{"id":850,"date":"2026-01-25T00:15:00","date_gmt":"2026-01-25T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=850"},"modified":"2026-03-03T20:06:52","modified_gmt":"2026-03-03T23:06:52","slug":"imas-proibidos","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/imas-proibidos\/","title":{"rendered":"Im\u00e3s Proibidos"},"content":{"rendered":"\n<p>Jota estacionou o Gol Bolinha 2003 cinza tr\u00eas casas acima do escrit\u00f3rio do pai, porque a rua inteira estava tomada por carros. Sete e meia da noite de uma quinta, c\u00e9u j\u00e1 preto, frio de rachar. O motor 1.0 a etanol morreu com aquele suspiro cansado de sempre, cheiro forte de \u00e1lcool queimado subindo do escapamento. Desceu do carro batendo a porta duas vezes pra travar.<\/p>\n\n\n\n<p>A camiseta regata vinho, rasgada nos ombros, colava no corpo com o suor do dia que ainda n\u00e3o tinha ido embora.<\/p>\n\n\n\n<p>A rua da Pedreira do Orleans estava quieta demais. Galp\u00f5es abandonados dos dois lados, mato crescendo nas cal\u00e7adas rachadas. S\u00f3 o barulho distante de caminh\u00f5es descendo a contorno norte, freada seca, buzina de caminh\u00e3o-ba\u00fa. Quando o vento vinha do sul, chegava tudo aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>O port\u00e3o estava aberto. Coisa que nunca acontecia.<\/p>\n\n\n\n<p>A luz da sala vazava pela janela da frente, mas n\u00e3o era a luz de sempre. Era azul, branca, piscando r\u00e1pido, como solda el\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota empurrou o port\u00e3o. O cadar\u00e7o direito do t\u00eanis surrado, como sempre, solto \u2013 fez ele parar meio segundo pra amarrar, e foi quando sentiu o cheiro de oz\u00f4nio come\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Subiu os tr\u00eas degraus da varanda. A porta da frente escancarada.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheiro de metal queimado e oz\u00f4nio bateu forte. Ar eletrizado, cabelo da nuca arrepiando. E vozes. Um murm\u00fario baixo, muitas vozes sobrepostas, saindo da sala como reza de igreja lotada.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>A sala n\u00e3o existia mais.<\/p>\n\n\n\n<p>No lugar do sof\u00e1 velho, da estante que ningu\u00e9m abria, da mesinha com controle remoto perdido, havia mesas de compensado cru ocupando cada cent\u00edmetro. Bobinas de cobre do tamanho de pneus, baterias industriais empilhadas, fios emaranhados, ferramentas espalhadas. E \u00edm\u00e3s. Dezenas. Pequenos, m\u00e9dios, alguns do tamanho de tijolos, pendurados em correntes finas que desciam do teto, balan\u00e7ando sozinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pain\u00e9is improvisados nas paredes piscavam LED azul e vermelho. Um letreiro feito \u00e0 m\u00e3o, papel pardo e canet\u00e3o preto:<\/p>\n\n\n\n<p>PRODU\u00c7\u00c3O DE \u00cdM\u00c3S \u2013 SIL\u00caNCIO ABSOLUTO.<\/p>\n\n\n\n<p>E gente. Vinte, vinte e cinco pessoas. A equipe do pai. Alguns de jaleco, outros de roupa de rua, todos de p\u00e9, olhando pro centro como se fosse missa. Ningu\u00e9m virou pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio, o pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos cabelos grisalhos, avental de couro pu\u00eddo. Segurava um \u00edm\u00e3 enorme, roda de caminh\u00e3o, f\u00e1cil vinte quilos, erguido com as duas m\u00e3os como se fosse h\u00f3stia. Olhos brilhando. Sorriso que Jota n\u00e3o via h\u00e1 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que o Maninho morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora estava vivo. Vivo pra caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pai?<\/p>\n\n\n\n<p>Dois caras de terno (terno dentro do galp\u00e3o do pai, porra) se colocaram na frente de Jota como seguran\u00e7as de boate.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Proibido. Campo ativo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que campo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Magn\u00e9tico. Qualquer metal interfere.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu s\u00f3 quero falar com meu pai.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou por cima dos ombros deles.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00eas isolaram o galp\u00e3o inteiro?<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai colocou o \u00edm\u00e3 grande numa mesa refor\u00e7ada. Limpou as m\u00e3os no avental. Caminhou at\u00e9 Jota. Parou a um metro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o, filho. Momento cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Momento cr\u00edtico de qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>O velho olhou pra tr\u00e1s, pros \u00edm\u00e3s, pras pessoas, pros pain\u00e9is. Depois voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Realizar algo maior.<\/p>\n\n\n\n<p>E virou as costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou ali, na entrada do pr\u00f3prio galp\u00e3o, barrado por estranhos, olhando o pai voltar pro centro da sala como se ele, Jota, fosse o intruso.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu meia-volta. Saiu. Sentou no degrau da varanda, frio da cer\u00e2mica subindo pelas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto dentro do galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed veio o som da cidade: um caminh\u00e3o descendo o contorno, freada longa, buzina, ronco de motor diesel. V\u00e1rios metros dali, mas parecia dentro da sala. Como se Curitiba tivesse esperado o momento certo pra lembrar que ainda existia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota voltou pra dentro depois de vinte minutos sentado no degrau, a raiva j\u00e1 virando algo mais frio, mais pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez ningu\u00e9m o barrou. S\u00f3 o olharam de canto, como quem olha um cachorro que entrou sem coleira.<\/p>\n\n\n\n<p>A sala estava em sil\u00eancio completo.<\/p>\n\n\n\n<p>O murm\u00fario anterior tinha morrido. Vinte e cinco pessoas formavam um semic\u00edrculo perfeito ao redor das mesas principais, olhos fixos no centro. Uma mulher de jaleco anotava febrilmente num caderno. Um homem de barba grisalha segurava um mult\u00edmetro como se fosse crucifixo. Outro ajustava um cron\u00f4metro digital que marcava 00:02:17\u2026 00:02:16\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>O pai estava de p\u00e9 no meio, de costas pra Jota. M\u00e3os estendidas sobre o \u00edm\u00e3 gigante. Ombros tremendo de excita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado dele, o sujeito alto de camisa social e gravata frouxa. Rosto vermelho, voz baixa mas urgente:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Doutor, a gente precisa desligar. A leitura t\u00e1 perigosa.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai nem virou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o desliga nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se o campo colapsar\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai colapsar do jeito certo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sabemos o que pode acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>O velho finalmente olhou pro cara. Olhos brilhando como duas brasas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei o que aconteceu nos \u00faltimos anos. Eu acordei todo dia igual um morto. Em breve acordodarei vivo. Ent\u00e3o continua.<\/p>\n\n\n\n<p>O sujeito recuou. Engoliu em seco. N\u00e3o insistiu mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu um arrepio. Desde o enterro do Maninho. Desde que o pai parou de falar frases inteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Mem\u00f3ria r\u00e1pida, inevit\u00e1vel:<\/p>\n\n\n\n<p>Num domingo qualquer, anos atr\u00e1s. Jota chegou sem avisar e encontrou o pai no quintal, morsa na bancada, um \u00edm\u00e3 pequeno de neod\u00edmio preso, r\u00e9gua na m\u00e3o, caderno aberto cheio de n\u00fameros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que que t\u00e1 fazendo, pai?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 um teste.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Teste de qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>O velho s\u00f3 deu de ombro e voltou pros c\u00e1lculos.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia Jota riu, achou gra\u00e7a de hobby de aposentado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca mais perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora via que n\u00e3o era hobby. Era uma obsess\u00e3o que cresceu no sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai bateu palma uma vez. Seco. Todo mundo congelou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ativem.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher de jaleco apertou o bot\u00e3o principal.<\/p>\n\n\n\n<p>Zumbido grave nasceu no ch\u00e3o, subiu pelas pernas, entrou nos dentes. As luzes do galp\u00e3o piscaram tr\u00eas vezes. O \u00edm\u00e3 gigante come\u00e7ou a brilhar. Azul escuro, pulsando lento, como cora\u00e7\u00e3o que acordou depois de anos parado.<\/p>\n\n\n\n<p>No bolso, o isqueiro amarelo \u2013 o sobrevivente \u2013 ro\u00e7ou a coxa dele e acendeu sozinho uma chama azul que morreu r\u00e1pido no ar carregado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u00edm\u00e3s menores reagiram na hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Correntes pararam de balan\u00e7ar. Um deles se soltou. Subiu. Flutuou a meio metro. Girou devagar. Outro soltou. Depois outro. Em vinte segundos, quinze \u00edm\u00e3s dan\u00e7avam no ar, orbitando o gigante em c\u00edrculos perfeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai abriu um sorriso que Jota nunca tinha visto. Dentadura certinha, olhos marejados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Funcionou \u2014 sussurrou. \u2014 Funcionou, porra.<\/p>\n\n\n\n<p>O zumbido virou rugido. O ch\u00e3o tremia. O cabelo de Jota se arrepiou inteiro com a est\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00cdm\u00e3s come\u00e7aram a colidir no ar. Grudavam. Formavam estruturas maiores que continuavam girando. Metal contra metal, som agudo de sino quebrando.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de barba deu um passo pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Doutor, o campo t\u00e1 subindo perigosamente\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai romper\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que rompa.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai virou o rosto pro filho pela primeira vez desde que Jota chegara.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhos vidrados, sorriso de quem finalmente encontrou Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 foda, n\u00e9, filho?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o respondeu. S\u00f3 ficou ali, plantado no hall, vendo o pai feliz e sabendo que essa felicidade ia custar tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>O rugido virou trov\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As luzes do galp\u00e3o explodiram uma a uma, estilha\u00e7os caindo como chuva. Escurid\u00e3o total. S\u00f3 o brilho azul dos \u00edm\u00e3s iluminando rostos em pulsos r\u00e1pidos.<\/p>\n\n\n\n<p>E no centro, entre os \u00edm\u00e3s que giravam cada vez mais r\u00e1pido, o ar come\u00e7ou a rasgar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era luz. Era aus\u00eancia. Um vazio redondo, bordas tremendo, crescendo devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado, escurid\u00e3o que se movia. Formas que n\u00e3o eram formas. Som que n\u00e3o era som.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai deu um passo em dire\u00e7\u00e3o ao rasgo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o peito apertar tanto que doeu respirar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 PAI!<\/p>\n\n\n\n<p>O velho estendeu a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tocou a borda do vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>E o vazio tocou de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu em dois segundos que duraram uma vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai tocou a borda do vazio e o vazio agarrou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi empurr\u00e3o. Foi suc\u00e7\u00e3o. Como se m\u00e3os de ferro invis\u00edveis tivessem prendido o avental e puxado com for\u00e7a bruta. O corpo do velho saiu do ch\u00e3o, esticou horizontal, p\u00e9s j\u00e1 dentro da escurid\u00e3o que se mexia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele gritou, n\u00e3o de dor. De \u00eaxtase.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 FUNCIONA!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota correu.<\/p>\n\n\n\n<p>Derrubou duas mesas, pisou em fios que estalaram, passou por baixo da fita zebrada como se n\u00e3o existisse. O campo magn\u00e9tico bateu nele como parede de concreto. Peito, bra\u00e7os, rosto, tudo sendo empurrado pra tr\u00e1s por for\u00e7a que n\u00e3o se via.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 PAI!<\/p>\n\n\n\n<p>Tentou avan\u00e7ar cent\u00edmetro por cent\u00edmetro. M\u00fasculos tremendo. Veias saltando no pesco\u00e7o. O cabelo levantado inteiro com a est\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai ainda segurava a beirada da mesa com uma m\u00e3o s\u00f3. Dedos brancos de tanto apertar a madeira. Olhou pro filho uma \u00faltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos olhos dele n\u00e3o tinha medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Os l\u00e1bios se moveram formando palavras que o rugido engoliu.<\/p>\n\n\n\n<p>Desculpa, filho.<\/p>\n\n\n\n<p>E abriu a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Soltou de prop\u00f3sito.<\/p>\n\n\n\n<p>O vazio engoliu ele inteiro. Corpo, avental, sorriso, tudo. Num estalo seco, como porteira batendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota foi jogado pra tr\u00e1s com viol\u00eancia. Costas bateram na parede oposta, ar saiu dos pulm\u00f5es num s\u00f3 golpe. Caiu de joelhos, tossindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u00edm\u00e3s perderam for\u00e7a na hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Ca\u00edram como pedras. Batendo no ch\u00e3o, estilha\u00e7ando, rolando at\u00e9 parar. O rugido morreu. As luzes de LED apagaram uma a uma.<\/p>\n\n\n\n<p>O vazio no centro tremeu, encolheu, fechou como ferida cicatrizando em c\u00e2mera r\u00e1pida.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas segundos e n\u00e3o tinha mais nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>E nesse sil\u00eancio veio o barulho distante: caminh\u00e3o freando no contorno norte, buzina longa, motor roncando. Curitiba continuava. Indiferente.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas reagiram de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem de gravata foi o primeiro a correr. Bateu a porta t\u00e3o forte que o vidro da janela da frente rachou. Outros correram atr\u00e1s. Em quarenta segundos o galp\u00e3o estava vazio. S\u00f3 Jota de joelhos no ch\u00e3o, olhando pro lugar onde o pai tinha estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum rastro.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 cacos de \u00edm\u00e3 quebrado e cheiro de oz\u00f4nio queimado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo. O ar entrou frio, cortante. Levantou devagar. As pernas tremiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhou at\u00e9 o centro. Pisou nos destro\u00e7os. Parou exatamente onde o pai soltou a mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Embaixo da mesa tombada, entre fios retorcidos, o \u00edm\u00e3 da geladeira de casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Retangular. Dez cent\u00edmetros. Cinza fosco com logo do Posto Esso quase apagado. Pl\u00e1stico barato, beiradas descascando.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai tinha pedido tr\u00eas semanas atr\u00e1s. &#8220;Me empresta aquele \u00edm\u00e3 velho da geladeira. S\u00f3 por uns dias. Preciso pra um teste.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota achou esquisito mas deu. O pai nunca devolveu.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, olhando pro \u00edm\u00e3 no ch\u00e3o, ele entende.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai usou o \u00edm\u00e3 que segurava recados da m\u00e3e, conta de luz, foto 3&#215;4 do Maninho no dia que tirou CNH &#8211; o \u00edm\u00e3 que era a fam\u00edlia f\u00edsica, a casa, a mem\u00f3ria &#8211; como \u00e2ncora do experimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Como conex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 sobre conex\u00e3o. Fam\u00edlia,&#8221; o pai tinha dito.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando o portal engoliu o velho, o \u00edm\u00e3 absorveu a energia.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora pulsa azul p\u00e1lido. Fraco. Quente na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se o pai tivesse ficado preso dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se abaixou. Pegou.<\/p>\n\n\n\n<p>Queimava.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas segurou firme.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou no bolso do casaco.<\/p>\n\n\n\n<p>E ficou ali ouvindo os caminh\u00f5es do contorno norte passarem um atr\u00e1s do outro, como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o voltou pro galp\u00e3o aquela noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem na seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Dirigiu o Gol Bolinha sem rumo at\u00e9 o ponteiro do combust\u00edvel tremer no vermelho. Passou pelo centro vazio, pelo parque Barigui, pela Martin Afonso iluminada s\u00f3 pelos far\u00f3is altos. O motor 1.0 a etanol tossia nas subidas, frio entrando pelas frestas das portas.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou num posto do Alto da XV. O \u00fanico aberto. Abasteceu. O cheiro forte de etanol subiu misturado com oz\u00f4nio que ainda parecia grudado na roupa.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou no cap\u00f4 do carro, olhando a rua vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 queimava no bolso do casaco. Pesava mais que metal deveria pesar.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentou ligar pra pol\u00edcia tr\u00eas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Desligou antes de completar a discagem.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ia dizer?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Meu pai abriu um portal com \u00edm\u00e3s e entrou de prop\u00f3sito&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p>Iam rir. Ou internar ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o sol nasceu, cinza e gelado, ele estava de novo na frente do galp\u00e3o do pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta escancarada. Sala destru\u00edda. Ningu\u00e9m apareceu pra limpar, pra explicar, pra pedir desculpa.<\/p>\n\n\n\n<p>Curitiba seguia passando no contorno norte: carro, caminh\u00e3o, moto, vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou no galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Cozinha intacta. Banheiro intacto. Quarto do pai com a cama ainda arrumada, chinelo velho no mesmo lugar de sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se ele pudesse voltar a qualquer segundo pra tomar caf\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentou na beira da cama.<\/p>\n\n\n\n<p>Tirou o \u00edm\u00e3 do bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda pulsava. Fraco. Azul p\u00e1lido.<\/p>\n\n\n\n<p>Segurando na m\u00e3o, parecia vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou em jogar no lixo, enterrar no quintal, tacar no lago da Pedreira.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conseguiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque era a \u00fanica coisa que sobrou do pai feliz.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou de volta no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou o galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Trancou o port\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca mais voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Tempos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida continuou. Jota foi o homem que estava predestinado a ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no mesmo bairro, mesma casa. O galp\u00e3o da Pedreira do Orleans ficou trancado. Nunca vendeu. Nunca voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>A gaveta da mesa de cabeceira guarda uma caixinha de madeira pequena, forrada de veludo vermelho j\u00e1 desbotado.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro, o \u00edm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Retangular. Dez cent\u00edmetros. Cinza fosco, logo do Posto Esso quase invis\u00edvel agora. As beiradas descascando, magneto marrom aparecendo embaixo do pl\u00e1stico.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 da geladeira de casa. O \u00edm\u00e3 que o pai usou como \u00e2ncora. O \u00edm\u00e3 que absorveu a energia do portal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes brilha. Fraco. Azul p\u00e1lido. Como se lembrasse. Em especial quando tem fam\u00edlia em volta.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja, jogada no canto do quarto, ainda guarda o caderno marrom com anota\u00e7\u00f5es antigas do pai \u2013 p\u00e1gina rasgada onde ele rabiscou &#8220;funciona&#8221; em letra tremida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas toda noite do mesmo m\u00eas que o pai desapareceu, quando o frio aperta e o sil\u00eancio cai pesado, Jota abre a caixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pega o \u00edm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Segura na palma da m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e1 a impress\u00e3o que esquenta.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 um pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 quando ele lembra do pai sorrindo no centro da sala, olhos vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembra do &#8220;desculpa, filho&#8221; que n\u00e3o chegou a sair inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembra do vazio engolindo o velho como se ele sempre tivesse pertencido ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembra de estar parado na entrada do pr\u00f3prio galp\u00e3o, barrado, impotente, vendo o pai escolher o outro lado em vez de ficar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota nunca soube se o pai encontrou paz ou s\u00f3 loucura.<\/p>\n\n\n\n<p>Se atravessou pra algum lugar ou simplesmente deixou de existir.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca soube.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 ficou com o \u00edm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>E com a certeza quieta de que, naquele dia, o pai finalmente realizou algo maior.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 n\u00e3o levou o filho junto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota coloca o \u00edm\u00e3 de volta na caixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Fecha a gaveta.<\/p>\n\n\n\n<p>Apaga a luz.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 longe, no contorno norte um caminh\u00e3o, buzina cortando a noite, motor diesel roncando distante.<\/p>\n\n\n\n<p>Curitiba segue.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele dorme com o peso pequeno e frio guardado na gaveta, como quem guarda a \u00faltima pe\u00e7a de um quebra-cabe\u00e7a que nunca vai terminar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jota estacionou o Gol Bolinha 2003 cinza tr\u00eas casas acima do escrit\u00f3rio do pai, porque a rua inteira estava tomada por carros. 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O motor 1.0 a etanol morreu com aquele suspiro cansado de sempre, cheiro forte de \u00e1lcool queimado subindo do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1710,"menu_order":25,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"livro":[18],"personagem":[27,233,224],"genero":[279,636],"tom":[128,1206,41],"timeline":[57],"versao_jota":[49],"categoria_cap":[1173,1207],"item_essencial":[33,31,36,37,34,32,35],"tema":[],"local":[1212,1210,1208,45,1217,1213,1223,1209,1211,761,1215,445],"keyword":[1221,1218,1216,1222,1219,784,1214],"class_list":["post-850","capitulo","type-capitulo","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","livro-dias-apos-um-fim","personagem-gpjota","personagem-maninho","personagem-pai","genero-ficcao-cientifica","genero-realismo-magico","tom-melancolico","tom-sobrenatural","tom-tenso","timeline-curitiba","versao_jota-normal","categoria_cap-eventos-misticos","categoria_cap-perda-familiar","item_essencial-caderno-marrom-de-capa-dura","item_essencial-camiseta-regata-vinho","item_essencial-gol-bolinha-cinza-urban-2003","item_essencial-ima-posto-esso","item_essencial-isqueiro-amarelo-o-sobrevivente","item_essencial-mochila-laranja","item_essencial-tenis-surrado","local-alto-da-xv","local-centro","local-contorno-norte","local-curitiba","local-escritorio","local-galpao","local-lago-da-pedreira","local-martin-afonso","local-parque-barigui","local-pedreira-do-orleans","local-posto","local-rua","keyword-casa-da-pedreira","keyword-deco-atacado","keyword-experimento-magnetico","keyword-familia-em-luto","keyword-ima-posto-esso","keyword-pai-desaparece","keyword-portal-dimensional"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo\/850","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo"}],"about":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulo"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=850"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1710"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"livro","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/livro?post=850"},{"taxonomy":"personagem","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/personagem?post=850"},{"taxonomy":"genero","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/genero?post=850"},{"taxonomy":"tom","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tom?post=850"},{"taxonomy":"timeline","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/timeline?post=850"},{"taxonomy":"versao_jota","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/versao_jota?post=850"},{"taxonomy":"categoria_cap","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_cap?post=850"},{"taxonomy":"item_essencial","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/item_essencial?post=850"},{"taxonomy":"tema","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tema?post=850"},{"taxonomy":"local","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/local?post=850"},{"taxonomy":"keyword","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/keyword?post=850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}