Os\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>No retrovisor, Mama e Cabrito ficaram pequenos, depois sumiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota dirigiu pelas ruas de Curitiba, que agora faziam sentido de novo. Rua XV, Marechal Deodoro, Avenida Sete de Setembro. Tudo s\u00f3lido, tudo real, tudo normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas dentro dele, o poder ainda pulsava.<\/p>\n\n\n\n<p>Fraco, controlado, mas vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou pro isqueiro amarelo no porta-copos, pro caderno marrom dentro da mochila laranja no banco do carona, pro t\u00eanis surrado no p\u00e9 com o cadar\u00e7o direito solto batendo contra o pedal.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele j\u00e1 n\u00e3o era mais o que foi cortado.<\/p>\n\n\n\n<p>E acelerou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava estacionado na sombra de uma \u00e1rvore velha na Pra\u00e7a Os\u00f3rio, duas portas fechadas, vidro emba\u00e7ado pelo frio da tarde. 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