{"id":739,"date":"2026-01-13T00:15:00","date_gmt":"2026-01-13T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=739"},"modified":"2026-03-02T18:10:57","modified_gmt":"2026-03-02T21:10:57","slug":"gelo-derretendo-no-vidro","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/gelo-derretendo-no-vidro\/","title":{"rendered":"Gelo Derretendo no Vidro"},"content":{"rendered":"\n<p>O micro-\u00f4nibus ocupava o \u00faltimo canto do terminal como se fosse o \u00fanico ve\u00edculo disposto a enfrentar o que esperava l\u00e1 fora. Jota estava sentado no banco do corredor, mochila laranja aos p\u00e9s, tr\u00eas garrafas de Sprite espalhadas ao redor \u2014 uma grande de dois litros meio vazia, uma m\u00e9dia ainda lacrada, e uma pequena de 600ml gelada, suando condensa\u00e7\u00e3o no pl\u00e1stico. Tamanhos diferentes da mesma bebida, como se ele tivesse comprado vers\u00f5es alternativas dela em realidades paralelas.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor do \u00f4nibus ronronava baixo, quase um ronrom de gato grande, e o aquecedor soprava ar quente contra as pernas dele. Por isso a camiseta regata vinho n\u00e3o incomodava, mesmo com a camisa fina de bot\u00e3o por cima meio aberta. L\u00e1 dentro, o calor era quase acolhedor. L\u00e1 fora, o mundo congelava.<\/p>\n\n\n\n<p>Curitiba nunca congelou assim. Mas hoje congelou.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado do vidro emba\u00e7ado, o rio se partia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era rio exatamente. Ou talvez fosse, mas agora era outra coisa: um campo de gelo rachado, placas grossas flutuando lentas, separando-se umas das outras com estalos que ecoavam no ar gelado. \u00c1gua escura aparecia entre os blocos, quase preta, como se houvesse profundidade infinita ali embaixo. Geleiras em miniatura, rachando, gemendo, se desfazendo devagar sob um c\u00e9u branco que n\u00e3o era c\u00e9u, era s\u00f3 mais gelo refletindo luz de lugar nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus precisava atravessar aquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sabia disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o era por isso que estava ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele deu um gole longo na Sprite grande. O g\u00e1s subiu queimando a garganta, fazendo os olhos arderem. Colocou a garrafa de volta no ch\u00e3o, olhou para as outras duas. Pegou a m\u00e9dia, abriu. O psiu foi mais baixo, quase sussurro. Bebeu. O sabor era mais doce, ou parecia \u2014 temperatura ambiente amolecia o g\u00e1s, deixava o l\u00edquido pastoso na l\u00edngua. Guardou todas de volta na mochila laranja. As garrafas se acomodaram l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>A motorista era uma mulher de cabelo curto grisalho, jaqueta de couro surrada, m\u00e3os firmes no volante mesmo com o motor desligado. Ela n\u00e3o olhava para Jota. Olhava para o painel, para os controles, \u00e0s vezes para o rio congelado l\u00e1 fora. N\u00e3o parecia ter pressa. Nem medo. S\u00f3 esperava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O \u00f4nibus tem dire\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica \u2014 ela disse de repente, sem virar o rosto. \u2014 Eu s\u00f3 vou at\u00e9 a curva. Depois ele segue sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assentiu, mesmo sem ela ver.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 At\u00e9 onde?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 At\u00e9 onde precisar.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta n\u00e3o esclareceu nada, mas pareceu suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele voltou a olhar pela janela. Do outro lado do rio, luzes fracas piscavam. Um lugar que ele nunca tinha visto de perto. Um lugar que ele n\u00e3o sabia se existia antes desse momento, mas que agora o chamava com for\u00e7a gravitacional silenciosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Fasc\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p>Era isso. Fasc\u00ednio puro, irracional, inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota queria ver o que havia l\u00e1. Queria pisar do outro lado antes de qualquer coisa. Antes de ajudar quem precisava ser ajudado, antes de cumprir o que quer que fosse que ele deveria cumprir. S\u00f3 queria saber. Ver com os pr\u00f3prios olhos. Sentir com os pr\u00f3prios p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeira vez. \u00daltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o bateu no peito como revela\u00e7\u00e3o: se ele n\u00e3o fosse agora, nunca mais teria a chance. N\u00e3o era quest\u00e3o de oportunidade. Era quest\u00e3o de exist\u00eancia. Aquele lugar do outro lado do rio s\u00f3 existia naquele momento, naquela configura\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de gelo e luz e ar gelado. Amanh\u00e3 seria outra coisa. Daqui a uma hora, talvez nem existisse mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desceu do \u00f4nibus e encontrou um ar frio como l\u00e2mina, cortando a garganta, queimando os pulm\u00f5es. Deu dois passos, pisou no ch\u00e3o coberto de neve fina. O frio subiu pelas solas dos t\u00eanis surrados, entrou pelo buraco no ded\u00e3o esquerdo, congelou os ossos dos p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava na oficina logo ali, sozinho, coberto de gelo nas janelas, como lembran\u00e7a de outro mundo. Duas portas, sem ar-condicionado, sem dire\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica. O carro que tinha deixado ali para conserto, mas que n\u00e3o podia cruzar o rio \u2014 muito leve, rodas pequenas, afundaria no primeiro bloco de gelo.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o \u00f4nibus podia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota caminhou at\u00e9 a beira.<\/p>\n\n\n\n<p>O gelo come\u00e7ava logo ali. Blocos imensos, rachados, flutuando devagar. Alguns se chocavam com barulho surdo que ecoava nos ossos, outros deslizavam em sil\u00eancio. A \u00e1gua escura entre eles parecia viva, respirando, esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado, as luzes piscavam mais fortes agora. Ou talvez fosse s\u00f3 impress\u00e3o. Talvez fosse ele que estava vendo melhor, mais perto, mais real.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nunca \u00e9 como a gente imagina.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou. Um homem estava ao lado dele, macac\u00e3o azul surrado, cabelo desgrenhado, cigarro apagado pendurado no canto da boca. Rand Oliveira. O t\u00e9cnico. O fantasma. O amigo que aparecia e sumia como se existisse em frequ\u00eancia diferente do resto do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rand?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 sempre diferente \u2014 Rand continuou, ignorando a surpresa na voz de Jota. \u2014 O outro lado. Nunca \u00e9 como voc\u00ea pensa que vai ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota enfiou a m\u00e3o no bolso, pegou o isqueiro amarelo, ofereceu. Rand pegou, acendeu o cigarro com gesto lento, deu uma tragada longa. A chama do isqueiro iluminou o rosto dele por um segundo, e Jota teve a impress\u00e3o estranha de que Rand estava mais velho. Ou mais novo. Dif\u00edcil dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>A fuma\u00e7a subiu, misturada com o ar gelado, cheiro forte de tabaco cortando o frio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 atravessou?<\/p>\n\n\n\n<p>Rand devolveu o isqueiro, soprou a fuma\u00e7a pro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu atravesso. Voc\u00ea observa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Alguns atravessam. Outros s\u00f3 observam. \u2014 Rand deu mais uma tragada, olhou para o rio. \u2014 N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de coragem. \u00c9 quest\u00e3o de fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota franziu a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que fun\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Rand sorriu de canto, jogou o cigarro no ch\u00e3o, pisou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea vai entender.<\/p>\n\n\n\n<p>E deu um passo. A neve subiu. Jota piscou e ele desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o saiu andando. N\u00e3o virou as costas. Desapareceu. Como sempre fazia. Como se tivesse apagado um interruptor da pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou ali parado, olhando para o lugar onde Rand estava um segundo antes. O cigarro ainda fumegava no ch\u00e3o, marca f\u00edsica de algo que talvez nem fosse f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s dele, a motorista falou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele sempre faz isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou. Ela estava na porta do \u00f4nibus, encostada no batente, bra\u00e7os cruzados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea viu?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Todo mundo v\u00ea. Nem todo mundo percebe.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela voltou pro \u00f4nibus. Jota ficou mais um minuto olhando o cigarro fumegante, depois seguiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O gelo estalou alto. Um bloco imenso se partiu ao meio, as duas metades se afastando devagar, abrindo fenda larga de \u00e1gua preta. O som ecoou nas paredes do terminal, grave, vibrou no peito de Jota como segundo cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele voltou para o \u00f4nibus.<\/p>\n\n\n\n<p>A motorista continuava no mesmo lugar, m\u00e3os no volante, olhos no painel. Ela n\u00e3o perguntou onde ele tinha ido. N\u00e3o precisava.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentou no banco do corredor de novo. O ar gelado ainda entrava pelo buraco no ded\u00e3o esquerdo, mas agora era suport\u00e1vel, quase reconfortante \u2014 lembrete de que ainda havia frio l\u00e1 fora. Pegou a Sprite pequena da mochila \u2014 a gelada, a que suava condensa\u00e7\u00e3o \u2014, abriu com estalo seco. O g\u00e1s explodiu na boca, agulhas geladas furando o c\u00e9u da boca, frio cortante misturado com do\u00e7ura artificial. Ele segurou a garrafa contra a testa, sentindo o frio queimar a pele quente. Os dedos congelaram no pl\u00e1stico gelado.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor aumentou o ronco.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi a motorista que ligou. O \u00f4nibus ligou sozinho. Vibra\u00e7\u00e3o subiu pelo ch\u00e3o, pelas paredes, pelos bancos. O aquecedor soprou mais forte. O painel acendeu com luzes verdes e azuis, e uma voz mec\u00e2nica, quase feminina, anunciou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Dire\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica ativada. Destino: cruzamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A motorista tirou as m\u00e3os do volante.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus come\u00e7ou a se mover.<\/p>\n\n\n\n<p>Devagar. Muito devagar. Deslizando sobre a neve do terminal, aproximando-se da beira, das placas de gelo flutuantes. Jota sentiu o momento exato em que as rodas tocaram o gelo: um balan\u00e7o suave, quase impercept\u00edvel, como entrar em elevador que desce sem aviso.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus atravessava.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou pela janela. O gelo passava por baixo, rachado, branco-azulado, cheio de fendas escuras. \u00c1gua aparecia entre os blocos, salpicava nas laterais do \u00f4nibus, congelava de novo no vidro. O som era constante: estalo, gemido, rangido, como se o rio inteiro estivesse reclamando da invas\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As luzes do outro lado ficavam mais pr\u00f3ximas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu a mochila laranja, pegou o caderno marrom, abriu numa p\u00e1gina em branco. Pegou a caneta. Hesitou. O que escrever? O que dizer sobre um lugar que s\u00f3 existe enquanto voc\u00ea atravessa?<\/p>\n\n\n\n<p>Memorizou as palavras para escrever depois, pois importava o momento agora:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Alguns atravessam. Outros s\u00f3 observam.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou o caderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma p\u00e1gina solta caiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou.<\/p>\n\n\n\n<p>Leu.<\/p>\n\n\n\n<p>A mesma frase que tinha memorizado. Mesma p\u00e1gina amarelada nas bordas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a letra era&#8230; dele?<\/p>\n\n\n\n<p>Parecia. Mas diferente. Mais tr\u00eamula. Ou mais firme. Letra de quando tinha quinze? De quando tiver sessenta? Imposs\u00edvel dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele j\u00e1 esteve aqui antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou vai estar de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou a p\u00e1gina de volta no caderno. Fechou. Guardou na mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>A motorista olhou para ele pelo retrovisor. N\u00e3o disse nada. S\u00f3 olhou. E naquele olhar, Jota entendeu que ela tamb\u00e9m sabia. Sabia sobre Rand. Sabia sobre a diferen\u00e7a. Sabia que o mundo tinha atravessadores e observadores, e que ele, Jota, estava em algum lugar entre os dois, no limbo de quem testemunha mas n\u00e3o interfere, de quem v\u00ea mas n\u00e3o toca.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus parou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o chegou do outro lado. Parou no meio. Entre as placas de gelo. Entre as duas margens. Entre o terminal e as luzes. Suspenso. Flutuando. Como se houvesse um ponto intermedi\u00e1rio que n\u00e3o era nem l\u00e1 nem c\u00e1, mas era tudo ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz mec\u00e2nica anunciou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Passagem conclu\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o tinha terminado. Jota sabia disso. Olhou pela janela e viu que o gelo continuava se movendo, as placas deslizando, a \u00e1gua aparecendo e sumindo, tudo em fluxo constante. O rio n\u00e3o parava. A passagem n\u00e3o parava. Talvez nunca parasse.<\/p>\n\n\n\n<p>A motorista acendeu um cigarro. A chama do f\u00f3sforo iluminou o rosto dela. Tragada longa. Fuma\u00e7a subindo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sempre para aqui \u2014 disse, voz baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo cheiro. O cigarro de Rand.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a passagem fosse o destino.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele pegou a Sprite gelada de novo, bebeu o \u00faltimo gole. O g\u00e1s subiu queimando. Tirou as outras duas garrafas da mochila, colocou as tr\u00eas no ch\u00e3o, lado a lado. Tr\u00eas tamanhos. Tr\u00eas vers\u00f5es. Tr\u00eas realidades da mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand apareceu de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez dentro do \u00f4nibus, sentado no banco da frente, de costas para Jota. N\u00e3o virou. N\u00e3o falou. S\u00f3 ficou ali, existindo, como prova de que algumas presen\u00e7as n\u00e3o precisam de explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E continuou ali. Passageiro eterno da travessia que nunca termina.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra Rand, sentado ali na frente, im\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns atravessam. Outros observam.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era fraqueza. N\u00e3o era escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Era s\u00f3 o lugar de cada um.<\/p>\n\n\n\n<p>E o dele era ali \u2014 testemunha do rio que nunca para de rachar.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o lembrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha algu\u00e9m esperando do outro lado. Rosto que ele quase via, nome que quase ouvia. M\u00e3os que ele deveria segurar, palavras que deveria dizer. Algo urgente, essencial, que o trouxe at\u00e9 ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a urg\u00eancia derreteu como o gelo no vidro.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o lembrava mais quem.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o lembrava mais o qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 lembrava que esqueceu.<\/p>\n\n\n\n<p>E estava em paz com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor do \u00f4nibus diminuiu o ronco, vibra\u00e7\u00e3o descendo at\u00e9 sincronizar com o peito de Jota. Cora\u00e7\u00e3o e m\u00e1quina no mesmo compasso. O aquecedor soprou mais suave. A motorista segurou o volante de novo, mas n\u00e3o o girou. S\u00f3 segurou. Como quem segura algo que n\u00e3o precisa ser guiado, s\u00f3 acompanhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota encostou a cabe\u00e7a no vidro frio. Do outro lado, as luzes piscavam. Perto. Longe. Sempre na mesma dist\u00e2ncia imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele fechou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentiu o frio do vidro na testa. O motor vibrando embaixo dos p\u00e9s. O cheiro de Sprite e cigarro misturados no ar quente do \u00f4nibus. Tudo real. Tudo acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p>E o \u00f4nibus continuou atravessando.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O micro-\u00f4nibus ocupava o \u00faltimo canto do terminal como se fosse o \u00fanico ve\u00edculo disposto a enfrentar o que esperava l\u00e1 fora. 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