{"id":776,"date":"2026-01-15T00:15:00","date_gmt":"2026-01-15T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=776"},"modified":"2026-03-30T11:48:00","modified_gmt":"2026-03-30T14:48:00","slug":"a-escopeta-que-nao-faz-barulho","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/a-escopeta-que-nao-faz-barulho\/","title":{"rendered":"A Escopeta que N\u00e3o Faz Barulho"},"content":{"rendered":"\n<p>Curitiba est\u00e1 virando um forno disfar\u00e7ado de cidade. O asfalto do Batel refletia o sol como se quisesse derreter sola de sapato. Jota andava pesado, 110 kg pingando dentro de uma regata vinho que j\u00e1 tinha desistido de ser limpa. O suor escorria pela nuca dele, descia pelas costas, grudava na cueca. Trinta e seis graus \u00e0s dez da manh\u00e3, umidade que dava pra cortar com faca. O cheiro era de piche quente, caf\u00e9 requentado e perfume caro que n\u00e3o segurava o cheiro de gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em cada esquina, o mesmo trailer. Um cara enlameado, barba por fazer, olhos injetados, gritando &#8220;Conquiste ou morra!&#8221; enquanto explodia um helic\u00f3ptero com uma bazuca feita de bambu. Ilhas Perdidas. O jogo: V\u00e1 para a Selva 3. Todo mundo falava. Todo stories tinha. At\u00e9 uma prima de Jota compartilhou com a legenda &#8220;meu filho joga isso, credo&#8221;. Ele n\u00e3o jogava ainda. Ele trabalhava nele. Ou achava que trabalhava.<\/p>\n\n\n\n<p>O convite tinha chegado tr\u00eas meses antes. Rand Oliveira mandou um \u00e1udio de voz \u00e0s quatro da manh\u00e3, voz rouca de quem fumou dois ma\u00e7os: &#8220;Jota, tem uma vaga que paga um valor interessante. \u00c9 teste, \u00e9 programa\u00e7\u00e3o, \u00e9 meio secreto, mas \u00e9 dinheiro vivo, irm\u00e3o. Entra.&#8221; Rand era o tipo de cara que sumia por semanas e voltava com hist\u00f3rias que ningu\u00e9m acreditava. Dessa vez voltou com crach\u00e1 preto sem logo e um endere\u00e7o na \u00c1gua Verde que n\u00e3o existia no Google Maps.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota aceitou porque precisava pensar em algo diferente de Daslu, do outro lado do planeta e que tinha mandado mensagem dizendo que o pequeno dela \u2014 s\u00f3 dela \u2014 precisava de aparelho novo e &#8220;voc\u00ea some, mas a crian\u00e7a cresce&#8221;. Aperto no peito. Respira. Aceitou tentando esquecer. Aceitou porque n\u00e3o conseguia.<\/p>\n\n\n\n<p>A programa\u00e7\u00e3o sempre foi isso: fazer o corpo ir onde a cabe\u00e7a n\u00e3o quer.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deixou o Gol Bolinha no estacionamento subterr\u00e2neo do pr\u00e9dio, mochila laranja nas costas, e subiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora ele estava ali, na porta de um pr\u00e9dio espelhado que parecia engolir o c\u00e9u. Seguran\u00e7a com fone de ouvido, crach\u00e1 preto, olhar de quem j\u00e1 matou e preencheu formul\u00e1rio depois.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 09?<\/p>\n\n\n\n<p>O guarda nem esperou resposta, s\u00f3 esticou a m\u00e3o pro detector de metal. Jota passou. O detector apitou. O guarda olhou pra ele, depois pro visor, e franziu a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 mostrando dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota mostrou o que tinha e o seguran\u00e7a o deixou passar.<\/p>\n\n\n\n<p>Elevador sem bot\u00e3o de andar. S\u00f3 um leitor biom\u00e9trico. Jota encostou o dedo. Desceu. Desceu muito. Quando abriu, era subsolo com carpete novo e cheiro de tinta fresca. Corredor branco, luz branca, ar-condicionado que batia nos ossos. Uma placa discreta: Sala 0.7.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota empurrou a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez cadeiras de acr\u00edlico transparente, mesa de vidro fum\u00ea, projetor j\u00e1 ligado mostrando o trailer em loop. Nove pessoas sentadas, nenhuma olhava pra outra. Jota reconheceu dois rostos de LinkedIn, mas fingiu que n\u00e3o. Todo mundo com crach\u00e1 preto sem nome, s\u00f3 um n\u00famero. O dele era 09. Sentou. O ar-condicionado parecia um tapa gelado na cara.<\/p>\n\n\n\n<p>Na parede, um manequim de testes bal\u00edsticos, daqueles cinza com marcas de tiro no peito. Ao lado, uma maleta de alum\u00ednio aberta, forra\u00e7\u00e3o de espuma preta. Vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>A luz escureceu. O trailer terminou.<\/p>\n\n\n\n<p>A tela ficou preta. O sil\u00eancio era t\u00e3o pesado que dava pra ouvir o sangue batendo no ouvido.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta dos fundos abriu sem barulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Magro, uns quarenta e poucos, barba de tr\u00eas dias perfeitamente imperfeita, \u00f3culos de arma\u00e7\u00e3o fina dourada. Terno azul-marinho que custava mais que o carro de Jota. Nas m\u00e3os, a maleta que estava vazia agora n\u00e3o estava mais. Ele sorriu como quem sabe que voc\u00ea j\u00e1 perdeu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bom dia \u2014 disse, voz baixa, quase carinhosa. \u2014 Hoje a propaganda atravessa a tela. Literalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocou a maleta na mesa. Abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro, uma escopeta curta, cano serrado, metal fosco, sem marca, sem logo. Parecia brinquedo de crian\u00e7a rica. S\u00f3 que n\u00e3o era.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou direto pra Jota. S\u00f3 por meio segundo. Mas foi o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sabia que tinha cruzado uma porta que n\u00e3o abre de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>O criador fechou a maleta com um clique suave, como quem fecha um caix\u00e3o de luxo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00eas viram o trailer \u2014 come\u00e7ou, andando devagar ao redor da mesa. \u2014 Explos\u00f5es, sangue, liberdade. Tudo mentira. A verdade \u00e9 mais simples: impacto. O jogador precisa sentir na pele. N\u00e3o na cabe\u00e7a. Na pele.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou atr\u00e1s do manequim. Acariciou o ombro dele como se fosse gente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse aqui j\u00e1 levou tiro de fuzil, facada, granada de fragmenta\u00e7\u00e3o. Sobreviveu a tudo. Hoje vai levar algo novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tirou a escopeta da maleta. O metal era mais claro do que Jota imaginava, quase prateado, com uns sulcos que pareciam veias. O cano era largo, grotesco, lembrava a boca de um tubar\u00e3o. N\u00e3o tinha gatilho tradicional; tinha um bot\u00e3o vermelho min\u00fasculo, do tamanho da cabe\u00e7a de um parafuso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 arma \u2014 disse, antecipando a pergunta que ningu\u00e9m fez. \u2014 \u00c9 extens\u00e3o do jogo. Vai direto pro console. Jogador leva tiro no jogo? Sente o impacto no peito. De verdade. Sem sangue. S\u00f3 dor.<\/p>\n\n\n\n<p>A sala inteira prendeu o ar. O ar-condicionado parecia ter parado de funcionar; o frio agora vinha de dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele mirou o manequim a uns quatro metros. Bra\u00e7o firme, sem tremor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando eu apertar, voc\u00eas v\u00e3o sentir uma brisa. S\u00f3 isso. Uma brisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mentira.<\/p>\n\n\n\n<p>Apertou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o houve estampido. N\u00e3o houve recuo. Nem fa\u00edsca, nem fuma\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 um som abafado, como se algu\u00e9m tivesse aberto uma garrafa de champanhe dentro de um edredom. Pfffft.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o ar saiu violento.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota viu a onda antes de sentir. O ar se dobrou, se comprimiu, virou l\u00e2mina. O copo d&#8217;\u00e1gua da mina do n\u00famero 04 voou da mesa e se espatifou na parede. Cabelo de todo mundo foi pro lado como se tivesse tomado vento de helic\u00f3ptero. A regata de Jota colou no peito de uma vez s\u00f3, o suor virou cola.<\/p>\n\n\n\n<p>O manequim saiu do ch\u00e3o. Voou dois metros pra tr\u00e1s, bateu na parede de drywall com um estrondo seco. A cabe\u00e7a de pl\u00e1stico rachou. O tronco torceu como se tivesse levado um soco de caminh\u00e3o. Ficou l\u00e1, pendurado, torto, com a marca perfeita de um c\u00edrculo no peito, como se tivesse sido socado por um punho invis\u00edvel de um metro de di\u00e2metro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois risos nervosos. Um aplauso t\u00edmido que cresceu. Algu\u00e9m gritou &#8220;caralho!&#8221; como se fosse show de rock.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o riu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sentiu o cheiro. Um cheiro que n\u00e3o devia existir: oz\u00f4nio, como depois de raio, misturado com algo met\u00e1lico, quase sangue. O peito dele do\u00eda. N\u00e3o de medo ainda. Do\u00eda como se tivesse levado o golpe junto com o boneco.<\/p>\n\n\n\n<p>O criador abaixou a arma devagar. Olhou pra todos com aquele sorriso de quem acabou de mostrar a calcinha da morte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Impressionante, n\u00e9? \u00c9 assim que o jogador vai sentir o recoil. \u00c9 assim que a propaganda atravessa a tela. Console na sala, emissor no controle, impacto direto no peito. Sem perigo. S\u00f3 realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele caminhou at\u00e9 Jota. Parou do lado dele. O cheiro: \u00e1gua de col\u00f4nia cara e algo qu\u00edmico, doce, que lembrava solvente de tinta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00famero 09 \u2014 disse baixo, s\u00f3 pra Jota. \u2014 Voc\u00ea entendeu, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota quis responder. A boca abriu, mas s\u00f3 saiu um fiapo de voz.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso\u2026 isso \u00e9 tecnologia militar.<\/p>\n\n\n\n<p>O criador sorriu mais largo. Os dentes eram muito brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o. Ainda n\u00e3o \u00e9. Mas pode virar.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou-se pra sala de novo, j\u00e1 em tom de apresentador:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Em breve, cada console vai ter isso. O jogador sente o tiro no peito. O sangue. A dor. Sente o jogo. Sem risco. S\u00f3 impacto no momento, mas muito mais em breve.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m levantou a m\u00e3o, voz tremendo de empolga\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E o or\u00e7amento pra isso? Os relat\u00f3rios que vazaram\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>O criador cortou com um gesto suave.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O or\u00e7amento \u00e9 o de menos. Tem gente que paga pra ver at\u00e9 onde a fic\u00e7\u00e3o aguenta empurrar a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou de novo pra Jota. Dessa vez sem sorrir.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele segundo Jota sacou tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era marketing.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>Era teste.<\/p>\n\n\n\n<p>E eles eram o alvo de calibra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar-condicionado voltou a funcionar de repente. O frio bateu nas costas suadas de Jota como faca.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sentiu a carreira da manh\u00e3 morrendo no sangue e outra nascendo no lugar: pura adrenalina.<\/p>\n\n\n\n<p>Queria levantar e correr.<\/p>\n\n\n\n<p>Queria levantar e gritar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ficou ali, 110 kg de carne parados, olhando pro manequim torto na parede.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque o pior ainda n\u00e3o tinha vindo.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar ainda ondulava.<\/p>\n\n\n\n<p>Era poss\u00edvel ver: uma n\u00e9voa transl\u00facida, quase l\u00edquida, suspensa entre o cano da escopeta e o manequim destru\u00eddo. Como se o pr\u00f3prio espa\u00e7o tivesse levado um soco e agora respirasse pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>O criador mantinha o dedo no bot\u00e3o vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Os risos da sala ainda ecoavam, mas o som n\u00e3o chegava at\u00e9 Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegava abafado, como se ele estivesse debaixo d&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o tudo parou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 for\u00e7a de express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo parou de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>O aplauso ficou congelado no ar: bocas abertas, m\u00e3os em metade do caminho uma da outra, palmas que nunca se encontrariam.<\/p>\n\n\n\n<p>O cabelo da mina do n\u00famero 06 ainda voava pra tr\u00e1s, fios duros como arames.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma gota de suor que escorria da testa de Jota parou a meio cent\u00edmetro da sobrancelha, tremendo, brilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar-condicionado parou de soprar. O sil\u00eancio era t\u00e3o absoluto que Jota ouvia o sangue latejando nas pr\u00f3prias t\u00eamporas, tum-tum, tum-tum, o \u00fanico som do universo.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 ele mexia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentou levantar. Conseguiu. A cadeira nem rangeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu um passo. O carpete n\u00e3o afundou.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou o copo d&#8217;\u00e1gua da mesa. Tentou virar. A \u00e1gua estava s\u00f3lida, congelada no ar, mas quente ao toque. Largou. O copo ficou suspenso onde deixou, flutuando.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentou gritar. A boca abriu, mas n\u00e3o saiu som. Nem eco. Nem ar. Como gritar no v\u00e1cuo.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurrou uma cadeira com for\u00e7a. N\u00e3o moveu. Nem tremeu. Como empurrar parede de concreto.<\/p>\n\n\n\n<p>Tocou no ombro do cara ao lado dele, o n\u00famero 11. Duro. Frio. Como tocar est\u00e1tua de m\u00e1rmore.<\/p>\n\n\n\n<p>O olho dele estava fixo no manequim, pupila dilatada, mas sem vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota era o \u00fanico vivo ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra escopeta. O cano ainda soltava aquela n\u00e9voa lenta, como fuma\u00e7a de gelo seco, s\u00f3 que parada no tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O criador sorria. O sorriso congelado era pior que qualquer grito. Os olhos dele acompanhavam Jota. S\u00f3 os olhos se moviam, seguindo cada passo como c\u00e2mera de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma voz (Jota n\u00e3o sabia se dentro ou fora da cabe\u00e7a) falou, calma, quase carinhosa:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Campo de impacto calibrado. Bem-vindo, n\u00famero 09.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou pro manequim. A rachadura no peito dele pulsava, muito devagar, como cora\u00e7\u00e3o de pedra.<\/p>\n\n\n\n<p>Aproximou a m\u00e3o. O ar ali era s\u00f3lido. Empurrou. Do\u00eda. Do\u00eda como meter a m\u00e3o num bloco de gelo seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Recuou.<\/p>\n\n\n\n<p>Vozes vieram de lugar nenhum. Baixas. Sussurrando.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz de Daslu: &#8220;Voc\u00ea sempre escolhe o buraco mais fundo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A voz de Rand: &#8220;Entra, irm\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A voz da m\u00e3e de Jota: &#8220;Ainda vai se perder de vez.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Flashs vieram logo depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu no aeroporto de Guarulhos, alguns anos atr\u00e1s, olhos vermelhos: &#8220;Voc\u00ea sempre escolhe o buraco mais fundo, Geraldo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira sumindo no meio do Parque das \u00c1guas, macac\u00e3o azul, cheirando o isqueiro amarelo antes de acender o cigarro, acenando de longe antes de virar fuma\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e de Jota sempre anunciando para todos em casa: &#8220;Esse menino vai ser muito na vida.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele estava perdido agora.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o iria correr, tinha que enfrentar. As pernas pesavam toneladas.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro rel\u00f3gio de pulso: os ponteiros parados \u00e0s 10:47:12.<\/p>\n\n\n\n<p>Viu o pr\u00f3prio reflexo no vidro fum\u00ea da mesa. Piscou. Jota n\u00e3o tinha piscado.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando viu direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o estava sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s dele, de p\u00e9, im\u00f3vel como os outros, tinha outro Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo corpo, mesma regata vinho suada, mesmos 110 kg.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os olhos dele eram vazios.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele segurava o isqueiro amarelo. Cheirava. Devagar. Como Rand fazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois sorria o mesmo sorriso do criador.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota era o manequim agora.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00e2nico veio de verdade, um trov\u00e3o no peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Bateu no vidro com for\u00e7a. O reflexo n\u00e3o tremeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele continuou sorrindo, o isqueiro amarelo na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota bateu de novo. Mais forte. M\u00e3o latejando.<\/p>\n\n\n\n<p>O reflexo cheirou o isqueiro. Devagar. Sem tirar os olhos dele.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz voltou, mais perto, dentro do osso:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea sempre quis sentir o impacto na pele, Jota. Agora sente.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar come\u00e7ou a se mover de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Como um filme voltando do pause.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro o som: um estalo seco, o ar-condicionado religando.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois o cheiro: oz\u00f4nio queimado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os aplausos voltaram, mas mais altos, como se tivessem sido engavetados e agora explodissem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ainda estava de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m pareceu notar que ele tinha se movido.<\/p>\n\n\n\n<p>O criador guardava a escopeta na maleta, tranquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra Jota uma \u00faltima vez. Piscou. S\u00f3 um olho.<\/p>\n\n\n\n<p>A reuni\u00e3o acabou em cinco minutos. Papo de roadmap, datas, NDAs refor\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assinou tudo depois de ter uma no\u00e7\u00e3o exata do que era.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando saiu do pr\u00e9dio, o calor abafado de Curitiba recebeu ele como tapa de amigo traidor.<\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00eanis surrado com cadar\u00e7o solto (o esquerdo, como sempre) batia no asfalto quente enquanto Jota atravessava a rua. Passou a m\u00e3o no bolso da frente da mochila laranja e sentiu o volume do isqueiro amarelo, o sobrevivente, ainda l\u00e1. O caderno marrom de capa dura tamb\u00e9m estava no bolso lateral, como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular vibrou no bolso. Uma mensagem. Sem remetente. Sem n\u00famero.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Campo de impacto: fase 2 iniciada. Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 dentro da tela, n\u00famero 09. N\u00e3o tente sair. O jogo come\u00e7ou.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro c\u00e9u. Um outdoor gigante na Marechal piscava o trailer.<\/p>\n\n\n\n<p>O her\u00f3i enlameado gritava &#8220;Conquiste ou morra!&#8221; direto pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Apagou a tela do celular.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas era o tipo de sil\u00eancio que grita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Curitiba est\u00e1 virando um forno disfar\u00e7ado de cidade. O asfalto do Batel refletia o sol como se quisesse derreter sola de sapato. Jota andava pesado, 110 kg pingando dentro de uma regata vinho que j\u00e1 tinha desistido de ser limpa. O suor escorria pela nuca dele, descia pelas costas, grudava na cueca. Trinta e seis [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1763,"menu_order":15,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"livro":[18],"personagem":[254,222,27,81,983],"genero":[984,654],"tom":[986,985,41],"timeline":[57],"versao_jota":[49],"categoria_cap":[987,988],"item_essencial":[33,31,36,34,32,35],"tema":[991,989,990],"local":[993,996,771,997,999,45,1001,994,995,992],"keyword":[1005,1004,1000,1008,1007,998,810,1003,1006,1002],"class_list":["post-776","capitulo","type-capitulo","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","livro-dias-apos-um-fim","personagem-criador","personagem-dona-tude","personagem-gpjota","personagem-rand-oliveira","personagem-voz","genero-ficcao-cientifica-distopica","genero-terror-psicologico","tom-claustrofobico","tom-paranoico-2","tom-tenso","timeline-curitiba","versao_jota-normal","categoria_cap-ficcao-cientifica","categoria_cap-terror-corporativo","item_essencial-caderno-marrom-de-capa-dura","item_essencial-camiseta-regata-vinho","item_essencial-gol-bolinha-cinza-urban-2003","item_essencial-isqueiro-amarelo-o-sobrevivente","item_essencial-mochila-laranja","item_essencial-tenis-surrado","tema-perda-de-autonomia","tema-realidade-vs-simulacao","tema-teste-humano-nao-consensual","local-agua-verde","local-ar-condicionado-gelado","local-batel","local-carpete-novo","local-corredor-branco","local-curitiba","local-marechal","local-predio-espelhado","local-sala-0-7","local-subsolo","keyword-campo-de-impacto","keyword-escopeta","keyword-ilhas-perdidas","keyword-manequim","keyword-outro-jota","keyword-predio-corporativo","keyword-rand-oliveira","keyword-tempo-congela","keyword-teste-humano","keyword-va-para-a-selva-3"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo\/776","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo"}],"about":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulo"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=776"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1763"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=776"}],"wp:term":[{"taxonomy":"livro","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/livro?post=776"},{"taxonomy":"personagem","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/personagem?post=776"},{"taxonomy":"genero","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/genero?post=776"},{"taxonomy":"tom","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tom?post=776"},{"taxonomy":"timeline","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/timeline?post=776"},{"taxonomy":"versao_jota","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/versao_jota?post=776"},{"taxonomy":"categoria_cap","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_cap?post=776"},{"taxonomy":"item_essencial","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/item_essencial?post=776"},{"taxonomy":"tema","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tema?post=776"},{"taxonomy":"local","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/local?post=776"},{"taxonomy":"keyword","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/keyword?post=776"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}