{"id":807,"date":"2026-01-20T00:15:00","date_gmt":"2026-01-20T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=807"},"modified":"2026-03-02T19:53:35","modified_gmt":"2026-03-02T22:53:35","slug":"a-bencao-que-nunca-chegou","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/a-bencao-que-nunca-chegou\/","title":{"rendered":"A B\u00ean\u00e7\u00e3o Que Nunca Chegou"},"content":{"rendered":"\n<p>No Brasil, desde o Imp\u00e9rio, existe um pacto n\u00e3o escrito entre c\u00e9u e terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo pol\u00edtico que chega ao topo passa por uma avalia\u00e7\u00e3o. Discreta. Invis\u00edvel. Um anjo desce, faz perguntas, observa, anota. \u00c9 protocolo. Sempre foi.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, a mem\u00f3ria \u00e9 apagada. O eleito acorda no dia seguinte sem lembrar de nada. S\u00f3 uma vaga sensa\u00e7\u00e3o de ter sonhado.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria passa. Alguns suam, mas passam.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca foi necess\u00e1rio mais que isso.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 Antilopes.<\/p>\n\n\n\n<p>Convocou reuni\u00e3o de emerg\u00eancia no c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque se a suspeita dele estivesse certa, ia ser necess\u00e1rio trazer de volta algo que n\u00e3o se usava desde Sodoma e Gomorra.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi a primeira vez que algu\u00e9m assim tentou. N\u00e3o seria a \u00faltima.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eles eram facilmente desmascarados.<\/p>\n\n\n\n<p>A cada gera\u00e7\u00e3o, um Antilopes diferente aparecia. Mudava o nome, mudava a cara, mudava a bandeira que carregava. Mas a ess\u00eancia \u00e9 sempre a mesma: fome de poder vestida de patriotismo, \u00f3dio disfar\u00e7ado de ordem, crueldade chamada de for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando desmascarado, os mais cegos continuavam n\u00e3o vendo ou escolhiam n\u00e3o ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes tinha recebido a entrevista angelical na noite da vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Respondeu tudo com aquele sorriso largo.<\/p>\n\n\n\n<p>Disse que ia assumir tranquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, o povo tinha escolhido ele. Dezenas de milh\u00f5es de votos. Mas os anjos tinham certezas sobre ele. Ele sempre foi bom em enganar \u2014 fazer gente acreditar que crueldade \u00e9 for\u00e7a, que ignor\u00e2ncia \u00e9 pureza, que \u00f3dio \u00e9 amor pela p\u00e1tria.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota anotou tudo no caderno marrom.<\/p>\n\n\n\n<p>Aplicou o protocolo de apagamento.<\/p>\n\n\n\n<p>E sentiu a resist\u00eancia, que pareceu at\u00e9 um certo fingimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Como uma parede invis\u00edvel. Fina, mas presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu com a certeza de que tinha algo de podre ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito podre.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, Antilopes acordou cedo, escolheu o terno mais caro, colocou a b\u00edblia debaixo do bra\u00e7o (nunca leu, mas pega bem em foto), e foi pro Pal\u00e1cio confiante.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabia que a avalia\u00e7\u00e3o tinha apenas come\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>E que o teste de verdade estava por vir.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O Universo dos Anjos n\u00e3o tem port\u00f5es de p\u00e9rola nem harpas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem nuvens duras como m\u00e1rmore, ventos que cortam a alma e um sil\u00eancio que pesa mais do que qualquer armadura. No centro de tudo fica a plataforma da Alta Guarda, suspensa entre duas tempestades eternas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota faz parte da Alta Guarda.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tem nome de anjo bonito, Miguel, Gabriel, essas frescuras. Aqui chamam s\u00f3 de Jota, o mesmo apelido da terra, porque l\u00e1 embaixo era programador \u2014 daqueles que via padr\u00f5es onde outros viam caos, que resolvia problema na raiz em vez de apenas remendar. Ele ajustava, consertava, fazia tudo voltar aos eixos, n\u00e3o ficava culpando outros, resolvia. Deus viu valor nisso. Viu que um cara pr\u00e1tico, que entende de sistema, de l\u00f3gica, de causa e consequ\u00eancia, serve melhor na Alta Guarda do que muito anjo que s\u00f3 sabe rezar e acenar asa. Quando subiu, trouxeram o apelido junto. Trouxeram tamb\u00e9m a efici\u00eancia, a cara fechada, e o costume de resolver problemas \u2014 ou na porta do c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 os anjos, bem eles t\u00eam asas, mas n\u00e3o usam \u2014 usam carros. Ve\u00edculos terrestres disfar\u00e7ados, encarna\u00e7\u00f5es de carruagens celestiais que descem at\u00e9 o mundo dos homens sem levantar suspeita. O Gol Bolinha cinza de Jota, 2003, duas portas, a etanol, sem ar-condicionado, \u00e9 uma dessas carruagens. Banco do motorista afundado pelos 110 kg, cheiro de etanol velho que nunca sai, motor 1.0 16v que ronca baixo mas nunca falha. Estacionado ali na borda da plataforma, porta-malas aberto mostrando a mochila laranja \u2014 bolsa de rel\u00edquias sagradas disfar\u00e7ada. Dentro dela: caderno de capa dura marrom (livro dos registros divinos), isqueiro amarelo sobrevivente (chama eterna port\u00e1til), e guardados no banco de tr\u00e1s, os t\u00eanis surrados (sand\u00e1lias do peregrino celestial, cadar\u00e7os que salvam vidas, sim cadar\u00e7os que salvam vidas) e a camiseta regata vinho (armadura leve que n\u00e3o pesa).<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia, Jota tinha convocado reuni\u00e3o de emerg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos vigias menores, um querubim de quatro asas que nunca dorme, apareceu confuso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que aconteceu? A contagem terminou ontem. Antilopes venceu. Protocolo normal, n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o respondeu logo. Abriu o caderno marrom. Folheou devagar. P\u00e1ginas e p\u00e1ginas de registros da entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p>O cara que elogiou torturador ao vivo na TV. Que disse que filho dele nunca ia namorar negra porque &#8220;foi bem educado&#8221;. Que falou pra deputada que ela &#8220;n\u00e3o merecia ser estuprada&#8221; porque era feia demais. Que defendeu fuzilamento em pra\u00e7a p\u00fablica. Que disse que \u00edndio n\u00e3o serve nem pra reproduzir. Que chamou quilombola de gordo, pregui\u00e7oso, vagabundo. Que zoou morte enquanto milhares morriam. Que transformou cargo p\u00fablico em heran\u00e7a de fam\u00edlia, distribuindo poder pros seus como se fosse propriedade privada.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cara que jurava a B\u00edblia na m\u00e3o direita enquanto desviava dinheiro com a esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cara que dizia &#8220;Deus, p\u00e1tria e fam\u00edlia&#8221; \u2014 mas cuspia em Deus cada vez que mentia, cagava pra p\u00e1tria cada vez que destru\u00eda, e s\u00f3 defendia a fam\u00edlia dele, nunca a dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou o caderno.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A ficha \u00e9 pesada. Muito pesada. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que me preocupa.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha, anjo rec\u00e9m-chegado \u2014 morreu faz pouco, ainda se acostumando com as asas e o peso da armadura. Quarenta e cinco anos de idade terrestre congelados no rosto: rugas ao redor dos olhos, cabelo loiro descolorido, bigode de guid\u00e3o de bicicleta bem cuidado, brinco de argola que usava em vida e ningu\u00e9m mandou tirar aqui em cima. Penas de luz dourada ainda brilhavam muito \u2014 sinal de quem subiu h\u00e1 pouco. Os veteranos sabiam: quanto mais tempo no c\u00e9u, mais opacas ficam as penas. As de Rosquinha ainda cegavam. Perguntou com voz que ainda carregava sotaque curitibano:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o o que te preocupa?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra cada um deles.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Resist\u00eancia ao apagamento, que pareceu mais um certo fingimento. Quando terminei a entrevista, apliquei o protocolo padr\u00e3o. Mem\u00f3ria deveria ter sido limpa. Mas senti resist\u00eancia ou fingimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim resist\u00eancia? \u2014 Rosquinha perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como se tivesse algo bloqueando. N\u00e3o \u00e9 consciente. \u00c9&#8230; estrutural. Como se a mente dele n\u00e3o fosse completamente humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tem algo diferente nele. N\u00e3o \u00e9 possess\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 pacto. \u00c9&#8230; integrado. Como se tivesse nascido assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro Costa, conhecido ali como Miguelito, um querubim gigante com seis asas que raramente abria (preferia dirigir uma Kombi branca dos anos 70 que flutuava sem tocar o ch\u00e3o), cruzou os bra\u00e7os sobre a coura\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Entidade de nascen\u00e7a? Isso n\u00e3o existe. Entidades s\u00e3o anjos ca\u00eddos, n\u00e3o se reproduzem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pois \u00e9, teoricamente n\u00e3o existem, mas \u00e9 estranho, estou sentindo tudo errado nele \u2014 Jota disse. \u2014 Mas e se existir agora? Uma nova linhagem. Aquele boato de &#8220;Sete peles&#8221; que estou ouvindo falar. Humanos por fora, algo mais por dentro. Nascidos assim. Integrados na sociedade h\u00e1 algumas gera\u00e7\u00f5es. Pois eles est\u00e3o muito quietos ultimamente e penso que \u00e9 poss\u00edvel eles terem evolu\u00eddo, todos evolu\u00edmos.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira, serafim de seis asas que aparecia e sumia conforme a necessidade (dirigia um Fusca 73 verde-musgo que ningu\u00e9m sabia de onde vinha), sussurrou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se for isso&#8230; o que podemos usar contra eles?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assentiu devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Existe um procedimento que talvez eles n\u00e3o lembrem. Que foi usado h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s. Rafael exp\u00f4s v\u00e1rios antes de Sodoma e Gomorra. Mas se essa \u00e9 uma nova gera\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o eles n\u00e3o sabem que podem ser revelados \u2014 Rand completou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sim, se funcionar ou est\u00e1 orgulhoso, ou tudo \u00e9 um mero engano meu \u2014 Jota emendou.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar ficou mais denso.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha, voz tr\u00eamula:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas\u2026 a gente n\u00e3o tem certeza. Pode ser s\u00f3 um homem muito ruim.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro caderno.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pode. Mas j\u00e1 estamos adiando demais e \u00e9 nosso \u00faltimo recurso.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ritual da Caminhada.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Miguelito arregalou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ritual da Caminhada? Isso n\u00e3o se usa desde Sodoma e Gomorra. S\u00e3o quase quatro mil anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Exatamente \u2014 Jota disse. \u2014 Tornou-se desnecess\u00e1rio. O protocolo normal sempre bastou. Mas se ele for o que eu acho que \u00e9&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa pesada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente precisa saber. E o Ritual \u00e9 o \u00fanico jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha, assustado:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E o que fazemos? Matamos ele antes da posse?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota balan\u00e7ou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tarde demais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim &#8220;tarde demais&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele j\u00e1 foi eleito. Dezenas de milh\u00f5es de votos. A urna j\u00e1 decidiu. Se a gente arrancar ele agora, a gente t\u00e1 anulando escolha. E escolha \u00e9 sagrada. Mesmo quando \u00e9 escolha errada.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o podemos interferir tanto. Livre arb\u00edtrio n\u00e3o funciona se a gente fica impedindo a escolha. A gente vigia, anota, e age de maneira proporcional. Sempre foi assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Miguelito franziu as sobrancelhas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que sugere?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ter certeza. Se for, a m\u00e1scara cai no Ritual. Todo mundo vai ver. Se s\u00f3 for ruim\u2026 ele passa e governa como qualquer outro corrupto.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand cruzou os bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E se for e o Trono aceitar mesmo assim?<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m queria pensar nessa possibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O Trono da Presid\u00eancia fica no Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 m\u00f3vel. N\u00e3o \u00e9 cadeira. N\u00e3o \u00e9 algo que se v\u00ea com olhos comuns.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Um objeto divino instalado desde o Imp\u00e9rio, quando o pacto foi selado. Existe em todo pa\u00eds de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u2014 tronos que parecem normais, mas carregam peso que nenhum mortal sente.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem senta ali governa sob julgamento silencioso.<\/p>\n\n\n\n<p>O Trono sempre aceitou.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo presidente que chegou ao topo, suou, mas sentou.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque Deus sempre aceitou.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se o Trono aceitar\u2026 ent\u00e3o aceitamos, \u00e9 decis\u00e3o de Deus. Na verdade parece ser desde o come\u00e7o, s\u00f3 confirmaremos a verdadeira face.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 De qualquer forma, a gente vai expor. O Brasil vai ver o que elegeu. E vai ter que conviver com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha engoliu em seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso \u00e9 cruel.<\/p>\n\n\n\n<p>Miguelito deu risada amarga.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cruel? Sempre fui contra removerem a obrigatoriedade do Ritual da Caminhada. Deveria ser protocolo padr\u00e3o, n\u00e3o exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa pesada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se tiv\u00e9ssemos mantido, n\u00e3o estar\u00edamos aqui na d\u00favida. Saber\u00edamos desde o come\u00e7o. Sem reuni\u00e3o de emerg\u00eancia, sem suspeita, sem precisar torcer pra que estejamos errados.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro caderno de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o. Fomos soberbos. Achamos que entrevista bastava. Que \u00e9ramos eficientes demais pra precisar de ritual. E agora? Agora estamos aqui, v\u00e9spera da posse, com d\u00favidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Bateu o punho na coura\u00e7a, som met\u00e1lico ecoando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse erro \u00e9 nosso. N\u00e3o do povo. Nosso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assentiu devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por isso a gente vai corrigir. Agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Explicou o Ritual:<\/p>\n\n\n\n<p>O Ritual da Caminhada \u00e9 simples e brutal.<\/p>\n\n\n\n<p>O eleito entra sozinho no Pal\u00e1cio do Planalto. Sem escolta, sem assessor, sem microfone. Atravessa o corredor principal \u2014 cem metros em linha reta \u2014 at\u00e9 a Sala do Trono.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada passo \u00e9 julgado. Cada mentira queima. Cada crime pesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o mais importante: se houver m\u00e1scara, ela cai.<\/p>\n\n\n\n<p>Se houver algo escondido, ele aparece.<\/p>\n\n\n\n<p>Se houver podrid\u00e3o enterrada, ela sobe \u00e0 superf\u00edcie.<\/p>\n\n\n\n<p>E fica assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Vis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os que creem e que veem, n\u00e3o est\u00e3o cegos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 puni\u00e7\u00e3o. \u00c9 revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Deus n\u00e3o impede livre arb\u00edtrio. N\u00e3o falsifica urna. N\u00e3o anula escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m n\u00e3o deixa ningu\u00e9m governar de m\u00e1scara.<\/p>\n\n\n\n<p>Se houver m\u00e1scara, ela cai. Se houver outra coisa, ela aparece.<\/p>\n\n\n\n<p>E o povo vai ver o que elegeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rede nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora pelo menos v\u00e3o saber o que escolheram.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha engoliu em seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o\u2026 a gente n\u00e3o t\u00e1 impedindo ele. A gente t\u00e1 expondo ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Exato.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E depois\u2026 o Trono decide. Aceita ou rejeita.<\/p>\n\n\n\n<p>As asas \u2014 as poucas que ainda usavam \u2014 se fecharam em un\u00edssono. Motores celestiais roncaram baixo. O Gol Bolinha de Jota ligou sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>O plano estava tra\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Descobrir a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Expor pro mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>E torcer pra que a suspeita de Jota estivesse errada.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Na noite anterior \u00e0 posse, Jota desceu de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sozinho. Terno simples, mochila laranja, t\u00eanis surrado. Bateu na porta da su\u00edte presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes abriu a porta em cueca e camiseta, barriga pra fora, cigarro na boca.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Franziu a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 De\u2026 eu te conhe\u00e7o?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o respondeu logo. Observou.<\/p>\n\n\n\n<p>O protocolo padr\u00e3o era simples: entrevista, avalia\u00e7\u00e3o, apagamento de mem\u00f3ria. O eleito acordava no dia seguinte sem lembrar de nada. S\u00f3 uma vaga sensa\u00e7\u00e3o de ter sonhado com algu\u00e9m perguntando coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Antilopes estava olhando pra ele com reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Vago, mas presente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quem \u00e9 voc\u00ea mesmo? Como entrou aqui?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o alarme disparar dentro dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Resist\u00eancia confirmada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mem\u00f3ria n\u00e3o foi completamente apagada ou fingimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso s\u00f3 acontecia quando a pessoa n\u00e3o era completamente humana.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Foi um sonho \u2014 Jota disse, voz neutra. \u2014 Mas agora eu vim falar sobre protocolo de verdade. Posso entrar?<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes deu de ombros, ainda confuso, e abriu a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Entra. Mas juro que eu te conhe\u00e7o de algum lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentaram na varanda.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota anotou mentalmente: &#8220;Resist\u00eancia ao apagamento confirmada. Poss\u00edvel n\u00e3o-humano.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E explicou o novo protocolo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Amanh\u00e3, antes da cerim\u00f4nia no Congresso, voc\u00ea vai tirar umas fotos no Trono da Presid\u00eancia. Fica dentro do Pal\u00e1cio.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes franziu a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Trono? Nunca ouvi falar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 porque ele normalmente n\u00e3o aparece, os presidentes s\u00f3 ficam sentados nele para fotos oficiais. Simbolismo, sabe como \u00e9. Presidente tem que &#8220;sentar no Trono&#8221; antes de receber a faixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Da rampa do Pal\u00e1cio at\u00e9 a Sala do Trono. Sozinho. Sem assessor, sem seguran\u00e7a, sem microfone. Mais imponente. S\u00f3 voc\u00ea e as c\u00e2meras internas. Depois voc\u00ea sai e vai pro Congresso receber a faixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes encolheu os ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tudo bem. Quanto tempo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tr\u00eas minutos. Voc\u00ea sobe a rampa, entra no Pal\u00e1cio, atravessa o corredor, chega na Sala do Trono, senta por trinta segundos, e sai. R\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 F\u00e1cil. Tenho hist\u00f3rico de atleta, n\u00e9. Tr\u00eas minutos \u00e9 nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota anotou algo no caderno marrom.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00d3timo. Ent\u00e3o amanh\u00e3, nove e meia. Sozinho, somente os Drag\u00f5es da Rep\u00fablica em volta, saudando.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes acenou com a m\u00e3o, despreocupado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tranquilo. J\u00e1 fiz coisa pior na campanha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tenho certeza.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guardou o caderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes sabia que o Trono n\u00e3o era cadeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Era juiz.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o sabia que o corredor at\u00e9 ele queimava mentirosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Literalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota saiu. Antilopes ficou sozinho, rindo baixo, mandando \u00e1udio pros filhos: &#8220;Os caras inventaram uma palha\u00e7ada de eu andar sozinho num corredor. Vou fazer e depois vou zoar eles no discurso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabia que a m\u00e1scara ia cair.<\/p>\n\n\n\n<p>E que n\u00e3o ia voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota subiu de volta pro c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha esperava na plataforma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed? Ele aceitou?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aceitou. Sem desconfiar de nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a resist\u00eancia? Voc\u00ea sentiu de novo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o precisei testar de novo. Tentou me enganar, mas tenho certeza que lembrou de mim. Apagamento n\u00e3o funcionou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha arregalou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o amanh\u00e3 a gente descobre se ele \u00e9 o que eu acho que \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O dia da posse amanheceu cinza em Bras\u00edlia, c\u00e9u baixo, calor de 38 graus e um sil\u00eancio estranho na Esplanada.<\/p>\n\n\n\n<p>A cerim\u00f4nia tinha sido antecipada. O protocolo do Trono aconteceria primeiro, \u00e0s nove e meia, antes de tudo. A multid\u00e3o presente em todos os locais poss\u00edveis. Tel\u00f5es gigantes mostravam as c\u00e2meras internas do Pal\u00e1cio. Cada detalhe seria transmitido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desceu dirigindo o Gol Bolinha pela Esplanada dos Minist\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os seguran\u00e7as, era mais um carro oficial. Placa, documentos, tudo em ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem olhasse muito de perto, os documentos brilhavam por um segundo \u2014 mas ningu\u00e9m olhava de perto. Ningu\u00e9m nunca olhava.<\/p>\n\n\n\n<p>Anjos vivem entre humanos h\u00e1 mil\u00eanios. Trabalham. Dirigem. Compram caf\u00e9. Invis\u00edveis n\u00e3o por magia, mas por normalidade absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem olha duas vezes pro cara de terno no Gol cinza velho?<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 exatamente assim que funciona.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota estacionou de banda na \u00e1rea reservada. Saiu com a mochila laranja no ombro, t\u00eanis surrado com cadar\u00e7o direito solto arrastando no ch\u00e3o, camiseta regata vinho por baixo do palet\u00f3 preto. O caderno marrom e o isqueiro amarelo no bolso interno, peso reconfortante contra o peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros anjos chegaram de carro tamb\u00e9m: Miguelito na Kombi branca, Rosquinha numa Bras\u00edlia amarela 78, Rand num Fusca que piscou e sumiu assim que ele desceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais funcion\u00e1rios do protocolo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais anjos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais guardi\u00f5es invis\u00edveis que o Brasil nunca soube que tinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes chegou de Rolls-Royce, terno impec\u00e1vel, sorriso largo.<\/p>\n\n\n\n<p>Desceu do carro. Viu a rampa. Viu Jota esperando no come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos logo com isso \u2014 disse. \u2014 Tr\u00eas minutos, n\u00e9? Rapidinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sozinho. Ningu\u00e9m avan\u00e7a com voc\u00ea nesse ponto. Protocolo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tranquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes subiu a rampa. Confiante. Sorrindo pras c\u00e2meras.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou no Pal\u00e1cio.<\/p>\n\n\n\n<p>As portas se fecharam atr\u00e1s dele.<\/p>\n\n\n\n<p>E o corredor come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Cem metros em linha reta.<\/p>\n\n\n\n<p>Piso de m\u00e1rmore polido. Paredes brancas. Sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu o primeiro passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro passo.<\/p>\n\n\n\n<p>O piso come\u00e7ou a queimar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fisicamente. Mas energeticamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sentiu. Parou. Olhou pro ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que porra\u2026?<\/p>\n\n\n\n<p>Continuou.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez metros.<\/p>\n\n\n\n<p>Suor come\u00e7ou a brotar. Respira\u00e7\u00e3o ficou pesada.<\/p>\n\n\n\n<p>Vinte metros.<\/p>\n\n\n\n<p>As pernas pesaram. Como se cada passo carregasse mais peso.<\/p>\n\n\n\n<p>Trinta metros.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou a sentir queima\u00e7\u00e3o nos p\u00e9s. Atrav\u00e9s dos sapatos. Imposs\u00edvel, mas real.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta metros.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pras pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>E viu.<\/p>\n\n\n\n<p>A pele rachou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o aos poucos.<\/p>\n\n\n\n<p>De uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Como pl\u00e1stico derretendo sob fogo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentou gritar, mas a voz saiu distorcida.<\/p>\n\n\n\n<p>A pele do rosto se soltou.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que apareceu embaixo\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Cinquenta metros. Metade do corredor.<\/p>\n\n\n\n<p>As c\u00e2meras internas captaram tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tel\u00f5es na pra\u00e7a mostraram.<\/p>\n\n\n\n<p>Milh\u00f5es de pessoas viram.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem todos viram a mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte da multid\u00e3o viu o dem\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Chifres pequenos, curvos, saindo da testa. Pele avermelhada, queimada, como carne viva. Olhos amarelo-enxofre que viraram vermelho-sangue. Boca retorcida, dentes pontiagudos, l\u00edngua b\u00edfida. M\u00e3os virando garras pretas, dedos se alongando, sangue seco grudado embaixo das unhas.<\/p>\n\n\n\n<p>E explodiu em gritos de horror:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 MEU DEUS! ELE \u00c9 UM DEM\u00d4NIO!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 EU SABIA! EU SEMPRE SOUBE!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 OLHEM! OLHEM PRA ELE!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 PARA! PARA ISSO!<\/p>\n\n\n\n<p>A outra parte \u2014 continuou cega e n\u00e3o admitia que o que via n\u00e3o era um homem.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 um homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Cansado. Suado. Mas humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Cambaleando no corredor, mas humano.<\/p>\n\n\n\n<p>E gritaram mais alto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 VOC\u00caS EST\u00c3O LOUCOS! ELE T\u00c1 NORMAL!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 HISTERIA COLETIVA!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 QUEREM INVENTAR DESCULPA PRA DERRUBAR ELE!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 NOSSO MITO! NOSSO MESSIAS!<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado de fora do Pal\u00e1cio, Jota observava num monitor de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Invis\u00edvel pra todos exceto os outros anjos.<\/p>\n\n\n\n<p>E entendeu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era quest\u00e3o de c\u00e2mera.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era quest\u00e3o de \u00e2ngulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Era quest\u00e3o de olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem tinha olhos pra ver, via.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem escolheu a cegueira, continuava cego.<\/p>\n\n\n\n<p>E ia continuar.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 decidir abrir os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se \u00e9 que um dia decidisse.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha apareceu ao lado dele, invis\u00edvel pra multid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota\u2026 ele\u2026 ele \u00e9 real. Dem\u00f4nio real.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente deixou um dem\u00f4nio chegar t\u00e3o perto\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente n\u00e3o deixou. A gente n\u00e3o sabia. Agora sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou ao redor.<\/p>\n\n\n\n<p>Pra multid\u00e3o dividida. Parte vendo dem\u00f4nio, parte vendo homem.<\/p>\n\n\n\n<p>E pensou, voz baixa que s\u00f3 os anjos ouviram:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se ele passou despercebido at\u00e9 agora\u2026 quantos mais passaram?<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio entre os anjos.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha, tremendo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea acha que tem outros?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o respondeu logo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o olhar dele varreu a pra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Milhares de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Deputados. Senadores. Ministros. Ju\u00edzes.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer um.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer um poderia ser.<\/p>\n\n\n\n<p>E s\u00f3 dava pra saber de um jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Ritual.<\/p>\n\n\n\n<p>Um por um.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ningu\u00e9m ia querer fazer isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m ia querer saber a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que a gente faz? \u2014 Rosquinha perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro monitor.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes, corpo demon\u00edaco cambaleante, chegando aos setenta metros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente continua. A gente mostra pro mundo inteiro. E a gente deixa o Trono decidir.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas\u2026 mas se o Trono aceitar\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o Deus decidiu dar ao povo exatamente o que pediram.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Setenta metros.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes caiu de joelhos no piso de m\u00e1rmore. Garras arranhando o ch\u00e3o polido, deixando marcas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o aguento mais\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>E de repente, Jota estava l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Materializado no corredor.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora vis\u00edvel nas c\u00e2meras.<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o na pra\u00e7a viu o anjo. Terno preto, mochila laranja, t\u00eanis surrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Puxou o caderno marrom, abriu. Leu em voz alta \u2014 e a voz ecoou pelo corredor, amplificada, transmitida:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Maria. Jo\u00e3o. Ana.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tem 342 mil nomes aqui. Cada um, uma vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou o caderno.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o listou. N\u00e3o explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro dem\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E cada um deles pesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pra\u00e7a, parte caiu de joelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte ficou de parte.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra parte continuou gritando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 MITO!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra eles atrav\u00e9s das c\u00e2meras.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o com raiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Com tristeza profunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque agora sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabia que o pa\u00eds tinha elegido um dem\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios deles viam.<\/p>\n\n\n\n<p>E v\u00e1rios n\u00e3o queriam ver.<\/p>\n\n\n\n<p>E nada que ele dissesse ia mudar isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes se levantou, arrastando.<\/p>\n\n\n\n<p>Garras arranhando o m\u00e1rmore a cada passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltavam trinta metros at\u00e9 a Sala do Trono.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Cem metros. Final do corredor.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta da Sala do Trono.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes chegou arrastando, corpo demon\u00edaco totalmente exposto, chifres sangrando, garras deixando rastro vermelho no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A pra\u00e7a inteira assistia. C\u00e2meras de todos os canais transmitiam ao vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte via dem\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte via homem exausto mas persistente.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta se abriu sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>A Sala do Trono era pequena. Redonda. Vazia exceto por uma cadeira no centro.<\/p>\n\n\n\n<p>Simples. Madeira escura. Assento de couro gasto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a presen\u00e7a que emanava dela era avassaladora.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os anjos sentiram.<\/p>\n\n\n\n<p>O Trono.<\/p>\n\n\n\n<p>Invis\u00edvel aos olhos comuns, mas ali. Pulsando.<\/p>\n\n\n\n<p>O julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A senten\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota, Miguelito, Rosquinha, Rand \u2014 todos materializados agora, formando semic\u00edrculo invis\u00edvel ao redor.<\/p>\n\n\n\n<p>Esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes, corpo demon\u00edaco tremendo, olhou pra cadeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou os olhos, rezou pela primeira vez em s\u00e9culos:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Rejeita. Por favor. Rejeita.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O Trono pulsou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>E mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>E\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Aceitou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha caiu de joelhos, solu\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o\u2026 n\u00e3o pode\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Miguelito socou a pr\u00f3pria coura\u00e7a, som met\u00e1lico ecoando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O TRONO ACEITOU UM DEM\u00d4NIO!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu os olhos devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conseguiu falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes, de p\u00e9 diante da cadeira, ergueu os olhos vermelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estava confuso.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava calculando.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorriu. Dentes podres. L\u00edngua b\u00edfida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sabia que ia aceitar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota arregalou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deus criou livre arb\u00edtrio, n\u00e3o \u00e9 incoerente.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa. Sorriu mais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se me rejeitassem, eu virava m\u00e1rtir. Voc\u00eas sabiam disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou direto pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu venci. De novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra cadeira, onde o Trono pulsava aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz saiu quebrada:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>Engoliu em seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O Trono aceitou. Porque o povo escolheu. E Deus\u2026 Deus respeita escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro dem\u00f4nio vitorioso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea vai governar. Como est\u00e1. N\u00e3o poder\u00e1 mais esconder.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Todo dia. Pelos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conseguiu dizer mais nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes sentou na cadeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>A faixa presidencial \u2014 trazida por um assessor que entrou tr\u00eamulo \u2014 foi colocada nele.<\/p>\n\n\n\n<p>No dem\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pra\u00e7a, a multid\u00e3o explodiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte gritou de horror:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00c3O! PELO AMOR DE DEUS, N\u00c3O!<\/p>\n\n\n\n<p>E a outra parte explodiu em j\u00fabilo hist\u00e9rico:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 GL\u00d3RIA! MITO! MESSIAS!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 ELE \u00c9 INVENC\u00cdVEL! ELE \u00c9 O ESCOLHIDO!<\/p>\n\n\n\n<p>Antilopes ficou de p\u00e9. Faixa no peito. Chifres, garras, pele queimada \u2014 ou homem vitorioso, dependendo de quem olhava.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Vitorioso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou as costas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conseguiu ver mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Miguelito apareceu ao lado dele, punhos sangrando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o podemos fazer mais nada?<\/p>\n\n\n\n<p>Miguelito respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 isso, j\u00e1 interferimos demais mostrando a verdade. Agora\u2026 agora \u00e9 com eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Voz falhando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deus deu ao povo o que pediram. E isso n\u00e3o vai mudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu do Pal\u00e1cio.<\/p>\n\n\n\n<p>Pernas tremendo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Jota entrou no Gol Bolinha cinza.<\/p>\n\n\n\n<p>Banco afundado recebeu os 110 kg de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ligou o motor logo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou ali, m\u00e3os no volante, olhando pra frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha bateu na janela, rosto molhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Falhamos?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota demorou pra responder.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Descobrimos. Expomos. Mostramos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas o Trono aceitou. Porque o povo escolheu.<\/p>\n\n\n\n<p>Voz quebrando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mesmo quando \u00e9 escolha do inferno.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha olhou pra tr\u00e1s, pro Pal\u00e1cio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea acha que ele \u00e9 o \u00fanico?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro retrovisor. Viu a Esplanada, os pr\u00e9dios do poder, as janelas acesas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Mas agora a gente sabe que \u00e9 poss\u00edvel. Algo literal, disfar\u00e7ado de humano, chegando ao topo. Se aconteceu uma vez\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o terminou a frase.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o precisava.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha engoliu em seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como vamos saber agora, vamos testar todo mundo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o. Porque ningu\u00e9m vai querer. Imagina propor: &#8220;vamos fazer todo pol\u00edtico ou melhor pessoa atravessar o corredor pra ver se \u00e9 algo diferente&#8221;. Iam rir da nossa cara.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ou iam ter medo demais do que podiam descobrir.<\/p>\n\n\n\n<p>Ligou o motor. 1.0 16v ronronou baixinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu devagar pela Esplanada, outras carruagens celestiais atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>L\u00e1 embaixo, o dem\u00f4nio governava.<\/p>\n\n\n\n<p>Chifres, garras, pele queimada \u2014 ou homem normal perseguido, dependendo de quem olhava.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rede nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>E a cada reuni\u00e3o de ministros, a cada sess\u00e3o do Congresso, a cada julgamento do Supremo, algu\u00e9m olhava pro colega do lado e pensava:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ser\u00e1 que ele tamb\u00e9m&#8230;?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ningu\u00e9m perguntava.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque ningu\u00e9m queria saber a resposta.<\/p>\n\n\n\n<p>E ningu\u00e9m conseguia convencer o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque n\u00e3o era quest\u00e3o de argumento.<\/p>\n\n\n\n<p>Era quest\u00e3o de vis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E vis\u00e3o n\u00e3o se debate.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou voc\u00ea v\u00ea, ou n\u00e3o v\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui em cima, os anjos voltaram ao sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>O Trono, l\u00e1 embaixo no Pal\u00e1cio, permanecia ocupado.<\/p>\n\n\n\n<p>A b\u00ean\u00e7\u00e3o que os anjos esperavam dar nunca chegou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a posse aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>E ningu\u00e9m \u2014 absolutamente ningu\u00e9m \u2014 ia poder dizer que n\u00e3o sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre Antilopes, pelo menos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre os outros?<\/p>\n\n\n\n<p>Bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa era uma pergunta que ningu\u00e9m queria fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 os anjos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, desde o Imp\u00e9rio, existe um pacto n\u00e3o escrito entre c\u00e9u e terra. Todo pol\u00edtico que chega ao topo passa por uma avalia\u00e7\u00e3o. Discreta. Invis\u00edvel. Um anjo desce, faz perguntas, observa, anota. \u00c9 protocolo. Sempre foi. Depois, a mem\u00f3ria \u00e9 apagada. O eleito acorda no dia seguinte sem lembrar de nada. 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