{"id":892,"date":"2026-01-29T00:15:00","date_gmt":"2026-01-29T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=892"},"modified":"2026-03-04T13:07:54","modified_gmt":"2026-03-04T16:07:54","slug":"o-hangar-que-nunca-decolou","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/o-hangar-que-nunca-decolou\/","title":{"rendered":"O Hangar Que Nunca Decolou"},"content":{"rendered":"\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava parado na frente do galp\u00e3o abandonado da Pedreira do Orleans, coberto de poeira vermelha da pedreira, porta do motorista entreaberta. Jota olhou pro carro e franziu a testa. N\u00e3o lembrava de ter dirigido at\u00e9 ali. Lembrava de estar indo pro aeroporto, passaporte na m\u00e3o, mochila laranja nas costas, aquele aperto bom de quem vai sumir do mapa por uns dias. Mas isso era&#8230; quando? Fazia cinco minutos? Cinco horas?<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o era enorme, paredes de concreto rachado, teto de zinco enferrujado com buracos deixando entrar luz branca de tarde. Portas abertas, rangendo no vento que n\u00e3o existia. Cheiro de mofo, \u00f3leo velho e algo que Jota n\u00e3o conseguiu identificar de imediato: cola quente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>E parou.<\/p>\n\n\n\n<p>O hangar estava VIVO.<\/p>\n\n\n\n<p>Dezenas de crian\u00e7as corriam feito loucas entre pilhas de maquetes \u2014 cidades inteiras feitas de papel\u00e3o, isopor, palito de f\u00f3sforo, caixa de sapato, cola quente ainda fumegando. Tinha torre de dois metros, ponte suspensa feita com barbante e tampinhas de garrafa, aeroporto em miniatura com pista de pouso de papel\u00e3o ondulado, at\u00e9 um est\u00e1dio com arquibancada de caixa de ovo pintada de verde.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as pareciam sa\u00eddas direto de South Park: bocas grandes, olhos maliciosos, vozes que xingavam em desenho animado, energia ca\u00f3tica pura. Corriam, gritavam, destru\u00edam e reconstru\u00edam tudo em segundos, como se o mundo inteiro fosse massa de modelar nas m\u00e3os delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota reconheceu algumas.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha \u2014 o garotinho de cabelo castanho, bigode de guid\u00e3o desenhado a caneta preta nas bochechas, camiseta rosa pink brilhante, j\u00e1 rebolando e gritando \u2014 TIO, EU SOU A RAINHA DO CASTELO DE PURPURINA! \u2014 enquanto jogava glitter em cima de uma maquete de fortaleza medieval. O glitter caiu feito chuva dourada e tr\u00eas crian\u00e7as ao redor come\u00e7aram a tossir, rindo ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou. N\u00e3o era poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 \u2014 baixinho, magro, cara fechada de quem j\u00e1 nasceu puto com o mundo, chutou uma torre de Pisa de isopor com tanta raiva que a torre voou pelos ares e acertou uma maquete de casa colonial. As duas desabaram juntas. Pop\u00f3 comemorou como se tivesse feito gol de bicicleta.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo Pop\u00f3. S\u00f3 que&#8230; crian\u00e7a de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco \u2014 sentado no canto, longe do caos, montando com cuidado uma maquete de casa simples com palitos de picol\u00e9, colando cada peda\u00e7o devagar, l\u00edngua pra fora de concentra\u00e7\u00e3o. Ele sorriu quando viu Jota, acenou com a m\u00e3o cheia de cola, e voltou pro trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o ch\u00e3o sumir embaixo dos p\u00e9s por um segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o eram parecidos. ERAM eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Seus irm\u00e3os. Anos mais novos. Muito mais novos.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 \u2014 s\u00e9rio at\u00e9 de crian\u00e7a, \u00f3culos redondos de arma\u00e7\u00e3o de arame, camiseta branca sem gra\u00e7a, anotando algo num caderninho. Ele observava o caos, anotava, observava de novo. Jota jurava que o moleque tinha cara de contador mirim.<\/p>\n\n\n\n<p>Capit\u00e3o Cueca \u2014 Leandro Costa, cueca vermelha por cima da cal\u00e7a jeans rasgada, capa de len\u00e7ol azul amarrada no pesco\u00e7o. Ele apareceu correndo do nada, gritou \u2014 EU SOU O CAPIT\u00c3O CUECA E VOU SALVAR A CIDADE! \u2014 jogou-se de peito numa maquete de prefeitura, destruiu tudo, levantou vitorioso com bra\u00e7os abertos. Tr\u00eas segundos depois sumiu atr\u00e1s de uma pilha de caixas. Quando reapareceu, estava sem a capa, de \u00f3culos escuros feitos de papel\u00e3o, e algu\u00e9m o chamou de &#8220;Professor Sapato&#8221;. Ele respondeu como se sempre tivesse sido o Professor Sapato.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o Jota viu ele.<\/p>\n\n\n\n<p>O gordinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Parado sozinho perto de uma maquete de pr\u00e9dio comercial de cinco andares, olhando tudo com aquela mistura de fasc\u00ednio e medo de entrar na brincadeira. Cabelo bagun\u00e7ado, camiseta larga demais, t\u00eanis surrado com cadar\u00e7o solto. Barriguinha saliente, bochecha vermelha, olhos grandes e atentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu um aperto no peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele era ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Mini-Geraldo.<\/p>\n\n\n\n<p>Vers\u00e3o crian\u00e7a de si mesmo, parada ali, esperando algu\u00e9m chamar pra brincar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o pensou duas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Tirou a mochila laranja das costas, largou no ch\u00e3o do galp\u00e3o com um baque surdo, e virou tio Geraldo vers\u00e3o full time. A camiseta regata vinho grudava nas costas de suor mesmo com o vento frio que entrava pelos buracos do teto.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas segundos depois de largar a mochila, duas crian\u00e7as \u2014 uma menina de tran\u00e7a e um garoto de bon\u00e9 \u2014 j\u00e1 tinham transformado a mochila laranja na montanha do drag\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 ESSA \u00c9 A MONTANHA! \u2014 berrou a menina.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E O DRAG\u00c3O MORA L\u00c1 DENTRO! \u2014 completou o garoto, apontando pra mochila como se fosse caverna ancestral.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha apareceu do nada, jogou mais glitter, e a montanha virou montanha m\u00e1gica. \u00d3bvio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se aproximou do Mini-Geraldo devagar. O gordinho olhou pra cima, olhos arregalados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quer brincar? \u2014 Jota perguntou, voz saindo mais baixa que o normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mini-Geraldo mordeu o l\u00e1bio, olhou pros lados, e assentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota estendeu a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O gordinho pegou.<\/p>\n\n\n\n<p>E o caos come\u00e7ou de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 berrou do outro lado do galp\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 TIO, O DRAG\u00c3O T\u00c1 ATACANDO A TORRE!<\/p>\n\n\n\n<p>E meteu o p\u00e9 numa maquete de tr\u00eas andares feita de caixas de pizza empilhadas. A torre balan\u00e7ou, desabou em c\u00e2mera lenta, caixas se abrindo no ar como asas de papel\u00e3o. Poeira de farinha velha subiu feito explos\u00e3o nuclear de mentira.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo mundo riu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu junto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mini-Geraldo riu tamb\u00e9m, segurando a m\u00e3o dele com for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque ali n\u00e3o era destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Era guerra \u00e9pica.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro garoto \u2014 magrelo de \u00f3culos quebrados com fita adesiva \u2014 pegou um avi\u00e3ozinho de pl\u00e1stico velho e usou como m\u00edssil. BUM. Pr\u00e9dio comercial inteiro voou pelos ares, isopor e papel\u00e3o se espalhando. Do meio do destro\u00e7o ele j\u00e1 pegou uma caixa de sapato velha, virou de cabe\u00e7a pra baixo, e urrou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 ISSO AQUI AGORA \u00c9 O CASTELO DO REI DOS DRAG\u00d5ES! QUEM VEM?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota foi.<\/p>\n\n\n\n<p>Mini-Geraldo tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Correram juntos, pisadas pesadas de Jota sacudindo o ch\u00e3o de concreto do galp\u00e3o, Mini-Geraldo rindo alto, tentando acompanhar. Jota tentava proteger as maquetes que ainda estavam de p\u00e9 e, ao mesmo tempo, ajudava a derrubar as que j\u00e1 tinham virado alvo leg\u00edtimo. Era imposs\u00edvel acompanhar tudo. O caos era total, lindo, perfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma menina de cabelo cacheado pegou tr\u00eas rolos de papel higi\u00eanico de algum lugar misterioso (Jota nem quis saber de onde), desenrolou tudo correndo pelo galp\u00e3o, e anunciou aos berros:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 NEVE NO INVERNO NUCLEAR!<\/p>\n\n\n\n<p>E cobriu sete maquetes diferentes em papel branco que flutuava no ar antes de cair. Parecia neve de verdade. Mini-Geraldo apontou, boca aberta de admira\u00e7\u00e3o. Jota concordou. Aquilo era arte.<\/p>\n\n\n\n<p>O cheiro do galp\u00e3o agora era mistura insana: cola quente, chiclete grudado no ch\u00e3o, suor de crian\u00e7a, poeira de papel\u00e3o, farinha velha, e criatividade pura destilada. Jota respirava fundo e sentia os pulm\u00f5es encherem de inf\u00e2ncia recuperada.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 apareceu do lado deles com o caderninho, anotando algo, e perguntou s\u00e9rio:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tio, quantas maquetes j\u00e1 ca\u00edram?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou ao redor. Pelo menos quinze no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quinze \u2014 respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 anotou. Assentiu. Saiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco continuava no canto, montando a casinha de palito de picol\u00e9, alheio ao apocalipse ao redor. Jota passou perto, deu um tapinha carinhoso na cabe\u00e7a dele. Deco sorriu sem tirar os olhos da cola.<\/p>\n\n\n\n<p>Capit\u00e3o Cueca reapareceu \u2014 agora sem \u00f3culos de papel\u00e3o, mas com capacete feito de bacia de pl\u00e1stico verde \u2014 e urrou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 EU SOU O GENERAL BACIA VERDE E VOU EXPLODIR A PONTE!<\/p>\n\n\n\n<p>Explodiu.<\/p>\n\n\n\n<p>A ponte suspensa de barbante e tampinhas desabou com estrondo desproporcional ao tamanho. Capit\u00e3o Cueca comemorou, girou tr\u00eas vezes, e sumiu de novo atr\u00e1s de uma pilha de pneus velhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando reapareceu, estava de touca de l\u00e3 rosa (onde ele achou uma touca?) e algu\u00e9m o chamou de &#8220;Ninja Fofinho&#8221;. Ele respondeu na hora.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o Rand apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou.<\/p>\n\n\n\n<p>O garoto estava ali, parado no meio do galp\u00e3o, macac\u00e3o azul de crian\u00e7a, ferramentas de brinquedo na m\u00e3o \u2014 chave de fenda de pl\u00e1stico, martelo de borracha \u2014 olhando uma maquete quebrada de ponte como se estivesse calculando como consertar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou a cabe\u00e7a um segundo pra ver Mini-Geraldo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando olhou de volta, Rand tinha sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>Piscou de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand estava no outro canto do galp\u00e3o, agora consertando uma torre com fita adesiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ia perguntar como ele tinha se movido t\u00e3o r\u00e1pido, mas uma guria de vestido florido chamou alto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 TIO, VEM LUTAR CONTRA O DRAG\u00c3O!<\/p>\n\n\n\n<p>E ele esqueceu.<\/p>\n\n\n\n<p>O drag\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma hora \u2014 Jota n\u00e3o saberia dizer quando exatamente \u2014 uma das maquetes maiores come\u00e7ou a se mexer. Era uma constru\u00e7\u00e3o estranha, meio avi\u00e3o, meio criatura, feita de papel\u00e3o grosso, asas de caixa de pizza abertas, cauda de cano de PVC enrolado em papel alum\u00ednio. Tinta vermelha escorrida formava chamas na boca desenhada.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as pararam.<\/p>\n\n\n\n<p>Olharam.<\/p>\n\n\n\n<p>O drag\u00e3o balan\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>As asas bateram.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota jurava \u2014 JURAVA \u2014 que viu as asas de papel\u00e3o baterem de verdade, com for\u00e7a, levantando vento que fez o cabelo de Mini-Geraldo voar pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quando piscou, o drag\u00e3o era s\u00f3 papel\u00e3o de novo. Parado. Inofensivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha anunciou aos berros:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 O DRAG\u00c3O DE FOGO DA MONTANHA M\u00c1GICA!<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 chutou uma pedra (de isopor) no drag\u00e3o. A pedra bateu, ricocheteou, acertou Beag\u00e1 de rasp\u00e3o. Beag\u00e1 anotou no caderninho: &#8220;Pop\u00f3 hostil com drag\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Capit\u00e3o Cueca \u2014 agora vestido de cowboy com chap\u00e9u de jornal \u2014 montou numa vassoura e avan\u00e7ou contra o drag\u00e3o gritando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 IIIIRR\u00c1\u00c1\u00c1\u00c1!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota entrou na brincadeira sem pensar. Olhou ao redor, procurando arma. Viu uma tampa de panela velha encostada na parede. Perfeita. Pegou, levantou como escudo, e bradou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 EU SOU O CAVALEIRO! QUEM VEM COMIGO?<\/p>\n\n\n\n<p>Mini-Geraldo levantou a m\u00e3o, t\u00edmido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu uma r\u00e9gua de madeira quebrada pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Essa \u00e9 tua espada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mini-Geraldo segurou a r\u00e9gua com as duas m\u00e3os, olhos brilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>E foram pra guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as atacaram o drag\u00e3o de todos os lados. Jota bloqueava &#8220;chamas&#8221; (jatos imagin\u00e1rios de fogo que as crian\u00e7as faziam com a boca) com a tampa de panela. Mini-Geraldo batia na cauda do drag\u00e3o com a r\u00e9gua, rindo alto. Rosquinha jogou mais glitter (sempre tem mais glitter) e proclamou que estava &#8220;cegando o drag\u00e3o com poeira de fada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco continuou montando a casinha no canto, imperturb\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand apareceu com uma corda, amarrou a pata do drag\u00e3o numa coluna de concreto do galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou pra agradecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand tinha sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou ao redor. Nada. Como se nunca tivesse estado ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a corda estava firme. Real. N\u00f3 perfeito que s\u00f3 Rand sabia fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde crian\u00e7a, ele j\u00e1 era fantasma.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 escalou o drag\u00e3o e come\u00e7ou a socar a cabe\u00e7a de papel\u00e3o com raiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 anotou: &#8220;Drag\u00e3o neutralizado.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Capit\u00e3o Cueca \u2014 agora sem chap\u00e9u, mas com \u00f3culos de mergulho de pl\u00e1stico rosa \u2014 declarou vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma menina de tran\u00e7a olhou pra Jota, confusa:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tio, aquele menino troca de roupa a cada cinco minutos?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sempre fez isso.<\/p>\n\n\n\n<p>O drag\u00e3o desabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Papel\u00e3o, cola, alum\u00ednio, tudo espalhado pelo ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio por tr\u00eas segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o todos gritaram:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 VENCEMOOOOS!<\/p>\n\n\n\n<p>E a festa recome\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota largou a tampa de panela, respirando fundo. A camiseta regata vinho estava encharcada. Mini-Geraldo ainda segurava a r\u00e9gua-espada, sorrindo de orelha a orelha, bochecha vermelha de esfor\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ajoelhou na frente dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois ficaram ali, olho no olho, Jota vendo a si mesmo crian\u00e7a, Mini-Geraldo vendo quem ele ia ser muitos anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tio \u2014 Mini-Geraldo perguntou baixinho, s\u00e9rio. \u2014 Quando eu crescer, eu posso continuar destruindo maquetes assim?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro gordinho. Pra si mesmo crian\u00e7a. Pra vers\u00e3o dele de quando tudo ainda era poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Engoliu seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pode \u2014 respondeu, voz firme. \u2014 E vai ser o melhor emprego do mundo. Nunca deixa ningu\u00e9m te convencer do contr\u00e1rio. Nem quando crescer. Nem quando doer. Nunca.<\/p>\n\n\n\n<p>Mini-Geraldo sorriu. Dente da frente faltando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Promete?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota estava fazendo promessa pra si mesmo no passado.<\/p>\n\n\n\n<p>E sabia que ia cumprir.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Prometo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota passou a m\u00e3o no cabelo bagun\u00e7ado do gordinho, levantou, e olhou ao redor.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o era campo de batalha p\u00f3s-apocal\u00edptico: cidades em ru\u00ednas, fortes de caixa de sapato tombados, avi\u00f5es de brinquedo quebrados servindo de ponte improvisada entre maquetes sobreviventes, papel higi\u00eanico cobrindo tudo feito neve de mentira, glitter brilhando no ch\u00e3o de concreto, e o drag\u00e3o morto no centro, cercado de crian\u00e7as suadas, felizes, invenc\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja \u2014 agora oficialmente Montanha M\u00e1gica \u2014 tinha sido escalada, destru\u00edda e reconstru\u00edda pelo menos quatro vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota lembrou do caderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi at\u00e9 a mochila, abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>E sentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Calor.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 do Posto Esso, preso na capa do caderno marrom, brilhava azul p\u00e1lido. Fraco, mas constante. Quente ao toque.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou ao redor do galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 destruindo maquetes com raiva de crian\u00e7a. Deco montando casinha no canto com l\u00edngua pra fora. Beag\u00e1 anotando tudo no caderninho.<\/p>\n\n\n\n<p>Fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 n\u00e3o mentia. Nunca mentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>De alguma forma \u2014 portal, falha temporal, magia que ele n\u00e3o entendia \u2014 Jota tinha encontrado o caminho de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Pra quando ainda eram crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Pra quando tudo ainda era poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou a mochila devagar. O \u00edm\u00e3 continuou brilhando l\u00e1 dentro, batida azul constante. Pegou o caderno, e na hora tr\u00eas crian\u00e7as vieram correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 TIO, D\u00c1 UMA FOLHA!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota arrancou cinco p\u00e1ginas. As crian\u00e7as pegaram, sa\u00edram correndo, e trinta segundos depois cinco avi\u00f5ezinhos de papel voavam pelo galp\u00e3o, planando, caindo, sendo reconstru\u00eddos e lan\u00e7ados de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das crian\u00e7as perguntou aos berros:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 TEM FOGO?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota meteu a m\u00e3o na mochila de novo, achou o isqueiro amarelo no fundo, mostrou. A crian\u00e7a olhou, olhos arregalados, mas Jota guardou de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o vamos queimar nada hoje \u2014 disse, sorrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a deu de ombros e saiu correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou a mochila. Guardou o caderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha apareceu na frente dele, ofegante, glitter no cabelo, bigodinho de guid\u00e3o j\u00e1 meio borrado de suor, e perguntou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tio, tu vai embora?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou ao redor.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o. As crian\u00e7as. O caos lindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mini-Geraldo observando ele de longe, r\u00e9gua ainda na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand apareceu por dois segundos consertando uma torre ao fundo, e sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Capit\u00e3o Cueca reapareceu vestido de astronauta (capacete de balde), declarou aos berros &#8220;EU SOU O COMANDANTE BALDE ESPACIAL&#8221;, e desapareceu atr\u00e1s de uma pilha de pneus.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco terminou a casinha de palito de picol\u00e9 e levantou pra mostrar. Perfeita. Intacta. A \u00fanica coisa no galp\u00e3o inteiro que n\u00e3o tinha sido destru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 anotou: &#8220;Deco, arquiteto. \u00danica estrutura sobrevivente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 derrubou uma \u00faltima torre s\u00f3 porque sim.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o \u2014 respondeu pra Rosquinha. \u2014 N\u00e3o vou embora ainda n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha sorriu, rebolou, e voltou pro glitter.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o tempo passou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tinha como n\u00e3o passar.<\/p>\n\n\n\n<p>A luz que entrava pelos buracos do teto mudou de branca pra alaranjada. Depois pra vermelha. Depois sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as come\u00e7aram a sair, uma por uma, acenando, sorrindo, sujas de cola e poeira e felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha saiu rebolando, jogando beijo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 saiu chutando uma lata.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 saiu com o caderninho embaixo do bra\u00e7o, ainda anotando algo mesmo andando, esbarrando na porta sem tirar os olhos da p\u00e1gina.<\/p>\n\n\n\n<p>Capit\u00e3o Cueca saiu vestido de pirata (tapa-olho de papel\u00e3o), acenou, e sumiu na noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Deco levou a casinha de palito de picol\u00e9 com cuidado, protegendo como tesouro.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand nunca saiu. Jota olhou, procurou, mas o garoto tinha desaparecido antes mesmo das outras crian\u00e7as irem embora.<\/p>\n\n\n\n<p>Mini-Geraldo foi o \u00faltimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou na porta, virou, olhou pra Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Acenou devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acenou de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quis gritar. Quis dizer &#8220;vai dar certo&#8221;. Quis avisar sobre Daslu, sobre dor, sobre noites sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o disse nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque sabia: se mudasse alguma coisa, talvez n\u00e3o chegasse ali. Naquele galp\u00e3o. Naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o queria arriscar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mini-Geraldo saiu, r\u00e9gua-espada ainda na m\u00e3o, sumindo na escurid\u00e3o da Pedreira do Orleans.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o estava em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Maquetes destru\u00eddas espalhadas por todo lado, papel higi\u00eanico cobrindo o ch\u00e3o, glitter brilhando na pouca luz que sobrava, drag\u00e3o de papel\u00e3o morto no centro como monumento ao caos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou a mochila laranja do ch\u00e3o \u2014 amassada, suja, cheia de cola seca \u2014 e colocou nas costas. Pegou um peda\u00e7o pequeno de papel\u00e3o. Parte da asa do drag\u00e3o. Guardou no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhou at\u00e9 a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava parado onde tinha deixado \u2014 ou ser\u00e1 que sempre esteve? \u2014 coberto de poeira vermelha da pedreira, porta do motorista ainda entreaberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voltou pro carro, a mochila nas costas pesava diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 tinha apagado. Frio de novo. Cinza fosco. Sem brilho.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia tinha voltado. Pro tempo certo. Pra idade certa.<\/p>\n\n\n\n<p>O portal \u2014 ou o que quer que fosse \u2014 tinha fechado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pro galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Vazio. Concreto rachado. Maquetes velhas. Poeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o peda\u00e7o de papel\u00e3o no bolso estava quente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota passou a m\u00e3o no cap\u00f4 do Gol. Frio. O carro estava ali fazia horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou dias?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o importava.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou no ch\u00e3o de terra ao lado do carro, encostou as costas na roda dianteira, tirou o peda\u00e7o de papel\u00e3o do bolso. Asa de drag\u00e3o. Tinta vermelha descascando.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>O avi\u00e3o \u2014 se \u00e9 que algum dia existiu avi\u00e3o \u2014 tinha decolado sem ele. Ou nunca ia decolar. Ou nunca existiu. Jota n\u00e3o lembrava mais de passaporte, de voo marcado, de destino.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 lembrava do galp\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Das crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Do Mini-Geraldo segurando a r\u00e9gua-espada com as duas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Da pergunta: &#8220;Quando eu crescer, eu posso continuar destruindo maquetes?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E da resposta: &#8220;Pode. E vai ser o melhor emprego do mundo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou ali sentado na poeira vermelha da Pedreira do Orleans, t\u00eanis surrado com cadar\u00e7o solto, camiseta regata vinho grudada nas costas, peda\u00e7o de drag\u00e3o de papel\u00e3o na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorrindo sozinho na escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Viagem no tempo? Sonho compartilhado? Realidade que dobrou sobre si mesma?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o importava.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque tinha encontrado o lugar onde destruir o mundo era a mesma coisa que construir ele de novo. Do jeito que a gente quiser.<\/p>\n\n\n\n<p>E tinha dado permiss\u00e3o pra si mesmo continuar brincando.<\/p>\n\n\n\n<p>Anos depois. Muitos anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda valia.<\/p>\n\n\n\n<p>E se um dia ele esquecer os detalhes \u2014 os nomes, os rostos, as maquetes \u2014 ia ficar s\u00f3 isso:<\/p>\n\n\n\n<p>Um tio gordo correndo atr\u00e1s de drag\u00e3o de mentira com tampa de panela na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E um gordinho, dente faltando, segurando r\u00e9gua-espada, perguntando se ainda podia brincar quando crescesse.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta sempre ia ser sim.<\/p>\n\n\n\n<p>O melhor voo da vida de Jota nunca saiu do ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele n\u00e3o queria de outro jeito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava parado na frente do galp\u00e3o abandonado da Pedreira do Orleans, coberto de poeira vermelha da pedreira, porta do motorista entreaberta. Jota olhou pro carro e franziu a testa. N\u00e3o lembrava de ter dirigido at\u00e9 ali. 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