{"id":874,"date":"2026-01-28T00:15:00","date_gmt":"2026-01-28T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=874"},"modified":"2026-03-03T22:09:41","modified_gmt":"2026-03-04T01:09:41","slug":"aniversario-007","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/aniversario-007\/","title":{"rendered":"Anivers\u00e1rio 007"},"content":{"rendered":"\n<p>O celular vibrava na cabeceira, insistente, como se soubesse que aquele dia n\u00e3o seria comum. Jota abriu os olhos devagar, olhou pro teto rachado do apartamento no Edif\u00edcio Tijucas. Luz entrando pela janela que dava pra Pra\u00e7a Os\u00f3rio. Barulho de \u00f4nibus, buzinas, cidade acordando. Curitiba despertando.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu anivers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou grogue, p\u00e9s arrastando pelo ch\u00e3o frio, foi at\u00e9 o banheiro. Apartamento pequeno, um quarto, sala e cozinha integrada, banheiro apertado. Acendeu a luz. Azulejo branco refletiu a claridade fria. Pegou a escova de dentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular tocou de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Atendeu sem olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Al\u00f4?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Parab\u00e9ns, garoto.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz era grave, calma, mas carregada de algo que Jota reconheceu na hora: preocupa\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada de naturalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz. Ou como todo mundo chamava: Pierce Brosnan.<\/p>\n\n\n\n<p>O apelido tinha grudado faz tempo. Passado misterioso, jeito de falar pausado, olhar que via tr\u00eas passos \u00e0 frente. Pai do Leandro Costa. O homem que ensinou defesa pessoal no quintal da Rua do Professor, que falava de c\u00f3digos como quem fala de receita de bolo, que sumia por semanas e voltava como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou parado, escova de dentes na m\u00e3o, olhando pro pr\u00f3prio reflexo no espelho como se fosse outra pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Obrigado, Seu Luiz. Tudo bem a\u00ed?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tudo \u00f3timo \u2014 ele respondeu r\u00e1pido demais.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, uma voz feminina. Baixa. Tensa. Como quem tenta n\u00e3o ser ouvida mas falha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 queria te desejar um \u00f3timo dia \u2014 Seu Luiz continuou. \u2014 Aproveita. Descansa.<\/p>\n\n\n\n<p>E desligou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou olhando pro celular. Tela preta. Sil\u00eancio do apartamento vazio voltou a ocupar tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Descansa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz nunca mandava ningu\u00e9m descansar.<\/p>\n\n\n\n<p>Largou a escova na pia. Abriu o Instagram enquanto a \u00e1gua do chuveiro esquentava. Atualizou o feed. Primeira postagem:<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa.<\/p>\n\n\n\n<p>Foto antiga dele, sorrindo, abra\u00e7ado com ela numa festa. Legenda:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Parab\u00e9nss pro meu amor!!!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou. Releu.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Parab\u00e9nss.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Dois &#8220;s&#8221;. Larissa nunca errava. Ela era cuidadosa, revisava tudo tr\u00eas vezes antes de postar. Perfeccionista.<\/p>\n\n\n\n<p>E o &#8220;pro&#8221; sem acento. Outra falha.<\/p>\n\n\n\n<p>Erro proposital. C\u00f3digo.<\/p>\n\n\n\n<p>Respondeu no stories dela, cifrado:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que horass nos encontram\u00f4ss?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta veio em segundos. Como se ela estivesse esperando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 R do P. 14. V1.<\/p>\n\n\n\n<p>E deletou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rua do Professor. 14 horas. Vem sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro celular.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pro banheiro. A \u00e1gua do chuveiro estava fervendo, vapor subindo, espelho emba\u00e7ado. Fechou o registro. N\u00e3o ia tomar banho agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pia, o isqueiro amarelo. Jota n\u00e3o fumava. Nunca fumou. Mas o isqueiro sempre estava ali. Sobrevivente de todas as noites. Companheiro mudo.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular tocou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00famero desconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Atendeu, alerta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele t\u00e1 preocupado \u2014 voz de mulher, a mesma que estava com Seu Luiz. \u2014 O atentado n\u00e3o acabou. Fica esperto hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Desligou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou parado.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pro quarto. Pegou os t\u00eanis surrados no ch\u00e3o. Cal\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de sair, parou. Olhou ao redor do apartamento pequeno. Tempor\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Batida na porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas toques. R\u00e1pidos. Urgentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota foi at\u00e9 a porta, olhou pelo olho m\u00e1gico. Corredor vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas no ch\u00e3o, encostado na soleira, um celular velho. Flip phone. Tela rachada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou. Olhou pros lados. Corredor do Edif\u00edcio Tijucas deserto. Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu o celular. Ligou sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Tela azul. V\u00eddeo come\u00e7ou a rodar.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosto coberto. Voz distorcida. Mas Jota reconheceu o corpo, o jeito de se mover.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand.<\/p>\n\n\n\n<p>O v\u00eddeo era curto:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Opera\u00e7\u00e3o comprometida. Seu Luiz preso. Austin Powers te procura. 14h, Rua do Professor. Esse celular vai\u2014&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A tela piscou. Fumegou. Apagou.<\/p>\n\n\n\n<p>O celular esquentou na m\u00e3o de Jota. Ele largou no ch\u00e3o do corredor. Pl\u00e1stico derretendo, cheiro de queimado.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco segundos. Exatamente cinco segundos de v\u00eddeo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota voltou pro apartamento. Pegou a mochila laranja jogada na cadeira. Abriu. Dentro: caderno de capa dura marrom, camiseta regata vinho dobrada. Pegou a camiseta, trocou a que estava usando, suada. Guardou o caderno de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Na capa do caderno, preso com fita adesiva velha, o \u00edm\u00e3 do Posto Esso. Cinza fosco, logo apagado, beiradas descascando. Lembran\u00e7a da fam\u00edlia. Do posto que o pai tinha perto de casa, onde todo mundo se encontrava.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota passou o dedo nele. Superf\u00edcie fria.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogou a mochila nas costas. Olhou pro rel\u00f3gio do celular: 13h20.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi at\u00e9 a janela. Pra\u00e7a Os\u00f3rio l\u00e1 embaixo, movimentada. Gente andando, \u00f4nibus passando, camel\u00f4s vendendo guarda-chuva mesmo sem chuva.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o viu.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado da pra\u00e7a, tentando se esconder atr\u00e1s de uma banca de jornal: Leandro Costa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3culos escuros gigantes. Chap\u00e9u de aba larga rid\u00edculo. Jaqueta de couro preta chamando aten\u00e7\u00e3o. Disfarce que chamava mais aten\u00e7\u00e3o que a pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Austin Powers.<\/p>\n\n\n\n<p>O apelido tinha grudado porque Leandro vivia dizendo que o pai era agente secreto. Ningu\u00e9m acreditava. Como o pai ia ser agente de verdade se o filho mal conseguia sair de casa sem acionar o pr\u00f3prio alarme? Se fosse agente mesmo, teria ensinado o filho melhor. Qualquer aparelho eletr\u00f4nico nas m\u00e3os do Leandro, ele esquecia a senha. Tinha trabalhado como entregador \u2014 foi demitido em dois meses porque se perdia nas ruas. De vez em quando deduzia conspira\u00e7\u00f5es que ningu\u00e9m mais via, ficava disfar\u00e7ado por a\u00ed investigando o nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o cora\u00e7\u00e3o estava no lugar certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota suspirou.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje ia ser complicado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou a mochila, saiu do apartamento, desceu as escadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Rua. Box Park Center, estacionamento rotativo duas quadras do Edif\u00edcio Tijucas. Gol Bolinha Cinza Urban 2003 na vaga 47. Duas portas, sem ar-condicionado, etanol. Jota destrancou, jogou a mochila no banco do carona.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 JOTA!<\/p>\n\n\n\n<p>Virou.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro vinha correndo pela cal\u00e7ada. Trope\u00e7ou no pr\u00f3prio p\u00e9, quase caiu, se segurou num poste, continuou correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 CARALHO! ACHEI TU!<\/p>\n\n\n\n<p>Parou na frente de Jota, ofegante, suado, \u00f3culos tortos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Meu pai! Ele&#8230; eu tentei ajudar mas&#8230; \u2014 respira\u00e7\u00e3o presa. \u2014 Alarme disparou, pol\u00edcia veio, eu fugi, perdi o rastreador, o celular travou, eu&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segurou ele pelos ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Calma, Austin. Respira. Onde ele t\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro engoliu seco. Tirou os \u00f3culos. Olhos vermelhos. Cansados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rua do Professor. Ele disse que s\u00f3 tu sabe onde t\u00e1 a chave. Ele t\u00e1 escondido l\u00e1. Tem gente vigiando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pol\u00edcia? \u2014 Jota franziu a testa.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro balan\u00e7ou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o! Quis dizer&#8230; meu pai se escondeu l\u00e1 antes da pol\u00edcia chegar. Ele t\u00e1 esperando tu.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro realmente acreditava. O desespero era genu\u00edno.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Meu pai falou de uma opera\u00e7\u00e3o antiga \u2014 Leandro falou r\u00e1pido. \u2014 Queimou arquivo. Informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podia existir. Agora querem ele de volta. Ou morto. Ele se escondeu na casa. Mas descobriram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E tu?<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro riu. Amargo. Cansado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu? Eu s\u00f3 atrapalho. Sempre atrapalho. Mas dessa vez&#8230; \u2014 olhou pra Jota, s\u00e9rio. \u2014 Dessa vez eu preciso ajudar. Juro que n\u00e3o vou atrapalhar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Entra \u2014 Jota disse, abrindo a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ligou o Gol. Motor roncou. Leandro entrou no carona.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou o caderno marrom do porta-luvas. Abriu numa p\u00e1gina marcada. Mostrou pro Leandro enquanto dirigia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que meu pai chamava de 3W \u2014 Jota disse. \u2014 C\u00f3digo de acesso. Quando, onde, o qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro olhou. S\u00edmbolos, diagramas, sequ\u00eancias num\u00e9ricas. 14h destacado em vermelho. Embaixo: coordenadas, sequ\u00eancia de movimentos, senha cifrada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho&#8230; \u2014 Leandro virou as p\u00e1ginas. C\u00f3digos em morse, mapas de rotas, protocolos de emerg\u00eancia. \u2014 Tu t\u00e1 sempre preparado pra tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Teu pai me ensinou \u2014 Jota fechou o caderno, jogou a mochila na parte de tr\u00e1s. \u2014 &#8220;Sempre tenha tr\u00eas sa\u00eddas. Sempre tenha tr\u00eas planos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora entendo \u2014 Leandro murmurou. \u2014 O 3W que meu pai falava&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro estava concentrado no caderno. Quando olhou pra Jota, parou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que foi? Teu rosto mudou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra frente. M\u00e3os firmes no volante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nada. Vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro ficou tenso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota&#8230; obrigado por me levar. Por confiar em mim dessa vez.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Faz o que eu disser, Austin \u2014 Jota n\u00e3o tirou os olhos da rua. \u2014 Sem improviso. Dessa vez tem que funcionar.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro respirou fundo. Nervoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edram do estacionamento. Pra\u00e7a Os\u00f3rio ficou pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Rua Andr\u00e9 de Barros, depois Marechal Deodoro. O Gol roncava no tr\u00e2nsito da tarde, vidros abertos, vento quente entrando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pelo retrovisor.<\/p>\n\n\n\n<p>Carro preto. Tr\u00eas carros atr\u00e1s. Vidros escuros. Seguindo na mesma velocidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Leandro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que foi?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A gente t\u00e1 sendo seguido.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro virou, olhou pelo vidro traseiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 CARALHO&#8230; s\u00e3o eles?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei \u2014 Jota franziu a testa. \u2014 Mas vou descobrir.<\/p>\n\n\n\n<p>Acelerou. Entrou na regi\u00e3o do Tarum\u00e3, ruas calmas de bairro. Virou \u00e0 direita, depois direita de novo. O carro preto acompanhou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 eles \u2014 Leandro disse, voz tensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro amigo. Suor frio na testa. M\u00e3os agarradas no painel. Olhos arregalados no retrovisor.<\/p>\n\n\n\n<p>Medo real. N\u00e3o era atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pisou fundo. O Gol Bolinha chiou, motor 1.0 gritando. Ali era territ\u00f3rio dele \u2014 conhecia cada esquina, cada buraco, cada atalho. O carro preto ainda vinha atr\u00e1s, mais r\u00e1pido, mais potente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, eles t\u00e3o colando!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei! \u2014 Jota virou \u00e0 esquerda, subiu na cal\u00e7ada pra desviar de um caminh\u00e3o parado, voltou pro asfalto. \u2014 Segura a\u00ed!<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma curva. Estava quase na Victor Ferreira do Amaral. Naquele hor\u00e1rio tinha tr\u00e2nsito pesado. Uma \u00fanica chance.<\/p>\n\n\n\n<p>A Victor Ferreira do Amaral tava parada. Sinal vermelho. Dois \u00f4nibus lado a lado ocupando as faixas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o freou.<\/p>\n\n\n\n<p>Acelerou na contram\u00e3o, subiu no canteiro central, voltou pro asfalto do outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>O carro preto parou na preferencial. N\u00e3o quis arriscar entrar entre os \u00f4nibus. Tr\u00e2nsito encheu atr\u00e1s. Sinal abriu acima, fluxo liberado.<\/p>\n\n\n\n<p>Presos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Conseguimos! \u2014 Leandro gritou, aliviado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo. M\u00e3os firmes no volante.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou na Nivaldo Braga indo o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>No movimento, Leandro viu que um celular caiu da mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota&#8230; tem outro celular aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota franziu a testa, olhos ainda no retrovisor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Outro?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9. \u2014 Leandro tirou da mochila. Flip phone id\u00eantico. \u2014 Rand n\u00e3o para, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro abriu o celular. Ligou sozinho. V\u00eddeo j\u00e1 rodando.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand apareceu na tela. Rosto coberto. Voz distorcida:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Dois vigias na entrada, um nos fundos. Troca \u00e0s 14h. Janela de tr\u00eas minutos. Por\u00e3o acess\u00edvel pelo al\u00e7ap\u00e3o do quintal, pedra solta como sempre. Seu Luiz t\u00e1 vivo. N\u00e3o falha, 007. Voc\u00ea nasceu pra isso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O celular esquentou r\u00e1pido na m\u00e3o de Leandro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Merda, t\u00e1 queimando!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Joga fora!<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro abriu a janela, jogou. O celular caiu na rua, fa\u00edsca pequena, fuma\u00e7a sumindo no asfalto.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro olhou pra Jota, olhos arregalados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Teu amigo \u00e9 maluco.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pras m\u00e3os de Leandro. Tremiam de verdade. O p\u00e2nico tinha ultrapassado o roteiro. Ele estava vivendo o pesadelo que ele mesmo tinha criado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele t\u00e1 vivo \u2014 Jota disse, voz controlada. \u2014 Ainda d\u00e1 tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol virou \u00e0 esquerda. Rua do Professor.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desacelerou. Olhou as casas passando devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para ali \u2014 Leandro apontou. \u2014 Logo na frente daquela van.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou. Van branca estacionada. Vidros escuros.<\/p>\n\n\n\n<p>Movimento dentro. Duas silhuetas.<\/p>\n\n\n\n<p>Perfis conhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desligou o motor bem na frente da van.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio da tarde caiu sobre eles. S\u00f3 o som distante de um cachorro latindo. Vento quente entrando pela janela.<\/p>\n\n\n\n<p>Na janela de uma casa pr\u00f3xima, a cortina balan\u00e7ou. Movimento r\u00e1pido. Algu\u00e9m se afastando.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro engoliu seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu vi.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu a porta do carro. O p\u00e9 desceu no asfalto quente.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro rel\u00f3gio do celular.<\/p>\n\n\n\n<p>13h58.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois minutos pra troca.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas minutos de janela.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro saiu do carro. Fechou a porta devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro Jota. Respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem comigo \u2014 disse, voz estranha. Nervosa. \u2014 Tenho que te mostrar uma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra ele. Pro nervosismo. Pra van atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que coisa?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vem \u2014 Leandro insistiu, andando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 van. \u2014 Por favor. Confia em mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota foi atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta lateral da van abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois homens saltaram. R\u00e1pidos. M\u00e1scaras pretas.<\/p>\n\n\n\n<p>Agarraram Jota pelos bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 QUE PORRA! \u2014 Leandro gritou, mas j\u00e1 tinha outro segurando ele tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o resistiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixou levar.<\/p>\n\n\n\n<p>Capuz preto desceu na cabe\u00e7a dele. Escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurraram ele pra dentro da van. Leandro jogado ao lado. Tentando parecer assustado. Mas a respira\u00e7\u00e3o era errada. R\u00e1pida demais. Nervosa demais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 CUIDADO COM A CABE\u00c7A DELE! \u2014 Leandro gritou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 CALMA! \u2014 algu\u00e9m disse. Voz abafada. \u2014 S\u00f3 vamos dar uma volta.<\/p>\n\n\n\n<p>A van arrancou.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Dois minutos. Talvez tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>A van parou.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta abriu. M\u00e3os seguraram Jota, puxaram ele pra fora.<\/p>\n\n\n\n<p>Ch\u00e3o firme. Asfalto. Depois piso. Dentro de algum lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta fechando atr\u00e1s. Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Passos ao redor. Muitos. Respira\u00e7\u00f5es contidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m segurou o capuz.<\/p>\n\n\n\n<p>Puxou.<\/p>\n\n\n\n<p>Luz explodiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 SURPRESA!<\/p>\n\n\n\n<p>Gritaria.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou, olhos se ajustando.<\/p>\n\n\n\n<p>Sala da casa. A dele. Rua do Professor.<\/p>\n\n\n\n<p>Luzes acesas. Bal\u00f5es no teto. Faixa pendurada: &#8220;FELIZ ANIVERS\u00c1RIO JOTA!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz na frente, sorrindo. Larissa rindo, celular filmando. Rand encostado na parede.<\/p>\n\n\n\n<p>Pai. M\u00e3e. Irm\u00e3os. Sobrinhos. Amiga segurando o filho pequeno dela. Primos. Amigos.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo mundo ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo mundo rindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aplaudindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro ao lado de Jota, tirando o pr\u00f3prio capuz, sorrindo nervoso, ofegante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Consegui \u2014 sussurrou, s\u00f3 pra Jota ouvir. \u2014 Organizei tudo. E dessa vez&#8230; dessa vez eu n\u00e3o atrapalhei.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou ao redor. A fam\u00edlia. Os amigos. A casa reformada.<\/p>\n\n\n\n<p>O teatro todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro Leandro. Pro sorriso radiante. Pros olhos brilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o \u2014 Jota disse, voz embargada. \u2014 Dessa vez tu foi o her\u00f3i de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Abra\u00e7ou ele. Forte.<\/p>\n\n\n\n<p>A sala explodiu em risadas e gritos.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa se aproximou. Beijou Jota. Demorado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Feliz anivers\u00e1rio, amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segurou a m\u00e3o dela. Apertou.<\/p>\n\n\n\n<p>A festa come\u00e7ou. M\u00fasica. Comida. Risadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou ao redor. A casa reformada. Os amigos. A fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>O sobrinho correndo. A amiga gritando pra ele sentar. Rand sumindo pra cozinha. Leandro contando a hist\u00f3ria, agora pro primo, gestos largos, olhos brilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>E Seu Luiz. Do outro lado da sala. Olhando pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou o copo. Brinde silencioso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou de volta.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>EP\u00cdLOGO<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A festa continuava l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Som baixo de m\u00fasica, risadas abafadas vindo da sala. O sobrinho corria pelo corredor, a amiga tentava fazer ele sentar pra comer bolo. Larissa conversava com uma tia na cozinha. Leandro ainda contava a hist\u00f3ria da persegui\u00e7\u00e3o, agora pros primos, gestos largos, olhos brilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota e Seu Luiz tinham sa\u00eddo pro quintal.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas cadeiras de pl\u00e1stico branco. Copo de refrigerante morno na m\u00e3o do Jota. \u00c1gua pro Seu Luiz. Churrasqueira apagando, brasa virando cinza.<\/p>\n\n\n\n<p>A reforma tinha ficado boa. Muro novo, rebocado liso. Piso do quintal trocado. Churrasqueira de tijolo onde antes era s\u00f3 tambor cortado. Tr\u00eas meses de obra. Terminada na semana passada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por isso tu tava dormindo no Centro \u2014 Seu Luiz disse. \u2014 Casa em reforma. Apartamento no Edif\u00edcio Tijucas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Exatamente \u2014 Jota confirmou. \u2014 Aluguel tempor\u00e1rio. Perto do trabalho. E longe de voc\u00eas tramando festa surpresa.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz deu risada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu sabe como \u00e9 dif\u00edcil fazer surpresa pra algu\u00e9m que deduz tudo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Imagino \u2014 Jota sorriu. \u2014 Voc\u00eas capricharam. Larissa com c\u00f3digo. Tu com liga\u00e7\u00e3o preocupada. Rand com celulares explodindo. At\u00e9 a mulher desconhecida avisando de atentado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Prima da Larissa \u2014 Seu Luiz disse. \u2014 Atriz. Emprestei ela pro papel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Boa escolha \u2014 Jota admitiu. \u2014 Voz convincente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E colocar o Leandro no meio \u2014 Seu Luiz balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. \u2014 Foi arriscado. Mas eu sabia que se ELE acreditasse de verdade, criaria urg\u00eancia real.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Funcionou \u2014 Jota disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu sabia \u2014 Seu Luiz disse, simples. N\u00e3o era pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tomou um gole do refrigerante. Fez cara feia pro gosto doce demais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desde a Larissa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O c\u00f3digo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela nunca erra &#8220;parab\u00e9ns&#8221; com dois S \u2014 Jota disse. \u2014 Nunca. Quando vi o erro, desconfiei na hora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas tu bancou o jogo perfeitamente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque valia a pena.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tirou o caderno da mochila aos p\u00e9s da cadeira. \u00cdm\u00e3 Esso grudado na capa. Cinza fosco. Opaco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse \u00edm\u00e3 \u2014 Seu Luiz disse. \u2014 Tu sempre carrega ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Lembran\u00e7a \u2014 Jota disse, simples. \u2014 Do posto perto de casa. Onde a gente se encontrava quando eu era crian\u00e7a. Tu, meu pai, o Leandro. Fins de semana.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O posto fechou faz dez anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei \u2014 Jota passou o dedo na superf\u00edcie fria. \u2014 Mas enquanto eu tiver isso aqui, lembro que tenho fam\u00edlia. Que tenho pra onde voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz ficou quieto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mesmo morando sozinho no Centro \u2014 Jota continuou \u2014 longe de todo mundo, eu olhava pra esse \u00edm\u00e3 todo dia e lembrava: eu tenho gente. Tenho irm\u00e3os. Tenho pais. Tenho casa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E hoje tu descobriu que tem mesmo \u2014 Seu Luiz disse, voz embargada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Hoje eu tive certeza \u2014 Jota sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guardou o caderno. Olhou pro quintal reformado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu pedi pro Rand n\u00e3o contar pro Leandro \u2014 Seu Luiz explicou. \u2014 Queria que o desespero dele fosse real. Pensei que ia te convencer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nunca ia me convencer, Seu Luiz. Mas n\u00e3o era sobre me convencer. Era sobre ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sabe o que \u00e9 engra\u00e7ado? \u2014 Seu Luiz deu risada. \u2014 Foi ideia do Leandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou pra ele. Surpreso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Do Austin?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Dele \u2014 Seu Luiz confirmou. \u2014 Ele que veio me pedir. Disse que queria fazer uma festa surpresa pro &#8220;irm\u00e3o dele&#8221;. Que tu merecia. Que ele nunca tinha conseguido fazer nada certo, mas dessa vez ia conseguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou quieto. Processando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele pediu ajuda pra todo mundo \u2014 Seu Luiz continuou. \u2014 Larissa com o c\u00f3digo. Rand com os celulares. A prima da Larissa com o telefone. Eu com a liga\u00e7\u00e3o misteriosa e os detalhes da casa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E o Rand sabia do al\u00e7ap\u00e3o? \u2014 Jota perguntou. \u2014 Da pedra solta?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu passei as informa\u00e7\u00f5es pro Leandro \u2014 Seu Luiz disse. \u2014 Layout da casa, onde ficava o al\u00e7ap\u00e3o, tudo. Ele repassou pro Rand fazer os v\u00eddeos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O Leandro coordenou tudo \u2014 Jota disse, admirado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tudo \u2014 Seu Luiz confirmou. \u2014 Ele juntou as pe\u00e7as. Pediu ajuda de cada um. E montou a opera\u00e7\u00e3o inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele planejou tudo \u2014 Seu Luiz sorriu. \u2014 Claro que a gente ajustou os detalhes. Mas a ideia, a coordena\u00e7\u00e3o, pedir ajuda de cada um&#8230; foi ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 que ele n\u00e3o esperava uma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz deu risada. Alta. Genu\u00edna.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu. Entendendo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele acreditou de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Completamente \u2014 Seu Luiz limpou os olhos. \u2014 O garoto planejou festa surpresa. Ensaiou com todo mundo. Coordenou c\u00f3digos, celulares, hor\u00e1rios. E quando viu o &#8220;carro preto&#8221; seguindo voc\u00eas&#8230; entrou em p\u00e2nico REAL.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque ele acreditou na pr\u00f3pria hist\u00f3ria \u2014 Jota completou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Exatamente \u2014 Seu Luiz balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. \u2014 Ele criou o teatro. Mas esqueceu que ia ter que atuar nele tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio. Depois risada. Dos dois.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O melhor \u2014 Seu Luiz disse \u2014 \u00e9 que quando ele chegou aqui, desesperado, contando que &#8220;escaparam de uma persegui\u00e7\u00e3o REAL&#8221;, todo mundo ficou confuso. Larissa perguntou: &#8220;Que persegui\u00e7\u00e3o?&#8221; Rand disse: &#8220;Que carro?&#8221; E o Leandro: &#8220;VOC\u00caS N\u00c3O VIRAM? DOIS CARROS NOS SEGUINDO!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu risada. Imaginando a cena.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E tu n\u00e3o contou pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o \u2014 Seu Luiz disse, s\u00e9rio agora. \u2014 E tu tamb\u00e9m n\u00e3o vai contar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nunca \u2014 Jota prometeu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque hoje \u2014 Seu Luiz olhou pro quintal, pra festa l\u00e1 dentro \u2014 ele organizou uma festa inteira. Coordenou dez pessoas. Criou c\u00f3digos. E &#8220;salvou&#8221; o irm\u00e3o dele de uma persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deixa ele acreditar nisso. Que ele fez tudo certo. Pela primeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele fez tudo certo \u2014 Jota disse, honesto. \u2014 A persegui\u00e7\u00e3o foi&#8230; improviso meu. Mas o resto? Foi tudo ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando o Leandro apareceu no estacionamento \u2014 Jota continuou, olhando pro copo. \u2014 Desesperado, suado, achando que o pai ia morrer&#8230; eu n\u00e3o ia tirar isso dele. A chance de ser \u00fatil. De ajudar numa &#8220;opera\u00e7\u00e3o de verdade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o tu entrou no jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o eu entrei no jogo \u2014 Jota confirmou. \u2014 Mostrei os c\u00f3digos 3W. Ele ficou impressionado. Pela primeira vez algu\u00e9m levez ele a s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz ficou quieto. Ouvindo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E usei o \u00edm\u00e3 apagado pra criar urg\u00eancia \u2014 Jota admitiu. \u2014 Falei pro Leandro que quando o \u00edm\u00e3 n\u00e3o brilha, pode significar que algu\u00e9m j\u00e1 morreu. Que a gente tinha que correr.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cruel \u2014 Seu Luiz disse, mas tava admirado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eficiente \u2014 Jota corrigiu. \u2014 Ele entrou em p\u00e2nico. Ficou desesperado. Mas se sentiu URGENTE. Importante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a persegui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu. Meio envergonhado. Meio orgulhoso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o existiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz virou pra ele. Sobrancelha erguida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Carro preto que tava &#8220;seguindo&#8221; a gente? \u2014 Jota deu risada. \u2014 Civic preto de um vizinho. Voltando do trabalho. Todo dia, mesmo hor\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Filho da puta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Entrei no Tarum\u00e3 de prop\u00f3sito \u2014 Jota continuou, animado. \u2014 Havia uma chance de ser exatamente o hor\u00e1rio que ele passa ali. Vidro fum\u00ea, carro preto, dirige r\u00e1pido. Perfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz largou o copo. Cobriu o rosto com as m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Rindo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E quando Leandro gritou que tinha &#8220;outro carro&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Palio vermelho de uma vizinha \u2014 Jota disse. \u2014 Voltando da feira. Toda quinta, mesmo hor\u00e1rio, coincid\u00eancia, sabia o que fazer tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. Admirado. Incr\u00e9dulo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu transformou o tr\u00e2nsito do Tarum\u00e3 em persegui\u00e7\u00e3o de filme.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Trabalho com o que tenho \u2014 Jota deu de ombros. \u2014 Tu me ensinou: usa o terreno. Conhece a regi\u00e3o. Timing \u00e9 tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu te ensinei a usar isso pra fugir de perigo real.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Hoje eu usei pra criar perigo falso \u2014 Jota sorriu. \u2014 Improviso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a van? \u2014 Jota perguntou. \u2014 Eu vi quem tava dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz deu risada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Claro que viu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E mesmo assim deixei me capturarem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Podia ter resistido. Podia ter estragado a surpresa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Podia \u2014 Jota confirmou. \u2014 Mas o Leandro tinha caprichado tanto. N\u00e3o ia ser eu a estragar.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz sorriu. Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O engra\u00e7ado \u00e9 que ele tentou atuar como se tamb\u00e9m tivesse sido pego de surpresa. Mas na hora que te jogaram na van, ele gritou: &#8220;CUIDADO COM A CABE\u00c7A DELE!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tipo algu\u00e9m que sabe exatamente o que t\u00e1 acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Exatamente \u2014 Seu Luiz deu risada. \u2014 Capturado de verdade n\u00e3o se preocupa se o outro bateu a cabe\u00e7a. Ele tava t\u00e3o nervoso com a execu\u00e7\u00e3o que se denunciou sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E o segundo celular? \u2014 Jota perguntou. \u2014 Aquele que &#8220;caiu&#8221; da mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah, aquele \u2014 Seu Luiz riu. \u2014 O Leandro tava nervoso demais. Rand tinha dado pra ele colocar na tua mochila no momento certo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu vi quando ele fez \u2014 Jota admitiu. \u2014 Quando pedi pra ele entrar no carro, ele aproveitou o movimento e jogou o celular na mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E tu deixou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E eu deixei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele se importa \u2014 Jota disse, simples.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele te ama, garoto \u2014 Seu Luiz corrigou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio. Mais pesado agora. Mais denso.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz olhou pro quintal. Pro lugar onde tinha ensinado Jota a dar soco, vinte anos atr\u00e1s. Onde tinha ensinado c\u00f3digo morse, defesa pessoal, sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu criou uma miss\u00e3o inteira \u2014 disse, voz baixa. \u2014 Do zero. Usando vizinhos, tr\u00e2nsito, timing. Pra dar pro meu filho uma mem\u00f3ria boa. Uma hist\u00f3ria onde ele n\u00e3o falhou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele merecia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele vai contar essa hist\u00f3ria pro resto da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu sei \u2014 Jota olhou pras pr\u00f3prias m\u00e3os. \u2014 E eu nunca vou contar pra ele a verdade. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz levantou. N\u00e3o conseguia ficar sentado.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu dois passos. Parou.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou. Agachou na frente de Jota. M\u00e3os nos ombros dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Obrigado \u2014 disse, voz embargada. \u2014 Por salvar meu filho. De verdade dessa vez. N\u00e3o de bandidos. De si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota segurou o bra\u00e7o dele. Firme.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele \u00e9 meu irm\u00e3o, Seu Luiz. Mesmo sendo um desastre.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz abra\u00e7ou Jota. Forte. Coisa que ele raramente fazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficaram assim. Dois homens no quintal reformado. Piso novo debaixo dos p\u00e9s. Muro novo \u00e0s costas. Festa continuando l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se soltaram, Seu Luiz limpou os olhos. N\u00e3o tentou disfar\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Hoje eu vi meu filho com brilho nos olhos \u2014 disse. \u2014 Coisa que eu n\u00e3o via faz anos. Desde antes dele perceber que n\u00e3o consegue fazer nada certo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Hoje ele fez certo \u2014 Jota disse, simples.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Hoje tu deixou ele fazer certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltaram pras cadeiras. Refrigerante morno. \u00c1gua esquecida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu \u00e9 007 de verdade \u2014 Seu Luiz disse. \u2014 N\u00e3o pelos c\u00f3digos. N\u00e3o pela luta. Mas porque tu entende que a miss\u00e3o mais importante \u00e9 a que salva a alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o respondeu. S\u00f3 olhou pro caderno. O \u00edm\u00e3 cinza fosco. Opaco.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembran\u00e7a de fam\u00edlia. De casa. De pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 dentro, o sobrinho gritou alguma coisa. A amiga riu. Leandro contava a hist\u00f3ria de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos voltar \u2014 Seu Luiz disse, levantando. \u2014 Antes que percebam que a gente sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou tamb\u00e9m. Guardou o caderno na mochila.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de entrar, Seu Luiz parou. Virou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Feliz anivers\u00e1rio, garoto. E obrigado pela reforma tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A reforma ficou boa \u2014 Jota olhou pro quintal novo. \u2014 Mas n\u00e3o foi o melhor presente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o \u2014 Jota sorriu. \u2014 O melhor presente foi ver o Austin Powers finalmente acreditar em si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Luiz apertou o ombro dele. Forte. Definitivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entraram juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>A festa continuava. O sobrinho corria. A amiga gritava. Larissa ria na cozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>E o Leandro contava, pela oitava vez, como tinha ajudado a salvar o dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Com detalhes. Com gestos. Com olhos brilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque hoje, pela primeira vez na vida, o Austin Powers n\u00e3o tinha falhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que a persegui\u00e7\u00e3o fosse falsa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que tudo fosse teatro.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque o que importa n\u00e3o \u00e9 a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o que a pessoa acredita sobre si mesma depois.<\/p>\n\n\n\n<p>E hoje, o Leandro acreditava.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O celular vibrava na cabeceira, insistente, como se soubesse que aquele dia n\u00e3o seria comum. Jota abriu os olhos devagar, olhou pro teto rachado do apartamento no Edif\u00edcio Tijucas. Luz entrando pela janela que dava pra Pra\u00e7a Os\u00f3rio. Barulho de \u00f4nibus, buzinas, cidade acordando. Curitiba despertando. Seu anivers\u00e1rio. 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