{"id":823,"date":"2026-01-22T00:15:00","date_gmt":"2026-01-22T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=823"},"modified":"2026-03-03T19:51:00","modified_gmt":"2026-03-03T22:51:00","slug":"pata-maliciosa","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/pata-maliciosa\/","title":{"rendered":"Pata Maliciosa"},"content":{"rendered":"\n<p>A Pedreira do Orleans era labirinto verde onde a luz do sol se filtrava pelas folhas em feixes quebrados, quase l\u00edquidos. Jota caminhava devagar pela trilha estreita, mochila laranja pesando nas costas, t\u00eanis surrado afundando na terra \u00famida a cada passo. O cadar\u00e7o direito j\u00e1 estava solto. Sempre ficava. O ar cheirava a resina e musgo, e cada som \u2014 o bater distante de asas, o estalo de galhos \u2014 parecia amplificado pelo sil\u00eancio profundo que engolia tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>A camiseta regata vinho grudava no peito suado. O calor de Curitiba era diferente ali dentro da mata fechada. N\u00e3o queimava como no asfalto, mas sufocava, \u00famido, pesado. Jota parou pra respirar. Tirou a mochila das costas. Abriu o z\u00edper. L\u00e1 dentro, o caderno marrom de capa dura estava aberto na \u00faltima p\u00e1gina onde tinha anotado algo antes de entrar na floresta:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Pedreira \u2014 buscar a coisa que brilha&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Embaixo, um desenho mal feito de um cristal. Linhas tortas representando facetas. Jota n\u00e3o sabia desenhar, mas sabia o que procurava. Algu\u00e9m tinha falado. N\u00e3o lembrava quem. S\u00f3 lembrava da urg\u00eancia na voz: &#8220;Tem um cristal l\u00e1. Informa\u00e7\u00f5es importantes. Segredos. Vai l\u00e1.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E lembrava de outra coisa. Algo que a voz tinha dito antes de desligar:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o toca em nada. S\u00f3 observa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou o caderno. Guardou na mochila. Continuou andando.<\/p>\n\n\n\n<p>A clareira apareceu de repente, como se a floresta tivesse aberto espa\u00e7o de prop\u00f3sito. Luz dourada batia no ch\u00e3o coberto de folhas secas. No centro, algumas pessoas estavam sentadas em troncos ca\u00eddos. Jota reconheceu Rosquinha logo de cara, cabelo bagun\u00e7ado, camisa colorida chamativa. Rosquinha sorriu quando viu Jota, acenou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed, Ch\u00f4! \u2014 gritou. \u2014 Demorou!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Peguei o caderno \u2014 Jota respondeu, batendo na mochila. \u2014 Tava na mesa, onde eu tinha deixado. Acharam alguma coisa?<\/p>\n\n\n\n<p>Mama estava sentada em um tronco, bra\u00e7os cruzados, olhando ao redor com express\u00e3o s\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nada \u2014 ela disse. \u2014 T\u00e1 fazendo meia hora que procuramos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que lugar esquisito \u2014 Pop\u00f3 resmungou, chutando pedrinhas. \u2014 Pra que viemos aqui mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pro Babu parar de encher o saco \u2014 Rosquinha respondeu, rindo. \u2014 Ele disse que tinha algo importante aqui. Por isso mandou voc\u00ea buscar o caderno e deixou a gente procurando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cad\u00ea ele? \u2014 Jota perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama apontou pra trilha oposta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O Babu entrou ali faz uns cinco minutos. Tava&#8230; estranho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Estranho como?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Andando torto. Falando sozinho. Disse que sentiu algo, que precisava checar sozinho. Mandou a gente esperar aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu algo apertar no est\u00f4mago. Mas antes que pudesse perguntar mais, viu.<\/p>\n\n\n\n<p>No outro lado da clareira. Parada. Im\u00f3vel. Observando.<\/p>\n\n\n\n<p>A pata.<\/p>\n\n\n\n<p>Branca. Plumagem impec\u00e1vel, cada pena no lugar certo, reluzindo na luz filtrada como se fosse feita de porcelana. O bico era laranja vibrante, polido como metal rec\u00e9m-pintado. Mas o que realmente chamava aten\u00e7\u00e3o, o que fazia o est\u00f4mago de Jota revirar, era o sorriso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era bico de ave. N\u00e3o era express\u00e3o animal.<\/p>\n\n\n\n<p>Era sorriso humano. Largo. Malicioso. Como se guardasse segredos que ningu\u00e9m deveria conhecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Enrolada no pesco\u00e7o da pata, como cachecol pulsante, vivo, uma cobra fina e escura. A serpente sibilava baixo, l\u00edngua bifurcada cortando o ar em movimentos r\u00e1pidos, provando o cheiro de cada pessoa na clareira. Os olhos da cobra eram amarelos, frios, atentos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que porra \u00e9 aquela? \u2014 Pop\u00f3 sussurrou, dando um passo pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o conseguiu responder.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m se mexeu. O som da floresta tinha sumido. Nem vento. Nem passarinho. S\u00f3 o sibilo da cobra, fino como agulha atravessando tecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o est\u00f4mago gelar. As pernas travaram. A boca secou.<\/p>\n\n\n\n<p>A pata piscou. Uma vez. Devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>E naquele exato momento, algo se mexeu nas ra\u00edzes de uma \u00e1rvore ao lado dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Um bichinho pequeno. Peludo. Do tamanho de um esquilo, mas com formato errado. Pernas curtas demais, cabe\u00e7a grande demais. Ele saiu correndo do buraco entre as ra\u00edzes, carregando algo nas patinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cristal.<\/p>\n\n\n\n<p>Brilhante. Pulsante. Cheio de luz pr\u00f3pria que mudava de cor a cada segundo: azul, verde, dourado, vermelho. Dentro do cristal, Jota podia ver coisas. N\u00e3o eram imagens. Eram informa\u00e7\u00f5es. Mem\u00f3rias. Segredos condensados em luz, como se fossem arquivos vivos esperando pra serem abertos.<\/p>\n\n\n\n<p>O bichinho correu. A pata virou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu o bico.<\/p>\n\n\n\n<p>O bichinho voou pra dentro da boca da pata. N\u00e3o foi sugado. Foi puxado. Como se a pata tivesse gravidade pr\u00f3pria, campo magn\u00e9tico que atra\u00eda tudo ao redor. O cristal desapareceu junto. A pata fechou o bico.<\/p>\n\n\n\n<p>O cristal apareceu de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro do peito dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Brilhando. Pulsando. Vis\u00edvel atrav\u00e9s da plumagem branca, como se o corpo da ave fosse transparente s\u00f3 naquele ponto. O cristal latejava em ritmo constante, como cora\u00e7\u00e3o artificial.<\/p>\n\n\n\n<p>Era aquele. O mesmo que ele tinha vindo buscar. As informa\u00e7\u00f5es importantes. Os segredos. Agora presos dentro dela.<\/p>\n\n\n\n<p>A pata piscou. Uma vez. Devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou diretamente pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>O sorriso se alargou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho \u2014 Rosquinha murmurou, voz tremendo. \u2014 Ela guardou aquilo pra depois&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu algo diferente no peito. Uma press\u00e3o. N\u00e3o era medo. Era&#8230; poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou a m\u00e3o direita. Pensou: <em>&#8220;Ar, obedece.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>A press\u00e3o aumentou. Subiu pelo peito, esquentou a garganta, latejou nas t\u00eamporas. Jota fechou os olhos. Sentiu o poder ali, preso, esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou de novo, mais firme: <em>&#8220;Ar. Obedece.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O ar obedeceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma brisa quente come\u00e7ou a girar ao redor dele. Folhas secas levantaram do ch\u00e3o, rodopiaram em espiral lenta. Jota abriu os olhos. O poder flu\u00eda agora, natural como respirar, mas inst\u00e1vel. A brisa oscilava, crescia, diminu\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou: <em>&#8220;Bal\u00e3o.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tentou criar.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo apareceu no ar. Uma bolha de pl\u00e1stico transparente, pequena, tremendo. Cresceu um pouco. Murchou. Cresceu de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que diabos&#8230; \u2014 Mama sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota concentrou. Empurrou o poder com mais for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O bal\u00e3o explodiu em tamanho.<\/p>\n\n\n\n<p>Vermelho brilhante. Tr\u00eas metros de di\u00e2metro, maior que o Gol Bolinha. Flutuando ao lado de Jota como planeta particular. A superf\u00edcie do bal\u00e3o refletia a luz verde da floresta, o rosto espantado de Rosquinha, o sorriso da pata.<\/p>\n\n\n\n<p>O cristal no peito dela pulsou diferente. Mais r\u00e1pido. Como se reconhecesse algo. Como se tivesse encontrado o que procurava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ch\u00f4&#8230; \u2014 Rosquinha murmurou, olhos arregalados. \u2014 Voc\u00ea tem poder agora?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como voc\u00ea fez isso? \u2014 Mama perguntou, levantando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu. Levantou as duas m\u00e3os agora. Fez o bal\u00e3o girar. O pl\u00e1stico vermelho dan\u00e7ava no ar, obediente, girando devagar ao redor da clareira. Rosquinha deu risada nervosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso \u00e9 insano!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota empurrou o bal\u00e3o suavemente na dire\u00e7\u00e3o de Rosquinha. O bal\u00e3o tocou o peito dele, empurrou pra tr\u00e1s com leveza. Rosquinha caiu sentado no ch\u00e3o, rindo feito louco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 De novo! Faz de novo!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fez. O bal\u00e3o girava, empurrava Mama (que gritou), empurrava Pop\u00f3 (que xingou), voltava flutuando at\u00e9 Jota. Era leve. Era perfeito. Era brincadeira pura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas algo incomodava Jota. Um peso no peito. Um aviso que n\u00e3o conseguia identificar.<\/p>\n\n\n\n<p>A pata observava tudo. O sorriso ainda l\u00e1. A cobra sibilando baixo, como se aplaudisse. O cristal no peito dela pulsava mais r\u00e1pido agora, brilhando em sincronia com os movimentos do bal\u00e3o, como se estivesse gravando cada segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu algo esquentar no bolso da cal\u00e7a. Enfiou a m\u00e3o. Tirou o isqueiro amarelo, o sobrevivente. Olhou pra ele. Girou a rodinha. Chama pequena e firme apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra pata. O sorriso dela parecia maior agora. Expectante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quer ver outro truque?<\/p>\n\n\n\n<p>A pata n\u00e3o respondeu. S\u00f3 inclinou a cabe\u00e7a pro lado. A cobra sibilou mais alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pensou: <em>&#8220;Fogo, cresce.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A chama do isqueiro explodiu. Ficou enorme, do tamanho de tocha medieval, labareda laranja e amarela subindo meio metro no ar. Rosquinha gritou. Mama deu tr\u00eas passos pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>A pata soprou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi sopro de ave. Foi vento. Rajada forte que atravessou a clareira inteira, apagando a chama do isqueiro num instante. Jota sentiu o vento bater no rosto, frio, cortante.<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro apagou. Fumacinha subiu da ponta.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou fixo pra pata. O sorriso dela n\u00e3o tinha mudado.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo estava errado. Muito errado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 assim? \u2014 ele murmurou.<\/p>\n\n\n\n<p>Das sombras profundas da floresta atr\u00e1s da pata, ele apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso.<\/p>\n\n\n\n<p>Enorme. Pelo marrom desgrenhado, focinho largo, olhos pequenos e s\u00e9rios. Cada passo fazia o ch\u00e3o tremer levemente. O som da respira\u00e7\u00e3o era grave, pesado, como motor diesel funcionando devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tinha algo errado.<\/p>\n\n\n\n<p>O jeito de andar. A postura. A cabe\u00e7a inclinada de um lado espec\u00edfico, como se estivesse avaliando a situa\u00e7\u00e3o antes de agir.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota conhecia aquele jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Babu? \u2014 murmurou.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso parou. Virou a cabe\u00e7a. Olhou diretamente pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Falou.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz saiu rouca, um rosnado arranhando palavras humanas:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota&#8230; para.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou. Processou. Olhou pro urso. Pro focinho. Pros olhos que pareciam familiares mas n\u00e3o podiam ser.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Babu?! \u2014 gritou. \u2014 \u00c9 voc\u00ea?!<\/p>\n\n\n\n<p>O urso \u2014 ou o que tinha sido Babu \u2014 deu mais um passo pra frente. O corpo era de fera. Garras enormas. M\u00fasculos tensos. Mas o jeito de falar, mesmo rouco, mesmo dif\u00edcil&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para&#8230; com isso \u2014 a voz sa\u00eda for\u00e7ada, como se cada palavra custasse.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu s\u00f3 t\u00f4 brincando! \u2014 Jota respondeu, levantando as m\u00e3os. \u2014 Olha, \u00e9 s\u00f3 um bal\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o&#8230; \u2014 o urso rugiu baixo. \u2014 Ela&#8230; t\u00e1&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O urso sacudiu a cabe\u00e7a, como se lutasse contra algo. Os olhos piscaram. Por um segundo, Jota viu algo humano ali. Medo. Desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela t\u00e1 vendo tudo \u2014 Mama disse, voz tensa. \u2014 Jota, olha o jeito que ela t\u00e1 olhando. T\u00e1 gravando voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou. O cristal no peito da pata pulsava freneticamente agora. As cores mudando r\u00e1pido demais pra acompanhar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para! \u2014 o urso rugiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Literalmente rugiu. O som ecoou pela floresta inteira. P\u00e1ssaros voaram assustados. Rosquinha se encolheu atr\u00e1s de um tronco.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso avan\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>R\u00e1pido. Muito mais r\u00e1pido do que qualquer urso deveria ser.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, sai! \u2014 Mama gritou, correndo pra frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela agarrou o bra\u00e7o dele, tentou puxar. Muito devagar. Muito fraca. Pop\u00f3 jogou uma pedra. Bateu no ombro do urso. Nem arranh\u00e3o deixou.<\/p>\n\n\n\n<p>A pata pesada veio de cima, garras abertas, prontas pra esmagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota nem teve tempo de pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>O bal\u00e3o apareceu na frente.<\/p>\n\n\n\n<p>O golpe bateu no pl\u00e1stico vermelho com for\u00e7a brutal. O impacto fez um som surdo, oco. O bal\u00e3o absorveu tudo. A energia do golpe voltou como onda, jogando o urso tr\u00eas metros pra tr\u00e1s. O urso caiu no ch\u00e3o, rolou, levantou bufando.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota sentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O pl\u00e1stico cedeu um pouco. N\u00e3o muito. S\u00f3 um cent\u00edmetro. S\u00f3 o suficiente pra ele perceber que n\u00e3o ia durar para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Babu, para! \u2014 Jota gritou. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o t\u00e1 se controlando!<\/p>\n\n\n\n<p>O urso n\u00e3o respondeu. S\u00f3 rosnados. S\u00f3 f\u00faria cega nos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Avan\u00e7ou de novo. Mais r\u00e1pido. Dentes \u00e0 mostra.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem no meio da tens\u00e3o, algu\u00e9m apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira.<\/p>\n\n\n\n<p>Do nada. Literalmente do nada. Um segundo o espa\u00e7o entre Jota e o urso estava vazio. No outro, Rand estava l\u00e1, macac\u00e3o azul, chave de fenda na m\u00e3o, cara de quem acabou de chegar de outro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Calma a\u00ed, galera \u2014 Rand disse, levantando as m\u00e3os. \u2014 Vamos todo mundo respirar, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>O urso parou. Olhou pra Rand. Um rosnado baixo saiu da garganta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rand, cuidado! \u2014 Jota gritou. \u2014 Ele n\u00e3o t\u00e1 se controlando!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei \u2014 Rand respondeu, sorrindo daquele jeito calmo dele. Mas havia tens\u00e3o nos ombros. \u2014 Por isso vou tirar ele daqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand estendeu a m\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o do urso. Os dedos se mexeram de forma estranha, como se estivesse manipulando algo invis\u00edvel no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>O espa\u00e7o ao redor do urso come\u00e7ou a tremer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Babu, meu parceiro, voc\u00ea vai dar um tempo agora, t\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>O urso sentiu. Sacudiu a cabe\u00e7a. Deu um passo pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>E avan\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Direto pra Rand.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand n\u00e3o teve tempo de terminar.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar ESTALOU.<\/p>\n\n\n\n<p>O espa\u00e7o entre Rand e o urso rasgou. N\u00e3o foi o urso que fez. Foi outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>O cristal no peito da pata BRILHOU. Luz cegante. Todas as cores ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>E Rand foi PUXADO.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pra tr\u00e1s. N\u00e3o pro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pra dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se o ar tivesse aberto uma boca invis\u00edvel e engolido ele inteiro. Rand desapareceu com um som de est\u00e1tica seca, el\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p>O espa\u00e7o onde ele tinha estado ficou errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Vibrava. Tremia. Peda\u00e7os do ar pareciam fora de sincronia, como v\u00eddeo travado. Uma distor\u00e7\u00e3o pulsante, do tamanho de uma pessoa, flutuava ali como ferida aberta na realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso atravessou o espa\u00e7o vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou direto pela distor\u00e7\u00e3o. As patas dianteiras entraram no ar distorcido e sa\u00edram do outro lado. Por um segundo, o corpo do urso OSCILOU, ficou transl\u00facido, quase sumiu. Mas voltou. S\u00f3lido de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso trope\u00e7ou. Chacoalhou a cabe\u00e7a, confuso. As patas falharam no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rand! \u2014 Jota gritou, olhando pra distor\u00e7\u00e3o. \u2014 Rand, voc\u00ea t\u00e1 a\u00ed?!<\/p>\n\n\n\n<p>Nada. S\u00f3 o ar tremendo. S\u00f3 a est\u00e1tica visual.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que&#8230; o que aconteceu com ele? \u2014 Rosquinha sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra pata.<\/p>\n\n\n\n<p>O sorriso dela tinha se alargado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela tirou ele daqui \u2014 Mama disse, voz tremendo. \u2014 Mandou ele pra algum lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso se recuperou. Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. Focou de novo em Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Avan\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>O bal\u00e3o bloqueou. De novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto bateu. Voltou. Jogou o urso pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas dessa vez o bal\u00e3o tremeu. O pl\u00e1stico ondulou, perdeu forma por meio segundo. Um rasgo pequeno apareceu na lateral, fino como fio de cabelo.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso n\u00e3o parava. S\u00f3 rosnados agora. Nada de palavras. S\u00f3 instinto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era pedido. Era comando animal.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso pulou. Alto. Veio de cima, as duas patas dianteiras abertas, peso inteiro do corpo descendo pra esmagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu um passo pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00e9 direito enroscou.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o solto do t\u00eanis surrado tinha se enrolado numa raiz grossa que sa\u00eda do ch\u00e3o. Jota puxou o p\u00e9. O cadar\u00e7o n\u00e3o soltou. Puxou de novo. Travado.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso desceu.<\/p>\n\n\n\n<p>O bal\u00e3o subiu pra bloquear.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota caiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o segurou o p\u00e9 com for\u00e7a, puxou ele pra tr\u00e1s. Jota perdeu o equil\u00edbrio, corpo indo pro ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso errou.<\/p>\n\n\n\n<p>As patas passaram dez cent\u00edmetros acima da cabe\u00e7a de Jota. O vento do golpe bagun\u00e7ou o cabelo dele. O urso bateu no ch\u00e3o do lado, rolou, levantou confuso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou deitado. Cadar\u00e7o ainda enroscado. Cora\u00e7\u00e3o disparado.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro t\u00eanis. Depois pro espa\u00e7o vazio onde o urso quase o tinha esmagado.<\/p>\n\n\n\n<p>Desenroscou devagar. Levantou. O bal\u00e3o girou de volta, ficou flutuando ao lado dele. O rasgo na lateral tinha crescido. N\u00e3o muito. Mas crescido.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso estava parado agora. Respirando pesado. Olhando fixo.<\/p>\n\n\n\n<p>A respira\u00e7\u00e3o sa\u00eda dif\u00edcil. Rosnados baixos intercalados com algo que parecia quase&#8230; choro?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou nos olhos do urso.<\/p>\n\n\n\n<p>E viu.<\/p>\n\n\n\n<p>Babu estava l\u00e1. Preso. Lutando. Perdendo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Babu&#8230; \u2014 Jota sussurrou. \u2014 Eu vou parar. Prometo.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso deu um passo \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama gritou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi grito de susto. Foi grito de dor.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama estava de joelhos. As m\u00e3os no ch\u00e3o. Os dedos&#8230; os dedos estavam mudando.<\/p>\n\n\n\n<p>Alongando. Ficando pontiagudos. As unhas cresciam, escureciam, curvavam como garras. Pelos finos come\u00e7aram a brotar dos bra\u00e7os, subindo pelos ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mama! \u2014 Rosquinha correu, agarrou ela pelos ombros. \u2014 Aguenta! Aguenta a\u00ed!<\/p>\n\n\n\n<p>Mama olhou pras pr\u00f3prias m\u00e3os. O rosto contorceu de medo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota&#8230; \u2014 a voz saiu fraca. \u2014 Jota, que t\u00e1 acontecendo comigo?<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 urrou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi grito humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou pro outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 estava curvado, as costas arqueando de forma imposs\u00edvel. O corpo dele crescia. M\u00fasculos expandiam sob a roupa. O pesco\u00e7o engrossava. A respira\u00e7\u00e3o sa\u00eda pesada, animalesca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o \u2014 Pop\u00f3 conseguiu dizer, voz distorcida. \u2014 N\u00e3o, eu n\u00e3o quero\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>A frase virou rosnado no meio.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso tamb\u00e9m sentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo dele tremeu. Um gemido baixo, quase humano, saiu da garganta. Como se a dor de Mama e Pop\u00f3 ecoasse nele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota! \u2014 Rosquinha gritou, largando Mama, correndo at\u00e9 ele. Agarrou a camisa de Jota, chacoalhou. \u2014 Faz alguma coisa! A pata! Faz ela parar!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra pata.<\/p>\n\n\n\n<p>O cristal no peito dela pulsava violentamente agora. Todas as cores ao mesmo tempo. A cobra sibilava alto, l\u00edngua cortando o ar freneticamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A pata piscou.<\/p>\n\n\n\n<p>O sorriso se alargou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tentou pensar. Tentou comandar. Mas n\u00e3o sabia como. Como parar aquilo? Como fazer a pata ir embora? Como reverter?<\/p>\n\n\n\n<p>O urso bufou. Virou a cabe\u00e7a. Olhou pra pata.<\/p>\n\n\n\n<p>Um rosnado saiu da garganta dele. N\u00e3o era pra Jota. Era pra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>A pata levantou voo.<\/p>\n\n\n\n<p>As asas brancas se abriram. Ela subiu. R\u00e1pido. Direto pro bal\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o! \u2014 Jota gritou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas era tarde.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha brincado demais. Tinha chamado aten\u00e7\u00e3o. Tinha ignorado tudo. A pata s\u00f3 estava esperando o momento certo.<\/p>\n\n\n\n<p>A pata agarrou o bal\u00e3o com as patas. As garras entraram exatamente onde o rasgo j\u00e1 tinha come\u00e7ado. O ponto fraco que os golpes de Babu tinham criado.<\/p>\n\n\n\n<p>POP.<\/p>\n\n\n\n<p>O bal\u00e3o n\u00e3o explodiu. Murchou r\u00e1pido, mas o ar que saiu n\u00e3o era normal. Brilhava levemente, dourado, dissipando como fuma\u00e7a. O que sobrou nas garras da pata n\u00e3o era mais s\u00f3 pl\u00e1stico vermelho. Era poder solidificado, forma dada ao imposs\u00edvel. Mesmo murcho, ainda pulsava em sincronia perfeita com o cristal no peito dela. Uma amostra. Evid\u00eancia. Prova de que Jota tinha criado algo do nada \u2014 e agora esse segredo pertencia a outra pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>A pata voou embora.<\/p>\n\n\n\n<p>Subiu acima das \u00e1rvores. A cobra ainda enrolada no pesco\u00e7o. O cristal brilhando no peito com todas as cores ao mesmo tempo. O bal\u00e3o murcho pendurado nas garras como trof\u00e9u pulsante.<\/p>\n\n\n\n<p>Desapareceu entre as copas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou parado. Bra\u00e7os ca\u00eddos. Olhando pra cima. Sem bal\u00e3o. Sem prote\u00e7\u00e3o. Sem nada.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o sentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama parou de gritar. A respira\u00e7\u00e3o dela normalizou. Jota virou.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pelos nos bra\u00e7os dela estavam recuando. As garras voltando a ser unhas. Os dedos recuperando a forma humana. Mama olhou pras pr\u00f3prias m\u00e3os, piscando, confusa. Esfregou os bra\u00e7os, onde a pele ainda formigava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Parou \u2014 ela sussurrou. \u2014 Parou&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 caiu de joelhos. O corpo dele diminuiu. Voltou ao tamanho normal. A respira\u00e7\u00e3o ainda pesada, mas humana agora. Ele colocou as m\u00e3os no ch\u00e3o, tremendo. Tocou o pr\u00f3prio pesco\u00e7o, sentindo o tamanho normal dele, tentando se convencer de que tinha voltado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que merda&#8230; que merda foi essa&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha soltou o ar que estava segurando. Correu at\u00e9 Mama, ajudou ela a levantar. Depois foi at\u00e9 Pop\u00f3, colocou a m\u00e3o no ombro dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00eas t\u00e3o bem? T\u00e3o bem?<\/p>\n\n\n\n<p>Mama assentiu, muda. Pop\u00f3 n\u00e3o respondeu, s\u00f3 respirou fundo, tentando se recompor.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>O urso estava mudando.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo encolhia, tremendo. O pelo recuando. Os ombros ficando menores, mais humanos. As patas se transformando em bra\u00e7os, em m\u00e3os. A transforma\u00e7\u00e3o era r\u00e1pida, mas parecia doer.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundos, n\u00e3o era mais urso.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Alto. Macac\u00e3o rasgado. Rosto sujo de terra. Cabelo bagun\u00e7ado. Joelhos tremendo tanto que ele teve que se apoiar num tronco pra n\u00e3o cair.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota conhecia aquele rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Babu? \u2014 sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem levantou a cabe\u00e7a. Olhou direto pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era s\u00f3 Babu.<\/p>\n\n\n\n<p>Era Leandro Costa.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro Costa, o melhor amigo desde a escola. Leandro Costa, que sempre avisava quando Jota ia fazer merda. Leandro Costa, que tinha entrado na floresta primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>E tinha virado aquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Babu! \u2014 Rosquinha correu at\u00e9 ele, segurou pelos ombros. \u2014 Voc\u00ea voltou!<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro n\u00e3o respondeu logo. S\u00f3 ficou ali, apoiado no tronco, respirando pesado. Suor escorria pelo rosto. As m\u00e3os tremiam.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz saiu rouca quando finalmente falou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tentei&#8230; tentei te avisar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o peito apertar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Babu, eu n\u00e3o sabia que\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o era pra ser assim \u2014 Leandro cortou, ainda sem levantar a voz. Cansado demais pra irrita\u00e7\u00e3o. \u2014 Quando vi aquela coisa&#8230; o cristal&#8230; algo come\u00e7ou. N\u00e3o conseguia pensar direito. S\u00f3&#8230; s\u00f3 sabia que voc\u00ea tinha que parar.<\/p>\n\n\n\n<p>Respirou fundo, dolorido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tentei falar. Mas as palavras n\u00e3o sa\u00edam. S\u00f3 vontade de atacar. De parar voc\u00ea de qualquer jeito. Ela me dominou, Jota. Me usou.<\/p>\n\n\n\n<p>PUFF.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Do nada. De novo. Mas dessa vez foi diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se materializou devagar. Como imagem carregando pixel por pixel. O espa\u00e7o ao redor dele tremeu, resistiu, cedeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand cambaleou quando finalmente ficou s\u00f3lido. Apoiou a m\u00e3o no ombro de Leandro, buscando equil\u00edbrio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho \u2014 Rand murmurou, olhando ao redor. \u2014 Quanto tempo passou?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cinco minutos \u2014 Rosquinha respondeu, voz ainda tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00e9rio? \u2014 Rand piscou, confuso. \u2014 Parecia muito mais. Tipo&#8230; horas. Dias, talvez.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou pra Jota. A express\u00e3o mudou. Ficou s\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vi tudo de onde tava preso \u2014 disse. \u2014 Aquele espa\u00e7o&#8230; n\u00e3o era um lugar. Era um intervalo. Entre aqui e outro lugar. Como se fosse&#8230; uma dobra. Dava pra ver tudo acontecendo aqui, mas eu n\u00e3o conseguia voltar. N\u00e3o conseguia sair. E o tempo&#8230; o tempo funcionava diferente l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Fez uma pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A pata me mandou pra l\u00e1 quando tentei usar meu poder no Babu. Ela sentiu. E me removeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra pata \u2014 ou pro espa\u00e7o vazio onde ela tinha estado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela n\u00e3o rouba poder, Jota. Ela coleciona. Cataloga. E quando algu\u00e9m tenta interferir&#8230; ela tira do caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Fez uma pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E transmite tudo pra algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o est\u00f4mago gelar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Transmite pra quem?<\/p>\n\n\n\n<p>Rand abriu a boca pra responder.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro levantou a m\u00e3o, cortando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Depois, Rand.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro se soltou do apoio. Ficou de p\u00e9 sozinho, tremendo, mas de p\u00e9. Olhou pra Jota. O olhar cansado, pesado, decepcionado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos embora. Agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o discutiu. N\u00e3o tinha o que dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>Abaixou. Pegou a mochila laranja do ch\u00e3o. Abriu. Tirou o caderno marrom. Abriu na \u00faltima p\u00e1gina.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro desenho do cristal. Pras instru\u00e7\u00f5es: <em>&#8220;N\u00e3o toca em nada. S\u00f3 observa.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Embaixo, com letra tremida, escreveu:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Ela levou tudo. Babu foi dominado tentando me parar. Rand foi removido quando tentou ajudar. N\u00e3o escutei os avisos. A pata n\u00e3o rouba \u2014 espera voc\u00ea oferecer. Coleciona. Cataloga. Remove quem interfere. E agora algu\u00e9m, em algum lugar, tem tudo gravado. Cada movimento. Cada poder. Cada erro.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Fechou o caderno. Guardou na mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro ch\u00e3o. O cadar\u00e7o do t\u00eanis estava solto de novo. Balan\u00e7ando leve com a brisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Abaixou. Pegou. Dessa vez, amarrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem firme.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou. Pegou a mochila. Colocou nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mama e Pop\u00f3 se levantaram devagar. Rosquinha ajudou os dois. Ningu\u00e9m falou nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro virou e come\u00e7ou a andar de volta pela trilha. Rand foi logo atr\u00e1s, ainda meio inst\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra clareira vazia uma \u00faltima vez. Pro c\u00e9u onde a pata tinha desaparecido. Pro espa\u00e7o onde o bal\u00e3o tinha flutuado. Pro ar distorcido onde Rand tinha sido puxado \u2014 a distor\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava sumindo, se fechando, voltando ao normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou a andar.<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s dele, Mama, Pop\u00f3 e Rosquinha seguiram em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m falou no caminho de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o som dos passos na terra \u00famida. O farfalhar das folhas. A respira\u00e7\u00e3o pesada de quem carrega peso que n\u00e3o \u00e9 f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro pr\u00f3prio t\u00eanis enquanto andava. O cadar\u00e7o estava firme agora. Bem amarrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas sabia que ia voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque a pata ainda tinha o cristal.<\/p>\n\n\n\n<p>E dentro dele, gravado em luz pulsante, estava tudo que tinha acontecido ali. Cada movimento. Cada poder. Cada erro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os segredos n\u00e3o eram da pata.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram sobre ele.<\/p>\n\n\n\n<p>E algu\u00e9m, em algum lugar, ia querer assistir.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Pedreira do Orleans era labirinto verde onde a luz do sol se filtrava pelas folhas em feixes quebrados, quase l\u00edquidos. Jota caminhava devagar pela trilha estreita, mochila laranja pesando nas costas, t\u00eanis surrado afundando na terra \u00famida a cada passo. O cadar\u00e7o direito j\u00e1 estava solto. Sempre ficava. O ar cheirava a resina e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1707,"menu_order":22,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"livro":[18],"personagem":[28,1149,264,27,228,227,263,256,81,217],"genero":[1150,654],"tom":[1151,843,41],"timeline":[57],"versao_jota":[913],"categoria_cap":[1152,1153],"item_essencial":[33,31,36,34,32,35],"tema":[1156,1155,1154],"local":[1171,1169,1170,1135,1168],"keyword":[1164,1163,1160,1162,1139,935,1157,1136,1161,1046,1158,1159,1166,1167,1165],"class_list":["post-823","capitulo","type-capitulo","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","livro-dias-apos-um-fim","personagem-alguem","personagem-babu","personagem-cobra","personagem-gpjota","personagem-leandro-costa","personagem-mama","personagem-pata","personagem-popo","personagem-rand-oliveira","personagem-rosquinha-dende","genero-fantasia-sombria","genero-terror-psicologico","tom-ameacador","tom-inquietante","tom-tenso","timeline-curitiba","versao_jota-despertar-de-poderes","categoria_cap-fantasia","categoria_cap-vigilancia-sobrenatural","item_essencial-caderno-marrom-de-capa-dura","item_essencial-camiseta-regata-vinho","item_essencial-gol-bolinha-cinza-urban-2003","item_essencial-isqueiro-amarelo-o-sobrevivente","item_essencial-mochila-laranja","item_essencial-tenis-surrado","tema-desobediencia-que-gera-consequencia","tema-poder-que-atrai-predador","tema-vigilancia-sobrenatural","local-clareira","local-labirinto-verde","local-mata-fechada","local-pedreira-orleans","local-trilha-estreita","keyword-babu-urso","keyword-balao-vermelho","keyword-cobra-no-pescoco","keyword-cristal-pulsante","keyword-leandro-costa","keyword-mama","keyword-pata-branca","keyword-pedreira-orleans","keyword-poder-controle-de-ar","keyword-popo","keyword-rand-intervalo","keyword-sorriso-malicioso","keyword-transformacao-animal","keyword-transmissao","keyword-vigilancia-sobrenatural"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo\/823","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo"}],"about":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulo"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=823"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1707"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=823"}],"wp:term":[{"taxonomy":"livro","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/livro?post=823"},{"taxonomy":"personagem","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/personagem?post=823"},{"taxonomy":"genero","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/genero?post=823"},{"taxonomy":"tom","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tom?post=823"},{"taxonomy":"timeline","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/timeline?post=823"},{"taxonomy":"versao_jota","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/versao_jota?post=823"},{"taxonomy":"categoria_cap","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_cap?post=823"},{"taxonomy":"item_essencial","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/item_essencial?post=823"},{"taxonomy":"tema","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tema?post=823"},{"taxonomy":"local","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/local?post=823"},{"taxonomy":"keyword","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/keyword?post=823"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}