{"id":948,"date":"2026-02-03T00:15:00","date_gmt":"2026-02-03T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=948"},"modified":"2026-03-04T20:07:49","modified_gmt":"2026-03-04T23:07:49","slug":"palpebra-cortada","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/palpebra-cortada\/","title":{"rendered":"P\u00e1lpebra Cortada"},"content":{"rendered":"\n<p>A mans\u00e3o de vidro se erguia na ilha como um cristal gigante jogado no meio do oceano. Paredes transparentes, teto de vidro refletindo o c\u00e9u, piscina infinita derramando \u00e1gua pro horizonte. O tipo de lugar que s\u00f3 existia em revista de luxo ou pesadelo de gente rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o tinha sido convidado.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas entraram mesmo assim.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Eles estavam no quarto de h\u00f3spedes do andar de cima, escondidos por enquanto, esperando a hora certa de descer. A mochila laranja de Jota estava jogada na cama king-size, aberta, caderno de capa dura marrom aparecendo por cima. O \u00edm\u00e3 cinza fosco do Posto Esso grudado na capa, beiradas descascando. O isqueiro amarelo &#8220;o sobrevivente&#8221; no bolso da cal\u00e7a. Camiseta regata vinho suada, t\u00eanis surrado com cadar\u00e7o direito solto.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha olhou pela janela, observando os convidados l\u00e1 embaixo. Virou pra Jota, sorrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ch\u00f4, olha essa gente \u2014 disse, rindo baixo. A m\u00e3o dele subiu automaticamente, ia tocar no rosto de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desviou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rosquinha. Para com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha riu, baixou a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desculpa, Ch\u00f4. \u00c9 autom\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea faz isso com todo mundo, eu sei \u2014 disse Jota, pegando a mochila. \u2014 Mas comigo voc\u00ea n\u00e3o para nunca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 porque os outros reclamam mais \u2014 disse Rosquinha, dando de ombros. \u2014 Voc\u00ea me aguenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota suspirou. Era verdade. Rosquinha tinha essa mania irritante de ficar pegando no rosto das pessoas. Todo mundo que conhecia ele sabia. Algumas pessoas toleravam, outras reclamavam na hora. Era parte de quem Rosquinha era. Invasivo. Sem no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o pessoal. Chato pra caralho.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas era o Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bora descer antes que percebam a gente \u2014 disse Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Desceram.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>A festa era exatamente o que parecia: luxo exagerado, conversas vazias, gente bonita fingindo ser interessante.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu era a anfitri\u00e3. Vestido branco longo, cabelo loiro platinado preso num coque perfeito, sorriso de quem tinha tudo e sabia disso. Ela circulava entre os convidados com a eleg\u00e2ncia de quem nasceu rica e nunca precisou fingir humildade.<\/p>\n\n\n\n<p>Satogos Cruel estava encostada numa coluna de vidro, vestido preto justo, olhos verdes frios observando todo mundo como se estivesse calculando algo. Little Boobs ria alto perto da piscina, cabelo ruivo balan\u00e7ando, decote chamando aten\u00e7\u00e3o de metade dos homens ali. Maju Kuzito fumava sozinha num canto, express\u00e3o entediada, como se j\u00e1 tivesse visto tudo aquilo mil vezes. Cavala dan\u00e7ava no centro da sala, corpo escultural se movendo devagar, provocando sem esfor\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha pegou uma ta\u00e7a de champagne de uma bandeja que passava. Nenhuma pra Jota. J\u00e1 sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota procurou refrigerante.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha levantou a ta\u00e7a dele sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sa\u00fade de qualquer forma, Ch\u00f4 \u2014 disse, sorrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Bebeu.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Rosquinha circulava pela festa, cumprimentando todo mundo do jeito dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou por Maju Kuzito, que fumava encostada na parede de vidro. A m\u00e3o dele subiu, como se fosse tirar algo do cabelo dela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ei, Maju \u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Ela se afastou, irritada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o encosta, Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele riu, levantou as m\u00e3os em rendi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desculpa, desculpa.<\/p>\n\n\n\n<p>E se afastou. Com ela, respeitou.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Perto da piscina, Rosquinha conversava com Cavala. A m\u00e3o dele passou pelo ombro dela, subiu at\u00e9 perto do pesco\u00e7o, gesto casual enquanto comentava algo sobre a m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela riu, nem pareceu notar.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas pessoas n\u00e3o ligavam.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Daslu estava perto do bar quando Rosquinha se aproximou. Tocou o rosto dela de leve, como quem aponta pra algo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem uma coisa aqui \u2014 disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu franziu a testa, passou a m\u00e3o no pr\u00f3prio rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o tem nada, Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah, saiu ent\u00e3o \u2014 ele sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu revirou os olhos e se afastou.<\/p>\n\n\n\n<p>Era o Rosquinha sendo Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>E no meio de tudo, consertando algo numa caixa de fus\u00edveis perto da cozinha, estava Rand Oliveira.<\/p>\n\n\n\n<p>Macac\u00e3o azul sujo de graxa, ferramentas espalhadas no ch\u00e3o. Ele trabalhava em sil\u00eancio, ignorando a festa ao redor, como sempre fazia. Aparecia, consertava, sumia. Fantasma t\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota acenou pra ele de longe. Rand olhou, deu um aceno m\u00ednimo de volta, voltou a trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha passou por ele, disse algo baixo que Jota n\u00e3o ouviu. Rand respondeu alguma coisa. Rosquinha riu. A m\u00e3o dele subiu, tocou o ombro de Rand rapidamente, depois o rosto, gesto r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand se afastou, incomodado, voltou a trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha se afastou tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota observou tudo de longe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse cara \u00e9 estranho pra caralho \u2014 disse Rosquinha, voltando pra perto de Jota. \u2014 Sempre some do nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ia responder quando sentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>A n\u00e9voa.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o era s\u00f3 um inc\u00f4modo. Uma leve turva\u00e7\u00e3o no canto do olho esquerdo, como se algo estivesse emba\u00e7ando a vis\u00e3o. Ele piscou. N\u00e3o sumiu. Piscou de novo. Piorou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha voltou pra perto dele, abra\u00e7ou de lado. O abra\u00e7o durou um segundo a mais que o normal. E quando soltou, a m\u00e3o dele passou r\u00e1pida pelo rosto de Jota, perto do olho esquerdo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem algo no olho \u2014 disse, ainda sorrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota suspirou. Rosquinha e aquela mania irritante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tenho? \u2014 Jota esfregou o olho, mais por reflexo que por acreditar. Nunca tinha nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Saiu \u2014 disse Rosquinha. \u2014 Tava incomodando?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nem percebi.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha deu tapinha no ombro dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Bora circular. Quanto mais a gente se mistura, menos v\u00e3o perceber que a gente n\u00e3o foi convidado.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Mas a n\u00e9voa crescia.<\/p>\n\n\n\n<p>Espalhava. Cobria o olho esquerdo inteiro como uma cortina fina, transl\u00facida, que deixava passar a luz mas borrava os detalhes. Quanto mais Jota tentava focar em algo, mais borrado ficava.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele olhou pra Daslu do outro lado da sala. O rosto dela era uma mancha branca e loira. Olhou pra Satogos Cruel. S\u00f3 um borr\u00e3o preto e verde. Olhou pra Rosquinha do lado dele. Conseguia ver o contorno, mas os tra\u00e7os sumiam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que merda \u2014 murmurou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 tudo bem, Ch\u00f4? \u2014 perguntou Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei \u2014 disse Jota, esfregando o olho. \u2014 T\u00f4 vendo meio emba\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deve ser cansa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o era.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Meia hora depois, Rand tinha sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Algu\u00e9m viu o Rand? \u2014 perguntou um dos convidados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah, ele sempre some \u2014 disse outro, dando de ombros. \u2014 Deve ter ido consertar outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Rand n\u00e3o voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma hora depois, acharam o corpo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Ele estava no por\u00e3o, onde ficavam os geradores e as m\u00e1quinas da mans\u00e3o. Deitado de lado, olhos abertos, express\u00e3o congelada de surpresa. N\u00e3o tinha marcas vis\u00edveis de viol\u00eancia, mas o corpo estava frio demais pra ter morrido h\u00e1 pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00e2nico foi imediato.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu gritou. Little Boobs chorou. Satogos Cruel pegou o celular, mas n\u00e3o tinha sinal. A ilha era longe demais. O barco s\u00f3 voltaria de manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Estavam presos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com um assassino.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Jota desceu at\u00e9 o por\u00e3o com Rosquinha. A n\u00e9voa no olho esquerdo agora cobria metade da vis\u00e3o. Ele se ajoelhou perto do corpo de Rand, tentou focar nos detalhes, mas tudo estava borrado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 V\u00ea alguma coisa, Ch\u00f4? \u2014 perguntou Rosquinha, agachado do lado dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o consigo ver direito \u2014 disse Jota, frustrado. \u2014 Tem algo errado no meu olho.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha franziu a testa, chegou mais perto, olhou o rosto de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Parece normal pra mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o era.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Jota voltou pro quarto de h\u00f3spedes, pegou o caderno marrom na mochila laranja, come\u00e7ou a anotar tudo que conseguia lembrar. O \u00edm\u00e3 do Posto Esso na capa do caderno estava quieto, sem brilhar, s\u00f3 ali, velho e descascado.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Rand morto. Por\u00e3o. Sem marcas. Corpo frio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quem estava perto dele antes de sumir?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Jota tentou lembrar. Viu flashes borrados de mem\u00f3ria: Daslu conversando com Rand perto da cozinha. Satogos Cruel passando pelo corredor onde ele trabalhava. Maju fumando na varanda, olhando pra baixo onde Rand consertava algo.<\/p>\n\n\n\n<p>E Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha tamb\u00e9m tinha falado com Rand mais cedo, perto dos fus\u00edveis. Tinha tocado ele. R\u00e1pido. Como sempre fazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas todos tinham estado perto de Rand em algum momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou o caderno, guardou de volta na mochila. Pegou o isqueiro amarelo no bolso, girou entre os dedos sem acender. O t\u00eanis surrado no p\u00e9 dele tinha o cadar\u00e7o direito solto, batendo no ch\u00e3o enquanto ele andava.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pra festa.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>As horas seguintes foram um borr\u00e3o literal.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tentava investigar, mas a n\u00e9voa no olho esquerdo piorava a cada tentativa. Quando olhava pra Daslu, via apenas um vulto loiro. Quando tentava ler uma mensagem no celular de algu\u00e9m, as letras dan\u00e7avam e sumiam. Quando focava em Rosquinha, o rosto do amigo se dissolvia em manchas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ch\u00f4, voc\u00ea t\u00e1 bem? \u2014 Rosquinha perguntava toda hora, preocupado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei \u2014 Jota respondia. \u2014 N\u00e3o consigo ver.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deixa eu te ajudar ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E Rosquinha ajudava. Perguntava pros convidados. Checava os quartos. Anotava coisas no lugar de Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nada fazia sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>As pistas estavam ali \u2014 Jota sabia disso. Bilhetes rasgados. Copos com restos de bebida. Conversas interrompidas. Olhares trocados. Mas ele n\u00e3o conseguia ENXERGAR.<\/p>\n\n\n\n<p>A frustra\u00e7\u00e3o crescia. A n\u00e9voa tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que Leandro Costa apareceu.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Ele entrou pela porta lateral da mans\u00e3o como se tivesse sido chamado, mas ningu\u00e9m tinha chamado. Terno branco impec\u00e1vel, cabelo penteado pra tr\u00e1s, sorriso discreto e confiante. Parecia sa\u00eddo de outro tempo, outro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quem \u00e9 voc\u00ea? \u2014 perguntou Daslu, ainda tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Podem me chamar de Benoit Blanc \u2014 disse ele, sotaque leve mas elegante.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu olhou desconfiada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como o detetive?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sou cirurgi\u00e3o \u2014 corrigiu, sorrindo. \u2014 N\u00e3o detetive. Mas vim pra ajudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra ele, mas s\u00f3 viu um borr\u00e3o branco.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro se aproximou, inclinou a cabe\u00e7a, estudou o rosto de Jota com aten\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Interessante \u2014 murmurou. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o consegue ver, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como voc\u00ea sabe?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque eu sei \u2014 disse Leandro, sorrindo de canto. \u2014 E sei como resolver tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>A sala de cirurgia improvisada ficava no andar de baixo, perto da adega. Leandro preparou tudo com calma: maca, luzes, instrumentos alinhados em bandejas de prata. O cheiro de \u00e1lcool cortava o ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deitou na maca. Rosquinha estava do lado dele, segurando a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai dar certo, Ch\u00f4 \u2014 disse, voz baixa. \u2014 Relaxa.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro se aproximou, bisturi na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 s\u00f3 um pedacinho da p\u00e1lpebra \u2014 explicou. \u2014 Tem algo colado ali. Algu\u00e9m colocou. N\u00e3o sei quem. N\u00e3o sei quando. Mas t\u00e1 impedindo voc\u00ea de ver. Vou tirar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai doer?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai \u2014 disse Leandro, honesto. \u2014 Mas vai passar.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O corte foi limpo.<\/p>\n\n\n\n<p>R\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Preciso.<\/p>\n\n\n\n<p>A dor veio em onda \u2014 afiada, queimando, atravessando o olho e explodindo atr\u00e1s da cabe\u00e7a. Jota apertou os dentes, segurou a m\u00e3o de Rosquinha com for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro puxou algo da p\u00e1lpebra.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era pele.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma lente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ultrafina. Transparente. Quase invis\u00edvel. Do tamanho de uma unha, mas perfeita, como se tivesse sido feita sob medida.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro a segurou contra a luz. Brilhou levemente. Virou ela entre os dedos, observou as bordas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 biodegrad\u00e1vel \u2014 disse, voz calma mas pesada. \u2014 Org\u00e2nica. Se dissolve sozinha em algumas semanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que significa que algu\u00e9m vinha aplicando isso em voc\u00ea. Repetidamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou parado, processando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Repetidamente \u2014 repetiu, voz falhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro assentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o sei h\u00e1 quanto tempo. Mas essa aqui \u2014 ele segurou a lente \u2014 estava te cegando. E quando ela come\u00e7ou a se degradar, causou a n\u00e9voa que voc\u00ea sentiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio pesado na sala.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha tocando seu rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Anos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00f3 com ele. Com todo mundo. Era parte de quem Rosquinha era. Invasivo. Sem no\u00e7\u00e3o. Todo mundo sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas com Jota&#8230; era mais frequente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tinha achado que era porque eram pr\u00f3ximos.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque Rosquinha se sentia mais \u00e0 vontade com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Era irritante. Mas fazia parte.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou assim ele pensava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Algu\u00e9m fazia isso com voc\u00ea de prop\u00f3sito \u2014 disse Leandro, voz suave. \u2014 Criava situa\u00e7\u00f5es pra tocar seu rosto. E aplicava isso. De novo. De novo. De novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota abriu os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o o mundo clareou.<\/p>\n\n\n\n<p>De repente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Ele piscou. A n\u00e9voa tinha sumido. Completamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Viu Leandro com clareza total: o rosto calmo, o sorriso discreto, os olhos inteligentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Viu a sala: cada instrumento, cada mancha no ch\u00e3o, cada sombra.<\/p>\n\n\n\n<p>Viu Rosquinha ao lado dele.<\/p>\n\n\n\n<p>E pela primeira vez em quanto tempo \u2014 anos? \u2014 viu TUDO.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou da maca devagar, ainda tonto, mas enxergando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos terminar isso \u2014 disse.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Jota voltou pro por\u00e3o onde Rand tinha sido encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez, viu.<\/p>\n\n\n\n<p>O copo largado no canto, ainda com res\u00edduos no fundo. Veneno. Ele se abaixou, cheirou. Am\u00eandoas amargas.<\/p>\n\n\n\n<p>A ferramenta ca\u00edda perto do corpo. Chave de fenda. Mas tinha sangue na ponta, seco, quase invis\u00edvel. Algu\u00e9m tinha usado ela pra algo antes.<\/p>\n\n\n\n<p>As pegadas saindo da cena do crime. T\u00eanis. Sola espec\u00edfica, desenho que ele conhecia.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o viu o celular de Rand, ca\u00eddo embaixo de uma prateleira.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou. Desbloqueou (senha \u00f3bvia: 1234).<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu as mensagens.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima era de um n\u00famero sem nome:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o devia ter visto isso. Desculpa.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Enviada duas horas antes da morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o est\u00f4mago afundar.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Subiu correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha estava na sala principal, conversando com Daslu, rindo de algo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou na porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Viu os t\u00eanis dele.<\/p>\n\n\n\n<p>A sola.<\/p>\n\n\n\n<p>O desenho.<\/p>\n\n\n\n<p>Igual \u00e0s pegadas no por\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pro copo que Rosquinha segurava na m\u00e3o. Vazio agora. Mas Jota lembrou: ele tinha servido uma bebida pra Rand mais cedo, perto dos fus\u00edveis. Tinha tocado ele. Como sempre fazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pros olhos de Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>E Rosquinha percebeu.<\/p>\n\n\n\n<p>O sorriso sumiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>A sala inteira parou.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Jota deu um passo \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Rosquinha \u2014 disse, voz baixa. \u2014 Foi voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Era certeza.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha n\u00e3o negou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o confirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 olhou.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Jota deu mais um passo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aquela mania tua \u2014 disse. \u2014 De ficar pegando no rosto das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha n\u00e3o se moveu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu achei que era s\u00f3 quem voc\u00ea era. Todo mundo acha. Voc\u00ea faz isso com todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o era igual, n\u00e9? \u2014 A voz de Jota tremeu. \u2014 Com os outros era s\u00f3&#8230; o qu\u00ea? Distra\u00e7\u00e3o? Disfarce?<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha olhou pro ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E comigo? \u2014 Jota sentiu a garganta apertar. \u2014 Comigo tinha lente.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Comigo sempre teve.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m na sala respirava.<\/p>\n\n\n\n<p>Daslu cobriu a boca com as m\u00e3os. Satogos Cruel deu um passo atr\u00e1s. Little Boobs come\u00e7ou a chorar baixinho. Maju Kuzito s\u00f3 observava, sem express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 H\u00e1 quantos anos, Rosquinha? \u2014 perguntou Jota. \u2014 Desde quando voc\u00ea me cegava enquanto fingia que era s\u00f3 teu jeito de ser?<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha n\u00e3o respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que mais eu n\u00e3o vi? \u2014 A voz de Jota quebrou. \u2014 O que mais voc\u00ea fez que eu n\u00e3o consegui enxergar?<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por qu\u00ea, Rosquinha? Por que voc\u00ea matou o Rand?<\/p>\n\n\n\n<p>Nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha balan\u00e7ou a cabe\u00e7a devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ia explicar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou n\u00e3o queria.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota n\u00e3o sabia qual.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Leandro apareceu na porta, m\u00e3os nos bolsos, assistindo em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acabou o jogo \u2014 disse, voz calma.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha olhou pra Jota uma \u00faltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o desabou.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o em l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o em confiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 desabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou no ch\u00e3o, costas contra a parede de vidro, olhando pro nada.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Jota ficou parado, olhando pro amigo que tinha matado Rand e n\u00e3o conseguia explicar por qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Pro amigo que tinha o cegado por anos e n\u00e3o conseguia explicar por qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade estava na frente dele agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Clara.<\/p>\n\n\n\n<p>Vis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele n\u00e3o entendia nada.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O barco chegou de manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Levaram Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Levaram o corpo de Rand.<\/p>\n\n\n\n<p>Levaram as provas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Jota ficou na varanda de vidro, olhando o oceano.<\/p>\n\n\n\n<p>A lente ultrafina que Leandro tinha tirado da p\u00e1lpebra dele estava guardada no bolso, dentro de um saquinho pl\u00e1stico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o sabia o que fazer com ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou em quantas vezes tinha visto Rosquinha tocar outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quantas vezes tinha achado irritante, invasivo, mas inofensivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quantas vezes tinha pensado: &#8220;\u00c9 s\u00f3 o jeito dele.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E quantas vezes ele mesmo tinha sido tocado.<\/p>\n\n\n\n<p>Achando que era a mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o era.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca foi.<\/p>\n\n\n\n<p>A lente no bolso era a prova.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha tocava todo mundo pra que ningu\u00e9m percebesse quando tocava Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>O disfarce perfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Esconder o espec\u00edfico no geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Esconder a arma no meio de mil gestos inofensivos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Leandro apareceu do lado dele, fumando um cigarro fino.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea descobriu quem \u2014 disse. \u2014 Mas n\u00e3o descobriu por qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o \u2014 disse Jota, voz rouca. \u2014 N\u00e3o descobri.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c0s vezes \u00e9 assim \u2014 disse Leandro, soprando fuma\u00e7a pro vento. \u2014 A verdade t\u00e1 colada na gente h\u00e1 anos. \u00c9 s\u00f3 cortar o peda\u00e7o certo. Mas ver n\u00e3o \u00e9 o mesmo que entender.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea sabia que era o Rosquinha?<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro deu de ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu s\u00f3 corto p\u00e1lpebras \u2014 disse, sorrindo de canto. \u2014 O resto \u00e9 com voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu uma \u00faltima tragada no cigarro, jogou a ponta no mar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajustou o palet\u00f3 branco, impec\u00e1vel como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>E saiu caminhando, m\u00e3os nos bolsos, com aquele ar de quem tinha resolvido tudo desde o come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou s\u00f3 teve sorte.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota nunca saberia qual.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Ficou sozinho na varanda.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol nascia no horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>A mans\u00e3o de vidro brilhava.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele ainda n\u00e3o entendia nada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes a verdade est\u00e1 colada na gente h\u00e1 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes ela se esconde no que todo mundo v\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque todo mundo acha que j\u00e1 sabe o que \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ver n\u00e3o \u00e9 o mesmo que entender.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mans\u00e3o de vidro se erguia na ilha como um cristal gigante jogado no meio do oceano. Paredes transparentes, teto de vidro refletindo o c\u00e9u, piscina infinita derramando \u00e1gua pro horizonte. O tipo de lugar que s\u00f3 existia em revista de luxo ou pesadelo de gente rica. Jota n\u00e3o tinha sido convidado. Rosquinha tamb\u00e9m n\u00e3o. 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