{"id":857,"date":"2026-01-27T00:15:00","date_gmt":"2026-01-27T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=857"},"modified":"2026-03-03T20:18:09","modified_gmt":"2026-03-03T23:18:09","slug":"quando-a-lenda-aparece","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/quando-a-lenda-aparece\/","title":{"rendered":"Quando a Lenda Aparece"},"content":{"rendered":"\n<p>A CRISE<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 PRECISAMOS DE SUBSTITUTO AGORA!<\/p>\n\n\n\n<p>A voz de Jota ecoou pelo r\u00e1dio, quebrando o barulho ensurdecedor do festival. Ao redor dele, milhares de super-humanos ocupavam as arquibancadas suspensas por campos de energia, palcos flutuantes se moviam como ilhas voadoras sobre a Pedreira do Orleans, e o c\u00e9u de Curitiba brilhava com luzes de energia pura que pulsavam no ritmo da multid\u00e3o. Era o maior festival de super-humanos j\u00e1 organizado na cidade, e estava prestes a ruir.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota corria pelos bastidores, mochila laranja batendo nas costas, camiseta regata vinho grudada no corpo todo suado. Dentro da mochila, o caderno marrom com anota\u00e7\u00f5es fren\u00e9ticas do cronograma, o isqueiro amarelo no bolso lateral, e o \u00edm\u00e3 de geladeira do Posto Esso preso na capa do caderno \u2014 cinza fosco, logo quase apagado, beiradas descascando. Tinha come\u00e7ado a brilhar uns anos atr\u00e1s, sempre que a fam\u00edlia tava em perigo. Jota nunca entendeu por qu\u00ea. Ningu\u00e9m da fam\u00edlia entendia. Mas funcionava.<\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00eanis surrado com o cadar\u00e7o direito solto batia no ch\u00e3o de concreto. Jota nem se dava ao trabalho de amarrar direito. Nunca adiantava.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema era simples e catastr\u00f3fico: o lutador principal, um russo que controlava gravidade, tinha sumido. Desaparecido. Sem ele, a luta que todo mundo esperava \u2014 o evento que definiria quem teria a chance de absorver o Dom\u00ednio Absoluto \u2014 simplesmente n\u00e3o ia rolar.<\/p>\n\n\n\n<p>E a plateia j\u00e1 vaiava.<\/p>\n\n\n\n<p>SEIS HORAS ANTES<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 duas portas parou na entrada da Pedreira do Orleans com o motor roncando cansado. Jota desligou, pegou a mochila laranja do banco do passageiro, ajeitou o caderno marrom l\u00e1 dentro e desceu. O sol ainda tava subindo, mas a Pedreira j\u00e1 fervilhava de movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Palcos flutuantes sendo ajustados por equipes de telecin\u00e9ticos. Arquibancadas suspensas testando a resist\u00eancia dos campos de for\u00e7a. Holofotes gigantes sendo calibrados por sua m\u00e3e, Dona Tude, que manipulava a luz como se fosse \u00e1gua \u2014 dobrando raios, multiplicando brilhos, criando arco-\u00edris artificiais que deixavam todo mundo boquiaberto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota! \u2014 ela gritou l\u00e1 de cima, flutuando a tr\u00eas metros do ch\u00e3o. \u2014 Vem testar essa sequ\u00eancia comigo! Precisa estar perfeita pra entrada dos lutadores!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levitou at\u00e9 ela, subindo devagar. Voo era a parte mais f\u00e1cil \u2014 sempre foi. Desde crian\u00e7a conseguia flutuar, se mover pelo ar, nada espetacular mas funcionava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 perfeito, m\u00e3e. Relaxa.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Tude sorriu, mas os olhos dela brilhavam de ansiedade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse festival n\u00e3o pode falhar, filho. O Vigilante confiou na gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sabia. O Vigilante tinha montado o evento inteiro e chamado as melhores equipes. O pai dele pra barreira de for\u00e7a principal. Dona Tude pra ilumina\u00e7\u00e3o. Deco pra acessibilidade e seguran\u00e7a dos bastidores. Jota pra coordena\u00e7\u00e3o geral. Era quest\u00e3o de honra fazer dar certo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Barreira t\u00e1 s\u00f3lida! \u2014 o pai gritou l\u00e1 embaixo, punho fechado brilhando com energia azul transl\u00facida. \u2014 Nada sai daqui sem a gente querer!<\/p>\n\n\n\n<p>O Vigilante acenou, satisfeito. Ao lado dele, Shell \u2014 Leandro Costa \u2014 ajustava um dos emissores de campo de for\u00e7a, armadura viva do bra\u00e7o dele se moldando em chave de precis\u00e3o. Trabalhava com cuidado, quase carinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desceu, pousou ao lado deles.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Leandro, valeu por ajudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Shell sorriu, genu\u00edno, guardando a ferramenta improvisada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Relaxa, Jota. Vim ver hist\u00f3ria sendo feita. Quero que d\u00ea tudo certo. \u2014 Bateu no ombro de Jota. \u2014 Seu pai manda bem pra caralho nessas barreiras. T\u00e1 impec\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>O Vigilante virou pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Seu irm\u00e3o t\u00e1 querendo lutar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota suspirou. Pop\u00f3. Claro.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontrou o irm\u00e3o mais novo perto do palco principal, socando o ar, aquecendo. Pop\u00f3 era sangue-quente, impulsivo, super-for\u00e7a n\u00edvel intermedi\u00e1rio. N\u00e3o tinha chance contra os tit\u00e3s que iam lutar ali.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pop\u00f3, esquece. Voc\u00ea n\u00e3o t\u00e1 no n\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho, Jota, eu posso! Deixa eu entrar s\u00f3 pra abrir, tipo aquecimento!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 bufou, mas sabia que o irm\u00e3o tava certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota voltou pros bastidores, checando o tablet com o cronograma. Precisava confirmar hor\u00e1rios, acessos, credenciais\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>O tablet escapou da m\u00e3o dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes que ca\u00edsse no ch\u00e3o, a m\u00e3o direita se moveu \u2014 r\u00e1pida, instintiva \u2014 e pegou no ar. Jota nem tinha olhado. Tava de costas quando soltou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caramba. \u2014 Uma das coordenadoras de seguran\u00e7a olhou, impressionada. \u2014 Voc\u00ea nem viu cair.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou, olhando pro tablet na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu&#8230; sempre sei onde as coisas t\u00e3o. \u2014 Deu de ombros, desconfort\u00e1vel. \u2014 N\u00e3o \u00e9 estranho.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher riu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 sim. Mas \u00e9 \u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guardou o tablet, mas a sensa\u00e7\u00e3o ficou. Aquela certeza de onde as coisas estavam, mesmo sem ver. Sempre teve isso. Achava que todo mundo tinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou pelos bastidores e ouviu a voz de Deco explicando pra um grupo de t\u00e9cnicos. O irm\u00e3o mais velho supervisionava os sistemas de seguran\u00e7a e acessibilidade de uma cadeira de rodas motorizada customizada que flutuava quando precisava. Ele era o respons\u00e1vel por garantir que o festival fosse acess\u00edvel pra todos \u2014 rampas magn\u00e9ticas, plataformas adapt\u00e1veis, sinaliza\u00e7\u00e3o em braile luminoso \u2014 e tamb\u00e9m monitorava os acessos restritos, as salas de controle, os cofres de energia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E se algu\u00e9m incompat\u00edvel tentar for\u00e7ar? \u2014 um dos t\u00e9cnicos perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nunca ningu\u00e9m conseguiu. \u2014 Deco ajustou os controles. \u2014 Desde que o item reapareceu, uns tr\u00eas tentaram. O Dom\u00ednio simplesmente n\u00e3o responde. \u00c9 como tentar pegar \u00e1gua com peneira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas algu\u00e9m j\u00e1 absorveu antes?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Uma vez. 1987. Um cara em S\u00e3o Paulo. Virou lenda, depois desapareceu. \u2014 Deco deu de ombros. \u2014 Ningu\u00e9m sabe se morreu, se transcendeu ou se simplesmente cansou de tudo. Mas o item voltou. E agora t\u00e1 aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E como sabe quem \u00e9 compat\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sabe. \u2014 Deco sorriu, meio amargo. \u2014 O item escolhe. Tem crit\u00e9rios pr\u00f3prios. O \u00fanico padr\u00e3o detectado: tem que vencer. Provar algo. Mas o qu\u00ea? Ningu\u00e9m entende direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Os t\u00e9cnicos sa\u00edram e Jota se aproximou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deco, t\u00e1 tudo certo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Perfeito, mano. A sala do Dom\u00ednio Absoluto t\u00e1 trancada, s\u00f3 eu e o Vigilante temos acesso. \u2014 Deco sorriu, confiante. \u2014 Esse festival vai ser hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desejava ter a mesma confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tava conferindo as credenciais quando virou e travou.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala Fernandez.<\/p>\n\n\n\n<p>Uns 1,70 de altura, corpo imposs\u00edvel \u2014 pernas grossas e torneadas que preenchiam a cal\u00e7a preta justa, coxas que se juntavam no topo, bunda redonda e empinada que fazia cada passo virar espet\u00e1culo. Cintura fina, abd\u00f4men marcado embaixo da blusa branca meio transparente, peitos m\u00e9dios que ficavam perfeitos naquele decote discreto mas letal.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabelo castanho ondulado caindo nos ombros com aquele ar de &#8220;acabei de acordar assim&#8221;, rosto delicado \u2014 olhos grandes e expressivos, boca pequena entreaberta, sobrancelhas grossas \u2014 misturando inoc\u00eancia com algo perigoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sorriu quando viu ele olhando. Aquele sorriso pequenininho, quase t\u00edmido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oi, Jota. Faz tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz saiu baixinha, doce. Como se fossem velhos conhecidos. Como se ela n\u00e3o soubesse exatamente o efeito que causava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cavala. \u2014 Jota engoliu seco. \u2014 N\u00e3o sabia que voc\u00ea tava na equipe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Me chamaram de \u00faltima hora. \u2014 Ela deu de ombros, movimento que fez o corpo inteiro balan\u00e7ar de um jeito que deveria ser crime. \u2014 Vim ajudar com seguran\u00e7a. Satogos t\u00e1 coordenando, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala se aproximou, tocou o bra\u00e7o dele de leve. Perfume doce, quase enjoativo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Qualquer coisa que voc\u00ea precisar&#8230; \u2014 Os olhos dela brilharam. \u2014 \u00c9 s\u00f3 chamar.<\/p>\n\n\n\n<p>E se afastou, rebolando, deixando Jota parado processando a conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>TR\u00caS HORAS ANTES<\/p>\n\n\n\n<p>Jota procurou Satogos entre as equipes de seguran\u00e7a. Encontrou ela coordenando a verifica\u00e7\u00e3o de credenciais, macac\u00e3o preto justo marcando cada curva, cabelo castanho-escuro preso num rabo de cavalo alto, olhos verdes frios como gelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ela viu ele se aproximando, arqueou uma sobrancelha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que foi, Jota?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele parou na frente dela, cora\u00e7\u00e3o acelerado, tentando n\u00e3o parecer um adolescente idiota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nada. S\u00f3&#8230; t\u00e1 tudo certo por a\u00ed?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1. \u2014 Ela cruzou os bra\u00e7os. \u2014 Mas voc\u00ea t\u00e1 nervoso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00f4. \u2014 N\u00e3o adiantava mentir.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos deu um passo \u00e0 frente. O perfume dela invadiu o espa\u00e7o entre eles \u2014 algo floral, perigoso, que sempre fazia o racioc\u00ednio dele desacelerar uns tr\u00eas segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 com aquela cara de quem carrega o mundo nas costas. \u2014 Ela tocou o peito dele com um dedo, leve. \u2014 Sempre faz isso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 que dessa vez o mundo t\u00e1 literalmente suspendido por campos de for\u00e7a. Se eu errar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea nunca erra. \u2014 Ela sorriu de canto, aquele sorriso que ele conhecia bem. Metade diab\u00f3lico, metade carinhoso. \u2014 \u00c9 irritante.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o puxou ele pela nuca e o beijou.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi r\u00e1pido, urgente, roubado. A boca dela quente, a l\u00edngua dela firme, o mundo sumindo por tr\u00eas segundos eternos. Quando se afastou, Satogos sorriu de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora volta pro trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou parado, atordoado, enquanto ela se virava e sumia entre as equipes.<\/p>\n\n\n\n<p>Caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>UMA HORA ANTES<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tava checando os \u00faltimos detalhes quando sentiu algo estranho. Um calor no bolso da mochila. Leve, quase impercept\u00edvel no meio do caos.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou. Abriu a mochila. O \u00edm\u00e3 do Posto Esso brilhava fraco, pulsando devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou em volta. Pai refor\u00e7ando barreira. M\u00e3e ajustando luzes finais. Pop\u00f3 alongando. Deco supervisionando acesso. Tudo parecia normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve ser estresse. O festival inteiro dependendo dele. Fechou a mochila e continuou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Shell t\u00e1 aqui! \u2014 algu\u00e9m avisou pelo r\u00e1dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota correu at\u00e9 o camarote VIP. Shell \u2014 Leandro \u2014 que tinha estado ajudando o pai com as barreiras horas atr\u00e1s, agora tava sentado numa poltrona de couro, ta\u00e7a de champagne na m\u00e3o, \u00f3culos escuros mesmo de tarde, sorriso largo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Leandro, cad\u00ea voc\u00ea? Tava precisando de ajuda l\u00e1 embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Relaxa, Jota. J\u00e1 fiz minha parte. \u2014 Shell bebeu o champagne, mas o olhar dele, quando tirou os \u00f3culos por um segundo, varreu o espa\u00e7o com aten\u00e7\u00e3o demais. \u2014 Agora vim curtir o show. Ali\u00e1s, o Rand vai lutar? Ser\u00e1 que ele \u00e9 compat\u00edvel com o Dom\u00ednio?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota franziu a testa. Pergunta estranha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m sabe. S\u00f3 testando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E o Deco que cuida da seguran\u00e7a da sala, n\u00e9? \u2014 Leandro se levantou, ajeitou os \u00f3culos. \u2014 Trampo foda. Deve ser tenso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9. Mas ele d\u00e1 conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro sorriu largo demais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aposto que d\u00e1. \u2014 Bateu no ombro de Jota. \u2014 Boa sorte a\u00ed, irm\u00e3o. Vai ser \u00e9pico.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota saiu, mas a sensa\u00e7\u00e3o estranha ficou. As perguntas. O jeito dele olhar pro corredor da sala de seguran\u00e7a. Como se estivesse medindo dist\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<p>Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. Paranoia. Tinha coisa demais pra se preocupar.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando o cadar\u00e7o do t\u00eanis direito soltou de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>A DESCOBERTA<\/p>\n\n\n\n<p>Jota trope\u00e7ou, quase caiu, segurou no corrim\u00e3o. Agachou pra amarrar, xingando baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Maldito cadar\u00e7o. Sempre no pior momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou no melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque quando parou, quando o mundo ficou quieto por tr\u00eas segundos, quando respirou fundo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Sentiu de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O calor. O \u00edm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas dessa vez n\u00e3o era vago. N\u00e3o era estresse. Era preciso. Como se algo tivesse clicado dentro dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou os olhos. Deixou a sensa\u00e7\u00e3o pulsar. E sentiu presen\u00e7a. N\u00e3o s\u00f3 presen\u00e7a \u2014 localiza\u00e7\u00e3o exata. Como se pudesse ver atrav\u00e9s das paredes, atrav\u00e9s do espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma assinatura de energia. Monstruosa. Perto. Muito perto. Escondida embaixo de uma camada de disfarce, como se algu\u00e9m tivesse tentado apagar o pr\u00f3prio brilho.<\/p>\n\n\n\n<p>Veio dos bastidores do palco 3.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu os olhos. Levantou. Correu.<\/p>\n\n\n\n<p>E l\u00e1 estava ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira, macac\u00e3o azul manchado de graxa, chave inglesa na m\u00e3o, consertando algo numa estrutura met\u00e1lica. Quando viu Jota, sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed, Jota. Procurando algu\u00e9m?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou. Olhou pro corpo de Rand. M\u00fasculos marcados embaixo do macac\u00e3o. Postura s\u00f3lida. Presen\u00e7a intensa que fazia o ar vibrar ao redor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rand&#8230; voc\u00ea sempre esteve aqui. O tempo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand deu risada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gosto de consertar as coisas antes de quebrar de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea&#8230; voc\u00ea \u00c9 o plano B. Desde o come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Demorou pra perceber. \u2014 Rand largou a chave inglesa. \u2014 Mas se precisam de mim agora&#8230; t\u00f4 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota queria abra\u00e7ar ele. Queria gritar. Mas n\u00e3o teve tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O r\u00e1dio crepitou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota! O Vigilante localizou o Homem de Capa! Ele vem buscar o Rand! Dez minutos!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota franziu a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Buscar? Mas voc\u00ea t\u00e1 aqui&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Rand j\u00e1 tava tirando o macac\u00e3o, revelando uniforme de combate embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Linha Verde. Emerg\u00eancia. \u2014 Ele sorriu. \u2014 O Capa me pega l\u00e1, a gente volta com estilo. Entrada triunfal. Dez minutos. Segura a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>E antes que Jota pudesse responder, Rand desapareceu num borr\u00e3o de velocidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou sozinho nos bastidores, processando.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o do t\u00eanis ainda tava solto. Ele olhou pra baixo, sorriu de canto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Valeu, parceiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A ENTRADA<\/p>\n\n\n\n<p>Dez minutos depois, o c\u00e9u escureceu de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro foi um trov\u00e3o sem nuvem. Depois, uma luz vermelha e azul rasgando o horizonte. A multid\u00e3o inteira se levantou, milhares de vozes gritando ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele desceu devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Capa vermelha balan\u00e7ando, S no peito brilhando como farol, rosto sereno, sorriso humilde. E nos bra\u00e7os, carregando como trof\u00e9u vivo, estava Rand Oliveira \u2014 uniforme de combate, sorrindo largo, acenando pra plateia.<\/p>\n\n\n\n<p>O Homem de Capa pousou no centro do palco principal. Largou Rand com cuidado. Olhou pra multid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desculpa o atraso. Tava resolvendo umas coisas na Linha Verde. \u2014 A voz dele ecoou sem microfone, pura e clara. \u2014 Mas quando o Vigilante me chamou, eu sabia que n\u00e3o podia faltar. E encontrei esse cara salvando quinze pessoas de um desabamento. \u2014 Bateu no ombro de Rand. \u2014 Se algu\u00e9m merece lutar aqui hoje, \u00e9 ele.<\/p>\n\n\n\n<p>A plateia explodiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os olhos no c\u00e9u. Todos os celulares gravando. Todos os gritos ecoando.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi nesse momento exato que tudo desmoronou.<\/p>\n\n\n\n<p>A ARMADILHA<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tava checando o r\u00e1dio, tentando coordenar a entrada, quando sentiu uma m\u00e3o no ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala. De perto. Muito perto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota&#8230; \u2014 A voz saiu baixinha, quase um sussurro. \u2014 Voc\u00ea t\u00e1 t\u00e3o tenso. Deixa eu te ajudar a relaxar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela tocou o peito dele, dedo deslizando devagar. Os olhos grandes fixos nos dele. Boca entreaberta. Perfume doce, quase enjoativo, envolvendo tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cavala, eu t\u00f4 no meio de\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Ela puxou a blusa pra baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Devagar. Calculado. Revelando os peitos \u2014 m\u00e9dios, perfeitos, mamilos rosados apontando diretamente pra ele sob a luz dos holofotes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha pra mim, Jota. \u2014 A voz dela saiu ainda mais baixa, quase ronronando. \u2014 S\u00f3 olha.<\/p>\n\n\n\n<p>E Jota olhou.<\/p>\n\n\n\n<p>E o mundo sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi met\u00e1fora. N\u00e3o foi exagero. Foi literal.<\/p>\n\n\n\n<p>O som da multid\u00e3o desapareceu. As luzes se apagaram. O festival inteiro deixou de existir. S\u00f3 tinha ela. A boca dela. O corpo dela. Os peitos dela. A pele quente. O perfume doce.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se algu\u00e9m tivesse colocado antolhos nele. Bloqueado tudo que n\u00e3o fosse ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela subiu na ponta dos p\u00e9s e o beijou.<\/p>\n\n\n\n<p>Macio. Doce. L\u00edngua devagar, corpo colado, curvas pressionando contra ele. A m\u00e3o livre dela guiou a m\u00e3o de Jota at\u00e9 o peito descoberto, fazendo ele tocar, sentir a pele quente, o mamilo enrijecido.<\/p>\n\n\n\n<p>[Dentro da mochila, escondido, invis\u00edvel pra ele, o \u00edm\u00e3 do Posto Esso come\u00e7ou a brilhar. Fraco no come\u00e7o. Depois mais forte. Pulsando vermelho-alaranjado, queimando atrav\u00e9s do tecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota n\u00e3o viu. N\u00e3o sentiu. Tava longe demais. Perdido demais.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existia mais nada al\u00e9m dela.]<\/p>\n\n\n\n<p>Por cinco segundos completos, Jota esqueceu o pr\u00f3prio nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o som que o trouxe de volta. Um estrondo distante. Destro\u00e7o caindo. Multid\u00e3o rugindo mais alto. Realidade batendo como soco.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou. O mundo voltou de uma vez. Som explodindo nos ouvidos. Luzes cegando. Caos total.<\/p>\n\n\n\n<p>Afastou ela, empurrando de leve, respira\u00e7\u00e3o acelerada, confuso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que porra&#8230; Cavala, o que voc\u00ea\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sorriu. Daquele jeito. Doce. Inocente. Ajeitou a blusa de volta, cobrindo os peitos devagar, como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desculpa. \u2014 Passou a m\u00e3o no cabelo, ajeitando as ondas castanhas. \u2014 Achei que voc\u00ea precisava relaxar um pouquinho. T\u00e1 t\u00e3o estressado&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E se afastou, rebolando, sumindo entre a multid\u00e3o que gritava olhando pro c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou parado, processando.<\/p>\n\n\n\n<p>Cora\u00e7\u00e3o acelerado. Culpa queimando no peito. A sensa\u00e7\u00e3o da pele dela ainda na palma da m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ele tinha acabado de fazer?<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m viu Shell se mover.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m viu ele deslizar pelos bastidores, sombra entre sombras, aproveitando a distra\u00e7\u00e3o total.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m viu ele entrar na sala de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Exceto Deco.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco tava monitorando os acessos quando a porta se abriu. Virou a cadeira, r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Leandro? Voc\u00ea n\u00e3o pode\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00e2mina de energia cortou o ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco tentou gritar, tentou apertar o alarme, mas a l\u00e2mina cortou os controles da cadeira primeiro. Fa\u00edscas explodiram. A cadeira tombou pro lado. Deco caiu, bateu a cabe\u00e7a no ch\u00e3o de metal.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo escureceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Shell entrou na sala. A esfera de conten\u00e7\u00e3o brilhava no centro, suspensa, pulsando com luz azul intensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele estendeu a m\u00e3o. A armadura viva dele pulsou, veias de luz correndo pelas placas met\u00e1licas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tocou a esfera.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela reconheceu. Compat\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou a se dissolver, absorvida, entrando nele como \u00e1gua em esponja. O corpo dele brilhou. A armadura cresceu. Camadas sobre camadas. Poder sobre poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi tudo que ele precisou.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando saiu da sala, o Dom\u00ednio Absoluto j\u00e1 n\u00e3o estava mais l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>E Deco jazia no ch\u00e3o, inconsciente, sangue escorrendo da testa.<\/p>\n\n\n\n<p>A LUTA<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha subiu no palco com o microfone, cabelo espetado com gel brilhante, camisa rosa pink, sorriso escancarado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 RAPAZIADA! \u2014 a voz dele explodiu nos alto-falantes. \u2014 Sejam bem-vindos \u00e0 LUTA PRINCIPAL do Festival de Super-Humanos de Curitiba! \u2014 Ele girou no palco, dram\u00e1tico. \u2014 De um lado: RAND OLIVEIRA, o t\u00e9cnico fantasma que ningu\u00e9m nunca v\u00ea mas que SEMPRE T\u00c1 L\u00c1 consertando a porra toda! E que, pelo jeito, tamb\u00e9m salva gente de desabamento nas horas vagas! Do outro: o TIT\u00c3 DESTRUIDOR, aquele que NINGU\u00c9M ESPERAVA mas que TODO MUNDO QUER VER!<\/p>\n\n\n\n<p>O oponente de Rand entrou. Um gigante de tr\u00eas metros, pele rochosa cinza-escura, olhos que brilhavam vermelho-fogo. Cada passo dele fazia o palco tremer. A plateia sentiu o impacto nos ossos.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha gritou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E o PR\u00caMIO, meus amores? A CHANCE de absorver o DOM\u00cdNIO ABSOLUTO! O poder misterioso que apareceu d\u00e9cadas atr\u00e1s e que o ITEM ESCOLHE quem pode absorver! Tem que ser compat\u00edvel! Tem que VENCER! Tem que PROVAR algo! E quem conseguir essa belezura vai virar LENDA!<\/p>\n\n\n\n<p>O gongo tocou.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante atacou primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um soco direto que cortou o ar com som de trov\u00e3o. Rand se jogou pro lado no \u00faltimo segundo. O punho de pedra acertou o ch\u00e3o. O impacto abriu uma cratera do tamanho de um carro. Peda\u00e7os de concreto explodiram em todas as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A barreira de for\u00e7a do pai de Jota brilhou intensamente, segurando os destro\u00e7os antes que atingissem a plateia.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand contra-atacou. Girou baixo, chute preciso na lateral do joelho do gigante. O som foi de pedra rachando. Uma fissura fina apareceu na armadura rochosa.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante rugiu. Girou com velocidade imposs\u00edvel pra algo daquele tamanho. Pegou Rand com as duas m\u00e3os, ergueu ele acima da cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>E arremessou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand voou pelo ar, sem controle, girando, direto pra barreira de for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto foi devastador.<\/p>\n\n\n\n<p>A barreira rachou. Um som agudo de vidro quebrando ecoou pela Pedreira inteira. Fissuras se espalharam como teia de aranha. O pai de Jota gritou, punhos brilhando, despejando mais energia, mas a press\u00e3o era demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand caiu no ch\u00e3o, rolou, tentou se levantar. Sangue escorria da boca. Costela quebrada, talvez duas. Respira\u00e7\u00e3o curta, dolorosa.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante avan\u00e7ou, passos pesados fazendo o palco inteiro vibrar. Ergueu o punho de pedra, preparando o golpe que esmagaria Rand de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand rolou pro lado. O punho acertou o ch\u00e3o onde ele estava meio segundo antes. Outra cratera. Mais destro\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>A barreira rachou mais.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigante rugiu, frustrado. Girou, varreu o bra\u00e7o num arco largo. Acertou Rand no peito. O som foi de carne e osso contra rocha. Rand voou de novo, bateu numa estrutura met\u00e1lica, caiu de joelhos, cuspindo sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>A plateia gritou. Metade torcendo, metade horrorizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando um bloco de concreto do tamanho de uma geladeira se desprendeu da estrutura rachada e despencou \u2014 direto na dire\u00e7\u00e3o da primeira fileira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 CUIDADO! \u2014 algu\u00e9m gritou.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 n\u00e3o pensou.<\/p>\n\n\n\n<p>Correu. Saltou. Se jogou embaixo do bloco, bra\u00e7os erguidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segurou.<\/p>\n\n\n\n<p>O peso era imposs\u00edvel. Toneladas de concreto e metal refor\u00e7ado. Os joelhos dele dobraram. Os bra\u00e7os tremeram. Os m\u00fasculos gritaram.<\/p>\n\n\n\n<p>O som foi de osso estalando.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 gritou. Um grito rasgado, visceral, que cortou o barulho da multid\u00e3o como l\u00e2mina. Mas n\u00e3o soltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Segurou at\u00e9 outros chegarem. At\u00e9 ajudarem. At\u00e9 a galera evacuar.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o deixou o bloco cair no ch\u00e3o vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>E caiu de joelhos, bra\u00e7o esquerdo pendurado num \u00e2ngulo errado, osso saindo pela pele, rosto contorcido de dor, suor e l\u00e1grimas misturados, mordendo o l\u00e1bio at\u00e9 sangrar pra n\u00e3o gritar de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O DESPERTAR<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando o \u00edm\u00e3 na mochila de Jota come\u00e7ou a brilhar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fraco. N\u00e3o pulsando devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Forte. Urgente. Queimando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o calor atravessar o tecido da mochila. Tirou ela das costas, abriu, pegou o caderno marrom. O \u00edm\u00e3 do Posto Esso brilhava azul intenso, vibrando.<\/p>\n\n\n\n<p>Fam\u00edlia em perigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas dessa vez, algo diferente aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 o \u00edm\u00e3. Foi tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Voo. Telecinese. Localiza\u00e7\u00e3o. Tr\u00eas coisas que sempre achou separadas. Tr\u00eas dons diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quando o \u00edm\u00e3 pulsou, quando sentiu a fam\u00edlia em perigo, tudo vibrou junto. Como se fossem notas da mesma m\u00fasica. Partes do mesmo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>E sentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi ver. N\u00e3o foi ouvir. Foi sentir o espa\u00e7o. Cada presen\u00e7a. Cada dist\u00e2ncia. Cada conex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentir onde tudo estava. Mover-se at\u00e9 l\u00e1. Mover o que precisava ser movido.<\/p>\n\n\n\n<p>Controle espacial.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o eram tr\u00eas dons. Nunca foram.<\/p>\n\n\n\n<p>E o \u00edm\u00e3&#8230; o \u00edm\u00e3 nunca foi objeto m\u00e1gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Era ele. Sempre foi ele. Sentindo a fam\u00edlia atrav\u00e9s do espa\u00e7o. O \u00edm\u00e3 s\u00f3 reagia. Como term\u00f4metro. Como \u00e2ncora.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Varreu toda a Pedreira com o dom. Sentiu tudo ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pai refor\u00e7ando a barreira, energia se esgotando, suor escorrendo. M\u00e3e concentrando luz cegante nos olhos do gigante, m\u00e3os tremendo de esfor\u00e7o. Pop\u00f3 no ch\u00e3o, bra\u00e7o despeda\u00e7ado, mordendo o pr\u00f3prio punho pra n\u00e3o desmaiar de dor. Rand se levantando devagar, costelas quebradas, corpo todo machucado mas olhos ainda determinados.<\/p>\n\n\n\n<p>E sentiu outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco. Ca\u00eddo. Sozinho. Sala de seguran\u00e7a. Inconsciente. Sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>O cora\u00e7\u00e3o dele gelou.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 tinha brilhado antes. Quando? Durante&#8230; durante o beijo. Durante a Cavala.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele n\u00e3o tinha sentido nada.<\/p>\n\n\n\n<p>A ESCOLHA<\/p>\n\n\n\n<p>Jota voou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais r\u00e1pido do que nunca. O espa\u00e7o ao redor dele respondia como extens\u00e3o do pr\u00f3prio corpo. Sentiu cada destro\u00e7o no caminho. Desviou de todos sem olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou na sala de seguran\u00e7a em segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco tava no ch\u00e3o, cadeira tombada, sangue escorrendo da testa, olhos semifechados, respira\u00e7\u00e3o fraca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 DECO! \u2014 Jota se ajoelhou, ergueu o irm\u00e3o com telecinese \u2014 cuidado que nunca teve antes, precis\u00e3o que nunca soube que tinha. Colocou ele de volta na cadeira com delicadeza cir\u00fargica.<\/p>\n\n\n\n<p>Os controles estavam cortados, fa\u00edscas ainda saindo dos fios. Jota sentiu os circuitos, os fios, a energia interrompida. Moveu tudo com a mente, religou, ajeitou.<\/p>\n\n\n\n<p>A cadeira ronronou, voltando \u00e0 vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Shell&#8230; \u2014 a voz de Deco saiu rouca, fraca, olhos tentando focar. Apontou pro pedestal vazio com a m\u00e3o tremendo. \u2014 Ele&#8230; levou&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou.<\/p>\n\n\n\n<p>O Dom\u00ednio Absoluto tinha sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>O peito dele apertou. O mundo desacelerou.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro irm\u00e3o no ch\u00e3o, sangue fresco escorrendo. Olhou pro corredor que levava de volta ao palco, onde ouviu outro grito de Pop\u00f3, onde a luta desabava, onde a barreira rachava mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha que escolher.<\/p>\n\n\n\n<p>Perseguir Shell agora. Tentar impedir. Ou voltar pro palco. Salvar o que ainda podia ser salvo.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 brilhou mais forte. Queimou na palma da m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segurou o rosto de Deco, firme, olhou nos olhos dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aguenta a\u00ed. Eu volto.<\/p>\n\n\n\n<p>E voou de volta pro palco.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque Shell j\u00e1 tinha ido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a fam\u00edlia ainda tava ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Sangrando.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisando.<\/p>\n\n\n\n<p>O PRE\u00c7O<\/p>\n\n\n\n<p>Jota chegou no momento em que outro bloco se desprendia. Estendeu a m\u00e3o, telecinese ativada no m\u00e1ximo, segurou o peso no ar, desviou pra \u00e1rea vazia. O bloco caiu longe, explodindo em peda\u00e7os inofensivos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 PAI! Refor\u00e7a o setor leste!<\/p>\n\n\n\n<p>O pai virou, viu o filho, assentiu. Concentrou energia naquele ponto. A rachadura parou de crescer.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota voou at\u00e9 Pop\u00f3, agachou ao lado dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 POP\u00d3!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1&#8230; t\u00e1 de boa&#8230; \u2014 Pop\u00f3 ofegava, voz quebrada de dor, rosto p\u00e1lido como cera. \u2014 Ningu\u00e9m morreu, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro bra\u00e7o do irm\u00e3o. Osso exposto. Sangue formando po\u00e7a no ch\u00e3o. Pele rasgada. Mas Pop\u00f3 sorria. Tentava sorrir.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o. Ningu\u00e9m morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o custo tava ali. Sangrando. Quebrado. Destru\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu&#8230; eu salvei eles. \u2014 Pop\u00f3 riu, mas o som saiu molhado, sufocado. \u2014 Trinta pessoas. Tinha&#8230; tinha uma menininha, mano. N\u00e3o devia ter nem cinco anos. \u2014 A voz falhou, l\u00e1grimas escorrendo. \u2014 Se eu n\u00e3o tivesse segurado&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea segurou. \u2014 Jota apertou a m\u00e3o boa do irm\u00e3o, voz travada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas e agora? \u2014 Os olhos de Pop\u00f3 encheram de l\u00e1grimas de novo, medo puro. \u2014 Seis meses sem lutar. Talvez nunca mais como antes. Eu&#8230; eu ainda sou her\u00f3i se n\u00e3o posso mais&#8230;?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota apertou a m\u00e3o dele com for\u00e7a, quase dolorosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea sempre foi her\u00f3i. O bra\u00e7o n\u00e3o muda isso. Nunca vai mudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Param\u00e9dicos chegaram correndo. Come\u00e7aram a imobilizar. Pop\u00f3 mordeu o pr\u00f3prio punho pra n\u00e3o gritar quando mexeram no osso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se levantou, olhou pro palco.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Tude concentrou toda a luz num feixe cegante, direto nos olhos do gigante. Ele recuou, bra\u00e7os cobrindo o rosto, rugindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand aproveitou.<\/p>\n\n\n\n<p>Se levantou. Corpo todo machucado. Costelas quebradas. Sangue na boca. Mas nos olhos dele, fogo puro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Valeu, fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Correu. Usando os destro\u00e7os como trampolim. Saltou de um, ricocheteou em outro, ganhou altura, velocidade, momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Girou no ar. Corpo inteiro virando arma.<\/p>\n\n\n\n<p>O chute acertou o gigante bem no peito, exatamente onde a primeira fissura tinha aparecido. Exatamente no ponto fraco.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand colocou tudo naquele golpe. Cada grama de for\u00e7a. Cada resqu\u00edcio de energia. Cada segundo de treinamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O som foi de montanha desabando.<\/p>\n\n\n\n<p>A armadura rochosa explodiu em fragmentos. O gigante caiu de joelhos, olhos apagando como brasas molhadas, corpo desmoronando em cascalho, se desfazendo como escultura de areia sob chuva.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas segundos de puro sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, a multid\u00e3o explodiu em gritos, aplausos, choro, euforia.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand caiu de joelhos tamb\u00e9m, exausto, m\u00e3os no ch\u00e3o, respirando fundo, sorrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>A VIT\u00d3RIA AMARGA<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha subiu no palco, abra\u00e7ou Rand, o ergueu (com dificuldade, Rand pesava), girou dram\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E O VENCEDOR \u00c9&#8230; RAND OLIVEIRA! \u2014 A plateia rugiu como tsunami. \u2014 Mas quem REALMENTE ganhou essa noite? \u2014 Rosquinha abriu os bra\u00e7os, sorriso imenso, l\u00e1grimas escorrendo sem vergonha. \u2014 TODOS N\u00d3S! A FAM\u00cdLIA! O AMOR! A CORAGEM! CURITIBAAAA!<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o explodiu de novo. Mais forte. Mais alto. Gritos que faziam a Pedreira inteira vibrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota n\u00e3o conseguia tirar os olhos de duas cenas:<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 sendo carregado por param\u00e9dicos pra ambul\u00e2ncia. Bra\u00e7o imobilizado com hastes met\u00e1licas atravessando o gesso. Osso coberto mas ainda vis\u00edvel atrav\u00e9s da pele rasgada. Rosto ainda p\u00e1lido, ainda contorcido mesmo com analg\u00e9sico forte, mesmo tentando sorrir, mesmo acenando pra multid\u00e3o com a m\u00e3o boa enquanto l\u00e1grimas silenciosas escorriam.<\/p>\n\n\n\n<p>E Deco sendo ajudado por outros param\u00e9dicos, sangue limpo da testa mas o corte ainda aberto, cadeira funcionando de novo mas ele n\u00e3o tinha sa\u00eddo da sala, s\u00f3 olhava pro pedestal vazio com olhar distante, vazio, processando a falha, a culpa, o ataque.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 na mochila parou de brilhar.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia tinha sobrevivido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o tinha sa\u00eddo inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>O Vigilante se aproximou, colocou a m\u00e3o no ombro de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea fez o certo. Salvou o festival. Salvou vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra ele. A voz saiu rouca, quebrada, quase sussurro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fiz? \u2014 Apontou pras ambul\u00e2ncias com a m\u00e3o tremendo. \u2014 Deco foi atacado e eu n\u00e3o senti o aviso. Eu tava ali. Sendo distra\u00eddo. E Pop\u00f3 t\u00e1 com o bra\u00e7o despeda\u00e7ado. Seis meses sem lutar. Talvez nunca mais com a mesma for\u00e7a. E Shell&#8230; \u2014 Respirou fundo, voz quebrando completamente. \u2014 Shell roubou o Dom\u00ednio Absoluto enquanto todo mundo olhava pro c\u00e9u. Enquanto eu&#8230; enquanto eu n\u00e3o via mais nada.<\/p>\n\n\n\n<p>O Vigilante apertou o ombro dele, firme, quase doloroso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea escolheu a fam\u00edlia. No momento mais importante, quando teve que decidir entre perseguir o vil\u00e3o ou salvar seus irm\u00e3os, voc\u00ea escolheu certo. Isso importa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota n\u00e3o sentiu vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentiu o peso do bra\u00e7o despeda\u00e7ado do Pop\u00f3. Do sangue na testa do Deco. Da esfera vazia. Do \u00edm\u00e3 que brilhou e ele n\u00e3o viu. Dos cinco segundos em que o mundo sumiu e s\u00f3 existia ela.<\/p>\n\n\n\n<p>O festival tinha sido salvo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a que pre\u00e7o?<\/p>\n\n\n\n<p>O QUE FOI DEIXADO PRA TR\u00c1S<\/p>\n\n\n\n<p>O festival terminou. A multid\u00e3o se dispersou, celebrando, tirando fotos, postando v\u00eddeos, vivendo o momento. Mas Jota voltou pros bastidores, usando o dom de novo \u2014 agora entendendo, agora consciente, agora sabendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurou por Shell.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou os olhos. Varreu toda a Pedreira com o controle espacial. Sentiu assinaturas. Milhares delas. Mas procurou uma espec\u00edfica. Armadura viva. Energia distorcida. Poder que n\u00e3o deveria existir.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Camarote VIP.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota subiu as escadas, cora\u00e7\u00e3o acelerado, dom preparado, pronto pra lutar, pronto pra\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Shell \u2014 Leandro Costa \u2014 ainda estava l\u00e1. Sentado. Mas diferente. Completamente diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Os olhos dele brilhavam com luz que n\u00e3o era natural. Azul intenso, quase branco. A armadura viva pulsava com veias de energia correndo pelas placas met\u00e1licas, brilho hipn\u00f3tico que n\u00e3o existia antes, camadas que cresciam e diminu\u00edam como se respirassem, como se fossem vivas de verdade agora.<\/p>\n\n\n\n<p>E ao lado dele, sentada em outra poltrona, pernas cruzadas, ajeitando o cabelo, olhando pro pr\u00f3prio reflexo no celular\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu a raiva explodir. Pura. Visceral.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00eas&#8230; voc\u00eas estavam juntos o tempo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala olhou pra ele. E pela primeira vez, o rosto dela n\u00e3o tinha aquele sorriso. Tinha confus\u00e3o. Medo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota&#8230; eu\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea me usou. \u2014 A voz dele saiu baixa, perigosa. \u2014 Me cegou. Fez o mundo sumir. Eu n\u00e3o vi nada, n\u00e3o senti nada, s\u00f3 voc\u00ea, enquanto ele roubava o Dom\u00ednio, enquanto atacava meu irm\u00e3o\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o! \u2014 Cavala se levantou, r\u00e1pido. \u2014 Jota, eu juro, eu n\u00e3o sabia que\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Shell riu. Alto. Cruel. O som ecoou com harm\u00f4nicos estranhos, m\u00faltiplas vozes ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E voc\u00ea acreditou que era s\u00f3 uma distra\u00e7\u00e3o inocente. \u2014 Ele se levantou, armadura crescendo, camadas sobre camadas brotando. \u2014 Obrigado, Cavala. Voc\u00ea foi perfeita. Fez exatamente o que pedi. Distraiu o Jota no momento certo. Cinco segundos. Foi tudo que precisei.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala deu um passo pra tr\u00e1s, olhos arregalados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea&#8230; voc\u00ea disse que era s\u00f3&#8230; que o Jota tava estressado demais e voc\u00ea queria evitar confus\u00e3o. \u2014 A voz dela saiu fina, quebrando. \u2014 Voc\u00ea disse que era s\u00f3 isso! Me pagou pra fazer o que eu j\u00e1 faria de gra\u00e7a. Eu n\u00e3o sabia que voc\u00ea ia\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E voc\u00ea acreditou. \u2014 Shell deu de ombros, sorriso largo, frio. \u2014 Paguei bem. Voc\u00ea fez bem. E n\u00e3o precisava saber pra qu\u00ea. \u2014 Ele olhou pra Jota, olhos brilhando com poder que n\u00e3o existia horas atr\u00e1s. \u2014 N\u00e3o \u00e9 culpa dela n\u00e3o entender o jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavala olhou pra Jota. Olhos grandes cheios de l\u00e1grimas. Culpa, medo e confus\u00e3o misturados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, eu juro por tudo, eu n\u00e3o sabia que ele ia roubar o Dom\u00ednio. Eu n\u00e3o sabia do Deco. Eu n\u00e3o sabia de nada. Eu achei que era s\u00f3&#8230; s\u00f3 uma brincadeira. Uma distra\u00e7\u00e3o boba. Pra fazer voc\u00ea relaxar por uns segundos. Eu n\u00e3o&#8230; eu nunca&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Shell ergueu a m\u00e3o. A armadura formou uma l\u00e2mina longa, afiada, vibrando com energia pura do Dom\u00ednio Absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00eas nunca entenderam. \u2014 A voz dele ecoava, profunda, m\u00faltiplas camadas. \u2014 O Dom\u00ednio Absoluto n\u00e3o era pr\u00eamio. Era teste. E eu passei. Eu era compat\u00edvel. Sempre fui. Sempre soube. Por isso vim. Por isso esperei. Por isso planejei cada segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 A voz de Jota saiu rouca. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o precisava. Voc\u00ea j\u00e1 era forte. Voc\u00ea j\u00e1 era\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque forte n\u00e3o basta, Jota. Nunca bastou. \u2014 A armadura cresceu mais, preenchendo o espa\u00e7o. \u2014 E agora&#8230; agora eu sou mais. Muito mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o espa\u00e7o ao redor. Preparou o dom. Telecinese pronta pra atacar. Voo pronto pra se mover. Localiza\u00e7\u00e3o sentindo cada movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos. \u2014 Shell puxou Cavala pelo bra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o! \u2014 Cavala tentou se soltar. \u2014 Leandro, eu n\u00e3o quero\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Jota estendeu a m\u00e3o, telecinese ativada, tentando puxar ela de volta\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Shell foi mais r\u00e1pido. A armadura cresceu, envolveu Cavala como casulo.<\/p>\n\n\n\n<p>E os dois simplesmente deixaram de existir ali. N\u00e3o foi teleporte. N\u00e3o foi voo. Foi como se tivessem sido apagados da realidade. O ar onde estavam vibrou por tr\u00eas segundos, ondulando, distorcendo, depois voltou ao normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tentou localizar. Varreu toda a Pedreira. Toda a cidade. For\u00e7ou o dom at\u00e9 doer, at\u00e9 sangrar o nariz.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Shell tinha desaparecido completamente. E tinha levado Cavala junto. Contra a vontade dela.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 na mochila brilhou de novo. Fraco. Pulsando devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas dessa vez, n\u00e3o era aviso.<\/p>\n\n\n\n<p>Era despedida.<\/p>\n\n\n\n<p>O AMANHECER<\/p>\n\n\n\n<p>Jota foi pro hospital.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 tava numa maca, bra\u00e7o engessado do ombro at\u00e9 o pulso, hastes met\u00e1licas de tit\u00e2nio atravessando o gesso pra segurar os ossos fragmentados no lugar. Pele ainda p\u00e1lida. Olhos vermelhos de choro contido, analg\u00e9sico forte fazendo efeito mas n\u00e3o o suficiente. Cada respira\u00e7\u00e3o do\u00eda. Cada movimento era agonia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quando viu Jota, tentou sorrir.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed, mano. Tudo bem?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota puxou uma cadeira, sentou ao lado da maca. Segurou a m\u00e3o boa do irm\u00e3o. A voz saiu travada, engasgada, quase n\u00e3o saiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 um idiota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei. \u2014 Pop\u00f3 riu, mas o som saiu molhado, quebrado, sufocado por dor. \u2014 Mas ningu\u00e9m morreu. Valeu a pena, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>O bra\u00e7o dele tinha tr\u00eas fraturas expostas. Osso que atravessou m\u00fasculo, tend\u00e3o, pele. Seis meses sem lutar. Talvez mais. Talvez nunca mais com a mesma for\u00e7a. Os m\u00e9dicos tinham dito: &#8220;Ele vai recuperar. Mas nunca ser\u00e1 como antes.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E Pop\u00f3 achava que tinha valido a pena. E sim, tinha v\u00e1lido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota apertou a m\u00e3o dele, mas n\u00e3o conseguiu falar. Porque se falasse, ia desabar ali mesmo. E precisava ser forte. Pelo menos agora. Pelo menos aqui. Pelo menos pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O Rand ganhou? \u2014 Pop\u00f3 perguntou, voz fraca, sonolenta, rem\u00e9dio fazendo efeito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ganhou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Foda. \u2014 Pop\u00f3 fechou os olhos, exausto, corpo finalmente relaxando. \u2014 Valeu a pena ent\u00e3o. Tudo&#8230; valeu a pena.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou ali. Segurando a m\u00e3o do irm\u00e3o. Vendo ele dormir. Vendo o bra\u00e7o despeda\u00e7ado suspenso por cabos. Sentindo o peso esmagador de cada escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, voltou pra Pedreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco ainda tava na sala de seguran\u00e7a, cadeira funcionando perfeitamente, corte na testa limpo e enfaixado. Mas ele n\u00e3o tinha sa\u00eddo. S\u00f3 olhava pro pedestal vazio. S\u00f3 olhava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deco&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu vi ele. \u2014 A voz saiu baixa, distante, mec\u00e2nica. \u2014 Vi o Shell entrar. Tentei apertar o alarme. Minha m\u00e3o tava a cent\u00edmetros do bot\u00e3o. \u2014 Olhou pra pr\u00f3pria m\u00e3o, tremendo. \u2014 Mas ele foi mais r\u00e1pido. Cortou os controles. E eu ca\u00ed. Bati a cabe\u00e7a. Apaguei. E quando acordei&#8230; \u2014 A voz falhou completamente. \u2014 Quando acordei, j\u00e1 tinha ido. E eu n\u00e3o consegui fazer nada. Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se ajoelhou na frente da cadeira do irm\u00e3o, segurou os ombros dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o foi culpa sua.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu tava aqui pra isso. \u2014 Deco olhou nos olhos dele, l\u00e1grimas escorrendo. \u2014 Pra proteger. Pra impedir. Era minha responsabilidade. Minha \u00fanica responsabilidade. E eu falhei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O \u00edm\u00e3 brilhou. \u2014 Jota disse, voz baixa, quebrada. \u2014 Quando voc\u00ea foi atacado. Eu&#8230; eu devia ter sentido. Mas eu tava&#8230; tava distra\u00eddo. Cego. N\u00e3o vi nada. N\u00e3o senti nada. O \u00edm\u00e3 me avisou e eu&#8230; \u2014 A voz falhou. \u2014 Desculpa. Eu deveria ter percebido. Deveria ter vindo. Deveria ter te protegido.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco tocou o rosto dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea tava aprendendo ainda. \u2014 A voz saiu fraca mas firme. \u2014 Agora voc\u00ea sabe. Agora entende o dom. Entende o \u00edm\u00e3. \u2014 Limpou as l\u00e1grimas do pr\u00f3prio rosto. \u2014 E da pr\u00f3xima vez&#8230; da pr\u00f3xima vez a gente vai estar pronto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas &#8220;pr\u00f3xima vez&#8221; n\u00e3o apagava o agora.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o apagava a esfera vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o apagava o sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o apagava os cinco segundos em que o mundo sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos encontrou Jota nos bastidores vazios, horas depois do amanhecer. Todo mundo tinha ido embora. S\u00f3 restavam destro\u00e7os, palcos desmontados pela metade, luzes apagadas, sil\u00eancio pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o disse nada no come\u00e7o. S\u00f3 segurou a m\u00e3o dele. Firme. Quente. Presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficaram ali. Em sil\u00eancio. At\u00e9 que Jota falou, voz rouca, destru\u00edda:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tem uma coisa que voc\u00ea precisa saber.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos virou, olhou pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A Cavala. \u2014 Ele n\u00e3o conseguiu olhar nos olhos dela. \u2014 Ela me beijou. Mostrou os peitos. E o mundo&#8230; o mundo sumiu, Satogos. Literalmente. Eu n\u00e3o ouvi mais nada. N\u00e3o vi mais nada. S\u00f3 ela. Por cinco segundos completos. E quando voltei, ela tinha ido. E foi no momento exato que o Shell roubou o Dom\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos soltou a m\u00e3o dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o peito implodir.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Satogos, eu\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela tava com ele? \u2014 A voz saiu fria, controlada, perigosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tava. Mas&#8230; \u2014 Jota hesitou, finalmente olhando pra ela. \u2014 Acho que ela n\u00e3o sabia. Quando confrontei os dois, ela pareceu&#8230; surpresa. Confusa. Assustada. Shell disse que pagou ela pra me distrair. Ela achou que era s\u00f3 brincadeira. N\u00e3o sabia do roubo. E ele&#8230; ele a levou \u00e0 for\u00e7a. Eu tentei impedir, mas ele foi mais r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos cruzou os bra\u00e7os. Os olhos verdes brilhavam \u2014 raiva, decep\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m algo mais complexo. C\u00e1lculo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A Cavala tem um dom. Foco absoluto. \u2014 A voz saiu cortante, explicativa. \u2014 Quando ela ativa, voc\u00ea s\u00f3 v\u00ea ela. S\u00f3 sente ela. O resto do mundo literalmente desaparece. Como colocar antolhos num cavalo. Por isso o apelido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o est\u00f4mago revirar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o eu&#8230; eu n\u00e3o conseguia ver mais nada? Nem sentir?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nada. Zero. \u2014 Satogos olhou pra ele, firme, implac\u00e1vel. \u2014 O \u00edm\u00e3 pode ter brilhado. Pessoas podem ter gritado. N\u00e3o importa. Quando ela ativa o dom, s\u00f3 existe ela. At\u00e9 voc\u00ea perceber que foi manipulado. A\u00ed queima. Nunca mais funciona. Uma vez por pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou os olhos, processando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela queimou a carta. Em mim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Queimou. \u2014 Satogos confirmou. \u2014 Na pr\u00f3xima vez que voc\u00ea ver ela, pode olhar direto pros peitos que n\u00e3o vai sentir nada. Os antolhos quebraram.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio pesado.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos ficou quieta por muito tempo. Olhando pra ele. Processando. Pesando. Decidindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, ela perguntou, voz mais suave mas ainda fria:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea cedeu?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu&#8230; \u2014 Jota abriu os olhos. \u2014 Eu olhei. Eu toquei. Por cinco segundos, o mundo sumiu e eu fiquei ali.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea foi manipulado. Cegado. Literalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fui. \u2014 Jota assentiu. \u2014 Mas&#8230; n\u00e3o sei se isso importa. Eu ainda fiquei. Eu ainda&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos soltou o ar devagar, controlando a raiva, a decep\u00e7\u00e3o, a complexidade de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou te falar uma coisa, Jota. \u2014 Ela deu um passo mais perto. \u2014 Eu sei que ela te manipulou. Sei que o dom dela \u00e9 poderoso. Sei que voc\u00ea foi enganado. Sei que Shell usou ela, usou voc\u00ea, usou todo mundo. \u2014 Apertou os dedos no bra\u00e7o dele, forte, quase doloroso. \u2014 Mas isso n\u00e3o apaga o que aconteceu. Voc\u00ea cedeu. Por cinco segundos, voc\u00ea foi de outra pessoa. E agora a gente vai ter que lidar com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas&#8230; \u2014 Ela respirou fundo. \u2014 A Cavala parece que foi idiota. Burra. Inconsequente. Aceitou grana pra usar um dom poderoso sem perguntar por qu\u00ea. Mas parece que n\u00e3o foi vil\u00e3 de prop\u00f3sito. Shell usou ela tamb\u00e9m. Usou todo mundo. Deco. Voc\u00ea. Ela. O festival inteiro. Ele \u00e9 o inimigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota assentiu, garganta apertada demais pra falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos segurou a m\u00e3o dele de novo. Mas o toque era diferente. Mais firme. Mais distante. Com peso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E quando a gente encontrar Shell de novo&#8230; \u2014 Os olhos verdes brilharam, perigosos, prometendo viol\u00eancia. \u2014 A gente vai fazer ele pagar. N\u00e3o s\u00f3 pelo roubo. Mas por usar as pessoas como pe\u00e7as de xadrez. Por transformar todo mundo em ferramenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota apertou a m\u00e3o dela de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a Cavala?<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos ficou quieta por um momento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Se ela voltar arrependida, livre dele, a gente conversa. Sobre responsabilidade. Sobre consequ\u00eancias. Sobre n\u00e3o usar dons sem pensar. \u2014 Os olhos verdes escureceram. \u2014 Mas se ela voltar do lado dele, por escolha&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o precisou terminar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Juntos? \u2014 Jota perguntou, voz fraca.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos demorou cinco segundos pra responder. Cinco segundos longos, pesados, eternos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas finalmente assentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Juntos. \u2014 Pausa. \u2014 Mas voc\u00ea me deve uma. Grande. Gigante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n\n\n\n<p>E ficaram ali. M\u00e3os entrela\u00e7adas. Sil\u00eancio pesado. Sol nascendo sobre a Pedreira destru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guardou o \u00edm\u00e3 de volta no caderno, fechou a mochila laranja, jogou nas costas. Sentiu o peso. De tudo. Do que salvou. Do que perdeu. Do que fez. Do que permitiu. Dos cinco segundos em que n\u00e3o existiu mais nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro Gol Bolinha Cinza Urban estacionado ali, fiel, esperando. Pro t\u00eanis surrado com o cadar\u00e7o finalmente amarrado \u2014 aquele maldito cadar\u00e7o que tinha salvado tudo ao soltar na hora certa. Pro isqueiro amarelo no bolso que nunca acendeu cigarro nenhum mas continuava ali, \u00e2ncora, lembran\u00e7a, promessa.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol nasceu completamente sobre a Pedreira do Orleans, tingindo os palcos flutuantes desmontados de dourado e laranja.<\/p>\n\n\n\n<p>O festival tinha acabado.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia tinha sobrevivido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o pre\u00e7o tinha sido brutal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sangue. Em osso. Em culpa. Em escolhas imposs\u00edveis. Em cinco segundos de cegueira total.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo maior, algo perigoso, algo inevit\u00e1vel tinha come\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>O Dom\u00ednio Absoluto estava solto no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>E Leandro Costa, Shell, tinha se tornado outra coisa. Algo que nem mesmo as lendas sabiam como parar. Algo que podia apagar pessoas da realidade. Algo que usava todos como pe\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jota tinha descoberto algo tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Seus dons nunca foram tr\u00eas coisas separadas. Eram um s\u00f3. Controle espacial. Sentir, mover, atravessar o espa\u00e7o. Conectar-se com quem ama atrav\u00e9s da dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>E o \u00edm\u00e3 nunca foi m\u00e1gico. Era s\u00f3 ele aprendendo a ser quem sempre foi.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora sabia: o dom de Cavala n\u00e3o funcionava mais nele. Os antolhos tinham quebrado. Ela tinha queimado a carta. Uma vez por pessoa. Nunca mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00f3xima vez que encontrasse Shell, ia estar pronto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou pelo menos mais pronto do que hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque hoje&#8230; hoje ele tinha escolhido.<\/p>\n\n\n\n<p>E mesmo doendo, mesmo custando tudo, mesmo deixando cicatrizes que nunca iam fechar completamente\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha sido a escolha certa.<\/p>\n\n\n\n<p>Fam\u00edlia. Sempre fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos apertou a m\u00e3o dele com mais for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente vai encontrar ele. E quando encontrar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele vai pagar. \u2014 Jota completou.<\/p>\n\n\n\n<p>E enquanto tivesse fam\u00edlia, p\u00e1gina em branco no caderno marrom, estrada pra percorrer no Gol Bolinha Cinza, espa\u00e7o pra atravessar, e algu\u00e9m pra lutar ao lado&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria continuava.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo machucada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quebrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo sangrando.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo carregando o peso de cinco segundos em que o mundo sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuava.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A CRISE \u2014 PRECISAMOS DE SUBSTITUTO AGORA! A voz de Jota ecoou pelo r\u00e1dio, quebrando o barulho ensurdecedor do festival. 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