{"id":915,"date":"2026-01-31T00:15:00","date_gmt":"2026-01-31T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=915"},"modified":"2026-03-04T18:26:38","modified_gmt":"2026-03-04T21:26:38","slug":"eu-fico","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/eu-fico\/","title":{"rendered":"Eu Fico"},"content":{"rendered":"\n<p>A garoa fina de Curitiba escorria pelo para-brisa do Gol Bolinha Cinza Urban 2003, estacionado torto na cal\u00e7ada da rua. O motor ainda tiquetaqueava, esfriando o etanol, enquanto Jota, 110 kg de camiseta regata vinho rasgada e suor frio, descia com a mochila laranja pendurada num ombro s\u00f3. O cadar\u00e7o do t\u00eanis esquerdo, \u00f3bvio, j\u00e1 estava solto, arrastando no asfalto gelado como se soubesse que ia precisar salvar ele mais tarde.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 desceu do carona bufando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, t\u00e1 frio pra caralho, fecha esse vidro \u2014 resmungou, batendo a porta com for\u00e7a demais. O alarme Positron apitou tr\u00eas vezes, ecoando no quarteir\u00e3o inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota s\u00f3 riu, baixo, porque j\u00e1 tinha tomado meia bala laranja no caminho. O gosto ainda queimava a garganta.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa era a de sempre: dois andares, garagem aberta, luz amarelada escapando pelas frestas da persiana. Pertencia ao primo de um amigo de Beag\u00e1, mas ningu\u00e9m nunca lembrava o nome do primo. S\u00f3 sabiam que os pais dele eram evang\u00e9licos e desciam a escada de chinelo de vez em quando oferecendo suco de laranja. Era exatamente por isso que a gente marcava ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Entraram. Leandro Costa, o Bar\u00e3o Vermelho, j\u00e1 estava largado no sof\u00e1 de veludo cotel\u00ea marrom, pernas abertas, celular na m\u00e3o. Beag\u00e1 mexia no som, m\u00e3os tremendo. Era a primeira vez dele. Jota sabia. Mas ningu\u00e9m ia falar nada. Rosquinha, de short jeans rasgado e regata cavada, dan\u00e7ava sozinho no canto, tentando n\u00e3o pensar no pai que tinha expulsado ele de casa tr\u00eas dias atr\u00e1s. A bala laranja ajudava a esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Chegaram os reis do Cap\u00e3o \u2014 anunciou Rosquinha, abrindo os bra\u00e7os. \u2014 Trouxe a lista, Ch\u00f4?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota jogou a mochila laranja no ch\u00e3o. Ela caiu de lado, abriu sozinha, e o caderno de capa dura marrom rolou at\u00e9 parar perto do p\u00e9 da mesa de centro. Abriu com o p\u00e9. P\u00e1gina em branco, caneta bic azul caindo do el\u00e1stico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Lista de qu\u00ea? \u2014 perguntou, j\u00e1 sabendo que ningu\u00e9m ia responder direito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 De quem vai pro c\u00e9u e quem vai pro inferno, \u00f3bvio \u2014 disse Beag\u00e1, rindo nervoso. \u2014 Hoje a gente cadastra.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesa de centro: montinhos de p\u00f3 branco tortos, cartelas de comprimidos prateados, um prato com umas dez balas laranja brilhando como pirulitos do capeta. Caveirinha estampada em relevo. Na TV de tubo, Star Wars Epis\u00f3dio IV, volume alto demais. Era o disfarce oficial: se os velhos descessem, a gente fingia que tava maratonando.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 sentou no ch\u00e3o, costas na parede, olhando tudo com cara de quem j\u00e1 quer ir embora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos fazer isso r\u00e1pido \u2014 ele murmurou. \u2014 Eu dirijo depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu. Pegou uma bala laranja com dois dedos, como quem pega h\u00f3stia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Relaxa, irm\u00e3o. Hoje eu fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocou na l\u00edngua. Derreteu r\u00e1pido. Gosto de metal quente, ver\u00e3o queimado, promessa de merda. Engoliu seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha j\u00e1 estava na segunda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Essa aqui bate diferente, Ch\u00f4. \u00c9 de laranja mesmo ou \u00e9 s\u00f3 marketing do capeta?<\/p>\n\n\n\n<p>Bar\u00e3o Vermelho esticou a identidade na mesa, sorrindo. Engra\u00e7ado: vendia o dia inteiro, nunca tinha provado. At\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Come\u00e7a por mim. Nome completo, RG, tudo. Quero entrar na lista VIP.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu o caderno. A caneta falhou duas vezes. Riscou o nome dele torto. A letra saiu grande, tremida, como se j\u00e1 soubesse que aquilo ali n\u00e3o ia prestar pra porra nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira apareceu na porta da cozinha, de macac\u00e3o azul sujo de graxa, segurando uma chave de fenda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tem movimento l\u00e1 em cima \u2014 falou, seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 virou a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que tipo de movimento?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Rand j\u00e1 tinha sumido. Ningu\u00e9m perguntou pra onde. Rand era assim: aparecia, soltava meia informa\u00e7\u00e3o, evaporava.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 cutucou Jota com o p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 ouvindo? Vamos embora logo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota s\u00f3 sorriu, os dentes j\u00e1 come\u00e7ando a ranger de leve. Pegou outra bala. A segunda desceu mais f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 fora, a garoa engrossava. O cadar\u00e7o do t\u00eanis esquerdo arrastava no ch\u00e3o, cada vez mais solto, como se soubesse que a noite ainda ia precisar dele.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00f3 branco parecia neve suja. Jota tentava separar carreiras com um cart\u00e3o de cr\u00e9dito velho, mas a m\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o obedecia. O cart\u00e3o escorregava, o p\u00f3 espalhava. Ele ria sozinho, baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, para de brincar e separa logo essa porra \u2014 disse Beag\u00e1, nervoso, olhando pra escada toda hora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 separando, t\u00e1 separando \u2014 respondeu, espalhando mais ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha caiu sentado do lado dele, olhos vidrados na TV.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha o Darth Vader, Ch\u00f4\u2026 parece o teu pai quando tu chegava destru\u00eddo em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu junto. A bala laranja n\u00e3o liga pra detalhes.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 levantou do ch\u00e3o, puto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00eas s\u00e3o uns idiotas. Eu vou embora. Quem vem comigo fica vivo hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele j\u00e1 estava com o celular na m\u00e3o, dedo no aplicativo do Uber. A tela iluminava o rosto dele de azul frio.<\/p>\n\n\n\n<p>Bar\u00e3o pegou mais uma bala, colocou na boca como se fosse chiclete.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Relaxa, Pop\u00f3. Aqui \u00e9 \u00e1rea nobre. Ningu\u00e9m chama pol\u00edcia no Cap\u00e3o da Imbuia.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a\u00ed que Jota viu. Pela fresta da persiana, dois olhos. Depois quatro. Depois um rosto inteiro colado no vidro. Vizinho de pijama, cabelo de dormir, olhando direto pra mesa. Outro apareceu do lado. Uma senhora de robe, celular na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deveria ter sentido medo. Deveria ter escondido tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez disso, o riso veio. Come\u00e7ou no peito, subiu engasgando, explodiu alto, incontrol\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, cala a boca, caralho! \u2014 Pop\u00f3 tentou tampar a boca dele com a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota empurrou ele, ainda rindo, l\u00e1grimas escorrendo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 tudo bem\u2026 t\u00e1 tudo bem\u2026 \u2014 conseguiu falar entre os espasmos. \u2014 Eles s\u00f3 querem entrar na lista tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>O cart\u00e3o escorregou da m\u00e3o dele, voou, bateu no ch\u00e3o. O p\u00f3 virou nuvem branca no ar. Rosquinha riu junto, agudo, hist\u00e9rico. Beag\u00e1 tentou cobrir a mesa com uma almofada. Bar\u00e3o s\u00f3 olhava, boquiaberto, a bala derretendo entre os dentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 pegou Jota pelo bra\u00e7o, forte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Levanta, Jota. Agora. Pensa no pai. Pensa na m\u00e3e. Pensa no Deco, porra.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ele falou &#8220;pai&#8221;, alguma coisa mexeu no bolso da cal\u00e7a de Jota. O \u00edm\u00e3 de geladeira do Posto Esso \u2014 que tinha arrancado do caderno antes de sair de casa, vai saber por qu\u00ea \u2014 aqueceu de repente. Peso estranho contra a coxa, quente demais pra ser real.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu fico \u2014 falou Jota, ainda rindo, mas agora com a voz molhada. \u2014 Eu sempre fico, irm\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 soltou ele. Olhou pra Jota como quem olha um carro que j\u00e1 decidiu bater.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o fica e se fode.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele virou as costas, abriu a porta da frente. A garoa entrou junto com o vento frio. O Uber j\u00e1 estava parado na cal\u00e7ada, pisca-alerta ligado.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira apareceu de novo, do nada, na porta do corredor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 L\u00e1 fora \u2014 disse, apenas isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 virou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O qu\u00ea que tem l\u00e1 fora?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Rand j\u00e1 tinha evaporado mais uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ainda tentava separar o p\u00f3. A m\u00e3o tremia tanto que o cart\u00e3o parecia vivo. O cadar\u00e7o do t\u00eanis esquerdo \u2014 o m\u00edstico \u2014 desamarrou de vez. Jota tropecou pra frente, quase caiu de cara na mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi exatamente a\u00ed que o cadar\u00e7o salvou a vida dele.<\/p>\n\n\n\n<p>O trope\u00e3o jogou ele de joelhos. O cadar\u00e7o solto enrolou no p\u00e9 da mesa de centro, segurou ele exatamente quando ia cair com a cara no prato de balas laranja. Se ca\u00edsse, teria engolido meia d\u00fazia de uma vez e provavelmente apagado ali mesmo. Em vez disso, ficou ajoelhado, rindo mais ainda, o rosto a dez cent\u00edmetros do p\u00f3, l\u00e1grimas pingando na madeira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha o Jota rezando pro santo do bagulho! \u2014 gritou Rosquinha, agora deitado de costas no sof\u00e1, pernas pro alto, batendo palma.<\/p>\n\n\n\n<p>Beag\u00e1 j\u00e1 estava enfiando o resto das cartelas no bolso da cal\u00e7a jeans, suando frio. Bar\u00e3o tentava fechar a persiana com uma m\u00e3o s\u00f3, mas o cord\u00e3o enganchou e a cortina abriu mais ainda. A rua inteira agora assistia ao vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado de fora, luzes vermelhas e azuis come\u00e7aram a dan\u00e7ar na garoa. Duas viaturas, devagarinho, como se soubessem que ningu\u00e9m ali ia correr. O som da sirene ainda estava desligado, s\u00f3 o girosc\u00f3pio cortando o sil\u00eancio do bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 parou na porta, uma m\u00e3o na ma\u00e7aneta, olhando pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00daltima chance, Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou a cabe\u00e7a. O \u00edm\u00e3 no bolso queimava agora, pesado e quente contra a perna. Pegou o isqueiro amarelo \u2014 aquele que sobreviveu a enchente, inc\u00eandio e at\u00e9 uma lavagem na m\u00e1quina \u2014 e tentou acender s\u00f3 pra ver a chama. Clique. Clique. Na terceira vez acendeu forte, uma labareda azul quase meio metro. Iluminou o rosto barbado dele, suado, os olhos injetados e o sorriso de quem j\u00e1 perdeu tudo e ainda t\u00e1 ganhando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu fico \u2014 repetiu Jota, agora quase sussurrando, mas com uma certeza que fez o pr\u00f3prio Pop\u00f3 hesitar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, entrou no Uber e bateu a porta. O carro deu r\u00e9, far\u00f3is iluminando a casa inteira por um segundo. Jota viu o rosto do irm\u00e3o pela janela traseira: puto, triste, aliviado, tudo ao mesmo tempo. Depois sumiu na esquina.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro da sala, o tempo desacelerou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha ainda ria, mas agora era um riso nervoso, quase choro. Beag\u00e1 e Bar\u00e3o j\u00e1 estavam na cozinha, procurando a porta dos fundos que ningu\u00e9m sabia se existia. Jota continuou ajoelhado, o cadar\u00e7o enrolado no p\u00e9 da mesa como \u00e2ncora, o isqueiro na m\u00e3o esquerda, o caderno marrom aberto na frente dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou a caneta bic. Escreveu, com letra grande e torta, na \u00faltima p\u00e1gina em branco:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Jota \u2013 fica.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou o caderno. Guardou no bolso de tr\u00e1s, junto com o \u00edm\u00e3 que ainda queimava contra a pele.<\/p>\n\n\n\n<p>Passos na varanda. Tr\u00eas toques fortes na porta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pol\u00edcia! Abre a\u00ed!<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu uma \u00faltima vez, baixo, quase carinhoso, como quem ri de uma piada muito antiga que s\u00f3 ele entende.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta abriu antes mesmo dele levantar. Dois policiais entraram com lanternas fortes \u2014 tinham visto tudo pela janela antes de bater. Feixes cortando a fuma\u00e7a doce que ainda pairava no ar. O cheiro de bala laranja queimada, etanol velho e medo misturado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 M\u00e3os na cabe\u00e7a! No ch\u00e3o, todo mundo!<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha ainda tentava se levantar do sof\u00e1, rindo e chorando ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Boa noite, seus lindos\u2026 quer um suquinho?<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos PMs empurrou ele de volta com o coturno. Beag\u00e1 e Bar\u00e3o j\u00e1 estavam de cara no ch\u00e3o na cozinha, bra\u00e7os abertos, sem resist\u00eancia. Jota continuou ajoelhado, o cadar\u00e7o do t\u00eanis ainda enrolado na mesa como se fosse coleira.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial mais velho, bigode grisalho, abaixou a lanterna na cara dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Levanta devagar, gord\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou. Devagar mesmo. 1,83 m, 110 kg, camiseta regata vinho colada no corpo, suor e p\u00f3 laranja grudado no peito. O isqueiro amarelo ainda quente na m\u00e3o direita. O caderno marrom saindo meio bolso de tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial viu a mesa. Viu o prato com as balas que sobraram. Viu o p\u00f3 espalhado como neve de Natal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso tudo \u00e9 teu?<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sorriu. Um sorriso largo, tranquilo, quase educado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 da casa, seu guarda. Eu s\u00f3 vim cadastrar o pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro PM j\u00e1 virava ele de costas, algema fria mordendo os pulsos. O \u00edm\u00e3 de geladeira escorregou do bolso, caiu no ch\u00e3o com um toc seco. O policial mais novo pegou com a bota, olhou o logo apagado do Posto Esso, as bordas descascando, e jogou de volta no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Traste velho \u2014 murmurou.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando puxaram ele pra fora, o cadar\u00e7o solto do t\u00eanis finalmente se soltou de vez da mesa. Jota trope\u00e7ou no degrau da varanda, quase caiu de cara no cap\u00f4 da viatura. O mesmo policial segurou ele pelo bra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cuidado, chefe. Vai machucar esse sorriso bonito.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu. Riu alto, rouco, com a garganta queimando bala laranja. A garoa ca\u00eda fina no rosto dele, lavando o suor, o p\u00f3, as l\u00e1grimas que ele nem sabia que estavam l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Na rua, alguns vizinhos ainda filmavam com o celular. Luzes dos postes tremiam na \u00e1gua. O Gol Bolinha estava l\u00e1, quieto, vidro emba\u00e7ado, banco do motorista afundado com o formato exato do corpo dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Levaram Rosquinha primeiro, ainda cantando a trilha de Star Wars. Depois Beag\u00e1 e Bar\u00e3o, cabe\u00e7a baixa. Jota foi o \u00faltimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de entrar na viatura, olhou pra casa. A TV ainda ligada, sabre de luz azul e vermelho piscando na parede vazia. O caderno marrom ficou l\u00e1 dentro, aberto na p\u00e1gina onde ele tinha escrito &#8220;Jota \u2013 fica&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou de rir.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 por um segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou no Pop\u00f3 no Uber. No Deco em casa. No pai que ia receber liga\u00e7\u00e3o da delegacia.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou em tudo que tinha escolhido deixar pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o o riso voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque era tarde demais pra mudar de ideia.<\/p>\n\n\n\n<p>O policial empurrou a cabe\u00e7a dele pra dentro do carro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00daltima chance de falar alguma coisa inteligente, gordo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo o cheiro de borracha quente e desinfetante da viatura.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu fico \u2014 falou, baixo, quase carinhoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele bateu a porta.<\/p>\n\n\n\n<p>As luzes giraram. A sirene finalmente ligou, rasgando a noite fria do Cap\u00e3o da Imbuia.<\/p>\n\n\n\n<p>E Jota ainda estava rindo quando o carro virou a esquina e levou embora o rei que escolheu o pr\u00f3prio inferno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A garoa fina de Curitiba escorria pelo para-brisa do Gol Bolinha Cinza Urban 2003, estacionado torto na cal\u00e7ada da rua. O motor ainda tiquetaqueava, esfriando o etanol, enquanto Jota, 110 kg de camiseta regata vinho rasgada e suor frio, descia com a mochila laranja pendurada num ombro s\u00f3. O cadar\u00e7o do t\u00eanis esquerdo, \u00f3bvio, j\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1716,"menu_order":31,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"livro":[18],"personagem":[1311,235,223,222,27,228,224,242,256,276,81,217,277],"genero":[589,1312],"tom":[1313,41],"timeline":[57],"versao_jota":[49],"categoria_cap":[1314,1315],"item_essencial":[33,31,36,37,34,32,35],"tema":[1317,1316,1318],"local":[664,1319,1321,1320,445],"keyword":[1327,1322,1328,1326,1280,1323,1325,1324],"class_list":["post-915","capitulo","type-capitulo","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","livro-dias-apos-um-fim","personagem-barao-vermelho","personagem-beaga","personagem-deco","personagem-dona-tude","personagem-gpjota","personagem-leandro-costa","personagem-pai","personagem-policia","personagem-popo","personagem-primo","personagem-rand-oliveira","personagem-rosquinha-dende","personagem-vizinho","genero-drama","genero-realismo-contemporaneo","tom-autodestrutivo","tom-tenso","timeline-curitiba","versao_jota-normal","categoria_cap-drogas","categoria_cap-queda-pessoal","item_essencial-caderno-marrom-de-capa-dura","item_essencial-camiseta-regata-vinho","item_essencial-gol-bolinha-cinza-urban-2003","item_essencial-ima-posto-esso","item_essencial-isqueiro-amarelo-o-sobrevivente","item_essencial-mochila-laranja","item_essencial-tenis-surrado","tema-autodestruicao","tema-escolhas-irreversiveis","tema-lealdade-distorcida","local-capao-da-imbuia","local-casa-de-dois-andares","local-delegacia","local-garagem-aberta","local-rua","keyword-autodestruicao","keyword-bala-laranja","keyword-barao-vermelho","keyword-cadarco-salvador","keyword-capao-da-imbuia","keyword-drogas","keyword-escolha-fatal","keyword-prisao"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo\/915","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo"}],"about":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulo"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=915"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1716"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=915"}],"wp:term":[{"taxonomy":"livro","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/livro?post=915"},{"taxonomy":"personagem","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/personagem?post=915"},{"taxonomy":"genero","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/genero?post=915"},{"taxonomy":"tom","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tom?post=915"},{"taxonomy":"timeline","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/timeline?post=915"},{"taxonomy":"versao_jota","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/versao_jota?post=915"},{"taxonomy":"categoria_cap","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_cap?post=915"},{"taxonomy":"item_essencial","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/item_essencial?post=915"},{"taxonomy":"tema","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tema?post=915"},{"taxonomy":"local","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/local?post=915"},{"taxonomy":"keyword","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/keyword?post=915"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}