{"id":855,"date":"2026-01-26T00:15:00","date_gmt":"2026-01-26T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=855"},"modified":"2026-03-03T20:10:24","modified_gmt":"2026-03-03T23:10:24","slug":"que-viagem-foi-essa","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/que-viagem-foi-essa\/","title":{"rendered":"Que Viagem Foi Essa"},"content":{"rendered":"\n<p>A madrugada em Curitiba era fria como sempre. O ventilador de teto girava devagar, zumbido baixo preenchendo o sil\u00eancio do quarto. Jota estava sentado na cama, camiseta regata vinho grudada no corpo de suor frio, p\u00e9s descal\u00e7os no ch\u00e3o gelado. O cora\u00e7\u00e3o ainda batia r\u00e1pido, como se tivesse corrido todas as noites de uma vez s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou pro t\u00eanis surrado largado ao lado da cama. Cadar\u00e7o direito solto, como sempre. Ded\u00e3o aparecendo pelo buraco. Sola quase solta, mas nunca caindo de vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou devagar, foi at\u00e9 a mochila laranja encostada na parede. Abriu o z\u00edper. Dentro: a camiseta regata vinho reserva, o isqueiro amarelo &#8220;o sobrevivente&#8221; no bolso lateral, e o caderno de capa dura marrom.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou o caderno com as duas m\u00e3os. O \u00edm\u00e3 cinza fosco do Posto Esso estava preso na capa, beiradas descascando, logo quase apagado.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pra cama. Sentou. Abriu o caderno.<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o tinha sido s\u00f3 um. Um sonho anotado numa madrugada qualquer, s\u00f3 pra n\u00e3o esquecer. Depois virou costume. Dois, tr\u00eas, dez. Passou de cinquenta sem perceber. Quando olhou de novo, eram mais de trezentos. E n\u00e3o paravam.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda noite tinha mais um esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deixou o caderno abrir sozinho. A p\u00e1gina caiu em algum lugar do meio. Ele leu.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Rosquinha no volante, drogado, rindo daquele jeito dele que fazia todo mundo rir junto at\u00e9 perceber que o carro tava acelerando demais na curva. Purpurina gay explodindo no ar como confete de funeral. Anjo da guarda quebrado no banco de tr\u00e1s, asas tortas. Rand observando tudo do retrovisor, sempre observando, como se j\u00e1 soubesse o final antes do come\u00e7o. Morte \u00e0 espreita.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Escolha errada no volante da vida. Decis\u00e3o que mata devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixou as p\u00e1ginas correrem sob o polegar. Parou.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Flutuando sobre Curitiba de madrugada, p\u00e9s descal\u00e7os cortando o ar gelado. A cidade l\u00e1 embaixo, luzes amarelas, sil\u00eancio. Satogos Cruel na margem do lago, olhos verdes fixos nele, sem dizer sim nem n\u00e3o, s\u00f3 esperando como sempre esperava. Little Boobs do lado dela, sorriso que prometia tudo e nada ao mesmo tempo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Naquela, liberdade pura. Poder sem peso. Voar e n\u00e3o precisar voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Recuou no tempo do caderno. Parou em outra.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Lagartas met\u00e1licas. Multiplicando. Entrando nele. Colmeia interna zumbindo nos ossos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Horror que n\u00e3o sai mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Avan\u00e7ou r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Deserto vermelho. Duas Taurus. Dez tiros cada. Billy The Kid no horizonte, figura sem rosto, s\u00f3 chap\u00e9u e poeira. Isqueiro amarelo destravando a arma travada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ali era vingan\u00e7a. O momento de virar pra enfrentar.<\/p>\n\n\n\n<p>O caderno escolheu outra p\u00e1gina.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ceia de Natal. Seu Binho autorit\u00e1rio na cabeceira, voz grossa enchendo a sala h\u00e1 d\u00e9cadas. Fazer algu\u00e9m passar por louco, coletivo. E ent\u00e3o, finalmente, todo mundo falando. Gritando. Chorando. O velho derrotado em sil\u00eancio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O dia em que ningu\u00e9m mais engoliu.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou sem pensar.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Casa invadida de madrugada. Tapete persa da m\u00e3e roubado. Corrida descal\u00e7a no asfalto frio. Solas sangrando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Prote\u00e7\u00e3o do sagrado. Pequenas vit\u00f3rias suadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A p\u00e1gina seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Fortaleza gelada. Her\u00f3is hibernando. O Homem que Voa corrompido. Parasita dentro da capa. Isqueiro queimando o tecido vivo que gritava sem voz.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mostrando que at\u00e9 os deuses apodrecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Pulou para tr\u00e1s. \u00daltima p\u00e1gina que leu naquela madrugada.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Invent\u00e1rio do pai no f\u00f3rum. Juiz chorando ao assinar, lembrando da d\u00edvida antiga. Carta n\u00e3o enviada sobre o Maninho entregue finalmente. Cura. Fechamento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O perd\u00e3o que demora d\u00e9cadas. Mas chega.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou o caderno devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou olhando pra capa. Pro \u00edm\u00e3 velho do Posto Esso. Pras beiradas descascando.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquelas p\u00e1ginas, naquele momento, ele tinha visto algo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada hist\u00f3ria tentando passar uma coisa diferente. Liberdade. Vingan\u00e7a. Reden\u00e7\u00e3o. Horror. Cura. Trai\u00e7\u00e3o. Perda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas no fundo, todas tentavam passar a mesma coisa:<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m precisava ficar de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>E esse algu\u00e9m sempre era ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo. O ar entrou gelado, queimando a garganta.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou o caderno de volta na mochila laranja. Fechou o z\u00edper. Sentiu o peso do isqueiro amarelo no bolso da cal\u00e7a, mas n\u00e3o tirou.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou. Foi at\u00e9 a janela. Abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Curitiba l\u00e1 embaixo, madrugada silenciosa, luzes amarelas dos postes iluminando a rua vazia. O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava estacionado ali, duas portas, vidro dianteiro emba\u00e7ado de frio. Banco do motorista afundado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou pro carro por um tempo longo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois fechou a janela.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pra cama. Deitou de lado, olhando pro teto, ventilador girando, zumbido constante.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o dormiu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tentou.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 ficou ali, olhos abertos, respira\u00e7\u00e3o lenta, cora\u00e7\u00e3o voltando ao ritmo normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3xima hist\u00f3ria j\u00e1 estava batendo na porta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A madrugada em Curitiba era fria como sempre. O ventilador de teto girava devagar, zumbido baixo preenchendo o sil\u00eancio do quarto. Jota estava sentado na cama, camiseta regata vinho grudada no corpo de suor frio, p\u00e9s descal\u00e7os no ch\u00e3o gelado. O cora\u00e7\u00e3o ainda batia r\u00e1pido, como se tivesse corrido todas as noites de uma vez [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1720,"menu_order":26,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"livro":[18],"personagem":[27],"genero":[1225,636],"tom":[128,43,113],"timeline":[57,1227,281],"versao_jota":[49],"categoria_cap":[416,1228],"item_essencial":[33,31,36,37,34,32,35],"tema":[1230,1231,1229],"local":[45,1017,445],"keyword":[1235,1234,1236,1233,1232,1237],"class_list":["post-855","capitulo","type-capitulo","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","livro-dias-apos-um-fim","personagem-gpjota","genero-meta-narrativo","genero-realismo-magico","tom-melancolico","tom-onirico","tom-reflexivo","timeline-curitiba","timeline-melancolico","timeline-onirico","versao_jota-normal","categoria_cap-metanarrativa","categoria_cap-revisao-de-sonhos","item_essencial-caderno-marrom-de-capa-dura","item_essencial-camiseta-regata-vinho","item_essencial-gol-bolinha-cinza-urban-2003","item_essencial-ima-posto-esso","item_essencial-isqueiro-amarelo-o-sobrevivente","item_essencial-mochila-laranja","item_essencial-tenis-surrado","tema-meta-narrativa","tema-resiliencia","tema-revisao-de-vida-sonhos","local-curitiba","local-quarto","local-rua","keyword-caderno-com-300-historias","keyword-meta-narrativa","keyword-reflexao-noturna","keyword-resiliencia","keyword-revisao-de-sonhos","keyword-sonhos-catalogados"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo\/855","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo"}],"about":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulo"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=855"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1720"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=855"}],"wp:term":[{"taxonomy":"livro","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/livro?post=855"},{"taxonomy":"personagem","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/personagem?post=855"},{"taxonomy":"genero","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/genero?post=855"},{"taxonomy":"tom","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tom?post=855"},{"taxonomy":"timeline","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/timeline?post=855"},{"taxonomy":"versao_jota","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/versao_jota?post=855"},{"taxonomy":"categoria_cap","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_cap?post=855"},{"taxonomy":"item_essencial","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/item_essencial?post=855"},{"taxonomy":"tema","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tema?post=855"},{"taxonomy":"local","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/local?post=855"},{"taxonomy":"keyword","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/keyword?post=855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}