{"id":788,"date":"2026-01-17T00:15:00","date_gmt":"2026-01-17T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=788"},"modified":"2026-03-30T13:35:57","modified_gmt":"2026-03-30T16:35:57","slug":"e-foda-ne-velho","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/e-foda-ne-velho\/","title":{"rendered":"\u00c9 Foda, N\u00e9, Velho"},"content":{"rendered":"\n<p>Jota deixou o Sheldon na porta do pr\u00e9dio dela. Adolescente, mochila nas costas, cara de quem vai entrar numa prova oral sem ter estudado nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou estar por perto, me envia mensagem?<\/p>\n\n\n\n<p>O sobrinho s\u00f3 fez que sim com a cabe\u00e7a e j\u00e1 foi. Nem olhou pra tr\u00e1s. Jota imaginava que o moleque ia terminar. Sheldon estava pensativo no caminho, voz baixa, ensaiando as frases como quem recita poesia ruim no espelho do banheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota foi rodar.<\/p>\n\n\n\n<p>Gol Bolinha cinza roncando baixo pela rua vazia, regata vinho suada grudada no corpo, mochila laranja jogada no banco do carona. Dentro dela, o caderno marrom de capa dura e o isqueiro amarelo \u2014 o sobrevivente \u2014 guardados no bolso lateral. O t\u00eanis surrado com cadar\u00e7o direito solto batendo no assoalho toda vez que Jota pisava no freio.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou num posto na esquina. Comprou umas balas de hortel\u00e3, tomou um refrigerante num copinho de pl\u00e1stico s\u00f3 pra passar o tempo. Ficou encostado no cap\u00f4 do Gol, olhando o movimento da rua. Curitiba, sol forte, gente andando r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou no Sheldon l\u00e1 em cima, suando frio, soltando o discursinho ensaiado. Pobre moleque. Jota imaginava.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pro carro. Ligou o r\u00e1dio baixinho. Esperou. Recebeu o aviso.<\/p>\n\n\n\n<p>Vinte e dois minutos depois, buzinou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon estava sentado no meio-fio, olhando pro nada. Passou a m\u00e3o no rosto, levantou devagar, entrou no carro sem dizer nada e bateu a porta com aquela for\u00e7a de quem quer quebrar o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o tem geladeira em casa? &#8211; Jota falou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E ai, como foi? &#8211; Jota tentou novamente.<br><br>Sheldon parecia tirar um peso de cinquenta quilos do peito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Terminado, tio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho, parab\u00e9ns! Como ela levou?<\/p>\n\n\n\n<p>O moleque virou o rosto pra janela. Demorou uns segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o, tio\u2026 ela terminou comigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segurou o riso na garganta. N\u00e3o era hora. Mas puta merda, a ironia era perfeita.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pera a\u00ed. Explica isso direito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu subi preparado pra caralho. Tinha o discurso inteiro na cabe\u00e7a: &#8220;a gente quer coisas diferentes, voc\u00ea \u00e9 incr\u00edvel mas n\u00e3o t\u00e1 rolando mais, bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1&#8221;. Cheguei at\u00e9 a repetir no elevador, tio. Tr\u00eas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou. Engoliu seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A\u00ed ela abriu a porta j\u00e1 com a cara de quem vai soltar a bomba. Nem me deixou nem falar direito. &#8220;Sheldon, senta a\u00ed. A gente precisa conversar.&#8221; E eu j\u00e1 senti, sabe? J\u00e1 sabia que tinha perdido o timing.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota conhecia bem aquele tom. Aquela frase. O moleque continuou, voz embargada:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sentei. Ela come\u00e7ou: que n\u00e3o sentia mais o mesmo, que tava confusa, que eu era um cara incr\u00edvel e merecia algu\u00e9m que realmente correspondesse, sabe como \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon deu uma risada seca, sem gra\u00e7a nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tudo que eu ia falar pra ela, tio. Palavra por palavra. Ela roubou meu texto. Eu s\u00f3 fiquei l\u00e1, feito um idiota, concordando com o meu pr\u00f3prio t\u00e9rmino. Tipo&#8230; &#8220;\u00e9, eu entendo&#8221;. &#8220;Faz sentido&#8221;. Sa\u00ed de l\u00e1 parecendo um imbecil.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, sorriso de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Moleque, bem-vindo ao clube.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que clube?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O clube dos caras que ensaiaram o t\u00e9rmino perfeito e tomaram invertida no \u00faltimo segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon virou pra ele, franzindo a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso j\u00e1 aconteceu contigo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 In\u00fameras vezes, moleque. Mas duas doeram mais que as outras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque eram as que eu mais queria ter o controle. E foram exatamente as que eu perdi mais feio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu a partida no Gol, saiu devagar pela rua.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A primeira foi com a Donaro. Eu tinha vinte e tr\u00eas anos, achando que era o pica das gal\u00e1xias. Marquei encontro no Outback do Shopping Curitiba, cheguei com flores na m\u00e3o pra suavizar o golpe. Flores, moleque. Eu era rom\u00e2ntico at\u00e9 na hora de terminar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon quase riu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A\u00ed ela chegou antes. Firme, sem drama, sem choro. Sentou, olhou nos meus olhos e falou: &#8220;Geraldo, a gente precisa conversar.&#8221; Mesma porra que tu ouviu hoje. Eu fiquei ali segurando as flores que nem um trouxa, concordando com tudo que ela falava. Sa\u00ed de l\u00e1 com as flores murchas, o ego no ch\u00e3o e uma conta de refrigerante que eu paguei sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon soltou uma risada curta, meio amarga.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a segunda?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fez uma curva, pegou a avenida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A segunda foi pior. Com a Daslu. A poucos anos. Eu pensava que tinha aprendido, ou pelo menos achava que tinha. Dessa vez n\u00e3o levei flores, n\u00e3o marquei em restaurante chique. Tentei ser direto, sem rodeios. Cheguei, abri a boca pra falar&#8230; ela j\u00e1 tava pronta. Segura, dona de si. Nem deixou eu terminar a primeira frase. Cortou na l\u00e2mina, educada mas direta. &#8220;Geraldo, eu j\u00e1 sei o que voc\u00ea vai falar. E eu concordo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pois \u00e9. Parece praga, moleque. Toda vez que tu acha que vai ter o controle da situa\u00e7\u00e3o, a vida te lembra que tu nunca teve porra nenhuma de controle.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou quieto por um segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sabe o que eu percebi depois, moleque? Que as duas fizeram o certo. A Donaro e a Daslu. Foram corajosas. Tiveram a coragem que eu n\u00e3o tava tendo. E no fundo, facilitaram tudo. Porque se dependesse de mim, ia enrolar, ia procrastinar, ia fazer eu continuar sofrendo. Eu j\u00e1 estava enrolando pra ser sincero, talvez at\u00e9 n\u00e3o tivesse tido coragem se dependesse s\u00f3 de mim. Elas me cortaram ou sei l\u00e1 sentiram que n\u00e3o poderiam levar um fora de mim e foram mais espertas e me deixei levar. R\u00e1pido. Limpo. E foi o melhor pra todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas na hora? Na hora d\u00f3i pra caralho mesmo assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon ficou quieto, processando. Olhou pro t\u00eanis surrado do tio, cadar\u00e7o direito solto como sempre, balan\u00e7ando com o movimento do carro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E tu fez o qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nada. Falei &#8220;t\u00e1 bom, entendo&#8221; e sa\u00ed. Igual tu. Porque n\u00e3o tinha o que fazer, moleque. Quando o timing te fode desse jeito, n\u00e3o sobra nem dignidade pra brigar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu fiz merda, ent\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o, moleque. Tu fez o que tinha que fazer. Aguentou a porrada de p\u00e9. \u00c9 isso que a gente faz. Agora siga em frente!<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha seguia devagar pela cidade. Curitiba passando pelas janelas, gente na cal\u00e7ada, \u00f4nibus parando, com\u00e9rcio aberto. O mundo continuava girando, indiferente ao ego amassado de um moleque adolescente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou quieto, olhando a rua passar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sabe o que eu faria diferente, se pudesse voltar?<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon virou pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Talvez&#8230; n\u00e3o ensaiar tanto. Talvez s\u00f3 chegar e falar. Ter feito antes. Ter sido mais verdadeiro comigo. Falar o que sentia. Sem esperar o momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ou talvez n\u00e3o. \u00c9 com certeza faria tudo igual e tomasse na cara do mesmo jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon quase riu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas pelo menos voc\u00ea teria falado primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9. Pelo menos isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon assentiu devagar. Olhou pro retrovisor, viu o olho vermelho, passou a m\u00e3o no rosto tentando disfar\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 foda, n\u00e9, tio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota botou a m\u00e3o no ombro dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9, moleque. Bem foda mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguiram em sil\u00eancio. Mas o sil\u00eancio agora era diferente. N\u00e3o era mais de derrota. Era de quem acabou de tomar um soco, mas j\u00e1 entendeu que vai ter que levantar. Porque a vida n\u00e3o para. N\u00e3o espera. N\u00e3o pede licen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pensou em quantas vezes tinha ensaiado discursos que nunca sa\u00edram da boca, quantas vezes tinha perdido o timing, quantas vezes a vida tinha virado o jogo no \u00faltimo segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>E pensou no Sheldon ali do lado, come\u00e7ando a vida e acabando de aprender na pele o que todo homem ou ser humano aprende cedo ou tarde: que a gente nunca t\u00e1 no controle de porra nenhuma. A gente s\u00f3 acha que t\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Viraram pro Jardim das Am\u00e9ricas. A casa do Pop\u00f3 tava ali na frente, port\u00e3o verde, Gol Bolinha estacionando devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon n\u00e3o desceu na hora. Ficou sentado, olhando pela janela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tio?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fala.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Valeu por ter ido comigo. E por&#8230; sabe. Por contar essas paradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Familia, moleque. A gente divide as vit\u00f3rias e divide as derrotas. E essa derrota a\u00ed? Daqui uns anos tu vai rir dela. Vai contar pros amigos e todo mundo vai se identificar. Porque todo mundo j\u00e1 tomou invertida pelo menos uma vez na vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon abriu a porta, desceu, pegou a mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 foda, n\u00e9, velho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro sobrinho parado na cal\u00e7ada, mochila nas costas, cara de quem acabou de crescer cinco anos em meia hora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9, moleque. Bem foda mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sheldon entrou na casa do Pop\u00f3. Jota ficou ali no Gol Bolinha, motor ligado, regata vinho suada, mochila laranja no banco do carona, caderno marrom e isqueiro amarelo guardados dentro. O t\u00eanis surrado com cadar\u00e7o direito solto ainda balan\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou em ligar o r\u00e1dio. N\u00e3o ligou.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 ficou ali, olhando a rua vazia, lembrando do Sheldon descendo do pr\u00e9dio com a cara de quem tinha perdido a guerra antes de come\u00e7ar a batalha.<\/p>\n\n\n\n<p>E sorriu. Um sorriso torto, meio amargo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque a vida, irm\u00e3o&#8230; a vida n\u00e3o te d\u00e1 nem o direito de terminar por cima.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jota deixou o Sheldon na porta do pr\u00e9dio dela. Adolescente, mochila nas costas, cara de quem vai entrar numa prova oral sem ter estudado nada. \u2014 Vou estar por perto, me envia mensagem? O sobrinho s\u00f3 fez que sim com a cabe\u00e7a e j\u00e1 foi. Nem olhou pra tr\u00e1s. 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