{"id":930,"date":"2026-02-01T00:15:00","date_gmt":"2026-02-01T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=930"},"modified":"2026-03-04T18:35:29","modified_gmt":"2026-03-04T21:35:29","slug":"mascara-no-nacoes","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/mascara-no-nacoes\/","title":{"rendered":"M\u00e1scara no Na\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 subia devagar pela Marechal Deodoro. O motor a etanol roncava baixo, for\u00e7ando nas marchas, Jota segurando o volante com as duas m\u00e3os. Sem dire\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica, cada curva exigia esfor\u00e7o. A camiseta regata vinho grudava no corpo, suor escorrendo pelas costas mesmo com as janelas abertas. A noite estava pesada. O ar tinha peso.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai estava no banco do carona, bra\u00e7os cruzados, olhando pela janela sem falar muito. Sil\u00eancio confort\u00e1vel entre eles. No painel, o \u00edm\u00e3 do Posto Esso brilhava fraco, azul p\u00e1lido, zumbindo baixinho. Conex\u00e3o. Sangue. Pai e filho no mesmo carro, na mesma noite.<\/p>\n\n\n\n<p>No banco de tr\u00e1s, jogada de lado, a mochila laranja. Z\u00edper meio aberto, deixando aparecer a borda do caderno de capa dura marrom. No bolso da cal\u00e7a jeans de Jota, o isqueiro amarelo batia de leve a cada solavanco. Sobrevivente de todas as noites. Os t\u00eanis surrados nos p\u00e9s, cadar\u00e7o direito solto como sempre, ded\u00e3o esquerdo aparecendo pelo buraco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Hospital das Na\u00e7\u00f5es, n\u00e9? \u2014 o pai perguntou, voz rouca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9. M\u00e3e pediu pra buscar uns exames.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 fechado a essa hora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pronto-socorro t\u00e1 aberto. Eles entregam.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai n\u00e3o respondeu. Apenas acenou com a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota virou \u00e0 esquerda na altura do Viaduto do Alto da XV, logo Victor Ferreira do Amaral e a entrada do hospital. A Victor estava vazia, postes acesos, luzes amarelas tremendo como se n\u00e3o conseguissem sustentar o peso da escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando viram o carro preto.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava do outro lado, no acesso a Nossa Senhora da Luz pela Victor. Motor ligado, far\u00f3is acesos, em \u00e2ngulo estranho. Como se tivesse tentado subir e desistido no meio do caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota j\u00e1 estava no estacionamento do hospital e parecia que n\u00e3o tinha ningu\u00e9m dentro. Pelo menos n\u00e3o dava pra ver.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que estranho ele n\u00e3o conseguir subir \u2014 o pai comentou.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar estava ainda mais pesado ali fora, como se algo j\u00e1 tivesse acontecido e ainda estivesse prestes a acontecer de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia uma presen\u00e7a. Jota sentia. Algu\u00e9m pr\u00f3ximo, mas que ele n\u00e3o conseguia enxergar direito. Virou a cabe\u00e7a. Nada. S\u00f3 sombras se movendo entre os postes. Mas a sensa\u00e7\u00e3o permanecia. Presen\u00e7a t\u00e9cnica. Fantasma sempre por perto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou entrar buscar \u2014 Jota disse, pegando a mochila laranja no banco de tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu espero aqui \u2014 o pai respondeu, encostando no cap\u00f4 do Gol.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu tr\u00eas passos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada do hospital.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando o som come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>O carro preto ligou. Motor acelerando forte. Pneus cantando no asfalto. Ele arrancou ladeira acima, ganhando velocidade, subindo, subindo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E derrapou.<\/p>\n\n\n\n<p>Perdeu tra\u00e7\u00e3o. Rodou pro lado. Bateu no meio-fio com estrondo seco de metal contra pedra. Parou. Sil\u00eancio por dois segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o, voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>O carro estava de novo na base da ladeira. Motor ligado. Far\u00f3is acesos. Como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou, olhou pro pai.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea viu isso?<\/p>\n\n\n\n<p>O pai estava tenso, olhos fixos no carro preto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vi.<\/p>\n\n\n\n<p>O carro acelerou de novo. Subiu. Derrapou. Bateu. Voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Subiu. Derrapou. Bateu. Voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Loop. Infinito. O mesmo carro. A mesma derrapada. O mesmo estalo de metal. Repetindo, repetindo, repetindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu um passo pra tr\u00e1s, instintivamente. A mochila laranja escorregou do ombro, caiu no ch\u00e3o. O caderno marrom escapou pela abertura, p\u00e1ginas se espalhando no asfalto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que porra \u00e9 essa? \u2014 Jota sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai n\u00e3o respondeu. Apenas olhava. Hipnotizado. Preso.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles tentaram se mover. Jota deu dois passos em dire\u00e7\u00e3o ao Gol. Mas era como se a ladeira os puxasse de volta. Como se o tempo estivesse preso no loop junto com o carro. Cada vez que o ve\u00edculo derrapava, eles voltavam pro mesmo ponto. Sem sair do lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>O carro subiu de novo. Derrapou. Bateu.<\/p>\n\n\n\n<p>E dessa vez, quando voltou pra base, havia algu\u00e9m ao lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem. Parado. Macac\u00e3o azul escuro. Olhando pro motor do carro preto como se estivesse consertando algo. Ele mexeu em algo embaixo do cap\u00f4. Algo clicou. O ar mudou. O tempo se soltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Fechou o cap\u00f4, limpou as m\u00e3os no macac\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O carro n\u00e3o acelerou mais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Era o Rand \u2014 o pai disse, voz baixa, quase inaud\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rand?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele tava ali. Consertando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou de novo. Nada. S\u00f3 o carro. Parado. Inerte.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele tinha visto tamb\u00e9m. Por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo. Rand Oliveira. Macac\u00e3o azul. Ferramentas invis\u00edveis. Fantasma t\u00e9cnico que aparece, resolve, evapora.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a que Jota sentia antes \u2014 Rand, sempre Rand \u2014 tinha materializado, consertado o imposs\u00edvel, e sumido de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O motor do carro preto desligou. Os far\u00f3is apagaram. Sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo. Finalmente. Acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum carro passava. Nenhuma janela acesa. S\u00f3 eles e a rua vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi quando ouviu os passos.<\/p>\n\n\n\n<p>Lentos. Pesados. Met\u00f3dicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Viraram a cabe\u00e7a ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele estava l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Passos lentos na cal\u00e7ada. Macac\u00e3o azul escuro \u2014 n\u00e3o, n\u00e3o era azul. Era outro macac\u00e3o. Mais largo. Mais sujo. M\u00e1scara branca cobrindo o rosto inteiro. Sem express\u00e3o. Sem olhos. Sem boca. S\u00f3 vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na m\u00e3o direita, um fac\u00e3o. Longo. Refletindo a luz fraca dos postes.<\/p>\n\n\n\n<p>Michael Myers.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele andava exatamente na dire\u00e7\u00e3o deles. Sem pressa. Como se soubesse que n\u00e3o havia escapat\u00f3ria. O terror n\u00e3o vinha da velocidade. Vinha da certeza.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Merda \u2014 Jota sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Abaixa \u2014 o pai disse, voz firme.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se agachou atr\u00e1s do muro baixo do hospital. Corpo inteiro tremendo. O pai ficou de p\u00e9 um segundo a mais, olhando fixo pra figura que se aproximava. Depois se abaixou tamb\u00e9m, r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a t\u00e9cnica que protegia \u2014 Rand \u2014 tinha sumido quando o verdadeiro terror apareceu. S\u00f3 restava Jota, o pai, e o medo.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem da m\u00e1scara continuou andando. Dez metros. Nove. Oito.<\/p>\n\n\n\n<p>Parou.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclinou a cabe\u00e7a devagar. Como quem ouve algo que ningu\u00e9m mais ouve. A m\u00e1scara branca refletia a luz amarela dos postes, criando sombras que pareciam se mover sozinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou s\u00f3 os olhos por cima do muro. Cora\u00e7\u00e3o batendo t\u00e3o alto que parecia capaz de denunciar a posi\u00e7\u00e3o. O cadar\u00e7o direito do t\u00eanis estava solto, arrastando no ch\u00e3o. Ele segurou a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem ainda olhava fixo pro lugar onde estavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s dele, o carro preto permanecia morto. Sem loop. Sem movimento. O tempo flu\u00eda normal de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas agora havia trilha sonora.<\/p>\n\n\n\n<p>Respira\u00e7\u00e3o pesada. Vinda de dentro da m\u00e1scara. Cada puxada de ar era abafada, for\u00e7ada, como se o pr\u00f3prio tempo respirasse junto com o homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o subia. N\u00e3o descia. N\u00e3o gritava. S\u00f3 ficava agachado, m\u00e3o tremendo, suor escorrendo pela testa. O isqueiro amarelo no bolso pesava como \u00e2ncora. Ele apertou os dedos ao redor dele, sentindo o pl\u00e1stico derretido, a textura familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai ao lado respirava r\u00e1pido, mas n\u00e3o falava. Sil\u00eancio era pacto. Nenhum deles ousava quebrar o momento.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem deu mais um passo. Sete metros.<\/p>\n\n\n\n<p>O isqueiro no bolso de Jota esquentou. De repente. Como se tivesse acendido sozinho. Jota sentiu o calor atrav\u00e9s do tecido da cal\u00e7a, queimando de leve.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro pai. O \u00edm\u00e3 no painel do Gol, vis\u00edvel atrav\u00e9s do vidro, brilhava mais forte. Azul p\u00e1lido virando azul el\u00e9trico. Zumbido agudo.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem deu mais um passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tirou o isqueiro do bolso. M\u00e3o tremendo. O metal estava quente. Quente demais. Mas a chama n\u00e3o estava acesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele apertou.<\/p>\n\n\n\n<p>A chama subiu. Dourada. Firme. Iluminando o espa\u00e7o ao redor num raio de dois metros.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem parou.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclinou a cabe\u00e7a de novo. Olhando diretamente pra luz.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ergueu o isqueiro devagar, tremendo, iluminando a figura \u00e0 dist\u00e2ncia. A luz dourada cortou a escurid\u00e3o, revelou detalhes que antes estavam ocultos.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e1scara n\u00e3o era lisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha algo pintado. Algo customizado. Linhas vermelhas nas laterais. S\u00edmbolo estranho na testa. N\u00e3o era a m\u00e1scara do filme. Era outra coisa. Era&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota estreitou os olhos. A luz do isqueiro tremeu, mas ele manteve firme.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem deu mais um passo. Cinco metros.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o, parou de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou a m\u00e3o esquerda. Devagar. Tocou a borda da m\u00e1scara.<\/p>\n\n\n\n<p>E puxou pra cima.<\/p>\n\n\n\n<p>O rosto apareceu aos poucos. Cabelo suado grudado na testa. Olhos escuros. Sorriso torto.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro Costa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o ar sair dos pulm\u00f5es de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Leandro? \u2014 a voz saiu rouca, quase inaud\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro segurou a m\u00e1scara na m\u00e3o, olhando pra ela como se fosse trof\u00e9u. O fac\u00e3o na outra m\u00e3o refletia a luz do isqueiro. Ele inclinou a cabe\u00e7a \u2014 o mesmo gesto de antes, mas agora sem a m\u00e1scara, tinha outro significado.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro disse, voz calma:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Assustei?<\/p>\n\n\n\n<p>O pai de Jota se levantou devagar, olhos arregalados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Leandro, que porra \u00e9 essa?<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro riu. Baixo. Gutural.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele girou o fac\u00e3o na m\u00e3o. Pl\u00e1stico. Brinquedo de loja de fantasia. O macac\u00e3o estava sujo de tinta, n\u00e3o de sangue. A m\u00e1scara customizada tinha o s\u00edmbolo que Jota reconheceu: a marca do Leandro. Ele sempre customizava tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu t\u00e1 louco \u2014 Jota disse, ainda agachado, isqueiro tremendo na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Festa \u00e0 fantasia \u2014 Leandro respondeu, colocando a m\u00e1scara de volta. \u2014 Tava voltando. Vi voc\u00eas aqui. N\u00e3o resisti.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele deu mais um passo, mas dessa vez era s\u00f3 Leandro. N\u00e3o era Myers. N\u00e3o era terror. Era s\u00f3 o amigo filho da puta que sempre foi.<\/p>\n\n\n\n<p>O carro preto continuava parado na base da ladeira. Sem movimento. O loop tinha acabado antes de Leandro aparecer. Rand tinha consertado. Coisas diferentes. Terrores diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra tr\u00e1s. O Gol Bolinha estava parado, \u00edm\u00e3 no painel voltando a brilhar fraco, azul p\u00e1lido. Normal. O caderno marrom ainda estava no ch\u00e3o, p\u00e1ginas espalhadas. A mochila laranja ca\u00edda de lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando virou de novo, Leandro j\u00e1 estava andando pra tr\u00e1s, acenando com a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Boa noite. Boa noite, seu Geraldo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele virou a esquina. Desapareceu na escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota e o pai ficaram ali. Parados. Sozinhos. Processando.<\/p>\n\n\n\n<p>O carro preto continuava inerte na base da ladeira. Vazio. Sem Rand. Sem motorista. Sem loop.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que porra foi essa? \u2014 o pai perguntou, voz baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota guardou o isqueiro no bolso. Ainda estava quente. Sobrevivente de mais uma noite imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei \u2014 Jota respondeu, pegando a mochila laranja do ch\u00e3o. \u2014 Mas foi real.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai olhou pra ele, depois pro carro preto, depois pro lugar onde Leandro tinha desaparecido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Foi.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles entraram no hospital. Buscaram os exames. Voltaram pro Gol. Ligaram o motor. O \u00edm\u00e3 no painel zumbia baixinho, reconfortante. Conex\u00e3o. Sangue. Pai e filho ainda vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu r\u00e9, saiu da vaga. Ele e o pai olharam uma \u00faltima vez para o carro preto.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand estava l\u00e1. Parado ao lado do ve\u00edculo. Macac\u00e3o azul. Olhando pro motor como se nunca tivesse sa\u00eddo. Ele ergueu os olhos, encontrou o olhar de Jota pelo retrovisor.<\/p>\n\n\n\n<p>Acenou com a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota piscou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gol seguiu a Victor sem derrapar. Sem loop. Sem repeti\u00e7\u00e3o. O cadar\u00e7o direito do t\u00eanis de Jota estava solto, arrastando no pedal. Ele n\u00e3o amarrou. N\u00e3o precisava. A noite j\u00e1 tinha passado.<\/p>\n\n\n\n<p>O carro desapareceu na curva. As luzes do Hospital das Na\u00e7\u00f5es ficaram pra tr\u00e1s. A m\u00e1scara tinha nome. Leandro. Sempre o Leandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o medo que ele deixou n\u00e3o tinha fantasia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse era real.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 subia devagar pela Marechal Deodoro. O motor a etanol roncava baixo, for\u00e7ando nas marchas, Jota segurando o volante com as duas m\u00e3os. Sem dire\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica, cada curva exigia esfor\u00e7o. A camiseta regata vinho grudava no corpo, suor escorrendo pelas costas mesmo com as janelas abertas. A noite estava pesada. 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