{"id":815,"date":"2026-01-21T00:15:00","date_gmt":"2026-01-21T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=815"},"modified":"2026-03-03T18:52:23","modified_gmt":"2026-03-03T21:52:23","slug":"rato-de-palha","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/rato-de-palha\/","title":{"rendered":"Rato de Palha"},"content":{"rendered":"\n<p>O galp\u00e3o abandonado da Pedreira do Orleans cheirava a ferrugem e concreto velho. Paredes de tijolo \u00e0 vista, teto de zinco furado deixando entrar a luz cinza da tarde, ch\u00e3o de cimento rachado coberto de poeira e folhas secas. Tinha sido dep\u00f3sito de alguma coisa anos atr\u00e1s, mas agora era s\u00f3 ru\u00edna esquecida no fim da estrada de terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha estava sentado num caixote de madeira virado, m\u00e3os nos joelhos, olhando pra baixo. Tinha 45 anos, baixinho, gordinho, bastante cabelo com alguns brancos aparecendo nas laterais, especialmente nas t\u00eamporas. Barba cheia com bigode de guid\u00e3o, bra\u00e7os peludos, camisa xadrez vermelha e branca.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota estava encostado na parede do fundo, mochila laranja jogada no ch\u00e3o ao lado, camiseta regata vinho grudada no corpo com o calor da tarde. T\u00eanis surrado, cadar\u00e7o direito solto arrastando no ch\u00e3o. N\u00e3o falava nada. S\u00f3 ficava ali, presen\u00e7a silenciosa, bra\u00e7os cruzados, olhando pro amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado do galp\u00e3o, perto da porta aberta, Leandro Costa terminava de ajustar a peruca loira que descia at\u00e9 os ombros. A drag estava completa: vestido azul justo marcando cada curva fabricada, salto prateado alto, maquiagem pesada com delineado perfeito, batom vermelho sangue. Mas dava pra ver que era ele \u2014 o rosto angular, a altura, o jeito de andar. Leandro Costa transformado, mas ainda reconhec\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Viveu Caiu. O apelido tinha nascido numa festa, anos atr\u00e1s, quando ele tinha trope\u00e7ado no pr\u00f3prio salto, ca\u00eddo de cara no ch\u00e3o, levantado e gritado &#8220;VIVEU, CAIU, LEVANTOU!&#8221; desde ent\u00e3o, grudou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele segurava algo nas m\u00e3os. Pequeno, delicado, tran\u00e7ado com capim seco. Um rato de palha. Os olhos eram dois bot\u00f5es pretos costurados com linha grossa. O rabo era um peda\u00e7o de barbante desfiado. O corpo inteiro brilhava dourado na luz fraca que entrava pelas frestas do teto.<\/p>\n\n\n\n<p>Viveu Caiu caminhou at\u00e9 Rosquinha, salto batendo no cimento, ecoando pelo galp\u00e3o vazio. Parou na frente dele, estendeu o rato.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fiz pra voc\u00ea \u2014 disse, voz grave, sem afeta\u00e7\u00e3o. Era Leandro falando, n\u00e3o a personagem. \u2014 Levei tr\u00eas dias. Aprendi no YouTube.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha levantou a cabe\u00e7a devagar. Olhou pro rato, pros olhos de bot\u00e3o preto, pro capim seco tran\u00e7ado com cuidado. O peito apertou. N\u00e3o era s\u00f3 um objeto. Era tempo. Era esfor\u00e7o. Era gesto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 perguntou, voz rouca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque eu quis. Porque voc\u00ea merece. Porque algu\u00e9m tinha que fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha pegou o rato. A palha era \u00e1spera, mas quente do toque de Leandro. Pesava quase nada, mas parecia carregar o mundo inteiro. Sentiu algo subir pela garganta, algo que n\u00e3o tinha nome, mistura de desejo, medo, gratid\u00e3o e vergonha. Segurou firme, dedos apertando o corpo de capim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Obrigado \u2014 sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Viveu Caiu sorriu, se agachou na frente dele, colocou a m\u00e3o no joelho de Rosquinha. As unhas eram longas, pintadas de vermelho met\u00e1lico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o precisa agradecer. S\u00f3 n\u00e3o joga fora.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha ia responder quando percebeu a mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A silhueta na porta bloqueou a \u00fanica faixa de luz que vinha de fora. O galp\u00e3o escureceu, n\u00e3o por nuvem, mas por ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se mexeu. Puxou o isqueiro amarelo do bolso da cal\u00e7a, acendeu na primeira. A chama subiu pequena, alaranjada, tremelicante. Levantou o bra\u00e7o, iluminando o centro do galp\u00e3o onde Rosquinha e Viveu Caiu estavam.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi nesse momento que El Bigodon entrou, como um gigante.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas baixinho, ombros largos, bigode grosso e preto, duas linhas retas descendo at\u00e9 o queixo. Camisa social branca com mangas arrega\u00e7adas, cal\u00e7a jeans gasta, botas de couro surradas. N\u00e3o parecia um pai. Parecia senten\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A luz do isqueiro bateu no rosto dele. Olhos fundos, escuros, fixos no filho.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha congelou. O rato de palha quase caiu das m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>El Bigodon entrou devagar, botas batendo no cimento, som pesado, definitivo. Parou a tr\u00eas metros de dist\u00e2ncia. Olhou pro filho. Olhou pra Viveu Caiu ainda agachado, m\u00e3o no joelho dele, vestido azul, salto prateado, maquiagem pesada. Olhou pro rato de palha nas m\u00e3os de Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio durou uma eternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o El Bigodon falou, voz grave, fria, cortante:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 coisa de homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha sentiu a vergonha subir quente pelo pesco\u00e7o, incendiar as bochechas, descer pelo peito como \u00e1cido. As m\u00e3os come\u00e7aram a tremer. O rato de palha tremeu junto. Queria jogar fora. Queria desaparecer. Queria que o ch\u00e3o se abrisse e engolisse tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Viveu Caiu levantou devagar, salto fazendo ele ficar quase o dobro da altura de El Bigodon. N\u00e3o desviou o olhar. N\u00e3o abaixou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso \u2014 disse, apontando pro rato \u2014 \u00e9 coisa de quem tem coragem de receber. E ele teve.<\/p>\n\n\n\n<p>El Bigodon deu um passo \u00e0 frente. Jota, ainda segurando o isqueiro, se afastou da parede, corpo tenso, pronto pra intervir se precisasse. Mas n\u00e3o falou nada. S\u00f3 ficou ali, presen\u00e7a s\u00f3lida, \u00e2ncora silenciosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Meu filho \u2014 El Bigodon continuou, ignorando Viveu Caiu, olhos fixos em Rosquinha \u2014 n\u00e3o vai virar viadinho por causa de um bonequinho de palha. N\u00e3o enquanto eu estiver vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha abaixou a cabe\u00e7a. As l\u00e1grimas vieram antes que ele pudesse segurar. Quentes, r\u00e1pidas, molhando a barba cheia, pingando no cimento. Segurou o rato com mais for\u00e7a, dedos afundando no capim seco, quase rasgando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele j\u00e1 \u00e9 o que \u00e9 \u2014 Viveu Caiu disse, voz ainda grave, mas agora com peso diferente, algo entre raiva e piedade. \u2014 E voc\u00ea n\u00e3o muda isso desprezando ele.<\/p>\n\n\n\n<p>El Bigodon virou a cabe\u00e7a devagar, olhou pra drag de baixo a cima, express\u00e3o de nojo puro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E voc\u00ea \u2014 cuspiu \u2014 n\u00e3o \u00e9 homem nem mulher. \u00c9 vergonha.<\/p>\n\n\n\n<p>Viveu Caiu n\u00e3o respondeu. S\u00f3 sorriu de canto, batom vermelho brilhando na luz do isqueiro. Jota tamb\u00e9m levantou e caminhou um pouco at\u00e9 pr\u00f3ximo a El Bigodon, se preparando para qualquer coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>El Bigodon se virou, caminhou at\u00e9 a porta, parou antes de sair. Olhou pra tr\u00e1s uma \u00faltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem at\u00e9 amanh\u00e3 pra sair da minha casa \u2014 disse pra Rosquinha, sem olhar de verdade. \u2014 Depois disso, n\u00e3o me procura mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu. As botas bateram no cascalho l\u00e1 fora, som sumindo aos poucos na dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha se levantou de um pulo. O rato de palha quase caiu das m\u00e3os. Deu dois passos r\u00e1pidos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta, corpo movido por instinto, pela necessidade desesperada de correr atr\u00e1s, de implorar, de fazer o pai voltar atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ia sair da frente quando o p\u00e9 prendeu em algo.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o solto do t\u00eanis de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota trope\u00e7ou e isso fez Rosquinha trope\u00e7ar tamb\u00e9m. Os corpos foram juntos pro ch\u00e3o, bra\u00e7os se abrindo tentando buscar equil\u00edbrio. Ca\u00edram de joelhos no cimento, m\u00e3os batendo, dor subindo pelas palmas. O rato de palha rolou, parou a poucos cent\u00edmetros.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou e Rosquinha ficou ali. De joelhos. Olhando pra porta vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>O som das botas do pai j\u00e1 tinha sumido completamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha olhou pra baixo. Viu o cadar\u00e7o do t\u00eanis surrado de Jota, solto, esticado no ch\u00e3o como armadilha invis\u00edvel. Depois olhou pra porta de novo. Entendeu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o adiantava correr atr\u00e1s de quem j\u00e1 tinha expulsado ele.<\/p>\n\n\n\n<p>O trope\u00e7o tinha salvado da humilha\u00e7\u00e3o maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se agachou, pegou o rato de palha do ch\u00e3o, limpou a poeira com a manga da camiseta regata vinho, estendeu de volta pro amigo. Rosquinha pegou com as duas m\u00e3os, segurou firme.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o ficou em sil\u00eancio. S\u00f3 a chama do isqueiro estalando baixinho, iluminando os tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha chorava. N\u00e3o tentava esconder mais. S\u00f3 deixava as l\u00e1grimas ca\u00edrem, corpo tremendo, ainda de joelhos no cimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ajudou Rosquinha a levantar, m\u00e3o firme no bra\u00e7o dele, depois no ombro. N\u00e3o falou nada. S\u00f3 ficou ali, presen\u00e7a s\u00f3lida.<\/p>\n\n\n\n<p>Viveu Caiu limpou uma l\u00e1grima do rosto de Rosquinha com o polegar, cuidado pra n\u00e3o borrar a pr\u00f3pria maquiagem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem lugar pra ficar? \u2014 perguntou, voz baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha balan\u00e7ou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. N\u00e3o pensei nisso ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra porta do galp\u00e3o. L\u00e1 fora, encostado no Gol Bolinha Cinza Urban 2003 duas portas, Rand Oliveira esperava. Macac\u00e3o azul, bra\u00e7os cruzados, caixa de ferramentas no ch\u00e3o ao lado. Quando percebeu que estavam olhando, acenou com a cabe\u00e7a. Puxou algo do bolso. Uma chave. Levantou no ar, mostrou, depois guardou de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O Rand tem um quarto. Vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha olhou pela porta, viu Rand encostado no carro, viu a chave sumindo no bolso do macac\u00e3o. Guardou o rato de palha na cal\u00e7a, com cuidado, certificando que n\u00e3o ia amassar.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou devagar. Jota pegou a mochila laranja do ch\u00e3o, jogou nas costas. Viveu Caiu ajeitou a peruca, limpou uma mancha de batom no canto da boca.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edram os tr\u00eas juntos. Viveu Caiu no meio, salto batendo no cascalho, vestido azul balan\u00e7ando. Rosquinha do lado esquerdo, m\u00e3o no bolso tocando o rato de palha. Jota do lado direito, mochila laranja nas costas, camiseta regata vinho grudada de suor.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand se afastou do Gol Bolinha quando eles se aproximaram, pegou a caixa de ferramentas do ch\u00e3o, abriu a porta traseira do carro, jogou dentro. Olhou pra Rosquinha, deu um aceno leve com a cabe\u00e7a. N\u00e3o falou nada. N\u00e3o precisava.<\/p>\n\n\n\n<p>A Pedreira do Orleans ficou pra tr\u00e1s. O galp\u00e3o abandonado ficou pra tr\u00e1s. El Bigodon ficou pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha seguiu em frente.<\/p>\n\n\n\n<p>O rato de palha ia junto.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O galp\u00e3o abandonado da Pedreira do Orleans cheirava a ferrugem e concreto velho. Paredes de tijolo \u00e0 vista, teto de zinco furado deixando entrar a luz cinza da tarde, ch\u00e3o de cimento rachado coberto de poeira e folhas secas. 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